<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
domingo, fevereiro 29
 
And the Oscar goes to ...


... Sean Penn. Este é o nome que eu gostava de ouvir anunciar hoje à noite, em Los Angels, como vencedor do Óscar para melhor actor principal. Porque tem uma actuação fabulosa como Jimmy Markum, em Mystic River; porque é o melhor actor da actualidade; porque é um crítico inteligente da administração Bush - muito mais do que Michael Moore alguma vez será. - JHJ
 
Ser Benfica


Distraímo-nos e a lagartagem violenta o blog. Há que repor a verdade histórica e recordar o passado mítico que nos levará, uma vez mais e apesar do presente, para o futuro. Esqueçamos os Presidentes que não deveriam ter existido, esqueçamos o Presidente que, de modo nojento, procura apagar a história, mesmo a que é negra e pensemos apenas nas camisolas, no velho terceiro anel dos jogos ganhos nas tardes de Domingo quando os jogadores sabiam o que fazer da bola. Esta equipa é da altura em que fiquei com o vírus e contraí a doença. Poucas vezes o mundo foi tão perfeito como quando o DIAMANTINO pegava na bola, avançava pela direita e centrava para o Nené. Por momentos, tudo adquiria um sentido, uma coerência fácil. Nas tardes solarengas de Domingo regressávamos sempre à meninice. Éramos 120 mil crianças que nunca, mas nunca enfrentávamos o sofrimento. É essa memória de felicidade que nos torna difícil encarar os Armandos Sás deste mundo. Mas é essa memória de felicidade que nos cria todas os fins-de-semana uma ansiedade incontrolável, que não queremos ter, mas à qual não conseguimos fugir. Um dia, não muito perto, não muito longe, voltaremos a ser crianças. Seis milhões de crianças. - PAS
sábado, fevereiro 28
 
Parabéns, Sport Lisboa e Benfica ...


... e obrigado pelas vitórias que nos tens proporcionado ao longo dos últimos 98 dos teus 100 anos. - JHJ
 
Gaca e Farfo, claro!
Já tem mais de uma semana, a polémica entre os Estrangeirados de Londres e de Paris sobre as referências gastronómicas de quem vive longe de Portugal. Por aqui, sinto que a distância física requer um certo grau de penitência. Hoje à noite, janto arroz de pato acompanhado por chouriço canadense e vinho tinto californiano, por opção. Só assim poderei viver religiosamente a próxima refeição num restaurante de Lisboa. - JHJ
sexta-feira, fevereiro 27
 
Preto, branco, e a sina do imenso mundo entre os extremos
O debate pré-eleitoral nos Estados Unidos em torno da questão do casamento entre homossexuais é um excelente exemplo do que está em causa em alguns debates caseiros, como o do aborto. E também do que significa ser de centro-esquerda (sendo certo que do lado de lá do Atlântico estas fronteiras são um pouco mais escorregadias).
George Bush II, presidente da “terra da liberdade” mas também dos “valores tradicionais”, lembrou-se agora de defender uma emenda à constituição americana no sentido de proibir os casamentos homossexuais, retirando assim aos estados autonomia para decidirem sobre esta questão. Os paladinos da “liberdade sem relativismo” (?), e por cá também são vários, devem andar exultantes, mas aqui se prova que o conceito de liberdade de que partem é muito, mas mesmo muito, relativo – e, acima de tudo, limitado.
Kerry, o cada vez mais provável candidato democrata, já respondeu: apesar de ser pessoalmente contra os casamentos gay, é também contra uma emenda constitucional que corte a liberdade de auto-regulação de cada Estado e dos indivíduos. Sendo certo que Kerry é noutras questões um personagem mais equívoco, o caminho do progressismo moderno tem de ser, em matéria de costumes, este: um liberalismo que permita a ampla e efectiva, e não apenas localizada e nominal, possibilidade de exercício das “consciências” e da liberdade. (Além do mais, e independentemente do que está em causa em termos substantivos, a separação entre a posição pessoal do candidato e a posição política dos democratas (lembra qualquer coisa, não lembra?) é pedagógica, de tão evidente e indolor.)
Nos capítulos que se seguem, já se sabe que Kerry vai apanhar pancada de todos os lados, em particular dos extremos: dos que estão a favor dos casamentos gay e dos que estão a favor da emenda. Estar longe das margens, e em particular no centro-esquerda, implica sempre ter de responder a frentes de pressão opostas. Mas como a realidade não é a preto e branco, é na matização dos múltiplos tons de cores que se jogam entre eles que faz sentido, e é sequer possível, imaginar as respostas para os problemas. Como dizia alguém, é a vida. - MC
 
Apologia e crítica da nulidade
Pegando na deixa, uma nota breve sobre o homónimo futebolistíco do blogger supracitado. Como se sabe, depois de ter sido (e utilizo um eufemismo) um grande jogador de futebol, Humberto Coelho apostou na reconversão profissional e passou a ser um treinador (recorrendo a outro eufemismo) reconhecidamente medíocre.
O curioso é que foi por ser medíocre como treinador que Humberto conseguiu um 3º lugar no europeu de 2000: a sua influência era quase nula numa equipa que se habituou há demasiados anos a mostrar o seu melhor quando deixaram os jogadores, quase sempre os mesmos, quase sempre com o mesmo esquema táctico, jogar sem interferências. Reparem na perversão: o melhor resultado de Humberto como treinador, e da selecção, foi conseguido demonstrando que o treinador, naquela equipa, não servia para rigorosamente nada. Já estava tudo inventado e, sem ponta de rasgo, foi só deixar tudo religiosamente (para o bem e para o mal) para os jogadores e para uma estratégia conhecida.
O problema surge quando o fulgor desse grupo queirosiano se vai desfazendo com o passar dos anos, entre a acomodação inevitável das gerações de ouro e a sobrecarga de muitos anos de competição. Oliveira, outro senhor de méritos reconhecidos no futebol português, primeiro dentro dos relvados e depois muito longe deles, chegou a pensar que, entre estágios atribulados e outros alhos no balneário que não lembrariam a quase mais ninguém, 2002 era o seu grande ano. Disse, e repetiu, que Portugal ia ganhar o mundial e jogou forte: metade na mesma táctica (a nulidade) e outra metade na chico-espertice com cheiro a vingança clubística (deixando o Rui Costa sistematicamente no banco). O resultado foi o que se viu.
É por estas e por outras que é interessante ver o que vai acontecer daqui a poucos meses. Scolari é, em dez anos, o primeiro treinador que está na selecção para o ser de facto. É certo que a selecção já estava a precisar desta mudança, mas Scolari apanha uma equipa cronicamente desequilibrada e cuja base está, cada vez mais, saturada e envelhecida. Ainda assim, se não se insistirem na assassina fantasia do favoritismo, pode ser que a coisa até corra bem. Se não correr, só não voltem a chamar um Humberto qualquer. - MC
 
Humberto Coelho assina pelo lado justo da história
A blogosfera à esquerda tem mais um reforço, neste caso socialista. Vale a pena dar uma vista de olhos no estaleiro. - MC
 
"Terrorismo cultural"
Segundo José Manuel Fernandes, o apoio de George W. à introdução de uma emenda na Constituição dos Estados Unidos que proíba o casamento entre homossexuais, reflecte a intensidade das “guerras culturais” norte-americanas e recorda-nos que nos EUA, ao contrário de Portugal, as coisas se discutem abertamente, com frontalidade, por vezes contundência, mas sobretudo argumentos.
Desta vez, o deslumbramento de JMF pela América deixou-o literalmente às cegas. De tal forma, que não deve ter assistido à forma militante como alguns dos mais mediáticos casais homossexuais norte-americanos se passeiam pelas escadas da Town Hall de São Francisco, ou à raiva espumada – é o termo certo – com que alguns dos mais fundamentalistas religiosos norte-americanos têm aparecido nos vários canais de rádio e televisão. De tão cego estar, JMF não viu, em directo na CNN, a troca de mimos entre o Mayor de São Francisco e a congressista do Partido Republicano que propôs a introdução da emenda na Constituição, nem viu, no mesmo programa, a lição de moral de um Pastor a um jovem homossexual enamorado. Não há dúvida que a discussão tem sido “frontal”, mas não é “melhor” nem “pior” do que o que se faz em Portugal. E quanto aos “argumentos” que JMF apregoa, estes não têm passado de um conjunto de citações da bíblia e de referências à tradição secular do casamento heterossexual.
Mas se JMF estivesse verdadeiramente preocupado com o-que-não-se-faz-em-Portugal-mas-se-faz-nos-EUA, teria escrito um editorial questionando a razão pela qual Villas-Boas ainda não defendeu, perante orgãos competentes, a sua tese em torno da funcionalidade sexual das mulheres [Ser lésbica não é ser mulher na plenitude natural do termo, porque se assim fosse não haveria o problema da procriação natural]. Luís Villas-Boas é o funcionário do Estado Português responsável pelo acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa e, como tal, dever-se-ia reger por um sentido de equilíbrio moral e de bom senso. Não o fez e isso é muito grave. Além disso, defendeu as suas ideias fazendo referências pseudo-científicas, o que é igualmente muito grave porque o argumento da “autoridade científica” pode ser perigosamente efectivo [A comunidade científica mundial sabe hoje que não existe homossexualidade genética; assim, uma criança que seja educada em ambiente homossexual tenderá a interiorizar atitudes, aprendizagens, reacções do ambiente onde está].
Luís Villas-Boas deveria ter sido ouvido por uma Comissão Parlamentar e aí confrontado as suas ideias com as dos seus pares. Deveria ter sido possível ouvir a sua opinião sobre outras questões, como a adopção de crianças por pessoas de diferentes etnias, credos religiosos, ou nacionalidades; por pessoas diferentes, em suma. E, acima de tudo, dever-se-ia ter tentado perceber se não é verdade que as leis de adopção muito rígidas só servem um elemento da sociedade portuguesa: as Instituições de Solidariedade Social que recebem apoios chorudos do Estado. E esta inquirição a Luís Villas-Boas deveria ter sido pública, para toda a gente ver. Isso sim, é algo que teria acontecido se Villas-Boas fosse norte-americano.
Nos casos da emenda à Constituição norte-americana e das afirmações de Luís Villas-Boas, não estamos perante “guerras culturais” como JMF nos quer fazer crer, mas perante uma forma de “terrorismo cultural” sustentado pelo fundamentalismo cristão das bases de apoio a George W. e de algumas estruturas de poder em Portugal. O mesmo fundamentalismo, aliás, que nos dois países tem servido de bandeira na luta contra a descriminalização do aborto. Abra os olhos, José Manuel Fernandes! - JHJ
quinta-feira, fevereiro 26
 
