<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
domingo, agosto 31
 
Message in a blog Vindos não me lembro de onde, cruzamos a cidade numa noite quase chuvosa. Palavras que não escolhi, vindas do rádio, inundam-me os pensamentos, e ocorre-me que são tragicamente adequadas a estes dias. Era exactamente esta a mensagem que queria deixar a quem gostava que a pudesse ouvir: remar, remar...forçar a corrente... MC
sexta-feira, agosto 29
 
Pré-Eliminatória: Fartinha de ouvir que o Benfica perdeu com a Lazio e por isso foi afastado da Liga dos Campeões, apenas um esclarecimento - O Benfica não foi afastado da Liga dos Campeões, simplesmente nunca lá esteve, foi pré-eliminado. MVS
 
Discurso Perigoso: Há muito tempo que acho que há poucos discursos tão perigosos (à direita e à esquerda) como o discurso anti-política(os) e anti-parlamento. E tudo serve, tudo é aproveitável. Que não, que não fazem nada, que nem vão às sessões do parlamento, que não defendem as suas regiões, que só defendem as suas regiões, que são demasiado políticos, que são demasiado técnicos, que não são nem uma coisa nem outra. Que ninguém os conhece, que só querem ser conhecidos. Agora, o que está na ordem do dia (por exemplo aqui e aqui), é o caso Maria Elisa. Como se imagina eu, se vivesse em Castelo Branco, não teria votado nas listas às quais pertencia Maria Elisa. E nem sequer pretendo discutir se foi ou não uma boa deputada, se é melhor deputada ou melhor jornalista e nem sequer se o PSD a devia ter convidado ou se ela fez bem em aceitar. O que me parece verdadeiramente inaceitável é que se ataque Maria Elisa por alegar ter uma doença crónica que lhe provoca demasiadas dores e que a impede de trabalhar na AR (mesmo que lhe permita trabalhar noutro local, ou com outro tipo de horários). Maria Elisa tem fibromialgia, uma doença grave, crónica, incurável. Muitas das pessoas que têm esta doença deixam de trabalhar. Ela não. É que Maria Elisa com a doença que tem podia estar de baixa ou mesmo ter reforma antecipada – o Estado pagava na mesma, mas ela não fazia nada. Claro que todos estes argumentos só são válidos partindo do princípio que as motivações apresentadas por Maria Elisa são as verdadeiras. Mas aí entramos por um caminho perigoso. É que eu não sou a junta médica, nem tenho um medidor de dor. E gosto de partir do princípio que não se alega uma doença como aquela só porque sim. Critique-se cada deputado pelas falhas do seu trabalho, pelas suas responsabilidades, por legislarem mal, por não cumprirem os programas pelos quais foram eleitos. Mas por isto não. MVS
 
Porque será? As rentrées, nomeadamente as da oposição, costumam ter um tempo de vida curto. Não mais de 24 horas. Surpreendentemente, estamos a quinta-feira e, um pouco por todo o lado, continua a falar-se de uma ínfima parte do discurso de Ferro Rodrigues no Sábado, aquela que tinha a ver com o peso excessivo da direita radical no governo. É sinal que se tocou numa ferida. As reacções foram prontas e há sempre uns inteligentes de serviço para se apressaram a dizer algo que é tão evidente que deixa de o ser. Estou mesmo convencido de que só os comentadores é que tinham avaliado em profundidade o profundo impacto estratégico do que foi dito. O Prof. Marcelo, um personagem inenarrável sobre o qual o FN já escreveu o que havia a escrever e que é conhecido por fazer um uso económico da verdade, informou inclusivamente o país de que estava em curso uma coligação entre o PS, o BE e os renovadores do PCP, mas que excluía o PCP. Provavelmente assistiu mais uma vez à negociação do ‘Acordo Secreto’. O essencial é que o tom estava dado. O governo é acusado de radicalismo – o que o dr. Portas e os seus companheiros têm feito com assinalável sucesso – e é a oposição que passa a ser radical por dizer isso mesmo. Temos um governo de coligação entre um partido de centro-direita e um partido populista – absolutamente populista, estão lá todas as características que vêm nos manuais –, que representa uma radicalização da vida política portuguesa, em áreas sensíveis e que requerem outra atitude (a defesa, a segurança social, o trabalho, a justiça, os serviços de informação) e dizer isso mesmo passa a ser uma atitude radical e que anuncia uma coligação de esquerda. Eu estava convencido que cerca de 40% dos portugueses tinham votado no PSD e 38% no PS e que, por isso, há muitíssimos portugueses que não estão na disposição de gramar, por exemplo, nem com a excitação mediática de que vive o dr. Portas e o faz sobreviver, nem com as obsessões ideológicas ultra-montanas e passadistas do dr. Bagão. Mas deve ser um problema meu, que sou um radical e que sonho com um governo de coligação PS-BE-Renovadores. Aliás, falando em coligações e frentismos, convém que comece a ser explicado como é que o PSD, que promoveu a “expulsão” do PP do PPE, se vai coligar com um partido euro-céptico, agora transformado em euro-calmo, mas que é essencialmente “euro-o que for preciso ser em cada momento para sacar uns votos” nas próximas eleições europeias. Está de facto um frentismo a ser preparado em Portugal, o do PSD/PP. Mas os radicais são sempre os outros. Que medo PAS
 
Paralysed: Desde que o Dr. Durão e o Dr. Portas foram para o Governo tenho andado preocupado com a minha incapacidade crescente para encontrar razões para ser crítico do Governo do Eng. Guterres. É da vida! Mas o FMS deu-me um argumento de peso para mudar de atitude. Foi o Eng. que o paralisou, impedindo-o de procurar, durante seis longos anos, o Nowhere dos Ride, que se escondia atrás de um armário. É o género de coisas que faz mudar as minhas convicções, mesmo as mais profundas. A quem gosta dos Ride e em especial do Nowhere consigo perdoar quase tudo, mas, meu caro FMS, claro que o dr. Portas está muito para além do quase tudo.PAS
quarta-feira, agosto 27
 
O último acto: o Comprometido Espectador dedicou-me, na passada sexta-feira um longo post. Pelo tempo que perdeu a criticar-me, merece que invista algum do meu tempo a replicar-lhe. Afazeres pessoais e profissionais impediram-me, porém, de responder a LA com a celeridade desejada. Mas como estamos a remexer no passado, uma certa lentidão de processos até se recomenda. Pela minha parte, esclareço, desde já, que este será o último post sobre a matéria. Comecemos então onde LA acaba: afirmando que lhe responderia com uma série de lugares-comuns. Nada mau, para quem uns parágrafos antes denunciava ironicamente o meu alegado gosto por exercícios divinatórios. Afinal, o denunciante a deixar seduzir-se pelo crime. E acabemos este parágrafo introdutório onde LA começa: dizendo que a pretexto do caso Maggiolo escreveu umas coisas que geraram a minha reacção. Deixe-me neste ponto interpelá-lo directamente: Caro LA, não é tanto a palavra "reacção" que me incomoda, esteja descansado. Incomoda-me antes que ela sirva para deturpar a sucessão das reacções. É que quem reagiu ao que escrevi foi justamente você, em estilo de oráculo que se compraz com a confirmação da profecia. Ou tomando de empréstimo as suas palavras, a propósito do meu post: "Não quero parecer imodesto, mas eu avisei-vos: quem mexe no assunto é fascista". Caro LA, sejamos honestos! Perante o meu post sobre o baú de certa direita, foi você quem afanosamente deixou o Comprometido Espectador precipitar-se sobre uma carapuça que lhe não era destinada. E enfiada a dita, logo aproveitou para reverter contra si a acusação de
"fascista" e de "colonialista". Para quem insinua desonestidade na técnica de discussão alheia (a minha, entenda-se), não lhe parecem faltar truques e truncamentos.

Em bom rigor, LA declara sempre não querer fazer o que antes havia escrito. Não quer discutir a descolonização, mas havia-se enredado uns dias antes, a pretexto da atitude de Maggiolo Gouveia, na condenação da descolonização através da estafada dicotomia "ele ficou, o país abandonou". Não quer atacar a descolonização, mas avisa que quem deslindar o fio da dita irá chegar a conclusões muito desagradáveis. Claro que é normal que assim seja porque apenas faz recuar o fio ao PREC. E é nessa cronologia que ficamos emperrados (cada um, entenda-se): enquando eu puxo o fio um pouco mais atrás, recuando-o ao início dos anos sessenta (não será preciso explicar porquê, pois não?), LA parece ficar uma década à frente.

Mas esta discrepância de calendários até poderia constituir um bom ponto de partida para a discussão. Só que esta enviesa-se no momento em que LA aceita discutir a descolonização a partir do suposto heroísmo de um (ex-)oficial português. E isto porque, tenho para mim, discutir a descolonização a partir de fanfarras heróicas é a melhor forma de, passe o pleonasmo, não discuti-la. Ora, quem a quer discutir a propósito do caso Maggiolo, como parece ser o caso do post de LA publicado no passado 19 de Agosto, pretende apenas criar ruído de fundo.

Esteja, porém, descansado o autor do Comprometido Espectador, não me arrogo de qualquer direito real ou incorpóreo sobre a revolução. Congratulo-me que LA se reveja mais na sua legitimidade constitucional e menos na revolucionária. Aí estamos do mesmo lado da trincheira. Abandono, porém, essa trincheira no que à guerra colonial tange. E congratulo-me que se tenha permitido a outros que a abandonassem por via da descolonização. Temo, porém que LA insista em ficar. Com certa direita. Que teima em ficar, essa direita, orgulhosamente só. PM
 
AD - Sigo rapidamente a nossa lista de links e, claro, sou forçado a ler e reler O quinto dos impérios. Estou sempre a aprender coisas novas com estes rapazes. Quando um dia se fizer a história da blogosfera este blog será muito mais que uma simples nota de rodapé. Entretanto, eles vão fazendo e refazendo a história recente de Portugal com inegável imaginação. Regressado de «um gostoso exílio da infoexclusão pátria» (reparem bem onde já chegou a influência do Acontece), o nosso amigo FMS não perdoa os ataques de Ferro ao CDS: «Um erro estratégico colossal que já tinha sido cometido contra a AD de 1980 e que, então como agora, resultou numa governação em mar calmo, pouco ou nada incomodada por uma oposição acintosa, ressabiada e mais preocupada em atacar o carácter dos ministros do que em propôr um programa alternativo.»

Quanto à inteligência da estratégia política, é assunto que há muito deixo nas mãos do Prof. Marcelo. Gostava apenas de fazer alguns reparos históricos ( coisas sem grande importância) sobre a primeira AD - essa «governação em mar calmo». É que, se não me engano, em Dezembro de 1980, o primeiro-ministro e o ministro da defesa morreram num desastre de avião (de causas nunca esclarecidas). Pouco tempo depois, o prof. Cavaco põe-se ao fresco e começa a conspirar (até à Figueira). Em seguida, é o próprio Vice-Primeiro Ministro, Freitas do Amaral, que, num acto de patriotismo, aproveita a vitória da AD nas autárquicas para apresentar a sua demissão ao dr. Balsemão («lélé da cuca», segundo o seu ministro Marcelo). A AD estava a deixar o país à beira da banca rota, e, assim, pelo andar da carruagem o Prof. não chegava a candidato presidencial. Durante pouco mais de 3 anos, e com duas legislativas pelo meio, isto foi, sem dúvida, aquilo a que se pode chamar «uma governação em mar calmo». FN
PS: Marx tinha razão: a História repete-se; primeiro como tragédia, depois como farsa.
terça-feira, agosto 26
 
Spike a menos, Lee a mais: com as expectativas insufladas pela generalidade dos meus amigos, consegui finalmente ver "A última Hora". O que vi foi um bom filme, é certo, e um Spike Lee mais maduro, mais inteligente, mais contemplativo, mais relativo. Um aborrecimento. Sobra Lee onde falta Spike. Diverte-me mais ver o Spike Lee do arrojo, do despudor. O Spike que é Spike a sério é maniqueísta, muito mais intransigente, indignado, provocador. Provavelmente o radicalismo não ganha óscars. MK
segunda-feira, agosto 25
 
Das férias:

Correu bem: as imperiais na Maria Luísa até para lá do sol se pôr, as vistas na Casa do Castelo, as jantaradas à meia-noite, poder, ainda por mais uma vez, deitar-me com o dia nascido, conversas simples sobre assuntos simples, embebedar-me com os meus amigos, porque estar bêbado com amigos é bom, não ler todos os jornais todos os dias, ver o mar todos os dias, mas só a partir das cinco da tarde, as carreirinhas na Praia da Arrifana, brincar aos castelos de areia com a Margarida, os perceves da Costa Vicentina e os Dons Rodrigos de Tavira, essa cidade simpática que Macário soube pôr a funcionar e que, não fosse o calor infernal, até poderia ser um sítio bom para passar férias, O Livro de Ilusões que levei para o Verão, de Paul Auster e, no fim de tudo, uma ténue vontade de voltar para Lisboa.