Eu gosto


Likes, assim se chama o primeiro álbum a solo de Dani Siciliano. Nele parecem estar todas as coisas de que Dani Siciliano gosta e, apesar de ter sido apresentado como sendo a senhora de Matthew Herbert a mostrar o seu próprio trabalho, a verdade é que, a maior parte do tempo, o que se ouve é a música como é feita pelo marido – e evidentemente que isso é uma qualidade. As micro-partículas de som que produzem uma amálgama idiossincrática, os ritmos com quebras abruptas e as melodias fragmentadas, com a voz que lhes dá alguma coerência. Enquanto Herbert, com Dani Siciliano, não põe cá fora o sucessor de Bodily Functions (estas coisas são imensamente subjectivas, mas é o único disco dos últimos 5 anos que não hesito em colocar no meu Top-10), só há boas razões para testar esta noite ao vivo, no Lux, Siciliano a solo.- PAS
 
Vox Populi
Por vezes, a realidade é mais criativa do que a ficção. Um bom exemplo disso são os inquéritos de rua dos jornais portugueses. Para mim, o melhor inquérito é o vox populi do jornal Público - uma boa amostra daquilo que nos habituámos a ver como «o carácter dos portugueses». Aqui ficam três exemplos. Primeira pergunta: «Pensa ir à pista de gelo que a câmara inaugura hoje em Lisboa?» Cláudia Carvalho, 20 anos, estudante, elogia a iniciativa do Dr. Lopes: «Na zona em que se situa alia o divertimento desportivo à diversão nocturna de Santos». Tem piada: eu acho precisamente o contrário. A inspecção das actividades «culturais» devia encerrar imediatamente a pista de gelo. Não tanto pela questão estética, mas principalmente por razões de segurança. Copos e patinagem no gelo são uma mistura explosiva.
Segundo exemplo: «Qual o futuro que pensa ser mais adequado para o Pavilhão de Portugal?» Cláudia Monteiro, 30 anos, advogada, foi lá pela primeira e última vez durante a Expo 98. Ainda assim, «acha» que é «uma infraestrutura mal aproveitada» (deve ser uma autocrítica) e que «deveria sofrer uma remodelação ao nível da programação». Acontece que uma remodelação a esse «nível» pressupõe que exista uma programação propriamente dita, coisa que, tanto quanto sei, a pala do arquitecto Siza ainda não testemunhou. Como diria a Leonor da Bernarda, estudante de 16 anos interrogada sobre o mesmo assunto, «Deveria haver mais publicidade». Não explicam... Só para receberem subsídios ou fugirem às obrigações fiscais é que os portugueses nunca precisam de explicações.
Terceiro e último exemplo: Concorda com a ida da Feira Popular para o Monsanto? Uma das inquiridas mais renitentes é a dona Isabel Pereira, reformada, 72 anos. «Acho mal porque não fica acessível como em Entrecampos.» É notável. Aos 72 anos, a dona Isabel Pereira lamenta que a montanha russa fique menos «acessível». «Acho que devem existir algumas manobras políticas neste caso», diz a rematar. Claro que sim. Neste caso e em todos os casos. Ai, estes políticos... - FN
quarta-feira, fevereiro 25
 
Esplanar
O verbo não existirá no dicionário, mas a expressão traduz bem uma das melhores coisas da vida: ficar na esplanada a beber copos, ler jornais, conversar e perceber quem passa. Conhecerei, a sério, a sério, duas ou três cidades. Quando as visitei pela primeira vez procurei seguir, freneticamente e conforme a geografia, os conselhos turísticos do Prof. Espada, as sugestões do dr. Prado Coelho e, mais modestamente, o guia Berlitz. Cansei-me. Agora quando viajo, cá dentro ou lá fora, a primeira coisa que faço é sentar-me numa esplanada. Ao contrário do que pensam os japoneses, esta é a melhor forma de conhecer outras culturas, «outras gentes». Acho, aliás, lamentável que os roteiros e a crítica privilegiem os museus e os restaurantes e nunca classifiquem as esplanadas. Foi, por isso, com desconfortável familiaridade que assisti, na semana passada, à chegada dos hooligans ingleses ao Algarve. Tinham à sua espera animação de rua, visitas guiadas, e mais umas palhaçadas que a região de turismo inventou. Desta vez de forma ordeira, ignoraram o folclore e instalaram-se na esplanada a conversar e beber litros de cerveja até à hora do Portugal-Inglaterra. Isto terá chocado a hospitalidade lusitana. Mas, tirando a cerveja (prefiro o gin tónico), se chegasse ao Algarve faria exactamente a mesma coisa, isto é: ficava o dia inteiro a esplanar. - FN
 
And the devil met the angel


Os primeiros sinais da idade estão à vista, as entradas maiores, o cabelo curto e uma boa disposição que substituiu a raiva de outrora. Por uma vez, Nick Cave tocou sem os Bad Seeds, acompanhado apenas por uma secção rítmica muito contida e por um violino/bandolim. Para além disso, só a voz e o piano, que muito raramente abandonou.
Todo o contexto, desde a sala, passando pela banda, acabando na audiência que também vai envelhecendo a olhos vistos, apelava à contenção. E o Nick Cave de agora é isso mesmo: uma contenção que parcas vezes é ultrapassada. Contenção nas músicas mais recentes, cheias de apelos ao (re)encontro com Deus e à pacificação, mas, também, na interpretação das músicas dos anos oitenta, que destilavam desconforto e ambiguidade na escolha do caminho entre o bem e o mal. A forma como cantou um novo “Mercy seat”, quase irreconhecível, com um tempo lento e sem a exasperação gritante de outras versões, para logo de seguida tocar o “God is in the house”, que sendo o paradigma dos seus novos tempos é também uma música na fronteira do bom gosto, é porventura o sinal mais claro de que Nick Cave já é outro. Igualmente portentoso nas interpretações, com um punhado de canções exemplares na intensidade, mas sem a chama de quem parecia estar a tocar num bar nos infernos, à espera de ser resgatado pelos anjos.
Ainda assim, o concerto foi um exercício de clarificação e muito melhor do que o último do Coliseu, onde claramente havia algo que já estava a acabar e o que havia de novo ainda não era dominante. Dito isto, independentemente das voltas que se dê, Nick Cave continua na galeria dos melhores fazedores de canções e, no meio da paz encontrada nos evangelhos, continua a haver sempre um momento onde o olhar perverso sobre o mundo predomina e é nesses momentos, quando o diabo e o anjo se encontram, numa combinação de amor, bem, mal, sexo, morte e salvação, que mais perto se fica da canção perfeita. E para além de Leonard Cohen não há muitos capazes de cantar estes temas do mesmo modo. Hoje, como ontem. - PAS
terça-feira, fevereiro 24
 
A Sofia Cerveira leu o país relativo


No suplemento Mil Folhas de 14 de Fevereiro, dia de S. Valentim, as respostas ao inquérito "os meus livros" ficaram a cargo da jornalista Sofia Cerveira, apresentadora de um dos meus programas favoritos: o Caras Notícias. Pergunta do mil folhas: Qual o último livro que leu? Resposta da Sofia: "Poesias Completas" de Alexandre O'Neill. - FN
segunda-feira, fevereiro 23
 