Correu mal: a constatação de que o topless já não está na moda, sentir-me vetusto em sítios onde antes isso não sucedia, três dias de praia com o sol tapado pelo fumo e o corpo coberto de cinza, o medo nos olhos das pessoas em Aljezur, traçar planos de fuga de Vale da Telha/Arrifana para o caso de o fogo chegar pela noite. Perceber que vivo num país governado por gente medíocre, sem visão, sem projecto, sem competência, que vê no alijar de responsabilidades um princípio político e no oportunismo mediático um fim em si. Ler que o Governo quer baixar o salário mínimo, um instrumento essencial de combate à exclusão social, através de uma engenharia legislativa, um Governo que enche a boca a falar dos mais desfavorecidos, mas que se lembra de tentar reduzir aquele que é o salário mínimo com o valor mais baixo de Europa. E depois o Dr. Portas, que consegue obscurecer o Verão com as suas trapalhadas, com a sua desonestidade política, com os seus métodos torpes. Não sei se o Dr. Portas é o tumor que deve ser extirpado. Mas é sem dúvida um factor de preocupação e de angústia para quem gosta da política e preza a saúde da democracia. Por fim, a tristeza funda de viver a praia e de saber que o Paulo este ano não o pode fazer porque está preso injustamente. Para o ano há mais. MK



domingo, agosto 24
 
Viral: O meu computador está com aquele vírus que o faz desligar sozinho. O computador portatil também. Eu, que tenho que regressar ao trabalho depois de umas curtíssimas férias, estou convencida: o vírus acha que as minhas férias devem continuar. MVS
sábado, agosto 23
 
Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto*
Foram colegas na Faculdade e estiveram juntos no movimento estudantil. VJ tem cinquenta anos e entrou para O Partido há trinta. OC entrou na mesma altura, mas saiu há doze anos. Depois de passar por umas tantas plataformas, decidiu inscrever-se no partido do lado. Ao contrário do que se passa nos outros partidos, n'O Partido é muito difícil entrar e muito fácil sair. Há doze anos foi VJ quem teve que tratar do doloroso processo de expulsão do camarada OC. Passado algum tempo, também VJ começou a ter «dúvidas». Ultimamente, os dois amigos voltaram a encontrar-se. Trocaram um telefonema nos últimos dias. No meio de mais um Verão Quente:

VJ - Estou?
OC - Grande figura da democracia, como vai? Então, pá? Já sei que andas com problemas. Conta lá essa história...
VJ - Não me digas nada, pá. Na semana passada, fui ter com o cobrador do Partido para pagar as quotas. Lá paguei as da Laura, e imagina que quando vou para pagar as minhas o gajo não deixou.
OC - Mas o que é que o gajo te disse exactamente?
VJ - Diz que recebeu ordens para que não fossem cobradas, que já não consto dos ficheiros... Mostrei-lhe os cartões todos desde o 25 de Abril, e nada!
OC - É extraordinário, pá! Isso lembra-me o que a gente passou até conseguir entrar n'O Partido. O controleiro estava sempre com aquela conversa: «Era bom que trocassemos umas ideias sobre o assunto». Meu caro, há coisas que nunca mudam...
VJ - Sim, mas ao menos tu foste expulso e bem expulso, pá!
OC - Sim, tu fundamentaste bem aquilo... E parece que o Carlos Brito também se «auto-suspendeu»...
VJ - É pá, isso é lá com ele. O gajo que invente as figuras estatutárias que quiser. Agora, a DORL vir informar-me que não posso pagar as quotas porque me «auto-excluí» é demais! São trinta anos nisto, e no fim tratam um gajo como se estivéssemos a militar numa repartição de finanças... Há que tempos que não me convocavam para nada, sabes?...
OC - É pá, se calhar a DORL tem razão: tu estavas bem era lá no meu partido. Aquilo são cartas todos os dias, mandam-nos sms, o órgão oficial, o órgão central, eu sei lá... Já não sabem o que inventar para convencerem a malta a pagar as quotas e a aparecer nas merdas. Não há pachorra. Sinceramente, acho aquilo tudo democracia a mais...
VJ - Bem, mas no teu partido as coisas também não andam nada famosas...
OC - Pois... O porta-voz está em preventiva e não conseguiu recorrer. O Manuel Alegre é que tem razão: ao menos no fascismo um tipo sabia porque era preso... O secretário-geral só leva porrada dos jornais e está sob escuta há meses. Nunca pensei que voltássemos a ver cenas destas. Se calhar, também estamos sob escuta...
VJ - Olha, admira-te! Já não digo nada: conhecemos muitos gajos capazes disso e muito mais. Isto é tudo uma vergonha! Como dizia o outro, não foi para isto que fizemos o 25 de Abril!
OC - Enfim... E de resto? Quando é que vais para baixo?
VJ - Vou sexta-feira. A Laura já lá está com os miúdos. Parece que já não há incêndios. Não queres aparecer?
OC - É pá, isso era óptimo: tenho que ir sábado lá ao comício da rentrée, em Portimão, e não sabia onde ficar. Falamos melhor lá, é mais seguro [risos]. Um abraço!
VJ - Só mesmo tu para me fazeres rir. Um grande abraço, pá, até sábado [risos]!

Conversa escutada por FN
* Título de um livro de Mário de Carvalho


sexta-feira, agosto 22
 
5-0, 5-5 Ontem assisti, primeiro distraído, depois divertido, depois preso ao ecrã, a um jogo da mais espectacular selecção que Portugal já produziu, os sub-17, que disputam neste momento o campeonato do mundo. Jogam um futebol razoável e conseguem resultados de hóquei (4-3, 0-5, 5-5). Depois de uma vitória taco a taco na primeira jornada, levaram uma cabazada do Brasil e ontem, contra os poderosos Camarões, conseguiram empatar 5-5 depois de estar a ganhar folgadamente 5-0. É obra. Tanto golo e tanto espectáculo no futebol normalmente só em sonhos. Por tudo isto, merecem toda a sorte, sorte de que pelas amostras bem vão precisar. É a velha história da ténue linha entre a glóia e o abismo. Em frente, rapazes! MC
 
Amarcord: deixo o trabalho já tarde. Lisboa está sem trânsito e as viagens, para quem as mede em número de músicas que se consegue ouvir, são muito curtas. A RADAR recupera o Sally Cinnamon dos Stone Roses. Não sei há quanto tempo não ouvia esta música. Catorze anos? “Sally you’re my world” (será isto que o Ian Brown canta?). Passo pelo velório do pai de um amigo para o abraçar. Anda por aí uma coisa estranha. Está sempre a morrer gente e estão sempre a acontecer coisas estranhas aos meus amigos. Não estava preparado para saber, assim de repente, como era a vida. No regresso, o semáforo fecha mesmo em frente à casa que foi dos meus avós, e que por isso foi também minha. Claro que olho para ver se continua sempre como a penso. Mudaram-lhe a cor e transformaram-na em clínica, mas isso já sabia. Há vinte anos que lá não entro, mas estou sempre a pensar que devo entrar, para saber se o que está lá dentro alguma vez existiu mesmo ou se é apenas a ideia que dela faço. Tinha umas escadas grandes e uma sala de jantar com espaço ao fundo. Lembro-me sempre deste espaço ao fundo. Não faz sentido e se calhar nunca existiu. Cá fora o muro tem umas grades que são mais altas, muito mais altas. Se tivesse sido sempre assim, eu tinha-me sentido ainda mais pequeno e o Taine não tinha morrido. O Taine era um Serra da Estrela de pêlo curto que era quase todo meu. Um dia o Taine saltou o muro, quis ir pela Avenida acima, talvez ver os aviões sem ter de dar cavaco a ninguém. O Taine, quando ia reinar pela primeira vez na vida, morreu atropelado e a morte dele foi o primeiro desgosto de que me lembro. Chego a casa e quero ouvir o Sally Cinnamon. Procuro os cds e os vinis que tenho dos Stone Roses e a música não está lá.. Estava num EP que alguém tinha e gravei para uma K7, que será escusado procurar. Será que é mesmo Sally you’re my world? Mas uma coisa sei e encontro o sítio onde está escrita, o prof. Steiner disse um dia ao Corto Maltese: “Non fare il duro. In fondo al cuore vorresti credere alle favole. Altrimenti perché ti trovi sempre immischiato in situación che puoi evitare chiudendo semplicemente la porta?” PAS
 
Só agora?:Lê-se e não se acredita. Esse ser inenarrável que mexe com as vidas de todos, em todo o lado, e que dá pelo nome de G. Bush, veio dizer que vai congelar as contas aos líderes do Hamas. Com os dirigentes iraquianos foi a mesma coisa. Primeiro, deixa-se que façam toda a merda. Em seguida, lixa-se a vida a milhares de inocentes. E depois, quando já morreram inocentes por acção dos covardes que se fazem explodir e quando milhares de palestinianos vêem-se enclausurados nesse grande campo de concentração em que se está a transformar a região, vem essa besta, de olhar tonto e pensamento boçal, ameaçar congelar as contas. Porquê só agora? É tão evidente e já deveria ter sido feito há muito tempo. Mas há tanta coisa evidente que não é feita. PAS
 
Os efeitos nefastos das praxes Esta semana, li algures que a Mafalda Arnauth descobriu o seu "talento" para o fado numa praxe académica. Eu sabia. Acabe-se de vez as praxes. MC
quinta-feira, agosto 21
 
O outro lado: Depois de um atentado em Israel, na imprensa no dia seguinte aparecem, em geral, as habituais – absurdamente habituais – fotografias de um autocarro esventrado, corpos dilacerados, sangue inútil e covardemente derramado. Fotografias que, pelas semelhanças entre cada atentado, banalizam o que não deve, nem pode ser banalizado: o horror e a repulsa. Hoje, o El País subverte tudo: publica na portada a fotografia do terrorista palenistiano que, ontem, carregado de explosivos arrastou consigo 18 pessoas – e terá provavelmente arrastado consigo também a frágil trégua em vigor. Cidadãos isrealistas que, num autocarro, voltavam do Muro das Lamentações. Alegadamente, um dos atentados em que mais crianças padeceram. E, no entanto, olho – e volto a olhar – para a fotografia de capa do diário espanhol e vejo um homem encorpado, com ar afável, segurando sorridente, entre mãos e braços sólidos, ambos os filhos. Um rapaz e uma rapariga, amparados naquele instante único quando um pai nos segura. Quando, elevados no ar, nos sentimos mais firmes que nunca. Que leva este homem a cometer um crime tão hediondo? Que leva este homem a privar os filhos do seu abraço? Olho e volto a olhar. Mas não percebo. Leio e volto a ler notícias, comentários, posts. Mas olho e volto a olhar a fotografia – e não percebo. PM
 
O fim do jardim do surf: Depois de muitos anos incógnitas, as costas norte e oeste da ilha da Madeira tornaram-se um dos destinos surfísticos mais interessantes - muito por força de um artigo publicada na SURFER há meia dúzia de anos. Eu nunca lá surfei, mas quem o fez fala de ondas fantásticas. Agora a onda do Jardim do Mar, uma direita poderosíssima, considerada uma das melhores ondas da Europa, vai deixar de quebrar, por força de obras feitas na encosta. Os alertas foram vários e vindos de diversas proveniências - houve inclusivamente associações ambientalistas estrangeiras que foram escorraçadas da Madeira por protestarem contra esta obra. O fim do Jardim do Mar, como bem assinala o Pedro Bicudo, responsável há muitos anos pelas previsões de ondulação mais fiáveis disponíveis em Portugal, é uma enorme perda para toda a região, "Infelizmente a Madeira, com as obras no Jardim do Mar, no Paul do Mar e no Lugar de Baixo, já esbanjou o seu potencial surfístico. As obras em Machico, nas Contreiras e na Fajã da Areia podem vir a impedir definitivamente que se surfe na Madeira.
Sinceramente não percebo o objectivo de tudo isto. Mas percebo o que a Madeira está a perder. Está a perder a excelente imagem que tinha junto dos turistas que gostam da natureza ou do desporto. E está a perder todo o desenvolvimento que o surf lhe iria potenciar. O surf em Portugal é um desporto recente, no entanto está na moda e já movimenta muitos milhões de euros, em fábricas de pranchas, de fatos de borracha e de roupa, em escolas de surf, em campeonatos e em publicidade. Curiosamente as empresas mais fortes do surf acabam por se fixar junto às melhores ondas. No limite o surf pode trazer um desenvolvimento comparável ao das estâncias de ski nos Alpes. É isto tudo que o Oeste da Madeira está a perder."
Infelizmente, os exemplos semelhantes abundam. O estado a que está a chegar a orla marítima portuguesa é tristemente espantoso. A absoluta inércia tem feito com que a costa se degrade e as oportunidades de desenvolvimento passem ao lado. Quem vê a maré cheia na Costa da Caparica hoje e há 15 anos; quem vê as dunas a serem destruídas com o estacionamento caótico no Litoral Alentejano, porque para o Parque Natural é melhor nada fazer do que ordenar o que requer ordenamento; quem vê a barraca que puseram em lugar do Bar que existia no Carvalhal, sabe do que falo. A Madeira, pelo seu potencial de surf e pelas oportunidades turísticas perdidas é apenas mais um exemplo da miopia com que a Costa portuguesa é gerida, ou abandonada. Tanta estupidez, se nada mais, irrita. PAS

 
O inesperado regresso ao baú II: Com a mediatização da cerimónia fúnebre de Maggiolo Gouveia, Portas teve o condão de criar um incidente diplomático com o executivo timorense e acirrar divisões inúteis numa causa que mobilizou o país como poucas o fizeram no passado. Pelo meio, está e irá dividir os militares na discussão sobre o comportamento de um oficial e o exército português: quem desertou e quem ficou? Quem é o bravo do pelotão? E o covarde? Terá sido o crime de deserção amnistiado ou não? Tudo questões interessantíssimas, mas só para quem insiste em recorrer ao passado para friccionar causas presentes ou furtar-se aos problemas de hoje. PM
 
O inesperado regresso ao baú I: Não esperava ter de regressar ao baú da descolonização tal como vista por uma certa direita. Mas algumas reacções a isso obrigam. Aproveito, de entrada, para sossegar os espíritos mais perturbados e, acto contínuo, esclarecer que a sequência do baú nada tem que ver com o tema da descolonização. Por isso, não se pretendeu antecipar polémicas ao numerar o post de anteontem tal como indevidamente sugerido pelo serra mãe.

Mantenhamo-nos, por ora, no essencial do que se escreveu anteontem. Ora, enquanto uns enfiam a carapuça de destinatários, outros antecipam o libelo de fascistas por ousarem defender a homenagem a Maggiolo Gouveia. Vamos então por partes. Meus caros imperialistas, a alusão a “quintal colonial” não foi pensada para o vosso reduto imperial. Degradar o vosso império em quintal seria expropriar. Acontece que nunca me atreveria a privar-vos dessa forma das vossas possessões, porque a tal acto ablativo lhe faltaria sempre a utilidade pública. Já quanto ao Comprometido Espectador, penso que se compromete num enorme equívoco: não se apodou quem defende a postura ou a brio do oficial português de "fascista" ou "colonialista", nem se pretendeu sequer insinuar semelhante acusação. Não era, aliás, a conduta de Maggiolo que se visava – discussão, aliás, que me parece perfeitamente estéril; era antes o aproveitamento político dessa conduta pelo actual Ministro da Defesa que se discutia. Dito isto, o Comprometido Espectador acaba, no entanto, por corroborar a instrumentalização que se faz da homenagem a Maggiolo Gouveia para abrir um processo de intenções à descolonização, sobretudo enquanto causa directa da instauração de regimes comunistas nas ex-colónias. Senão atente-se nesta notável passagem: “Maggiolo Gouveia continuou lá. Fora do exército, mas continuou. Nós enquanto país é que não ficámos nem que fosse pelo tempo necessário para garantir uma passagem para a independência fundada em solo mais firme.
É esta tampa que o caso Maggiolo Gouveia levanta e é daqui que resulta todo o som e fúria que se estão a ouvir. Se alguém pegasse neste fio e o fosse puxando para perceber a guerra civil timorense de 1975 e se daqui puxasse um bocadinho mais para chegar a todo o processo de descolonização iria chegar a conclusões muito desagradáveis. Mas já se sabe, quem mexe nisto é fascista. Como eu neste momento, por exemplo.” É precisamente isto que Portas fez ao associar-se teatralmente às exéquias de Maggiolo: acusar quem descolonizou de abandono; enaltecer quem ficou (mas quem é queriam que ficasse, afinal? Um exército quebrado, paralisado e desmoralizado?).

Mas sigamos então o desafio do Comprometido Espectador dentro da sua lógica e puxemos o fio cronológico um pouco mais atrás. E talvez acabemos onde essa tal direita pretende verdadeiramente chegar: à Revolução de Abril. Ou não será que também os militares de Abril – repito, seguindo a tal lógica comprometida – terão baixado os braços em África para fazer a revolução em Lisboa? Pois é precisamente isto que uma certa direita, de forma manhosa, pela calada, pretende. Através do baú da descolonização e do seu aproveitamento político alimentado por mistificações e distorções históricas, acusar quem fez a revolução (e, de enfiada, atacá-la). No fundo, adaptaram-se, mas nunca aceitaram. Silenciosamente, ruminam, remoem e, zás, aparece o pretexto e lá salta a cartilha patrioteira do abandono covarde dos territórios ultramarinos propiciado pela revolução. Mais do que (com)prometia a alma humana, não é? PM

P.S. Só mais uma achega para esclarecer o que não disse que pensam que disse. Obviamente que o império português não é uma criação do Estado Novo. E isso não foi dito. Apenas disse que o império português não era a “pujante criação que a ditadura vendeu até ao fim dos seus dias”. Que eu saiba isto não significa passar um atestado de paternidade ao Estado Novo.

quarta-feira, agosto 20
 
Esse perigoso comunista:Paul Auster é nova-iorquino e conhecido pelo sua afeição às ideias comunistas, salpicadas por algum Gaullismo pré-moderno. Eis o que disse hoje em entrevista ao Público: "Foi a nossa cidade que foi atacada, que sofreu, e creio que a maior parte das pessoas da cidade viveu (o 11 de Setembro) como uma tragédia familiar. Toda a gente conhecia alguém que morreu, ou conhecia alguém que conhecia alguém ... foi muito íntimo e terrível. Depois damos um passo atrás e dizemos: 'esquece que és um nova-iorquino, és um americano.' E aí torna-se um acontecimento diferente. Torna-se uma questão política, sobre quem somos, o que representamos. Pareceu-me que era uma oportunidade para os EUA repensarem toda a sua posição no mundo, as suas políticas de energia... o petróleo é a palavra subjacente a tudo isto, creio.
Mas claro, temos um governo quase fascista agora, e esta gente fez tudo errado. Desgraçaram os Estados Unidos. E peço a Deus que os consigamos tirar do poder em 2004. rezo para que este regime Bush caia, porque danificaram terrivelmente o país, e estão a fazer mal ao mundo, também. Este é provavelmente o pior momento que já atravessei nos Estados Unidos. Pior do que o período do Vietname, de longe. E é assustador, muito assustador. (...) O Iraque é só o mais recente. As políticas internas da Administração Bush são tão terríveis, arruinaram a economia, temos uma subida do desemprego sem paralelo desde a Depressão, estão a fazer estes cortes de impostos que apenas beneficiam os ricos, têm políticas ambientais que poluem o mundo, avançaram para guerras em lugares que não lhes diziam respeito, o Iraque, por exemplo. Tornou-se muito assustador. E creio que as pessoas, aqui, estão finalmente a começar a acordar para o facto de que esta gente é antidemocrática e muito perigosa. E creio que há uma hipótese, não grande, mas uma pequena hipótese, de que sejam derrotados. Rezo todos os dias para que isso aconteça." PAS

 
Os incendiários Como é possível que não se apanhem os incendiários? No Portugal campestre e aldeão, onde tudo se sabe, tudo se vê, tudo se conta - um incendiário não passa despercebido. Por que razão não se pode ter uma amante sem que se saiba - na aldeia - mas já se pode acender cigarros com florestas inteiras - que ninguém repara? E se o incendiário for «de fora»? Ainda mais pasmoso. Quando o controle social é tão intenso que um vizinho topa o outro a mudar de ideias, como não se repara naquele moço da Famel XF-17 que anda de um lado para o outro com uns bidões esquisitos? O talento totalitário da sociedade campesina para individualizar o «de fora» e o «diferente» e para fazer do rumor a melhor arma de vigilância social funciona para o adultério, a boémia dos filhos e netos, a corrupção do cabo da GNR, o contrabando costeiro - mas não para os incendiário. É estranho. RB
 
A Invasão dos Homónimos Reloaded Durante trinta longos anos não havia Rui Brancos. Ora, não há fome que não dê em fartura. Recentemente, tenho-me deparado com Rui Brancos - e eles comigo - nenhum dos quais eu. Ele é o Rui Branco presidente socialista da Junta de Freguesia da Ota (será por isso que somos apodados de blog de destacados dirigentes e militantes socialistas...? Se sim, está desfeito o esquivo equívoco). Ele é o caso ainda mais incrível do Rui MC Branco, do nosso colega Adufe. Que significa isto? Que sinal se esconde por detrás desta súbita conspiração? Será um chamamento mudo? Antigamente, já aparecer um Rui era raro, quanto mais um Branco. Quem não era Castel-Branco, Cassiano Branco, Branquinho de-qualquer-coisa ou Freitas Branco não era Branco. Barry White sabia e Brian Weiss sabe bem do que falo. Repito-me. O que significa esta coligação de Rui Brancos avulsos? RB
 
E assim aconteceu IV
Para além da tendência para o paternalismo e os neologismos de que falámos ontem, Carlos Pinto Coelho (CPC) sofre do complexo do Zelig de Woody Allen, um camaleão humano que mudava de cor e opinião de acordo com o interlocutor do momento. Segundo reza a história, depois de ter afastado CPC de um lugar de chefia na RTP, o presidente da altura, João Soares Louro, recebeu telefonemas do PS, do PSD e do CDS. Todos diziam o mesmo: «ele [CPC] é dos nossos». CPC nega, mas lá vai lembrando que «o muro de Berlim caiu. Quando ele estava de pé havia o lado de lá e o lado de cá. Criou-se um vácuo, tudo isso amalgamado nesse espaço da globalização que é tudo e não é nada ao mesmo tempo». CPC é como a globalização: é tudo e não é nada ao mesmo tempo.