O Carnaval não faz mal, limpa-se ao jornal
Ele há dias em que não se pode sair de casa. O Carnaval é um deles. Os cortejos de meninas que desfilam em biquini, tão pálidas, tão impróprias, esforçando-se por fazer nascer na mente dos foliões um simulacro de desejo. Isto no meio de um frio de rachar em localidades como Aveiro, Póvoa do Varzim ou Torres Vedras. Ontem, na Póvoa, estiveram oito graus de máxima. As meninas, estremosamente treinadas, fingem um frênesi que verdadeiramente não sentem e que por isso a ninguém contagia. Pudera, com o frio que faz... Qualquer antropólogo oitocentista falaria de sociedades frias e quentes, e explicaria, sem se rir, que os níveis de actividade sensual variam na razão directa da proximidade ao equador, tal como os de actividade laboral variam na razão inversa. As invenções felizes do ar condicionado e aquecimento central não vieram modificar o cerne da questão. Voltando a Loulé. As pessoas que assistem ao passar do cortejo e que não estão ainda acoolizadas mostram uma cara de enterro. É que não há paciência para a estrela (ou nem isso) da telenovela brasileira que vem fazer de rei ou rainha, mostrar o corpinho se for o caso e ganhar uns cobres. Gostam sempre muito do país, é tudo muito lindo, muito animado, sobretudo as pessoas. Lição: desconfiar dos juízos antropológicos de um brasileiro a tiritar de frio.
São horas, demasiadas horas de transmissões televisivas completamente invisíveis. Um espectáculo da igualha do Natal dos Hospitais, mas em mais dias e ao ar livre. O país não pode ser assim tão rasteiro, tão foleiro, tão indigente como quando o vemos divertir-se ao Carnaval. Depois há sempre o Carnaval do Rio que dá em directo e em diferido. Confesso que até à meia adolescência via aquilo tudo na companhia do meu pai, penso que pelos mesmos motivos. Mas foi uma coisa que parou por aí. É claro que as bundas e pandeiretas em rodopio são soporiferamente envolvidas em elaboradas explicações dos enredos, das músicas, do significado histórico, do passado da escola de samba, dos seus grandes compositores. Descobrem-se grandes sumidades em «orientalismo» do Brasil. Ouve-se muito o nome já familiar daquela rua lisboeta: «Álvares Cabral». E fala-se em «pêros» de «Caminha». Pois. Coisa para entreter a esposa do tele-espectador.
Sobre divertida, é lúcida aquela frase segundo a qual o Brasil é Portugal levado às últimas consequências. O Carnaval é uma excepção eminente. A ideia «brasileira» de Carnaval quando transposta para Portugal não resiste ao puro frio, à chuva e à falta de jeito nacional para dançar o samba em Fevereiro. Temos esta ideia brasileira do Carnaval seja porque não há uma ideia portuguesa, seja por razões puramente comerciais. Contudo, quando a há, pior um pouco. O que não se limita à imitação fria e pálida, uma Las Vegas farsola ao contrário, é uma invencionisse de tradições que nunca existiram mas que, pelo andar do carro alegórico, ainda vão existir. Qualquer português responsável e preocupado com a identidade nacional devia lutar por todos os meios ao seu alcance contra o carnaval nacional.
O Carnaval vive escondido atrás de mitos bondosos. Porque é que ninguém diz o «óbvio ululante»? Os cabeçudos de Torres Vedras não têm piada nenhuma. As meninas dançam mal. Faz frio. E as meias de descanso não mascaram a má circulação em suas pernas. Não tem piada levar com ovos podres na cabeça, nem com bombas de mau cheiro no autocarro. Os carros alegóricos, em si uma ideia virtuosa, são mal feitos e decorados em estilo «barroco do Lidl», transformando-se em pouco tempo em plataformas móveis para arremesso de objectos bio-desagradáveis. As bisnagas e as fitas ainda vá. O Carnaval português é um estudo no mais puro mau gosto. - RB
domingo, fevereiro 22
 
Roth in Translation
«Eu tomo nota delas. Começa tu.»
«Como se chama?»
«Não sei. Como é que nós lhe chamamos?»
«O Questionário-Sonhando-com-Fujirmos-Juntos.»
«O Questionário-dos-Amantes-Sonhando-Fugir-Juntos.»
«O Questionário-dos-Amantes-de-Meia-idade-Sonhando-Fugir-Juntos.»
«Tu não és de meia-idade.»
«Com certeza que sou.»
«Pareces-me novo.»
«Sim? Bom, então isso terá certamente de aparecer no questionário. Tudo a ser respondido por ambos os candidatos.»
«Começa.»
«Qual a coisa que te irrita mais em mim?»
«Quando estás no teu pior, qual é o teu pior?»
«És mesmo assim tão vivaz? Os nossos níveis de energia correspondem?»
«És uma extrovertida equilibrada e charmosa ou és uma reclusa neurótica?»
«Quanto tempo demorarás a sentir-te atraído por outra mulher?»
«Ou homem.»
«Tu não podes nunca envelhecer. Pensas o mesmo de mim? Pensas de todo acerca disso?»
«Quantos homens e mulheres tens que ter ao mesmo tempo?»
«Quantas crianças admites que interfiram com a tua vida?»
«És organizada?»
«És completamente heterossexual?»
«Tens alguma ideia específica sobre aquilo que me interessa em ti? Sê precisa.»
«Tu dizes mentiras? Já me mentiste? Pensas que mentir é uma coisa normal, ou és contra?»
«Esperarias que te respondessem a verdade se a pedisses?»
«Pedirás tu a verdade?»
«Pensas que é um sinal de fraqueza ser generoso?»
«Preocupa-te o ser forte?»
«Quanto dinheiro posso gastar sem que aches mal? Emprestar-me-ias o teu cartão Visa, sem mais perguntas? Deixar-me-ias ter qualquer poder sobre o teu dinheiro?»
«Em que medida sou já um desapontamento?»
«O que é que te embaraça? Diz-me. Tens sequer noção disso?»
«Quais são os teus sentimentos em relação aos Judeus?»
«Vais morrer? Estás física e mentalmente bem? Sê específico.»
«Quão inepto serias se fôssemos descobertos? O que dirias se alguém entrasse por aquela porta? Quem sou eu e porque é que tudo estaria bem?»
«Que coisas não me dizes? Vinte e cinco. Mais alguma?»
«Não me lembro de mais nenhuma.»
«Gostava de saber as tuas repostas.»
«E eu as tuas. Tenho mais uma.»
«Sim?»
«Gostas do que eu visto?»
«Essa é cansativa.»
«De todo. Quanto mais trivial o defeito maior a raiva que inspira. É a minha experiência.»
«Muito bem. Última pergunta?»
«Já sei. Já sei. A última pergunta. Será que tu, de um modo qualquer, em qualquer canto do teu coração, ainda alimentas a ilusão de que o casamento é uma história de amor? Se sim, isso pode ser a causa de muitos problemas.»
[Philip Roth, Deception, Nova Iorque, Vintage Books, 1997, pp. 3-6.] - RB
 
O efeito Nader


- Do you believe that Al Gore would have invaded Iraq?
- He would have. I think he was a hawk. [...]
Ralph Nader, em resposta a Tim Russert no programa Meet the Press. Nader é considerado por muitos Democratas o responsável pela derrota de Al Gore em 2000, ao ter conseguido 3% dos votos nacionais enquanto candidato do Green Party. Hoje, anunciou que se irá candidatar como independente em 2004. Ainda bem que não posso votar. Um-dó-li-tá... - JHJ
 
[Extractos de] Poema

[...]
Mal sabiam os (...) grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
[...]
resististe
[...]
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo
caindo
caindo
caindo sempre,
e sempre.
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

António Gedeão, Poema para Galileo [extractos] - JHJ
sexta-feira, fevereiro 20
 
Ri de quê?


O dr. Durão hoje, à hora de almoço, prestou-se a um espectáculo televisivo deplorável. Todo sorridente, veio falar da situação orçamental de 2003 como se tivesse sido um sucesso. Depois de um ano que foi de verdadeira hecatombe orçamental, com um défice que só não foi acima dos 5% porque houve uma utilização de receitas extraordinárias irrepetíveis. Receitas extraordinárias que se têm transformado em manigâncias sucessivas. Quando há uma tragédia orçamental em curso (os dados da execução orçamental de Janeiro aí estão para o provar) e há mais duzentos desempregados por mês, resta saber porque é que o dr. Durão anda tão contente. A auto-satisfação do Dr. Durão Barroso é, como sempre, trágica.- PAS
 
Défices
É bom saber que o défice orçamental não ultrapassou os 3% do PIB. Mas teria sido igualmente bom se o primeiro ministro tivesse falado de outros défices. Por exemplo, do défice do bom senso, o qual terá atingido o valor mais elevado dos últimos anos, resultado das declarações de Villas-Boas. Ou, ainda, do défice de auto-rigor-orçamental que permitiu à ministra Celeste Cardona estimular o mercado do big jobs for small boys. Entre muitos outros, há ainda o défice de WMD no Iraque, o qual, por se pensar ser zero, legitimou a cimeira da Guerra, nos Açores.
Défices há muitos. Uns são menos de três por cento, outros muito mais. De uns fala o PM, de outros nem por isso. - JHJ
 
Fios invisíveis
Uma casa para alugar em Cacela Velha cuja escadaria desce escandalosamente até à beira da ria. Um terraço de hotel lisboeta que nos mostra a cidade na sua luz miraculosa e a Baixa como um cavo silêncio. Um terraço que nos dá a sensação de estar sempre vazio, escandalosamente vazio, de ali ter sido posto de propósito para nós.
A notícia destes lugares passa de boca em boca, entre amigos e sempre envolvida pela advertência «agora vê lá a quem é que falas disto, daqui a nada não se pode aqui vir...» Eu acho que a verdadeira medida da qualidade do lugar é o ir lá e não estar ninguém, o tentar alugar a casa duas semanas em Julho e estar disponível. Isso significa que cada novo membro da «irmandade» se manteve fiel ao pedido original. E a razão para o ter feito parece ser o respeito perante o deslumbramento. Por exemplo, nunca ninguém fez verdadeiramente «segredo» sobre o bar-terraço do CCB, o lá de cima. Era bom, muito agradável e tal – mas era só isso. Tanto assim, que está sempre cheio.
Estes lugares mágicos são uma espécie de sociólogos inesperados por ligarem pessoas entre si como penhores da sua quase secreta existência. Estas pessoas não se conhecem, poderão nunca se vir a conhecer, mas estão todas ligadas pelos fios invisíveis de alguém que um dia nelas confiou. - RB
 
Bend it like Beckham
Ao almoço, uma quesadilla de galinha e a televisão no canal ESPN a passar o top-10 dos momentos desportivos dos últimos dias. Em oitavo lugar, o golo de Pauleta no jogo contra a Inglaterra, com uma legenda de inspiração cinematográfica e paladar provocatório: Bend it like Beckham. Toma, vai buscar lá dentro!
Nos primeiros lugares do top, a referência à transferência desportiva do ano nos EUA. Alex Rodriguez deixa os Texas Rangers para se juntar aos Yankees de NY, embora se dissesse, há uma semana, que A-Rod iria passar a viver em Boston, casa dos maiores rivais dos Yankees. Mas esta transferência serviu também para ouvir George W articular, pela primeira vez desde que é presidente, três palavras seguidas sem se engasgar, ou quase: It, obviously, is a big deal. A-Rod's a great player and the Yanks are going to be a heck of a team with him in the infield. Curioso é o facto de antes de se ter tornado presidente dos EUA, George W ter sido governador do Texas e antes disso presidente dos Texas Rangers.... Hum, onde é que eu já vi este filme? Presidente de um clube torna-se governante local, para pouco tempo depois se tornar [ambicionar ser] presidente do país, sendo que a única coisa sobre a qual sabe elaborar é desporto, ou quase nem isso. - JHJ
quinta-feira, fevereiro 19
 