Em tempos, CPC foi saneado por Saramago no DN. Anos mais tarde encontra-o. «Não se lembrava do menino que eu era na altura. Demos um grande abraço e selámos ali um encontro de vida» (mais uma bela expressão). Esta súbita admiração por Saramago não o impede de admirar com igual fervor o general Kaúlza de Arriaga. Apesar de Wyriamu, CPC teve «Contactos que me deixaram uma enorme consideração pela figura humana daquele general.» África, mãe África, era um oásis no contexto da ditadura. «Lá também havia a polícia, mas a PIDE não se dava por ela. Não chateavam os brancos, só chateavam os pretos.» No fundo, os pides eram figuras tão humanas e admiráveis como o general Kaúlza: só «chateavam» os pretos. Hoje em dia CPC gosta de ler as crónicas de Eduardo Prado Coelho e Graça Moura (esquerda e direita unidas jamais serão vencidas!) e também aprecia o José Luís Peixoto do 'Morreste-me' e «algum teatro» do Lucas Pires. Mas só «algum», se calhar «o primeiro Lucas Pires». CPC não gosta de se comprometer. Reconhece que prefere «falar daqueles que gosta»: «é mais fácil e saboroso». Por exemplo: incompatibilizou-se com João César Monteiro e com outro realizador, mas «não digo o nome deste, está aí vivo e ainda bem». Percebe-se agora porque é que o programa sobreviveu a 4 eleições legislativas e 10 conselhos de administração. FN


 
E Paredes de Coura aqui tão perto Faz agora cinco anos (como o tempo passa!), no Verão de 1998 estive num Sudoeste com vários momentos memoráveis. Numa das noites, pelo menos em dois concertos quem pisou o palco fez muito mais do que picar o ponto: a hipnotizante PJ Harvey, então a rodar Is this desire?, talvez o seu melhor álbum, e os Placebo, a cujo concerto assisti de longe com a ajuda preciosa da rádio, enquanto ainda tentava chegar ao caótico recinto. Esta noite a magia repete-se de certeza, com honras de encerramento das hostilidades por hoje, bem a Norte.

Ao longe, ficam os ecos. E, mesmo que estas estejam longe de esgotar a magia, ficam também as palavras de Polly Jean. MC
 
YOU SAID SOMETHING

(Polly Jean Harvey)

On a rooftop in Brooklyn
At one in the morning
Watching the lights flash
In Manhattan
I see five bridges
The Empire State Building
And you said something
That I've never forgotten

We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something

And I'm doing nothing wrong
Riding in your car
The radio playing
We sing up to the eighth floor
A rooftop, Manhattan
At one in the morning
And you said something
That I've never forgotten

You said something
You said something
You said something
That was really important

(do álbum Stories from the City, Stories from the Sea)

MC
terça-feira, agosto 19
 
O baú de certa direita portuguesa I: Uma certa direita portuguesa vive pendente do baú da descolonização. Não há maneira de a convencer que o império português não era a pujante criação que a ditadura vendeu até ao fim dos seus dias. Não há maneira de a convencer a alargar o calendário quando olha para trás. Ressabiada, não aceita que a tenham privado do seu quintal colonial. E aproveita-se recorrentamente para ajustar contas com “os vendilhões do templo”. Que, para ela, são uma mole informe de comunistas e capitães de Abril a soldo soviético e membros do PS que integraram os governos provisórios do PREC e os primeiros governos constitucionais. A retórica é conhecida e não vale a pena perder mais tempo com a dita.

Nesta cruzada, Portas tem sido um dos seus mais exímios executantes. Aquando da recandidatura de Soares, lá apareceu, de dedo acusador em riste, pedindo confissões de culpa pelo processo de descolonização. Agora, com o regresso dos restos mortais de Maggiolo Gouveia, Portas abre de novo o baú. Só que, desta vez, de forma mais refinada. Com o poder que lhe dá o cargo, permite-se reescrever a história e guindá-lo ao panteão do heroísmo pátrio com honras militares fúnebres. Afinal, não há império sem herói! Sob a capa “de sentido da História”, intromete-se no passado para acusar veladamente quem, no seu juízo, deixou ao abandono e à mercê de projectos comunistas as ex-colónias. Para Portas, os males da descolonização são, afinal, os males de Abril: quem fez a Revolução abandonou as colónias, entregou-as aos soviéticos, desertou; Maggiolo, não, lutou por uma causa, por um Império, ficou. Donde esta formidável elocubração: Maggiolo, ao desertar, ficou; quem descolonizou, abandonou.

Como sempre com Portas, tudo se resume a um habilidoso jogo de palavras. Só que tanto malabarismo retórico acaba por torná-lo indecoroso. Tanto como o ressabiamento dessa obtusa direita alimentada por quimeras imperiais. PM
 
O tempo e o modo de vida: A onda de calor dos últimos tempos pôs a Europa em sobressalto. Pela sua duração e inusitada intensidade, ao tradicional cenário de fogos nos países do Sul da Europa (onde as labaredas portuguesas constituíram o mais infeliz exemplo) juntaram-se a subida das taxas de mortalidade (seja provocados pelo fogo ou pelo calor) e o caos nas urgências hospitalares (sendo o caso mais flagrante o da França), os colapsos energéticos (Itália sobretudo) e a poluição de ozono acima dos limites toleráveis (um pouco por toda a Europa registaram-se casos destes). Para alguns governos europeus, este Verão poderá ter marcado o princípio do fim. Mas mais importante do que o seu futuro impacto eleitoral, a canícula europeia demonstra que está tudo por reinventar nas nossas sociedades.

De imediato, a assistência domiciliária aos idosos. No cenário mais desolador que se possa conceber, cerca de metade dos idosos franceses, que sucumbiram aos efeitos do calor, morreram em casa na mais completa solidão e desamparo. E é também uma assistência domiciliária mais eficaz que prevenirá o colapso dos serviços de emergência hospitalar, como o demonstra o caso de Marselha (onde a taxa de mortalidade acabou por ser das mais baixas e a urgência hospitalar das menos ineficazes). De imediato também, uma protecção civil europeia começa a justificar-se cada vez mais. O mediatismo da comissária Diamantopoulou em equilíbrio precário sobre um monte de destroços ainda fumegantes não pode fazer esquecer que a solidariedade europeia não funcionou, e que o recurso ao Fundo de Solidariedade Europeu não pode ser a única panaceia para catástrofes naturais em território europeu. A médio prazo, seria bom que se começasse, de uma vez por todas, a pensar a sério na execução de um programa europeu de energias alternativas. Ficou demonstrado que a energia nuclear não se dá bem com altas temperaturas. Ficou igualmente demonstrado que a rede existente de abastecimento energético tão-pouco aguenta tanto ar condicionado e ventoinha a funcionar ao mesmo tempo.

Faz, no fundo, todo o sentido que se comece a pensar seriamente em mudar de vida. Porque ainda que seja prematuro estabelecer nexos de causalidade entre o aquecimento global e canícula europeia, há que não perder de vista que a última década foi a mais quente de sempre. E que prudência e antecipação são a munição essencial de decisores políticos e de sociedades esclarecidas. PM

 
E assim aconteceu III
Segundo Adelino Gomes, o Acontece foi acusado de paternalismo. A crítica assenta que nem uma luva ao autor do programa. Em rigor, Carlos Pinto Coelho não fala exactamente português, fala uma espécie de «luso-tropiquês». O paternalismo é isto: é uma outra forma de colonialismo em que o colonizador complexado passa a colonizado. Atente-se nalgumas frases e expressões da autoria de CPC:
«Homem, vamos falar de modelos de televisão!»;
«Não ponho palmeiras a crescer no Minho.»;
«Admito ter maior sensibilidade para a coisa nova de proveniência africana.»;
«Seria menos benéfico para o estado da coisa cultural em Portugal dizer mal do que omitir.»;
«Eu sou filho de mulher da escrita, da Sara Pinto Coelho, que deixou obra, que fez teatro radiofónico.»;
«Celebrava-se o Natal lá com um Pai Natal de barbas brancas pingando calor»;
«O Acontece era uma fonte de referência quer de um tipo de jornalismo quer para os referentes do programa.»
Pode alguém que fala assim apresentar um programa «cultural»? Pode alguém que fala assim dar aulas e ainda vir reconhecer que «sei quão impreparadas as escolas põem as crianças cá fora»? FN


segunda-feira, agosto 18
 
E assim aconteceu IICarlos Pinto Coelho (CPC) à Pública (10 de Agosto): «Não haverá mais Acontece. Eu já morri na praça pública, já fui chorado, não fazia sentido, amanhã, depois de morto, voltar a dizer boa noite ao país». Apesar de morto e chorado, CPC ameaça voltar com outro programa: talvez uma sessão espírita. CPC, com medo da concorrência desleal da Bárbara Guimarães e do prof. Marcelo, não abre o jogo sobre o próximo programa. Apenas diz que «A conversa com a Administração foi em muito bom tom, muito cordial, muito civilizada». Pelo menos, não o tentaram matar segunda vez. Nem era necessário: com a ajuda de Adelino Gomes (implacável), CPC enterrou-se definitivamente na entrevista à Pública. Com o fim do Acontece, para CPC, «há um drama, claro». É certo que o Apostrophes do Bernard Pivot também acabou. «Mas foi o próprio pai que percebeu que o filho já estava gordo e que era preciso mudar.» Aqui foi o Estado-patrão que achou que o pai já estava gordo e que era preciso mudar de pai. Deitou-se fora o pai com a água do banho. Lamentável.

Parece que havia muita gente que chegava às livrarias e dizia «Quero aquele livro de ontem do Acontece». Género: «Olhe queria aquele disco do cego que canta música clássica e tem nome de gaja». Imagine-se que até houve uma tese de licenciatura na Católica sobre o Acontece! Para CPC, isto é suficiente para recomendar a continuidade do programa. «O Acontece viveu sempre com uma grande rede, que era o seu corpo de consultores», na qual pontificavam figuras consagradas das artes e das letras, imunes às cunhas e ao mau gosto, cujos nomes eu agora, assim de repente... «Chamei-lhes sempre os meus sábios, que fui buscar ao melhor que a sociedade de Lisboa tinha», diz CPC. Talvez por isso, muitos acusavam o programa de elitismo. CPC não aceita: «Não acredito que dois jovens GNR me tivessem reconhecido por duas passagens em zapping.» Como se dez anos de zapping fossem suficientes para o reconhecer! Se não me engano, já tinha lido esta história do Carlos Pinto Coelho com os jovens da GNR na banda desenhada da Guarda Abília do Júlio Pinto. FN

 
Todos os posts que não escrevi: uma semana de férias e os posts acumulam-se e perdem-se. Os American Music Club reuniram-se, mas não prometeram nem disco, nem tournée. Eu devia ter escrito sobre isto e sobre o álbum do Paddy McAllon a solo, que não ouvi, mas de quem li no 'Expresso': "detestaria que me vissem como um tipo antiquado. Na verdade, acho-me extremamente moderno. Simplesmente não tenho o menor apreço pelo rumo que o mundo moderno tomou". Lembrei-me que os discos dos Prefab Sprout são parte do rumo que eu gostava que a música moderna tomasse. Devia ter saudado os novos blogs que chegam: a Glória Fácil, de três jornalistas, entre eles a Maria José Oliveira que, entre outras qualidades que no Blog, estou certo, serão reveladas, escreve com rigor (quantos jornalistas escrevem com rigor sobre o que quer que seja?) também sobre blogs, mas, também, o blog de Paulo Varela Gomes - nunca consegui perceber porque é que, sendo um dos pouco opinadores portugueses verdadeiramente surpreendentes e interessantes, não temos direito, há muitos anos, a lê-lo na imprensa. Devia ter escrito que me parece absolutamente indecoroso que, utilizando a justa memória de um morto, se aproveite para ressuscitar, trinta anos passados, o anti-comunismo mais primário, ainda para mais a propósito da questão de Timor, que há muitos anos une o país. Mas estas coisas são da natureza desse personagem que é o dr. Portas. Esqueci-me também de escrever, para que conste, que nas questões essenciais sou claramente Soarista. Devia ter escrito que no Público de Sábado, o Prof. Pio Abreu escreveu um excelente artigo, entre outras coisas, sobre esse estranho personagem que dá pelo nome de Pedro Strecht. Devia ter escrito que a liga portuguesa deste ano vai ser péssima, à imagem do indecência do Boavista-Benfica de ontem. Devia ter escrito que a areia, a praia, o mar (mesmo sem ondas!), as palavras escritas, as músicas, os amigos, os copos com os amigos, as noites até ao fim são a vida por inteiro e reconciliam-nos com tudo. Mas foi exactamente por tudo isto que eu não escrevi o que devia. PAS
domingo, agosto 17
 
E assim aconteceu ISomos muitas vezes acusados de só dizermos mal do governo. Abro aqui uma excepção: acho que a RTP está melhor, desde logo porque o governo fez tudo ao contrário do que o PSD prometera na campanha. É certo que o fim do Acontece deixou muito boa gente perplexa. Mas depois de ter lido a entrevista que Carlos Pinto Coelho (CPC) deu a Adelino Gomes na Pública de 10 de Agosto, acho que acabarem com aquilo foi a medida mais acertada. Ao longo de dez anos, terei visto o programa umas dez vezes. Para mim o CPC nunca deixou de ser um personagem do Herman (o Filinto Botelho: «África, mãe África»). Na memória ficou-me aquele som de abertura: uma irritante mistura entre o Rao Kyao e os gritinhos da Maria João: «Ai ai ai ai, ai ai aiué...» Recordo-me também de um senhor de barbas que sentenciava o que devíamos ler e de uma balzaquiana de óculos que fazia directos de galerias. Sempre olhei para aquilo como uma estação onde o comando nunca pára. Lembro-me ainda de uma recente crítica do Pedro Mexia que não me deixou a mínima curiosidade pelo programa. Por tudo isto, não posso agora dar a volta ao mundo que Morais Sarmento prometeu aos telespectadores nem mesmo receber a prateleira de livros que em tempos o programa ofereceu a um amigo meu (da qual constava o interessante “Perestroika” de Gorbatchov). Mas vinguei-me ao ler a entrevista do CPC à Pública. A entrevista, por si só, justifica a decisão tomada pela RTP. Sem querer, Morais Sarmento contribuiu mais para a elevação da educação nacional do que os ministros Justino e Roseta juntos. FN

 
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
Crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.

António Franco Alexandre (2002)
PAS

 
O estio que abraça a Ria enrugou-se e soprou um vento quente que chamei Verão. RB
 
O elogio relativo de Macário Peixe fora de água na sociedade do salmão fumado lisboeta, Macário Correia balbuciava como que frases de balões de diálogo vazios de uma bd muito só sua. Já nas salinas de Quatro Águas, nas Festas dos Pescadores de Cabanas ou no Pingo Doce de Tavira, o edil Macário está no seu elemento. O à vontade define-o. Anteontem, olhava a barraquinha dos doces algarvios em Cabanas, e topei com ele quando me virei. Ontem, passa por mim estava eu na fila para o multibanco. O Verão passado foi o mesmo. Macário é presença comum nas andanças rotineiras dos seus munícipes. Afável sempre, de miúdo às cavalitas, passou bem aqui, repenica a beijoca ali. Sobretudo, dá a sensação de ser um como os outros. Acessível - e ia a dizer, quase ubíquo. E depois, para ganhar o meu elogio relativo, bastou que tirasse os inacreditáveis neons floruescentes verdes com que o seu antecessor achou por bem ornamentar a ponte romana de Tavira. RB
sábado, agosto 16
 
Diálogo de Verão
- Deves estar com calor...
- Se estou com calor...? Não, estou de férias. Calor é uma coisa que têm as pessoas que não estão de férias. Eu não tenho calor. RB
quinta-feira, agosto 14
 
Lenine ou a revolução feita praia No meio de toda esta transpiração tropical, o dia de hoje correu inspirado por Lenine, o outro. Esse mesmo – o brasileiro. À pergunta de Ricardo Santos, no Índigena de hoje - «Como é que é Lenine: você é um revolucionário, como seu nome indica?» - o músico do Recife, respondeu:
Rapaz...acho que não, eu não sou belicoso. Se revolução tiver a ver com belicosidade, não é a minha praia. Agora se revolução tiver a ver com a matriz da palavra – que é «revolver» -, sim, eu sou sempre um irrequieto, estou sempre procurando outras saídas. Tenho horror em repetir o mesmo caminho, e tem sido assim. Continuo me divertindo da mesma maneira desde a primeira vez. Nessa relação custo-benefício continua o prazer a pesar mais na balança. E aí eu continuo fazendo.
Ora bem. RB
 
Espectro Político, versão Euronotícias: Um trabalho obriga-me a visitar o site de um semanário nacional: o euronotícias. No topo secção de política da página do Euronotícias estão quatro links para os sites oficiais dos quatro partidos mais votados (a propósito, porque é que não existe link para o Bloco de Esquerda?). Se em relação ao PS e ao PSD não há nada de estranho (os links são feitos através das designações dos partidos) o mesmo não se pode dizer em relação ao PCP e ao CDS-PP. Fiquei a saber que, para os jornalistas do Euronotícias, a melhor forma de designar o PCP é Comunismo em Marcha (finalmente, um motivo de esperança para os militantes do PCP que estavam descrentes sobre a dita marcha), e que para nos referirmos qao Partido Popular devemos simplesmente dizer partido de Paulo Portas (será que Monteiro era visita frequente do site do Euronotícias?). O Euronotícias designa também o PP como partido de centro direita, mas para sabermos que no Euronotícias se achava isso bastava ler uma vez o jornal. Como o site funciona mal e muitas vezes nem abre aqui deixo as categorias criadas pelo jornal para os partidos.

Comunismo em Marcha
O site do Partido Comunista Português

Partido Social-democrata
O site oficial do PSD

Partido Socialista
O site oficial do PS

Centro-direita
O site do partido de Paulo Portas

MVS
 
O fogo, a acção e a reacção: O Ministro Figueiredo Lopes, com um ar compungido, assegura em plena comissão parlamentar que esteve presente nos incêndios desde o dia em que os fogos atingiram enormes dimensões e que, por isso, o Governo não pode ser acusado de não ter agido. Pois, a questão é onde estava o Sr. Ministro antes de os incêndios se tornarem incêndios de grandes dimensões e, acima de tudo, onde estava o Sr. Ministro antes de chegar o Verão, na altura em que se deveria ter preparado a época de fogos. O governo não agiu, apenas reagiu, o que relativamente aos incêndios é quase o mesmo que nada. MVS
 
Questionário de Verão País Relativo Qual a melhor duna íngreme dessa portuguesa praia para descer a correr, sempre a acelerar, numa mistura de infantil prazer e de adulto medo de cair para a frente? RB
 
Obituário político Aqui jazem as carreiras políticas de Amílcar Theias e Figueiredo Lopes. Acabaram para a política como nela tinham existido: sem uma afirmação de vontade, entre disparates, incompetência e intempestiva incontinência verbal.RB
quarta-feira, agosto 13
 
O O.P.N.I. O Público confundiu ontem os seus leitores ao trazer na secção «Nacional» uma notícia da secção «Ovnilogia e Fenómenos do Entroncamento», a da iminente formação de um partido «assumidamente monárquico» que se revê nos «valores da esquerda». Este O.P.N.I. ou objecto político não-identificado mostra que a repisada exaustão do sistema político português e os propalados receios de bipolarização política eram manifestamente infundados. Ainda existe espaço para a criatividade, e sobretudo sentido de humor. O novo partido inova tremendamente quando anuncia que vem para acabar com a «corrupção» e «compadrio» reinante. Sobre as ideias políticas, reclama-se dos «valores da esquerda» e admirador do Bloco de Esquerda que considera ser um «expoente do aperfeiçoamento da democracia». Mas a pedra de toque do seu ideário político é a noção subtil de que as ideias monárquicas «são actualizáveis dentro da República». Se pensa que a bota não bate com a perdigota, veja melhor. O subterrâneo pensamento leninista que os anima explica que a Monarquia, como a Revolução, são de uma actualidade permanente. Infelizmente, uma contra a outra mas isso é de somenos. Ainda sobre política, revela estar disposto a concorrer às eleições europeias, só ou em coligação, talvez com o Partido Católico Ateu, quem sabe. Sobre pessoal político, o Partido conta já com vários fundadores, pessoas que «estão dispostas a sacrificar-se». Talvez por isso, não pode revelar desde já os seus nomes. Mas não se pense que Sousa Monteiro (futuro líder e ex-presidente do PPM) é falho de lucidez política. Afinal, ele é o primeiro a ter a noção da «dificuldade em encontrar espaço político».RB
terça-feira, agosto 12
 
A canícula alemã ou Montesquieu revisitado: Durante estes dias de intensa e constante canícula, os alemães andam desorientados. Carregam olheiras de noites dormidas a espaços, circulam empapados em suor. Atiram-se sofregamente a ventoinhas e aparelhos de ar condicionado, baixam às urgências hospitalares com queixas de insolação e desidratação. O correio atrasa-se, as entregas ao domícilio eternizam-se. Os patrões desesperam com a fraca produtividade dos empregados, estes com a generalizada falta de climatização dos locais de trabalho. Metros e comboios convertidos em estufas, centrais nucleares, tal como em França, a transpirar e a ameaçar gripar - e lá se vai o ar condicionado ainda agora comprado. Um país virado do avesso, um país subitamente com hábitos e ritmos mediterrânicos. Só que mais perdido, ofegante e exasperado pela falta de hábito. Será que, no meio de tanto desajustamento, sucumbirão à poligamia que Montesquieu dizia própria dos climas quentes? PM
segunda-feira, agosto 11
 
Sudoeste III: e ao último dia voltou o calor e para o último dia estava guardado o melhor do festival. O swell que começou finalmente a entrar e o jantar tirou-nos ao Badly Drawn (que ainda avistámos no dueto mais tarde com Beck) e aos Moloko. Fomos para a Beth Gibbons e para o Beck e, se nada mais, todo o festival tinha valido a pena. Beth Gibbons foi o contraponto a Beth Orton e mostrou como é possível encher o espaço de um festival com os tempos vagarosos da sua música. Uma hora sublime, de cigarro na mão e a mostrar-nos a todos como se pode cantar tão espantosamente bem. 'God knows how I adore life'. Depois, já passava muito das duas da manhã começou o espectáculo chamado Beck Hansen. Lembram-se do espectáculo Funk, à George Clinton de há uns anos? lembram-se das baladas de Sea Change? Esqueçam tudo. Beck já se reinventou mais uma vez. Cinco músicos vestidos de preto, coreografias maquinais a lembrar os Kraftwerk e uma música mais dura. Apesar do cansaço, público conquistado. Todos os hits e até um medley desconcertante, de citações de tudo e de todos (até Queen) e uma gozação com tudo, todo o tempo. Lembram-se de David Byrne quando dizia: ‘If you dance, you’ll understand the music better’. Esta é também a divisa de Beck, cada vez mais um Byrne dos nossos dias, aliás. Genial todo o tempo e sempre à procura de inventar as 28 coisas que estão por ser descobertas. O encore foi o futuro. Uma versão de 'Devil’s Haircut' em que as roupas pretas foram substituidas por fatos brancos que de repente se iluminaram. Os músicos, claramente divertidos, cada um para seu lado e uma versão avassaladora, com um final paródia dos Metallica – que haviam massacrado toda a gente nos ecráns durante três dias. Vimos o futuro e chama-se Beck Hansen, o que só peca por não ser novidade. PAS
 