Ao azedume dos nossos companheiros,


Com um sorriso roubado, como as palavras, ao Nanni Moretti, dizemos:
"Non perdiamoci di vista. Ora che ci siamo ritrovati rimaniamo in contatto. Noi cittadini possiamo fare politica, possiamo farla con piacere e possiamo farla ognuno con le proprie idee ma rimanendo uniti, noi oggi qui siamo uniti."
Um abraço caloroso - PR
 
Shiatsu
Confesso, apenas meio na bricadeira, que até ontem a minha relação com a cultura oriental se limitava aos meus pais terem possuído gloriosamente um Datsun daqueles do Santinho Mendes, a ter lido o «Orientalism» do Said tarde demais, a ter visto «O último Samurai» e o «Lost in Translation» no mesmo dia, e a pouco mais. Era tão ignorante das coisas orientais que achava que uma “chinesa” era mesmo uma chinesa. Bom, mas tudo isso mudou ontem.
Depois de tocar à porta e entrar, entrei no quartinho e tirei os sapatos e o cinto. Sentei-me e começámos a conversar. Do «você» para o «tu»: o que fazia, o que sentia, se me doía alguma coisa. E ela, como tinha vindo ali parar, etc. Suponho que a ideia era colocarmo-nos à vontade, iniciar uma cumplicidade mínima, inventar uns metros quadrados de empatia. Afinal de contas, ali está uma pessoa, rapariga, que quinze minutos antes não me conhecia e que dois minutos depois me estará a massajar. Eu bem sei que isto pouco interessa quando as massagens são outras e aquilo por que se paga é outra coisa – mas quando não é isso, interessa e muito.
Por razões que não vêm ao caso, por duas vezes nas últimas semanas alguém me intimou: «dispa-se da cintura para cima e desaperte as calças». Eu estava sentado no quartinho a falar com ela e ia-me lembrando disso. Ela disse-me: «vamos começar?». «Vamos...devo tirar a camisa? é que nas últimas duas semanas...» Corta ela: «Não, vestido. Os orientais têm muito pudor». «Óptimo», pensei. Assim fiquei: todo vestido, estendido no escuro, curioso. No chão, lembrei-lhe que no Lost in Translation o Bill Murray contava que tinha uma rigidez nos ombros e que foi fazer uma massagem shiatsu e que essa rigidez foi substituída por uma dor insuportável, e se me ia acontecer o mesmo. Ela nada. Eu: «já vi que era para estar calado um bocadinho». Ela, mas com doçura: «Pois. É que eu não tenho vontade nenhuma de falar» e ia aquecendo as mãos, esfregando-as uma na outra em círculos.
O shiatsu funciona através de toques e pressões em certos locais do corpo, e de alguns alongamentos. A teoria que ela me explicou é que no corpo humano circulam fluxos de energia que passam por determinados pontos e que podem ficar represados nesses pontos, traduzindo-se em dores ou sintomas reflexos. O objectivo da massagem é desbloquear esses pontos. Começa pelo estômago, depois a cabeça, pescoço e ombros, os braços, depois as pernas e os pés. Demorei um bocado até me esquecer que ela estava de volta de mim a fazer todas aquelas coisas e a parar de me perguntar «onde é que ela meteu a perna direita para estar a fazer isto?» A pouco e pouco, senti-me sonolento e ela desapareceu como alguém que estava ali de um lado para o outro a fazer coisas e passou a ser apenas o toque e a tensão que as suas mãos me transmitiam. É nesse momento que a coisa começa a funcionar como deve.
Isto de si já era bom. Ela acaba a massagem e sai sem dizer nada, encostando a porta com cuidado. O melhor estava ainda para vir. - RB
 
Afinal, navegar ...
... pela internet é como passear pela rua: nunca se sabe que surpresas nos reserva o virar da esquina. - JHJ
 
Disfuncionalismos
As declarações de Luís Villas-Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa, ao jornal Público de ontem, são muito graves e fizeram-me desviar os olhos de uma tese que teima em não ganhar peso. Muito graves, porque são de uma intensidade homofóbica que julgava exclusiva da bible belt norte-americana. E muito graves, porque foram proferidas por alguém que preside a uma Comissão, onde, pela sua natureza sensível, deveria imperar o equilíbrio moral e o bom senso.
A decisão de um casal em adoptar uma criança é, muito provavelmente, das mais escrutinadas e reflectidas que duas pessoas podem tomar, e a paternidade que daí resulta está longe de ser menos activa do que muitas de natureza biológica. A disfuncionalidade paterna existe em todo o lado e tem várias facetas. A nível sexual, é incidente em muitos casais heterossexuais, e não é de todo irrelevante saber que, de acordo com um relatório do MAI, a violência doméstica e os maus tratos a crianças são os principais problemas de segurança em Portugal.
A paternidade não é uma uma condição exclusivamente biológica. É, igualmente, uma condição económica, social e cultural, e é ridículo que o presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa não perceba isto. Aliás, as leis de adopção muito rigídas tendem a prolongar o sofrimento de muitas crianças sujeitas às degradantes condições da maioria das instituições de acolhimento. Sendo director do refúgio Aboim Ascenção, o senhor Villas-Boas deveria perceber que a paternidade não tem sexo. É uma condição. Uma atitude. Onde é que estão as figuras paterna e materna numa instituição de solidariedade social? Dir-me-á Villas-Boas que podem ser representadas, em última instância, por Jesus Cristo e pela Virgem Maria, e eu pergunto onde reside a funcionalidade sexual de uma mulher que se diz ter sido fecundada por uma luz e engravidado virgem.
Há, nisto tudo, uma outra questão que me deixa muito triste. Vivo longe de Portugal há três anos e meio, e hoje, à distância, Portugal parece-me um país agarrado a falsas morais, sem fundamentos históricos ou maioritários. Tão só, os pequenos poderes parecem ter-se tornado muito mais eficientes. Poderes exercidos por pessoas como Villas-Boas, que do topo de toda a boa vontade do mundo se tornam uma ameaça funcional ao progresso de Portugal e aos valores que o representam. - JHJ
 
PPD/PSL
Na entrevista que concedeu ao Expresso, Santana deu a entender que estão reunidas as condições para avançar com a sua candidatura às presidenciais. A falta de obra em Lisboa não é problema. O túnel, a rua da Madalena, a nova feira popular, as piscinas (finalmente!), prédios recuperados, etc. «É tanta obra! Vem aí muita medida. Vai ser um caleidoscópio.» Um autêntico Big-bang em Lisboa. É preciso é que acabe a descoordenação política no governo. Sem ninguém lhe falar em nomes, Santana disse o seguinte, a propósito do tema: «Eu não vou falar de José Luís Arnaut» (sinónimo de falta de vocação política). Só que acabou mesmo por falar: «José Luís Arnaut, sendo secretário-geral do partido, está debaixo de fogo. Esta acumulação deve acabar no próximo congresso.» Trata-se da mais ignorada (e descarada) declaração de guerra da entrevista. Para Santana, o melhor era Arnaut ser substituído por alguém «com mais tempo para o partido». Talvez um Rui Gomes da Silva, um Pedro Pinto ou um José Raúl dos Santos... - FN
quarta-feira, fevereiro 18
 
A difícil arte de citar
Na literatura jornalística portuguesa, há casos conhecidos de abuso do tipo de estratégia que Eduardo Prado Coelho de vez em quando usa para preencher o fio do horizonte, uma estratégia que consiste em encher, como ontem, a coluna quase inteiramente de citações. Assim de repente, vêm à memória Luís Delgado e o seu memorável best of pessoal de frases de Cavaco, ou os lapsos em formato copy/paste compulsivo de Clara Pinto Correia.
A diferença, e não é pequena, é que Prado Coelho domina como poucos a arte da citação: não só escolhe na maior parte das vezes passagens com interesse, manifestamente ao contrário de Delgado, como ainda por cima se vai lembrando de usar as devidas aspas, manifestamente ao contrário de Clara Pinto Correia.
O texto de ontem, quase integralmente composto por recortes de citações, é oportuno para relativizar as histerias simétricas dos americanistas e anit-americanistas que nos últimos tempos nascem em cada esquina: um americano anti-americano, ou a ficção como impiedosa agitadora de consciências do lado de lá do atlântico.Por cá também fazia jeito. - MC
 
Quem são afinal os saudosistas do passado?
Depois das espantosas declarações do Dr. Portas, sobre o COPCON, o Marechal Spínola, o 11 de Março e outros assuntos de assinalável actualidade, eis que o dr. Morais Sarmento, à saída do Conselho Nacional do PSD de ontem, resolve adoptar a mesma linha, criticando a data escolhida pela CGTP para realizar uma jornada de luta. Os portugueses andam todos muito preocupados com este assunto. Afinal, o 11 de Março é, ainda hoje, um assunto de relevância estratégica para o país.
Em todo o caso o melhor será falarem com o dr. Portas, que é especialista em assuntos de memória, para que seja possível recuperar a posição do PSD em 1975 aquando do 11 de Março. No meio disto tudo, a verdade é que não lembra rigorosamente a ninguém que o PSD, mais uma vez pela voz de um dos seus vice-presidentes, ande a reboque de mais um dos disparates passadistas do dr. Portas.- PAS
 