Uma outra praia é possível:Tirando o prof. Marcelo, poucos políticos têm mostrado interesse pelo problema das carreirinhas nas praias portuguesas. A prática da carreirinha tem a sua origem na cintura vermelha de Lisboa. Nos idos de 60 muitos operários da CUF e da Lisnave iam para a Costa sem prancha. Quem não tem cão caça com gato. A prática da carreirinha consiste em estar no mar alto a boiar, topa-se o enfiamento da onda e chega-se rapidamente à toalha. Embora não pareça, a carreirinha ou body-surf como é conhecido em Newcastle, é um desporto radical: muitos chegam à areia já sem calções e de cabelo revolto, para gáudio das rapariguinhas na praia. Esta modalidade que provavelmente será desporto olímpico já em Lisboa 2012 sofre o desprezo das autoridades. Ao contrário do lobby dos surfistas, os carreiristas (não confundir com carreirismo) ainda não viram reconhecidos os seus direitos associativos. Quando chegam à praia nada os distingue: não têm prancha visível, Wax na cabeça nem Jeeps na duna. No fundo, a carreirinha está para o surf como o futebol humano para o futebol espectáculo.
É por isso que com a força da razão que nos assiste como praticantes da modalidade reivindicamos:
- Formação de um grupo de trabalho com vista a criar uma comissão instaladora de uma futura Federação Portuguesa de Carreirismo (o prof. Marcelo já foi sondado para presidente da mesa da assembleia e para a feitura do código dentológico da modalidade).
- Patrocínio para o livro 'Lendas Vivas das Carreirinhas em Portugal'.
- Reconversão das piscinas existentes em piscinas de ondas para treino da modalidade.
- Criação de zonas demarcadas nas praias portuguesas, à semelhança do que já acontece na Califórnia.
- Verem reconhecido o estatuto de atletas de alta competição com vista a faltar quando apetecer a exames e a adiar sine die a entrega de teses.
E, pronto, para já é tudo, mas no próximo FSP estaremos lá para mostrar que uma outra carreirinha é possível.
FN e RB
domingo, agosto 10
 
Sudoeste II: E ao segundo dia voltou a humidade costumeira. O sudoeste de t-shirt durou pouco. Chegámos e, ainda que a horas para evitar o David Fonseca, os atrasos na programação obrigaram-nos a assistir a um bocado do seu concerto. Sobre o David Fonseca há a dizer duas coisas: a) responsabilizar a professora de inglês do secundário que lhe deu boa nota no 11º ano; b) ele está para a música como o Dominguez para o futebol, tem os truques todos, as fintas, os trejeitos, mas pura e simplesmente não é bom jogador, apesar de estar convencido da sua genialidade. Muito mau. Depois chegou uma soporífera Beth Orton. Houve momentos em que estavam umas 15 pessoas acordadas durante o seu concerto e quase todas no palco. Péssimo alinhamento, desadequado ao contexto e a fazer crer que o ‘Stars all seem to weep’ foi uma excepção na sua carreira. Depois seguiram-se os Morcheeba, naquilo que foi o primeiro concerto à séria do festival. Uma banda excelente, com o irmão Godfrey da guitarra em grande forma e toda a secção rítmica a mostrar aos Jamiroquai o que deveriam ter feito na noite anterior. Tudo a dançar e Skye Edwards animada e a animar. Completo e com os Morcheeba cada vez mais uma banda eclética, a fugir dos epítetos iniciais de trip-hop e quejandos – deu inclusivamente para cover de Neil Young. Depois começou a gritaria desinteressante da Skin. Fugimos e ao longe ainda deu para ouvir um cover do ‘Getting away with it’ – e pensar que os Electronic já foram há tanto tempo. Na tenda o DJ Kitten animava muito as hostes. Hoje é quase tudo bom – excepção aos Stereophonic! – há Badly Drawn, Moloko, Beth Gibbons e esse grande senhor chamado Beck Hansen. PAS
sábado, agosto 9
 
Sudoeste I: Depois dos atrasos nos terem feito perder o primeiro dia - e lá se foram os Múm que ficam para próximas andanças em Lx - e depois da praia nos ter afastado dos Suede - ainda ouvimos, mas não vimos, enquanto entrávamos o 'Trash', o 'Beautiful Ones' e o encore com o 'She's in Fashion' - lá chegámos para o Jamiroquai. A coisa prometia, muita gente, muito calor e este ano até deu para estar de t-shirt, sem o frio e a humidade de outros anos, mas depois o concerto foi meio flop. A banda sem força, uma secção rítmica adormecida, sem balanço, sem graves e um Jay Kay que foi melhor sempre que se aproximava mais do Steve Wonder. No fim, com as últimas músicas e o encore ficou a promessa do que devia ter sido o concerto. Mais tarde, já passava das duas, lá chegaram os Primal Scream. De volta às guitarras e às birras de palco - com o reforço Stone Roseano no baixo particularmente activo neste domínio. Um desastre. Quem há dez anos fez o Screamdelica, se nada mais, por respeito com o passado, devia retirar-se e deixar-se de tristes figuras. Desistimos a meio e ficámos na tenda com os 2 Many DJs. O costume: muito bons e muito divertidos, embora cada vez mais os truques sejam todos programados. Chegámos e estava a dar aquela linha de baixo incrível do single dos White Stripes e depois houve de tudo: Technotronic, Nirvana, Beastie Boys. Hoje há mais e hoje há Beth Orton. PAS
sexta-feira, agosto 8
 
O diácono remédios desceu à cidade Sabendo que o “Verão é uma época propícia ao excesso” (de calor?), a JSD espalhou por Lisboa (e presumo que pelo resto do país) uns outdoors de “prevenção dos excessos” relativos à “diversão, característica desta altura do ano” (sic). Vai daí, e para pelo menos divertirem os transeuntes, lançaram esta campanha, definida pelos próprios como “arrojada e agressiva na forma” mas “eficiente na transmissão de mensagens”. Por uma vez, estamos de acordo. Mas não exactamente pelos melhores motivos.

A campanha pretende ser muito pedagógica e os slogans, bem temperados com a orgulhosa agressividade, mostram a pedagogia que se quer fazer: “Com excesso de álcool não curtes nada” e é provável que acabes num vómito, simpaticamente reproduzido nos cartazes a grande escala. Eles sabem, é claro, do que estão a falar. Por outro lado, “com excesso de velocidade não vais longe” (uma máxima que a lebre e a tartaruga se encarregaram de demonstrar empiricamente), e acima de tudo “com drogas não duras nada”. Repare-se, aqui, como nas drogas a categoria do “excesso” desaparece; ao contrário do álcool e da velocidade, que não são intrinsecamente malignos e podem ser “consumidos” desde que com moderação e razoabilidade, já no que toca à droga o problema deixa de ser o excesso, porque qualquer charro mal enrolado pode levar os jovens...bem, os autores da campanha lá sabem onde. É o perigo à solta a cada esquina, meus amigoszzzz.

Esta lengalenga contra os excessos quando associada à demonização dos riscos (em particular da droga) já sabemos no que redunda: em quase nada. Limita-se a mostrar trabalho, reproduzindo ideias feitas e a alimentar o círculo dos medos sociais (“cuidado com os papões”). Quando vejo este tipo de raciocínios (?), tristemente normalizadores, convenço-me cada vez mais que não se faz outra coisa senão transformar mecanicamente a categoria de “prevenção” numa repressão a priori. Que é, provavelmente, entendida como tal pelos potenciais destinatários. Numa "sociedade de riscos" (sic) , e repare-se como os riscos, no plural, se tornam totalitários neste tipo de mensagem, "vale a pena prevenir". Ficamos todos prevenidos.

No meio de tamanhos equívocos, talvez o aspecto mais feliz desta sucessão de infelicidades seja afinal a imagem de péssimo gosto, assinale-se, do vómito que aparece reproduzido nos cartazes. Sempre resume toda a ideia da campanha. MC

 
Tortura nas estradas portuguesas. 3ª etapa da volta a Portugal em bicicleta. Campo Maior-Castelo Branco. A paisagem deslumbrante deu lugar a um cenário desolador. O ar puro a poeiras e fuligem. Partida pela fresca das 12h50. Força rapazes! Depois dos bombeiros, são vocês os heróis! SS
quinta-feira, agosto 7
 
Bancada Central: Um destes dias, de regresso a casa, a TSF transmitia a Bancada Central, programa de que sou ouvinte intermitente desde o primeiro ano. A determinada altura, Fernando Correia refere que acabámos de entrar 10ª época de emissões da Bancada Central. Conheço o Fernando Correia há muitos anos e lembro-me muito bem de quando decidiu arrancar com projecto da Bancada Central. E são estas coisas que me fazem perceber que os anos andam depressa, demasiado depressa. MVS
 
Já demos para esse peditório: Depois da Operação Coração, da Operação Triunfo e da Operação das Gémeas Siamesas, a RTP vem agora com a Operação Renascer das Cinzas. O Governo desinvestiu na prevenção e no combate aos incêndios. A reorganização da protecção civil e do serviço nacional de bombeiros só serviu para descoordenar acções. Se a isto juntarmos o calor, temos a receita para a tragédia. Agora lá vem a mítica «sociedade providência» tentar remediar, com muita solidariedade, erros que são responsabilidade do governo, funções que são competência do Estado. Contribuir para este peditório é contribuir para a desresponsabilização do Estado e para a reprodução de uma lógica doentia que confunde cidadania com caridade, direitos com esmola. Não somos obviamente contra que se ajude quem agora precisa de ajuda. Consideramos é que campanhas de solidariedade pontuais apenas actuam sobre as consequências, mas não sobre as causas. Se a ideia é um Portugal solidário, então que o seja o ano inteiro, logo desde Janeiro quando faz frio e ainda não há fogos. O Estado tem funções sociais e de soberania que se financiam através dos impostos que todos pagamos. Se se considera que o Estado não tem meios para assegurar estas funções, então que nos aumente os impostos! Para o peditório da caridadezinha, já demos. FN/RB/SS
 
Caro FA,Há uma coisa com que ficámos magoados na sua resposta. É quando nos acusa de não termos sequer inovado no insulto. Ficámos magoados, sim. Como pode afirmar que não inovamos no insulto quando é o primeiro a admitir que misturamos Depeche Mode com Alexandra Solnado, Auschwitz com Opus Dei, tédio urbano com autoflagelação? Mas, com efeito, há uma coisa em que estamos em falta, e que agora aproveitamos para reparar. Queríamos aqui apresentar as nossas desculpas aos Depeche Mode e a Alexandra Solnado pelas trapalhadas em que os metemos. De facto, não inovar no insulto teria sido chamarmos a Bagão Félix Bagão Eanes, Bangon, Gamão, Gabaião, Brazão, Vagão, Gabão, Baigão, Baguão, Aragão, Beirão, Bangon, Bafão, Bogas, Borgão ou Dragão Feliz. Mas não, não fomos por aí. FN/RB

 
Vida de Bagão III
Família: Em família, entre os amigos da bola, Bagão é conhecido como «o tio Tó». Ao DNA, o tio Tó mostrou o cartão do Benfica e do Belenenses (a provar que todos temos um lado bom). Mas só mesmo Anabela Mota Ribeiro é que conseguiria fazer com que Bagão abrisse o livro, mais exactamente «um dossier onde tenho a minha vida toda organizada». Como convém, Bagão casou-se com a primeira namorada. É o próprio quem admite que nunca foi «afectuoso» e que isso tem, muito provavelmente, «raízes na infância» («recalcamentos»). A forma como seduziu na escola secundária aquela que é hoje a sua mulher pode constituir um bom exemplo para os jovens mais tímidos: «Escrevi-lhe uma carta de amor e disse que era o número 64, da alínea G, do sexto ano. Ela teve de ir ver à pauta...» Deve ter sido mesmo a única vez em que a jovem se dirigiu à pauta com prazer. Desse amor nasceram a Catarina Félix e a Inês Félix. A primeira «é veterinária e tem uma clinicazinha». A segunda é designer. Nem uma nem outra aguentaram o peso do apelido Bagão. É a importância de se chamar Bagão. Bagão compreende esta atitude de grande dignidade. Ele próprio não é nada dado a cunhas. O genro esteve desempregado cinco meses: «não mexi uma palha para conseguir arranjar qualquer coisa», diz com indisfarçável orgulho. De resto, a vida pessoal de Bagão não passa por grandes extravagâncias. «Os meus gostos são muito baratos.» CDs do Zeca Afonso (a sério), livros e viagens. Bagão é daquelas pessoas que se herdasse uma fortuna não aguentava o sentimento de culpa. É mais fácil um camelo entrar pelo buraco da agulha (ver filme) do que um rico evitar o quinto dos infernos. Bagão até tem saudades dos tempos em que estava na tropa, a mulher estudava, a filha berrava e o primo abancou lá em casa ? uma pequena casa portuguesa com certeza. «Há muita gente que à medida que vai tendo mais dinheiro vai tendo mais infelicidade.» Ponham os olhos no tio Tó: saúdinha é que é preciso. FN