Dr. Estranho Portas


O Dr. Portas continua alerta face à hidra revolucionária. Enquanto a esquerda ameaça a sobrevivência e a liberdade do CDS/PP, porque a perigosa e temível organização que dá pelo nome de Intersindical marcou uma jornada de luta para o dia 11 de Março do ano da graça de 2004, o Dr. Portas, com o seu olhar de visionário obcecado, rejeita o rótulo de extrema-direita. Isto tudo porque “o CDS é um partido firme nas convicções e moderado nas soluções”. Um bom exemplo dessa moderação é a forma como o dr. Portas olha para o 11 de Março, recuperando papões que só existem na cabeça dele. Afirmando que “tem memória”, e segundos depois de afirmar a sua moderação, ei-lo lançado numa diatribe contra este longínquo dia, momento em que “foi dado cabo da nossa economia”. Como é sabido, a economia portuguesa caracterizava-se, já à data, pelo particular dinamismo e pela aposta na inovação. E os empresários pelo costumeiro gosto pelo risco e pelo empreendedorismo, que só décadas de condicionamento industrial são capazes de produzir. Foi um azar do caraças, porque se não tem havido 11 de Março (se por exemplo, tivéssemos saltado do dia 10 para o dia 12), nós tínhamos escapado a dois ou três choques petrolíferos e lá íamos, alegres e contentes, na vanguarda da economia internacional. Seríamos um autêntico oásis de pujança e crescimento sustentável. Mas os sacanas dos comunas, num só dia, deram cabo disto tudo. E agora querem voltar, vinte e nove anos depois, para fazerem a mesma coisa. Mas o que nos vale é que o Dr. Portas tem fatos às riscas com lençinho no bolso do casaco e claro, memória. O que seria de nós todos sem ele. - FN/RB
 
More than this

Ele descia as escadas do Cambridge School na Guerra Junqueiro com uma amiga quando a viu entrar. Sem pensar duas vezes, ou sequer de todo, deu bruscamente a mão à amiga mesmo a tempo de que ela os visse quando se cruzassem. A que vinha a entrar era aquela miúda de quem ele gostava no liceu mas que até esse dia não lhe ligava nenhuma. Uma semana, nem tanto, depois da cena do Cambridge eram já namorados.
E a amiga a quem ele deu a mão? Do que lhe aconteceu a seguir nunca rezam as histórias. As histórias rezam sempre do par romântico ou melhor: acabam quase sempre no parágrafo anterior. A amiga a quem ele deu efemeramente a mão ficou, naquele momento, surpreendida. Quando chegou a casa já ia amplamente esclarecida sobre as tácticas liceais de fazer ciúmes. Sentiu pela primeira vez – esta e a frase anterior indicam que ainda era ingénua – uma coisa que mais tarde sentiria muitas vezes. Apesar de divertida com a situação (ou por causa disso mesmo), sentiu-se mal, ligeiramente usada, desajeitada e pouco sábia. Não foi só por isso, claro, mas nunca mais se cruzou com uma rapariga na rua sem que a medisse da cabeça aos pés, e nos sítios certos. Ela e as outras a ela. Tinha quinze aninhos na altura do Cambridge. Quinze anos passados, foi ver o Lost in Translation. Lembrou-se da historieta e ocorreu-lhe que se calhar a vida tem muito disso, de raspões cúmplices de uns pelos outros, ao descer escadas mais ou menos longas. Que se calhar é como a letra da canção que o Bill Murray canta no karaoke olhando para a Scarlett Johanson, e não há more than this. Assim que pensou isto, sentiu-se in the mood for love. Foi ali ao Blockbuster e alugou o dvd. Agora a sério: assim que pensou isso, sentiu-se pronta para se apaixonar para sempre.- RB
terça-feira, fevereiro 17
 
Da capitulação da direita na blogosfera
Um tipo vai almoçar com os amigos e com a digestão feita eles resolvem fazer disparates destes. Dá que pensar.- PAS
 
O radicalismo
Não há demasiado tempo, o secretário-geral do PS alertou para a deriva radical deste governo, por força do peso excessivo do CDS/PP na marcação da agenda e na gestão de dossiês essenciais. Na altura, entre a avalanche de críticas, a mais surpreendente terá sido a que apelidava Ferro Rodrigues de radical por sublinhar o que se tem tornado uma evidência – este governo tem descentrado a agenda política tradicional do PSD para a direita, radicalizando-a. Aliás, não deixa de ser sintomático disto mesmo, que Santana se apresente como o candidato da sobrevivência da coligação e, ao mesmo tempo, cole a Cavaco a imagem de candidato da “história do passado” e alguém incapaz de sustentar a actual coligação. Sendo que o passado é sinónimo do PSD centrista e o futuro confunde-se com a fusão dos partidos da coligação numa única entidade, sob a tutela de um candidato a presidente cujo programa se reduz a querer mudar o “posicionamento de Portugal no mundo” (a agenda tradicional do CDS/PP eurocéptico) e a fazer sorrir os portugueses (o que Santana faz com assinalável sucesso há vários anos, basta recordar a sua participação nesse programa de televisão indecoroso chamado “Cadeira do Poder”).
No meio do turbilhão de insultos e de ataques de carácter que caracterizam a intriga interna do PSD, não deixa de ser significativo que, apenas seis meses depois das palavras de Ferro Rodrigues, sejam cada vez mais as vozes internas do PSD a mostrarem a sua preocupação com as cedências ao CDS.
A crer no DN de hoje, “a crescente subalternização do PSD face ao partido mais pequeno da coligação não está a ser encarada com bons olhos por alguns sociais-democratas, que deverão hoje exprimir o seu desagrado perante o presidente do partido. Vários deputados do partido laranja contactados pelo DN não escondem o seu incómodo por ver o PSD «andar cada vez mais a reboque» do CDS e querem que o primeiro-ministro ponha um ponto final nesta situação”.- PAS
 
Santana, a nossa Evita Perón
Eu também acho que Santana Lopes representa aquilo que de pior um político pode oferecer à democracia portuguesa, nomeadamente o ajudar a enterrá-la, substituindo-a irresponsável e indesejavelmente pelo populismo e a mais pura demagogia. Sobre isso, o Filipe já disse tudo ou quase tudo. Mas valerá ainda a pena sublinhar a absoluta vacuidade do seu pensamento político (a expressão “pensamento político” não chega a fazer verdadeiro sentido no seu caso). Sobre ele se poderia dizer o que Ramalho Ortigão disse de Anselmo Brancaamp no «Álbum das Glórias»: é o nevoeiro feito estadista. O argumentário político de Santana simplesmente não existe – é vento, é movimento para nenhum lado. Sobre tudo o mais, é perigoso. Mas.
A razão deste – mas – está na sua personalidade. Marcelo disse no outro dia, por uma vez não sobre Santana, que um homem tem os defeitos das suas virtudes. E eu acho que Santana é espessamente humano nos seus supostos defeitos que supostamente o não recomendam para cargos políticos. O gostar de se divertir e de beber um copo, as mulheres que teve ou vai tendo mas com as quais não vê necessidade de se casar para ser presidente, a coquetterie, o marialvismo e as parvoíces como aquela do cruzeiro da Caras. Até as fúrias com que, ao que parece, distingue assessores e secretárias. Criticáveis, algumas, sem dúvida. Humanas, todas. Poucas coisas me metem mais medo que a santidade. Falo da genuína porque da sonsinha nem vale a pena. A santidade tem qualquer coisa de profundamente autoritário e de negação do humano que, a mim, me afasta e faz desconfiar. Não vejo nela um modelo, embora nela possa encontrar inspiração ambígua (Frei Tomás é um nome que ocorre). Santana não é nenhum santinho e é bastante menos hipócrita que outros que têm a boca sempre cheia da mais sensaborona ortodoxia. E depois tem ar que se diverte bem mais na vida do que os infatigáveis zeladores do politicamente correcto que o perseguem. E não se pense que é só fama sem nenhum proveito. Basta lembrar que Santana tinha, na sua vitória à presidência da Câmara de Lisboa, o friso das ex-mulheres a bater palmas em uníssono – o que não é fácil, convenhamos. Tiro-lhe o chapéu, mas não voto nele.- RB
segunda-feira, fevereiro 16
 
O campeonato da hipérbole
Durão Barroso com o "País está de tanga" e Luís Filipe Vieira com o Benfica que ia "arrasar Portugal e a Europa" são apenas alguns dos participantes da minha imaginária Liga do Exagero e do Disparate. Hoje, no Telejornal, José Rodrigues dos Santos anunciou com estrondo a sua entrada na competição; perante a decisão da Câmara Muncipal de Lisboa de criar 10 novas faixas 'bus' e instalar uns separadores, JRS não se poupou a esforços: "Lisboa vai ter um novo sistema de transportes". Nem mais. Entrada directa para o top-5.- PE
 
Então e mais ninguém pode dar contributos?
A crer na notícia do Público, “nos dias que correm, quem fala mais em remodelação e quem reclama que ela aconteça o mais rapidamente possível não são os partidos da oposição, mas os próprios membros do Governo. Informalmente, Durão Barroso já tem a lista dos pedidos de saída do Governo na próxima oportunidade.
Ao fim de quase dois anos, existem focos de tensão em cerca de metade dos ministérios. Em muitos casos, as divergências não são essencialmente programáticas, nem se trata de PSD versus CDS, mas decorrem de confrontos de estilos de trabalho e de desconfianças pessoais. Um dos factores que está na base dos problemas reside na própria forma como este Governo foi constituído, sublinha ao PÚBLICO um membro do Governo. O primeiro-ministro Durão Barroso convidou ministros e distribuiu pelas secretarias de Estado vários "barrosistas", que consideram que o primeiro-ministro lhes deve a vitória nas legislativas. Poucos foram os ministros que tiveram luz verde para constituir a sua equipa.”
Não é possível deixar de sentir uma ligeira frustração com mais esta tentativa do governo em monopolizar a pancada no governo. Que papel cabe às oposições? Não é possível dar alguns contributos para a remodelação que o Governo vai fazer a seguir à derrota nas europeias? Ou os contributos da oposição têm o efeito contrário. Por exemplo, será que se a oposição exigir a demissão de um ministro isso torna-se um seguro de vida para esse ministro? Ainda assim, mais do que a critica da oposição, a melhor táctica para assegurar a permanência no governo continua a ser a inscrição no CDS/PP. Melhor do que isso, só mesmo a conjugação das duas condições. - PAS
 
Nem Fátima escapa ao que por aí vai
Um cartaz publicitário, numa parede algures: "14 de Fevereiro de 2004 ofereça o presente ideal... Uma noite com alojamento em quarto duplo, pequeno almoço e jantar à luz da Vela". Válido para duas pessoas, tudo por apenas 65 euros. No Hotel de Fátima, em Fátima, na Avenida João Paulo II. O que diria Sua Santidade se soubesse, sonhasse, o que se passa ali mesmo, na rua dele, bem perto do santuário? E os católicos, não fazem nada? - MC
 
A canoa de Pedro


Depois de deixar Cavaco KO, na segunda parte da entrevista ao Expresso, Santana tenta desvendar o seu «programa» e a sua doutrina sobre o papel do presidente da República no sistema político. E é aí que as coisas se começam a complicar. O seu programa presidencial resume-se «à reforma dos poderes do Estado e à mudança de posicionamento de Portugal no mundo». Sobre a reforma dos poderes Santana não adianta muito. Relativamente ao posicionamento de Portugal no mundo, diz que «temos sido excessivamente europeístas». Provavelmente, a estratégia passa por «reposicionar» o território nacional, enviando o país para África ou outro continente – um pouco na linha das mudanças de localização do Casino de Lisboa e da Jangada de Pedra do censurado Saramago (neste caso trata-se de uma Canoa de Pedra, já que a Espanha não deve vir atrás).
Quanto ao papel do presidente da República, Santana pensa que «o Chefe de Estado tem um papel novo a desempenhar nas sociedades contemporâneas». Um papel novo que desafia tudo o que se escreveu sobre sistemas de governo. Para Santana, o PR não deve ser um contra poder, mas isso «implica que tenha espaço próprio»; «não deve ser mudada a lógica do sistema de governo», embora «deva haver uma alteração do que é o papel do PR»; o PR deve ser «um poder moderador», o que não impede que tenha «um papel galvanizador». Aliás, Santana vê o primeiro-ministro «como a dona de casa», expressão utilizada por outros autores (Mário Soares, 1999) para descreverem a senhora que presidiu durante seis meses ao Parlamento Europeu. Para além destas contradições, ainda sobra outra dúvida relevante. «É possível ser-se candidato a Presidente da República sem primeira dama?», pergunta o Expresso. «Acho que tem de haver sentido da responsabilidade perante a nação que se representa. Por isso, quem lá chegue assim, assim deve estar», responde Santana. Aparentemente, a vontade de ser presidente é tal que Santana admite fazer um voto de castidade, casando-se definitivamente com a pátria. «O meu processo racional está concluído», disse Santana Lopes ao Expresso. De facto, a avaliar pelo conteúdo da entrevista, o mais provável é que, aos 49 anos, o «processo racional» de Santana ainda não tenha sequer começado. - FN
 
Cavaco KO


Na entrevista ao Expresso, Santana Lopes apresenta-se como uma personagem do Matrix. «Há uma matriz, um chip que está dentro de mim: um governo, uma maioria, um presidente. Eu quero ganhar as próximas presidenciais». Em seguida, procura traçar o perfil do candidato presidencial do centro-direita. «Eu acho que o Presidente deve saber ouvir, deve saber sorrir, puxar pelo optimismo do país», tudo coisas que, infelizmente, não recomendam o prof. Cavaco Silva. Por outro lado, o Presidente «tem em primeiro lugar que saber unir a coligação». Ora, toda a gente sabe que o prof. Cavaco não aguenta estar ao lado do dr. Portas. A presença do ex-director do Independente faz com que o professor comece a espumar. É algo mais forte do que ele. E isto «não são rumores, são verdades», esclarece Santana. Portanto, se Cavaco fosse presidente isso significaria, nas palavras de Santana, «a dissolução da coligação com o CDS».
É uma pena, porque Santana admira bastante o prof. Cavaco, e até «espera estar presente» no lançamento da autobiografia do ex-primeiro-ministro - «um livro muito útil para fazer a história dos tempos passados de Portugal». Na entrevista, Cavaco surge como uma figura remota, de interesse meramente arqueológico, sendo o seu livro elevado a obra de referência «para fazer a história dos tempos passados», a par das crónicas de Fernão Lopes e das pinturas rupestres de Foz Côa. Como se não bastassem estes elogios ao professor, pelo meio, Santana ainda consegue mostrar a Durão quem manda: «não há um só candidato a primeiro-ministro». Está tudo em aberto. Mas atenção: «se o professor Cavaco tomar em tempo a decisão de se candidatar, não haverá disputa» da parte do dr. Lopes. Se o prof. Cavaco for pontual, esqueçam tudo o que ficou dito atrás. Até porque, embora não pareça, «neste momento o mais natural é a recandidatura a Lisboa», diz Santana. - FN
domingo, fevereiro 15
 
O 'chip' que está em mim


"Há uma matriz, um 'chip', que está dentro de mim: uma maioria, um governo, um Presidente." Pedro Santana Lopes, segundo o Barnabé. - JHJ
 
«Powerbox»
Depois de um ano de interregno, voltei a assinar a Sporttv. Na tvcabo convidaram-me a adquirir a moderna powerbox, um sistema digital que está a substituir as velhas caixas e que, supostamente, tem «imensas potencialidades». Confesso que ainda não aproveitei as potencialidades, mas já experimentei os inconvenientes. Frequentemente, a imagem dos canais surge distorcida por «problemas de recepção do sinal». Como se isto não bastasse, a imagem vem com um atraso de 20 segundos, à semelhança do que se passa nos Estados Unidos pós-Janet Jackson. Moral da história: paga-se mais por um serviço que é pior. A isto acresce o facto de eu ter como vizinho um fanático do Sporting, que é proprietário da caixa velha. Ainda eu não vi os golos e já está ele aos gritos com o CD da Juve Leo no volume máximo. Poder-se-ia pensar que isto só acontecia nos jogos do Sporting. Puro engano. Como qualquer bom sportinguista, ele também grita e mete o dito CD quando joga a selecção nacional e sempre que o Benfica ou o Porto levam golos (competições europeias incluídas) - o que representa, no conjunto, 90 por cento dos jogos que eu costumo ver. Alguém sabe onde é que se vendem as caixas velhas? - FN
 
O governo faz mal à saúde
Associo-me à indignação do Daniel Oliveira. Certamente inspirado nos planos quinquenais do camarada Mao, Durão Barroso lançou por estes dias um sinistro «Plano Nacional de Saúde». O plano visa «a alteração de comportamentos sociais nefastos para o bem estar», e prevê a proibição de fumar no local de trabalho. Neste caso concreto não se trata de comportamentos sociais ou de bem estar social. Do que se trata é de alterar, por decreto, um «comportamento individual» que apenas prejudica «o bem estar» ou a «saúde» de quem conscientemente o pratica. Nem venham com a história das despesas com as vítimas do tabaco. O que se gasta no serviço nacional de saúde com os fumadores poupa-se na segurança social. Esta é uma medida tipicamente totalitária, que merece o combate de todos os verdadeiros liberais, fumadores ou não. - FN
sábado, fevereiro 14
 
Se este fosse um blog marxista
Se este fosse um blog marxista, recorríamos irresistivelmente a poemas como este. A toda a hora.

Factory

here
it is dawn eternally
hour of awakening
hour of revolutionary prophecy
hour of the embers dead
time of the days work
without end

there we built the night
as we lit the fire
lay down in it
pulled up the dark as blanket

near fields were
the breath of animals asleep
quiet as the earth
warm as the fire

cold is the pain of believing
warmth will never return

here
night is time forgotten
eternal dawn
and in the cold I dream
of how the pine
burnt
like a dog’s tongue
behind its teeth.

John Berger, Pages of the wound – poems drawings photographs 1956-96. - MC
sexta-feira, fevereiro 13
 
Betão, esse instrumento pedagógico
O homem "que um dia chegou a estar ao lado de Sá Carneiro num congresso do PPD-PSD", promete revolucionar a circulação dos transportes públicos em Lisboa. Para tal, Santana Lopes, que diz ter-se inspirado(?) no "modelo de Paris", vai promover a construção de muralhas de betão a delimitar algumas das faixas de circulação "Bus" da capital. Com que objectivo? Fazer aumentar em pouco mais de 15%, a velocidade média dos autocarros da Carris, que é actualmente de 15 km/h.
Mas não é tudo. Como a pedagogia do betão poderá não ser suficientemente dissuasora, a Carris irá ter ao seu dispôr três automóveis de fiscalização - três! -, não vá haver quem se sinta tentado a invadir terrenos alheios. Fica por saber se estes circularão dentro ou fora das vias muradas. Ou se serão capazes de o fazer de todo! - JHJ
 
"It was twenty years ago today"



But don't forget the songs
That made you cry
And the songs that saved your life
Yes, you're older now
And you're a clever swine
But they were the only ones who ever stood by you

The Smiths (Rubber Ring)

obrigado à quinta coluna por assinalar os vinte anos da melhor banda de todos os tempos, de quem é quase impossível escolher apenas dez canções para nos salvarem a vida. - PAS

quinta-feira, fevereiro 12
 
Tozé Martinho e o socialismo liberal
Na blogosfera, estamos sempre a aprender sobre coisas novas. Aqui têm mais um relevante contributo do socialismo liberal para a sociedade portuguesa: um esboço de "história de vida disponível para a comunidade científica". Neste caso, a história de Tozé Martinho, que por todo todo o seu percurso ímpar, há muito merece um destaque mais de acordo com o infindável carinho que os portugueses dedicam a um dos nossos grandes actores. - MC
 