 
Quem é ateu e viu milagres como eu: Caetano Veloso faz hoje 61 anos. É inaceitável que neste blog se tenha falado tão pouco de Caetano até agora. É inaceitável que se tenha falado tão pouco da maior figura viva da cultura lusófona. Sejamos imperialistas e corrijamos este erro. PAS
quarta-feira, agosto 6
 
Saúde Política: O Primeiro Ministro já reafirmou a sua confiança política no Ministro da Defesa. Parece que, para Durão, o tumor é benigno. SS
 
A verdadeira questão basca

Só hoje leio o post do PM sobre a transferência forçada do pároco Jaima Larrinaga. Ao ler o post do Pedro compreendo porque é hoje impossível discutir honestamente a, chamemos-lhe clássica, questão basca. É que a moderna questão basca com a sua maior premência vital e mediática e de mais fácil percepção é hoje a verdadeira questão basca. Eis onde concordo com o Pedro. Por isso, hoje ninguém quer discutir se ao País Basco deveria ou não ser dada uma hipótese (referendária, pela minha preferência) de decidir o seu rumo. Ninguém quer entender se as razões para esta discussão se quer existem. E acho que tem razão quem assim pensa. De facto, é mais importante travar o terrorismo e permitir que todos os bascos possam livremente viver e exprimir as suas opiniões (presumindo-se, claro está, que só a ETA o impede). Só peço então que, no dia, espero que próximo, em que o terrorismo da ETA sucumba, agonize e desapareça para todo o sempre, se lembrem da outra (velhinha) questão basca. Quanto mais não seja de uma perspectiva de prudente ciência perguntando: será que ela existe? sem imediatamente assumir pelo senso comum, sem estudos ou argumentos responsáveis, que todos os bascos querem ser espanhóis... Se esse dia chegar cá estarei para discutir, então, essa outra questão basca. Entretanto lutemos, pois, como pudermos, pela verdadeira questão basca. DF
 
As palavras de JPP: As palavras do Abrupto bastam-se a si próprias. Mas é também da revolta e da tristeza que vem a energia. A energia para saber onde estão as diferenças que contam, nomeadamente para ter orgulho na actividade política - "talvez o aspecto mais penoso da actividade política seja este, ser misturado com quem deve e teme, ouvir o ruído invisível do 'também ele'. Provoca revolta e tristeza, grande revolta e tristeza, porque este tipo de acusações não tem emenda possível, alguma coisa sempre fica. Mas não é, não é 'também ele'." PAS
 
Vida de Bagão II
Pátria:
Bagão cursou Economia e achou «piada» (sic). Mas era na cantina de Agronomia, na mais completa solidão, que verdadeiramente se realizava. Hoje, ao vermos as fotografias de Augusto Brázio que ilustram a brilhante entrevista de Anabela Mota Ribeiro no último DNA, percebemos que a Nação ganhou um ministro do Trabalho, mas perdeu um grande ministro da Agricultura. As fotografias mostram-nos Bagão na quinta, Bagão no tractor e Bagão com o cão. A culpa é do «doutor Morais Leitão.» Foi ele quem há trinta anos contratou Bagão, depois de uma entrevista em que o actual ministro se «sentiu muito pequeno numa imensidão». Foi com ele que Bagão «aprendeu a trabalhar». Foi ele quem convidou Bagão para Secretário de Estado da Segurança Social, quando Bagão, na sua imensa modéstia, «pensava que era para chefe de gabinete». Mais tarde foi Secretário de Estado do Emprego durante os Governos Cavaco Silva. Por isso, não perdoa ao professor ter sido corrido do Banco de Portugal «num contexto de um governo liderado por um primeiro-ministro de que tinha sido servidor o melhor que podia e sabia.» Percebe-se agora a crescente admiração de muitas pessoas de esquerda pelo professor Cavaco. Para Bagão, aquilo foi «um momento de ruptura». Decidiu nunca mais aceitar um «emprego público». É então que entra para o sector intelectual do grupo BCP, de onde foi recentemente requisitado para o Governo, uma espécie de «serviço militar». Apesar deste vasto currículo, apesar da recente filiação no CDS, não se considera um político. «Não! Graças a Deus não!» Cruzes canhoto! A política dele é o trabalho. FN

 
Canal Viver ou Canal Saúde?: Durante a canícula, acate os seguintes conselhos do especialista austríaco Bachl, Norberto para os amigos. E lembre-se que a sua vida pode estar em risco. Senão leia este excerto tirado do Público de hoje:

"Uma elevada actividade sexual durante o período de calor aumenta os riscos de enfarte" entre as pessoas com problemas cardíacos, avisou ontem um médico austríaco. Numa altura em que vários países da Europa batem recordes de temperaturas máximas, Norbert Bachl, do Instituto de Medicina Desportiva de Viena, lembra que o calor "exacerba o desejo" sexual, mas também obriga a alguns cuidados.

Citado pela AFP, o especialista avança com algumas recomendações para evitar problemas: desde logo, quem sofre de insuficiência cardíaca "não deve abusar" na frequência das relações. O sexo deve acontecer à tardinha ou durante a noite, porque está mais fresco. Se, ainda assim, as pessoas insistirem nos picos de calor, então devem adoptar "um papel passivo", acrescenta o mesmo médico."


Vá, ide, ide, passivamente e com juízo. PM

 
Porque será? Já há algum tempo, bastante mesmo, que ninguém me conta uma anedota, que não ouço uma anedota. Intrigado, pus-me a perguntar, família e amigos. O mesmo. Porque será que as anedotas se calaram? Questionados, economistas credíveis esclareceram que as anedotas regressarão a Portugal em 2004, 2005 ou mesmo em 2006 – com a retoma económica. RB
 
The taming of the portuguese male Leio em qualquer lado que o homem português abandonou o short e voltou em força ao slip. É o regresso ao aconchego do lar de uma geração, a minha, que se vem rendendo, como as anteriores, ao casamento. RB
terça-feira, agosto 5
 
Morreu Pulido Valente: O verdadeiro Pulido Valente morreu hoje. Antes tinha dito, a crer no Público, que entrara "para a política como podia ter entrado para a Conferência de S. Vicente de Paula - já em pequenino tinha pena dos pobrezinhos! E depois, por uma extensão da minha adolescência - gostava muito de jogar aos polícias e ladrões. A política tinha muita coisa lúdica, esconder papelinhos, fugir, tirar a tipografia daqui para ali, prisões. Hoje é uma chatice. E tinha algumas ideias políticas, lia umas coisas. Mas é preciso desmistificar... como sou um boémio, eu queria salvar a humanidade e escolhi uma maneira divertida de o fazer'.
Hoje, agiu em conformidade e deixou-nos estas palavras, 'Eu, João Pulido Valente, informo os meus amigos que morri hoje, 4 de Agosto de 2003, de manhãzinha. Convivi com ideias, mulheres, tabaco e álcool. Contraí cadeia, sífilis, cancro e ressacas. Não estou arrependido. Julgo ter pago o preço justo pela vida'.
Quando roubámos o título deste blog ao O'Neill foi uma homenagem a gente assim que quisemos fazer. E logo hoje que, quase de propósito, o Público, para homenagear Pulido Valente?, traz o Corto Maltese na capa. PAS
 
Um pequeno apontamento de reportagem basco no meio das labaredas: A canícula portuguesa parece não alimentar preocupações sobre outros temas que não sejam incêndios. O que é normal num país devastado por pinhais e eucaliptais a arder descontroladamente e por aldeias, vilas e lares consumidos pelas chamas. Mas com as políticas de ordenamento florestal reiteradas ao longo de décadas (vale a pena ler o excelente artigo de Vital Moreira, publicado no Público de hoje, a este propósito), temo que a indignação e o desespero provocados pelos incêndios continuarão a crescer, em cada Verão, na proporção do aumento do termómetro.

Enquanto uma parte de Portugal é consumida pelas chamas, as liberdades no País Basco continuam a arder nas labaredas da intolerância e do terrorismo. Vale a pena, por isso, atentar na notícia publicada no El País de ontem (p. 16) sobre a transferência forçada do pároco Jaime Larrinaga da aldeia biscaína de Maruri-Jatabe. Ameaçado de morte pela ETA por causa das suas homílias contra o terrorismo e a falta de liberdade no País Basco, Larrinaga foi o primeiro pároco a necessitar de protecção policial (à semelhança do que acontece com políticos, magistrados, jornalistas um pouco por todo o território basco). Agastado pelas ameaças, decidiu ontem partir por entre aplausos e gritos de “Liberdade!”.

Para quem se interroga sobre a questão basca, provavelmente encontra nestas notícias locais algumas respostas. Porque a questão basca, hoje em dia, não reside nas proclamações folclóricas da auto-determinação ou na afirmação de uma identidade nacional baseada em mistificações históricas. A questão basca é antes a opressão quotidiana das liberdades em aldeias remotas e esquecidas do País Basco e o manto diáfano de silêncios imposto pelo “nacionalismo obrigatório”. Ou como perguntava ontem um dos participantes na última homília do pároco Larrinaga: “Quiero saber por qué no nos permiten ser nosotros mismos, únicos, extraños a ese espeso rebaño de uniforme pelaje”. PM

 
89.5: Há algum tempo a TSF mesclou a realidade e a ficção. Logo pela manhã a A invenção do amor de Daniel Filipe era lida pelos jornalistas como se de uma notícia se tratasse:

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva


dizia o repórter com o mesmo tom de voz com que hoje descreve um acontecimento de última hora.

Contam os jornalistas da TSF que nesse dia foram inúmeros os telefonemas de ouvintes perguntando por aquele homem e aquela mulher que
Inventaram o amor com carácter de urgência
Deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana


Tenho acompanhado a discussão entre PM, CVM e ZM sobre a TSF, a esquerda e a direita e concordo com alguns dos argumentos dos três.
O que a TSF é, é uma rádio muito boa que inova e inovou sempre. Com jornalistas de esquerda ou opções editoriais de direita, na actualidade, no desporto, na cultura, nas entrevistas e nestes momentos mágicos. E por isso o meu rádio está lá, sempre, em 89.5. MVS
 
Cuidado com o Bagão A cada resposta a Anabela Mota Ribeiro (DNa de 2 de Agosto), Bagão Félix dispara a torto e a direito esguichos de filosofia oca. O seu discurso oscila entre as linhas de diálogo de Matrix Reloaded e um contínuo e soporífero manual de auto-ajuda. Ao menos, a escritora Rita Ferro entende por auto-ajuda uma cambalhota com o mecânico. Já para Bagão, a «felicidade é atingir o simples. E ao atingir o simples está-se mais perto do absoluto. E portanto está-se mais perto de Deus. É nos momentos em que nos mostramos mais simples que somos mais felizes». Não se percebe se o que motiva esta frase é justamente a vontade irreprimível de estar perto de Deus através do simplismo mais absoluto, se a vontade de imitar a verve e o estilo do Sr. Arquitecto José António Saraiva.

Ao ler a entrevista, ocorreu-me que a vaga de calor que assola o país pode bem resultar do atrito entre as ideias de Bagão e o mundo que o rodeia. Bagão seria já um peixe fora de água no século XIX, quanto mais agora. Como bom conservador que admitidamente é, reage contra o desaparecimento violento de um certo mundo às mãos das revoluções liberais oitocentistas. Senão, atente-se: «a felicidade faz-se querendo ter menos. Faz-se pela renúncia, não se faz pelo excesso», e mais à frente: «procuro sempre querer menos». No fundo, Bagão lamenta e invectiva a modernidade, o mercado, a burguesia, o dinheiro, o prazer e a dissipação. O que aproxima Bagão do Integralismo Lusitano é, entre outras coisas, a partilha das mesmas bêtes noires. Que o queira assim para si, é uma coisa, agora que o queira assim para os outros, sendo ministro do Trabalho e da Segurança Social, é outra muito diferente e, sobretudo, preocupante.