I have a dream
É inevitável regressar a Avelino Ferreira Torres. Rui Baptista, jornalista do Público, revelou o «sonho jamaicano» de Avelino na melhor reportagem dos últimos tempos. Parece que há dez anos, enquanto molhava os pés nas águas mornas das Caraíbas, Avelino sonhou com piscinas, cascatas e muitas flores, num palácio abençoado por um Cristo-Rei de braços abertos para o Douro. É a democracia-cristã em acção: o autarca sonha, o ucraniano trabalha e a obra nasce. A obra nasceu mais precisamente num terreno que, como lembrou o próprio Avelino em conferência de imprensa, «estava à venda há mais de doze anos». Ou seja: Avelino sacrificou-se mais uma vez pela sua terra.
Estranhamente, há quem conteste o sonho jamaicano de Avelino, «acusando-o de um comportamento menos transparente na aquisição das parcelas de terreno e na abertura de ruas municipais», escreve Rui Baptista. Para Avelino, essas pessoas não passam de «psicopatas ao serviço do bando do pistola» (não confundir com o bando do Buscapé da Cidade de Deus). O «bando do pistola» é composto por «jornalistas pouco escrupulosos» (uma redundância), um «funcionário público relaxado» (outra redundância), «um filósofo barato» (deve ser o professor que o PSD quer candidatar contra Avelino), «um ex-deputado envolvido em viagens fantasma» (o Batman?) e, como não podia deixar de ser, «um molestador de crianças» (alguém do PS local?). São uma espécie de Irmãos Metralha da política que querem acabar com a fulgurante carreira do autarca marcoense. Avelino sabe bem quem eles são, e só não os denunciou porque, oportunamente, o seu advogado o «desaconselhou». Resta-nos, portanto, esperar por uma próxima edição do Expresso ou mesmo do Inimigo Público.
De resto, a campanha para Amarante está imparável. «A não ser a morte, nada, rigorosamente nada, será capaz de me impedir de ser o próximo presidente da câmara de Amarante», diz Avelino. Nada, rigorosamente nada. Nem mesmo os eleitores. Especialmente se os colocar no mesmo sítio em que deixou os jornalistas na conferência de imprensa da semana passada: «empoleirados em cadeiras de plástico à beira de uma varanda sem protecção», segundo o Público. Mas mesmo sem rede, houve uma jornalista da Renascença que lhe fez uma pergunta mais atrevida. Avelino não a deixou sem resposta: «Não sabia que numa rádio católica aceitavam pessoas com tão poucas maneiras». Ainda assim, Avelino deve ter gostado do género, porque logo de seguida tentou, à sua maneira, seduzir a jornalista: «Você é muito bonita. Se tivesse que fugir com alguém escolhi-a a si». Se tiver que fugir para o Brasil, pelo menos não vai sozinho. - FN
 
Rumo ao Jamor

- FN
quarta-feira, fevereiro 11
 
O senhor cunha vaz
O senhor Cunha Vaz, que pode ser conhecido de alguns por juntar palavras umas a seguir às outras no Diário Económico e aquilo sair um chorrilho de insultos boçais, que o próprio, do baixo dos seus escritos insidiosos, considerará artigo de opinião, é agora director de comunicação do Benfica. O nível do personagem em causa diz, aliás, bastante sobre o estado actual do meu clube. Mas como se tal não bastasse, este adepto confesso do Sporting que agora comunica para o SLB de LFV, e como que para justificar o impensável, afirma, hoje ao 24 Horas, que o seu trabalho “só pode ser bem feito por quem não é adepto”. Está-se mesmo a ver o Porto a ter como director de comunicação um benfiquista, ou pior, está-se mesmo a ver o Benfica de há uns anos a ter como director de comunicação um sportinguista. - PAS
 
Compromisso Portugal
As notas principais deste encontro são duas: a aparentemente humilde autocrítica dos gestores e economistas no insucesso económico de Portugal e algumas das propostas. E aqui novamente dois destaques: a sugestão apresentada por um quadro da Sonaecom de, nos próximos três anos, as empresas duplicarem os gastos em investigação e desenvolvimento; e a proposta de liberalizar totalmente o despedimento colectivo e individual. É interessante notar que a primeira sugestão, que seria uma consequência normal da auto-crítica feita pelos gestores, não passa disso mesmo, de uma sugestão individual de um dos participantes, ao que se sabe acolhida com pouco entusiasmo na assistência. Já a segunda, liberalizar os despedimentos, foi vertida para o documento com as trinta propostas finais que os participantes vão agora votar pela internet e que, suspeito, sairá claramente vencedora. É sempre a mesma coisa: muita desta gente fala, agora como há décadas, em Compromisso Portugal, mas no sentido errado, de Portugal para eles e não deles para Portugal- MK
 
Sinais de quê?
Depois de ter visto o 25 de Abril em Bagdad, José Manuel Fernandes descobriu «sinais de liberdade» na opinião pública portuguesa. De acordo com a última sondagem do programa Prós e Contras, a maioria dos portugueses entende que os sacrifícios valem a pena «para manter as contas públicas equilibradas»; que a legislação laboral ficou «aquém das necessidades»; que os partidos deviam chegar a acordo sobre finanças públicas e orçamentos plurianuais; e, finalmente, que é mais importante baixar os impostos sobre as empresas do que aumentar o investimento público. Não discuto a formulação das perguntas, porque acho que é daquelas conversas que não levam a lado nenhum. A questão é que estes mesmos dados permitem uma interpretação completamente diferente da leitura liberal de José Manuel Fernandes. Os portugueses entendem que os sacrifícios valem a pena? Claro que sim, desde que não sejam eles (individualmente) os sacrificados. A legislação laboral ficou «aquém do necessário»? Evidentemente. Aliás, para os portugueses não há nada que não fique «aquém do necessário» - tanto as políticas do Dr. Bagão como as reivindicações do Dr. Carvalho da Silva. As empresas deviam pagar menos impostos? Absolutamente. «Eles andam a brincar com o dinheiro dos contribuintes». Os partidos deviam chegar a acordo sobre finanças públicas? Obviamente (esta resposta foi mais frequente entre os inquiridos mais velhos, note-se). Sobre finanças públicas, sobre orçamentos plurianuais, e sobre tudo o resto: «eles que se entendam, que foi para isso que a gente lá os pôs!». - FN
 
Cuidado com as imitações
Não quero ser desmancha-prazeres, mas é impressão minha ou eu ouvi o Alberto João Jardim contar esta história há uns dias no programa da Maria João Avillez? - FN
terça-feira, fevereiro 10
 
A Europa aqui ao lado
Estávamos a ver que não, tantas listas nos jornais e nós nada. Mas, entretanto, já se fez justiça e começou a vaga de fundo para nos levar (a todos?) para Bruxelas/Estrasburgo. E olhem que não é para qualquer um ter o apoio político dos marretas. A nós, enche-nos do mais desbragado orgulho. - PR
 
"Olha, está ali o nosso pára-quedas!"


Mars Exploration Rover Mission, NASA

- JHJ
 
De olhos fechados


"Close my eyes
Feel me high
I don't know
But you could not love me now
You'll know
And I feel down to
Over there
And I want to love to view
You can hide
Oh my love, but where to?
You can see or cannot on the way I do"

Sometimes, My Bloody Valentine (Loveless). - PAS
 
Em diferido
No dia da última Super Bowl, estiveram dez pessoas em minha casa a torcer pelos Panthers e contra os Patriots. Em quatro horas de transmissão, houve um único momento em que nenhum de nós estava a olhar para a televisão. Precisamente, quando a Janet Jackson decidiu partilhar com o mundo a forma do piercing na sua maminha direita. Tivesse a CBS emitido as imagens com cinco minutos de atraso, e estaríamos hoje visualmente mais bem informados. - JHJ
 
Em directo
Ontem assisti, como acontece quase todos os dias, ao jornal da tarde da sic-notícias. Excepcionalmente, a apresentação ficou a cargo da Conceição Lino. A Conceição Lino é uma jornalista experimentada, mas, após quase uma hora de simpatia e rigor, despediu-se de uma forma inesperada: «Termina aqui a edição do meio dia que começa amanhã às dez.» Eram 14 horas e 53 minutos. Acontece aos melhores. Aliás, são coisas destas que dão graça aos directos e enchem aquelas peças sobre as gaffes do ano. Os americanos perderam o direito a isto: as principais televisões vão passar a transmitir os programas com cinco minutos de atraso. Tudo por causa das maminhas da Janet Jackson. - FN
segunda-feira, fevereiro 9
 
O passado aqui tão perto
Os dislates quando se repetem deixam de o ser e passam a ser uma outra coisa. Confira-se mais estes dois tristes exemplos vindos do governo mais passadista de que há memória.
“o PS não é oposição ao governo. O PS é oposição ao país.” Durão Barroso (que dá-se o caso de ser Primeiro Ministro, em democracia, apesar da linguagem de Estado Novo)
“Se eu quisesse não havia educação sexual.” Mariana Cascais (que dá-se o caso de ser Secretária de Estado da Educação)
Será preciso comentar? -PAS
 
Pensar o Estado ao contrário
Capa do público de hoje, desenvolvida no suplemento de economia: segundo o jornal, de acordo com um estudo do Banco Central Europeu o "sector público em Portugal poderia ter os mesmos resultados gastando menos 20%", ou seja, gasta hoje "mais 20% do que precisa".
Nada de mais errado, e perverso. Esta obsessão liberal com o emagrecimento do Estado faz com que só se pense no que se pode poupar, cortar, eliminar rapidamente e sem contemplações. Mas há aqui um equívo grave. É que se partes significativas do Estado em Portugal, como aliás também partes significativas do sector privado, são visivelmente pouco eficazes, a verdade é que estão também muito aquém da capacidade de regulação, nível de satisfação de necessidades e qualidade na prestação de serviços aos cidadãos que noutros países são possíveis. A questão é de eficácia, mas também de capacidade e de qualidade.
Ou seja: o raciocínio está pervertido desde a base, porque se parte de um axioma que enviesa as conclusões. O que deveríamos pensar, e o que deveria ser capa do público, é precisamente a questão inversa: como, com o mesmo dinheiro, se poderá maximizar a eficiência do Estado e da administração pública? Quais os níveis de financiamento que, com eficiência, permitirão ter um sector público qualificado, de dimensão adequada e com políticas e serviços eficazes, orientados para os cidadãos e de qualidade? - MC
 