O ministro levanta-se cedo; ele não se concede o luxo de nada fazer, de em nada pensar: «é preciso um esforço brutal para não fazer nada». A dificuldade em expressar afecto físico não deveria surpreender a quem assim castiga o próprio corpo. A experiência da condição moderna – o tédio urbano ocasional – escapa-lhe por completo, algo que o estranha e afasta perigosamente da generalidade dos dez milhões de portugueses. Bagão tem o «seu Alentejo», onde exercita o mester contínuo da sua vida: aproximar-se de Deus pela renúncia da modernidade tal como a conhecemos. A hierofania tornou-se já uma rotina da sua vida: Deus é visita regular lá de casa, com Ele forma uma «díade», a qual, embora «seja errado dizê-lo», sente «fisicamente». Mas não é impunemente que se é tu-cá, tu-lá com Deus. Fazer de Deus tem custos: o tudo ver, tudo sentir; o em tudo estar, o em tudo ser produz no frágil humano a insanidade e a mitomania. Repare-se no diálogo: «Conte-me o encontro com Morais Leitão – Eu teria 24 e ele 34 anos. Sabe qual foi o aniversário que mais me marcou? 33 anos. A idade da morte de Cristo? – Exactamente».

Bagão teria lugar garantido no Fórum Social Português gritando, aos arrancos: «Uma outra modernidade é possível». Bagão seria então o movimento social dele próprio, se por movimento entendermos o regresso ao Portugal Restaurado. Sim, é isso, Bagão está imóvel há dois séculos. Apenas Oliveira Marins consegue insuflar-lhe o sopro da vida. Parece que estou a ver Bagão entre os convivas do Marquês de Marialva, o maior fidalgo da corte no tempo de D. Maria I: «Na varanda do palácio de Belém, sobre o rio, acudiam a tomar o fresco e a fazer companhia ao velho marquês personagens plebeus, seus parasitas: era o frade, volumoso e comilão, de facécias de taberna; era o boticário esguio, vestido de negro; o anão das senhoras, fazendo esgares, ou chiando numa frauta de cana; o aparatoso brigadeiro, no seu fardamento já velho, fanfarrão, impudente, governador licenciado de alguma fortaleza distante; era um toureiro célebre, ou picador famoso; era, finalmente, o orate improvisador, disparando a torto e a direito esguichos de versos, na sua fúria repentista”. RB

PS Devo esclarecer que houve tanta coordenação entre este post e o anterior como houve coordenação no combate aos incêndios nos últimos muitos dias.
 
Vida de Bagão I
Deus:
Na linha de artistas como Alexandra Solnado ou os Depeche Mode, Bagão Félix tem o privilégio de se relacionar com um «personal Jesus»: «Há momentos de grande serenidade em que sinto Deus dentro de mim. É Deus que vem ter comigo. Nunca consigo isso quando sou eu a procurar Deus.», confessou a Anabela Mota Ribeiro do DNA. A sensação é em tudo idêntica à descrita por algumas pessoas que conseguiram regressar do estado de coma: «É a sensação de que já estamos do lado de lá, ainda estando do lado de cá.» Só quem passou por isto é que pode compreender Bagão.

Por causa destas e doutras, muitos pensam que Bagão é membro da Opus Dei - o que não corresponde à realidade. Bagão até já escreveu um prefácio a um livro de monsenhor José Maria Escrivá, em que começava por dizer: «Eu não sou da Opus Dei». Ainda assim, é incontornável reconhecer a influência da teologia de Balaguer na filosofia de vida de Bagão. Basicamente, a doutrina da Opus Dei assenta na valorização radical das coisas simples do quotidiano. Coisas aparentemente banais como mudar fraldas, levar a sogra a casa ou picar o ponto às nove da manhã - devem ser encaradas como momentos de felicidade suprema. Ao contrário do que muitos pensam, «Trabalhar é imanente à natureza humana.» Segundo Bagão, «É preciso um esforço brutal para não fazer nada.» No fundo, esta é uma ideia com História, que se resume bem numa frase que ainda hoje podemos encontrar em Auschwitz: «O Trabalho Liberta!». Há, no entanto, um aspecto completamente consensual no pensamento de Bagão. É quando ele diz que «não compreende o católico não praticante». Tenho a certeza que Bagão também acha o «catolicismo progressista» uma contradição de termos. FN


 
Ainda mudar de casa:
"È tutto un grande addio,
un giorno Gondrand passerà,
te lo dico io,
col camion giallo porterà
via tutto quanto e poi più niente resterà
del nostro mondo....
da-da-da...
La fuga nella vita, chi lo sa...
... che non sia proprio lei
la quinta essenza...
si, ma di noi si può fare senza..."
Paolo Conte, Fuga All'inglese
PAS
 
Aplauso: É o que merece o mea culpa editorial no Público de hoje. Assim mostrando que, na comunicação social, há ainda quem se importa não só com os formatos mas também com os conteúdos. PM
 
96qualquercoisa Quando despimos o fino paletó de cinismo que usamos, primeiro uma manga, depois a outra, e ficamos como viemos ao mundo - como um Cousteau urbano sem escafandro - por vezes, mas só às vezes, a vida corre melhor. RB
segunda-feira, agosto 4
 
Muda-se de casa, muda-se de passado: Passei os últimos três dias em mudanças. De casa, entenda-se. Uma mudança de casa (e nos últimos cinco anos foram várias), é sempre um reencontro com o passado. Nunca senti nas mudanças de casa a perspectiva do futuro. O futuro vem depois. Entre a miríade de objectos que se transporta, escolhe-se o passado. Que passado quero que me acompanhe? De que passado posso ou quero prescindir?, são sempre as perguntas que me assaltam - e perturbam - numa mudança de casa. E descubro sempre, após cada mudança, que nunca encontro a justa medida do passado. Sendo que é, nesse momento, que entra o futuro. PM

 
Porque ontem era domingo...
«Houve alturas em que o meu corpo interferiu no amor.»
Margarida Martins, depois de ter perdido 60 quilos

«Furei a orelha, pintei o cabelo de louro e sinto-me bem. Só é pena que as pessoas julguem as outras pela imagem exterior.»
Abel Xavier

«Tenho hábitos típicos dos africanos. Espero um dia poder regressar a Moçambique e ajudar a desenvolver o meu país.»
idem

«Tudo neste local convida ao romantismo, à serenidade e ao amor.»
Alberta Marques Fernandes, em São Tomé, poucos dias antes do golpe de Estado

«Modéstia à parte, acho que quando o Paulo [Portas] está ao meu lado fica muito mais charmoso, mais solto, mais divertido, fica menos uma figura de Estado.»
Cinha Jardim

«Sou militante do partido, mas sou muito mais que isso, sou uma grande amiga, sou uma admiradora, sou tudo, uma fã, tudo, tudo.»
idem

«Adorei o discurso que o Paulo fez no jantar do partido. Identifiquei-me com tudo aquilo que ele disse, com todas aquelas palavras sobre ordem, sobre ideais de direita.»
idem

«Trabalhei no Ministério da Defesa até há um ano, altura em que me passei a dedicar apenas ao humor.»
Aldo Lima, actor

«Eu tenho namorada, ela é que se calhar acha que não tem namorado.»
idem

«Não tenho comentários a fazer sobre a minha vida pessoal.»
Marisa Cruz, numa festa com o seu novo namorado

«Sinceramente, com todo o respeito que me merece, acho que a Marisa [Cruz] já tinha idade para não andar a dizer certos disparates na imprensa.»
Pedro Granger, sobre a sua zanga com Marisa Cruz
As Selecções do FN (fontes: Caras e 24horas) voltam em Setembro; os posts continuam.

domingo, agosto 3
 
Em chamas Desesperado, despenteado, em cima do acontecimento. Quase juramos entrever uma lágrima discreta, compungida, a ameaçar surgir no canto do olho. "O que é que se há-de fazer?", pergunta com evidente desalento perante as câmaras, esmagado pela dimensão do que tem pela frente.

Durão Barroso ensaiou laboriosamente ao longo dos últimos dias o número da avozinha de província, assustada e horrorizada com a imparável voracidade das chamas que, em proporções inéditas há largos anos, engoliram casas, aldeias, e atingiram o centro de núcleos populacionais importantes. Como se esta chuva de incêndios completamente à deriva fosse apenas um capricho da natureza e uma conjugação de circunstâncias infelizes a que o Governo e o próprio Durão são completamente alheios.

Em parte, isto é verdade. Mas há a outra parte: a dos cortes na prevenção, na limpeza das matas, na vigilância, nos meios de combate aos incêndios; a do desnorte na coordenação dos poucos meios preparados; a da hesitação do Governo, ao longo de quase uma semana, em tomar medidas de emergência, não percebendo a tempo a dimensão catastrófica desta vaga de incêndios; a dos rearranjos institucionais nos serviços de bombeiros e de protecção civil, feitos com os pés e completamente a destempo. Tudo situações que em tempo útil foram denunciadas. Ora, esta parte da história não tem nada a ver com catástrofes naturais: resume-se à assumpção da responsabilidade política de quem tutela.

Ao que parece, há um ministro da administração interna. Chama-se Figueiredo Lopes e tem um ar patusco, vagamente simpático, de pré-reforma. Não se sabe o que tem para dizer sobre aquilo que lhe diz respeito nesta matéria; ouvimo-lo apenas criticar violentamente (e num momento bem oportuno) a actuação dos bombeiros na comunicação social. Depois, desapareceu sem deixar rasto, para a discreta penumbra em que está há mais de um ano e da qual sai muito raramente.

Tudo para ceder o grandioso palco de metade de um país em chamas incontroláveis aoprimeiro ministro. Que está muito comovido e impressionado com tudo isto. E que, ao que parece, convocou um conselho de ministros de emergência para tomar medidas para fazer face a este descalabro. O problema é que as medidas que realmente interessavam deviam ter sido tomadas há muitos meses; e as medidas para remendar esta emergência já vêm atrasadas vários dias.

Se este conjunto de factos insólitos não fosse trágico, dir-se-ia que estávamos em pleno auge da silly season. MC


sábado, agosto 2
 
Boris: O meu gato morreu esta noite.
A verdade é que eu nunca gostei muito de animais e quando o Boris veio cá para casa foi para fazer a vontade ao meu irmão. Mas fui-me afeiçoando (rapidamente, aliás) e hoje, quando lhe sinto a falta pela primeira vez, tenho dúvidas se conseguirei viver sem um gato em casa.

Os gatos são um pouco chatos. O meu costumava sentar-se entre o teclado e o monitor do computador, deitava-se em cima da televisão para se certificar que todos o admirávamos, apoiava-se na cadeira e nos meus ombros enquanto jantávamos e, sempre que alguém ligava uma torneira, ficava por ali à espera que lhe déssemos água com a mão em concha.
O Boris morreu esta noite e já tenho saudades da sua presença. MVS
sexta-feira, agosto 1
 
Médio Interior e Termotebe: Leio num jornal desportivo que Pedro Barbosa ocupa uma nova posição no plantel leonino – é um médio interior. Confesso que não sei bem o que é um médio interior, nem se tem ou não alguma relação com uma camisola interior, mas suponho que um médio interior seja algo que só se pode ser em fim de carreira e quando se é um falso lento, um jogador mágico. Barbosa está pelo menos protegido contra o frio do banco, já tem uma terbotebe.
MVS
PS: Este post provocará problemas familiares sérios já que o meu irmão é fã número 1 do Pedro. Miguel, DESCULPA!!

 
Legendas: Se, certamente equivocado, estiver a ver a TVI e passar uma legenda, não desespere. Ao fim de 150 caracteres perceberá se trata de uma notícia ou de uma telenovela. É mais difícil perceber a diferença se estiver a dar o Jornal Nacional. MVS
 
À janela, noparapeito: Há uns dias recebemos dois convites para visitar um blog, mas só hoje tive tempo de passar pelo parapeito. Do parapeito, a rita homenageia o Paulo (como nos tinham avisado) mas homenageia outras pessoas de quem gosta. Eu gostei muito de um post chamado A nossa escada porque o entendi muito bem, porque me revi muito nele. E porque há fechaduras que não se arrombam. MVS


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