A ciência e os portugueses: quem foge de quem?
Na capa de um dos incontáveis cadernos do Expresso, vi de relance mais um daqueles títulos que constroem, quinzenalmente, o nosso imaginário colectivo. Choque e pavor: a procura das "áreas científicas" (não sei o que isto é, e suspeito que discordo do conteúdo atribuído à expressão) por parte dos jovens portugueses estará a diminuir.
É, evidentemente, preocupante, e importante reverter essa tendência caso ela se verifique. Mas, no que toca aos portugueses e à ciência (não em abstracto, mas a que investiga, que produz conhecimento, independentemente da "área científica" em questão), é espantoso como não faz igualmente parte da agenda e do imaginário de preocupações uma outra questão. A saber: as condições lamentáveis que a investigação científica em Portugal oferece aos jovens que querem prosseguir uma carreira nesse campo. É que, tirando as bolsas de mestrado e doutoramento alimentadas em grande parte pelos fundos comunitários e por uma ou outra instituição dispersa, a grande maioria dos jovens que experimentam a investigação fá-lo num estreito caminho marcado por uma sucessão de trabalhos temporários, vínculos precários ou mesmo inexistentes, investigadores muitas vezes reduzidos a tarefeiros dependentes de projectos de curta e média duração e sem quaisquer garantias - ou, pior, expectativas - de enquadramento mais estável em circuitos institucionais mais favoráveis, aliciantes e duradouros de pesquisa científica.
A tudo isto, claro, soma-se a ausência de uma política científica eficaz por parte do actual governo e o oportunismo do desinvestimento cortista nestas questões: é sempre preciso cortar em mais qualquer coisa, e a ciência vem mesmo a calhar (não faz barulho nenhum e ninguém se parece importar, porque a sua ausência não se sente nos bolsos das pessoas). Para ser inteiramente justo, porém, este quadro estrutural é muito mais antigo.
Ora, esse quadro, sim, é que é preocupante: ciências com pouca visibilidade e dinamismo, quase por completo sujeitas às oscilações dos financiamentos e das políticas (inclusivé da política não científica) e oferecendo demasiado pouco, em termos profissionais e de futuro, às pessoas. Um país que não é capaz de assumir a ciência e como um pilar essencial do ritmo, sustentabilidade e qualidade da sua modernização está irremediavelmente condenado à (semi-)periferização. A longo prazo, a história é esta.
Quanto a fugas, estamos conversados: a ciência, não a mitificada das chamadas "áreas científicas" que os jovens decidem ou não escolher, mas a real, aquela que se faz nas universidades e fora delas, foge dos jovens pelo menos tanto quanto eles, ao que parece, dela fogem. É um (des)amor, no mínimo, correspondido. - MC
 
Um nevoeiro menos denso
Sendo certo que durante boa parte do jogo apenas podia adivinhar o que se estava a passar na metade do campo mais distante, tão entediado como nos momentos em que conseguia de facto vislumbrar, por entre uma neblina impenetrável, a bola e os jogadores, o facto é que depois de várias tentativas espaçadas ao longo dos anos, ontem vi, finalmente, o Benfica ganhar no Restelo. Ainda mais improvável, o Armando Sá fez, pelo menos, dois passes direitos – sem saber como, é certo, mas o facto é que foram certeiros. No fim de contas, só faltou mesmo o bom futebol, mas não se pode ter tudo.
Todavia, os factos mais relevantes da noite nem sequer foram esses. O mais notável é que nunca tinha visto tantos relativos juntos, entre o estádio e o jantar a seguir onde ainda encontrámos o Ivan. Foi um feito só possível devido a um grande trabalho de mobilização, a alguns acasos e à presença fugaz em solo pátrio do sector germanófilo do blog. No total, éramos todos menos três (sendo que a presença do João seria, à partida, impossível, por motivos óbvios). Mais um pouco e o país relativo teria conseguido fazer o pleno, numa noite em que o nevoeiro cerrado se foi dissipando com o passar das horas. Um bom presságio? - MC
 
A fé de São Bento
Kenneth M. Pollack - antigo conselheiro para o Iraque da Administração Clinton - publicou, em 2002, o livro The Threatening Storm: The Case for Invading Iraq, considerado por muitos a bíblia dos defensores de uma intervenção militar no Iraque.
Mas no último número - Janeiro/Fevereiro - da revista norte-americana The Atlantic, Pollack escreveu um artigo que surpreendeu os mais crentes desses religiosos. Em Spies, Lies, and Weapons: What Went Wrong, o antigo analista da CIA, considera que o fim das inspecções das Nações Unidas no Iraque conduziu a que as agências de informação e segurança mundiais assumissem como sérios, relatórios que em circunstâncias normais serviriam para forrar o cesto de papéis. Se é verdade que muitos dos críticos da intervenção militar no Iraque alertaram para esta possibilidade ainda antes de Março de 2003, o certo é que ninguém tinha até agora descrito publicamente os mecanismos de avaliação e seriação de informação, por parte da complicada teia que envolveu cientistas, espiões e políticos.
Para uma intervenção militar no Iraque, bastou o apoio de quatro líderes atlânticos, entre os quais o dr. Durão Barroso. Aquilo que o artigo de Pollack mostra é o que alguns já adivinhavam: o consenso-minimalista-atlântico foi construído sobre alicerces longe de representar a visão maioritária da comunidade de espiões e analistas das questões sobre o Iraque, e a pressão política da Administração Bush sobre a mesma foi tudo menos insignificante: In 2002 and well into 2003 I received numerous complaints from colleagues in the itelligence and policy communities about how the Bush Administrations was handling the intelligence on Iraq.
Portugal, através do governo do dr. Durão Barroso, promoveu a Cimeira da Guerra nos Açores. Mais uma vez, não sei se pelo facto de estar a ouvir o disco do Sérgio Godinho, ou se por ter lido o post do Miguel, há uma questão que gostaria de ver colocada no dia em que o governo português for seriamente interpelado pela Assembleia da República sobre o seu apoio às Administrações Bush e Blair: Foi o dr. Durão Barroso assessorado por cientistas e analistas na interpretação que fez da informação contida nos relatórios de Bush e Blair? Se se confirmar que não, a decisão de São Bento em apoiar a intervenção militar no Iraque ter-se-á baseado exclusivamente numa posição de fé. Só que as posições de fé deveriam estar reservadas para os directores de jornal, e ser governante exige um bocado mais do que isso. - JHJ
domingo, fevereiro 8
 
Assobiar para o lado
Surpreendentemente, o dr. Durão Barroso ainda não veio dizer ao país o que pensa sobre os recentes desenvolvimentos em torno da questão iraquiana. Mas é estranho que assim seja, uma vez que em todos os países que estiveram directamente implicados na famosa "coligação" e na invasão do Iraque, o assunto está sob intenso escrutínio e a ser objecto de um debate político relevante. Ora, é impressão minha ou Durão foi, em tempos, o apressado e ufano anfitrião de uma restrita cimeira, de um núcleo duro de quatro países, em que se abriu o caminho para a guerra?
Agora, o mínimo que se exige é uma palavra de esclarecimento ao país: O que pensa o "atlantista" primeiro-ministro português de tudo o que está a acontecer? Qual é a posição oficial do governo, agora, nesta matéria? Este esclarecimento deve, evidentemente, ser menos apressado e leviano do que a precipitação para a guerra há um ano atrás; mas nem por isso (ou talvez por isso) deixa de haver nele menor urgência.
É que enquanto os dias passam e de Durão Barroso nem rasto, nos Estados Unidos, é o que se sabe, com o ping-pong entre Bush e a CIA; em Inglaterra, Blair está sob a forte pressão de fogo (mesmo muito) pouco amigo, inclusivamente depois de ter sido ilibado de parte das responsabilidades pelo Relatório Hutton; e em Espanha este tema tem sido tema do aceso debate eleitoral em curso. Até noutros países menos ligados a esta monstruosa trapalhada, a questão está a ser levantada do ponto de vista das suas consequências políticas.
Começa a ser difícil entender, por isso, que Durão Barroso continue a assobiar para o lado, como se nada disto lhe (nos) dissesse respeito. É um silêncio demasiado comprometido. Que, no fundo, já nos diz muito, ainda que não o suficiente. - MC
 
Último a rir
Sem pretender retomar a polémica da passada semana, não resisto a parafrasear Vital Moreira: não é por acaso que António Costa é considerado como um dos mais sagazes políticos do PS. Aqui está mais uma demonstração de sagacidade política.- FN
 
O Inverno do nosso descontentamento
Os metereologistas dizem-nos que a temperatura está mais «amena», mas dentro de portas continua o chamado «frio do caraças». Portugal é o único país da União Europeia em que as luvas e os cachecóis são mais úteis dentro de casa do que na rua.- FN
sábado, fevereiro 7
 
Solidariedade leoninista
Sim, eu também penso às vezes que não nasci para isto, que não percebo muito bem o que é que as pessoas continuam a ver em mim, que estou sempre no sitio errado à hora errada, que não dou uma para a caixa; no fundo, que sou um monumento à inutilidade que põe qualquer Túnel das Amoreiras a um canto. Por isso, acredita-me: compreendo-te perfeitamente, Facundo Quiroga.- PE
 
O jogo do empurra
Numa clara resposta à tentativa de lavagem de mãos de Bush, George Tenet, o director da CIA, já esclareceu: a agência nunca disse que havia uma "ameaça iminente" no Iraque. No máximo, havia categorias de armas que o Iraque (como outros países) tinha, e outras que não possuia mas procurava desenvolver ou adquirir (como outros países).
Não havia "emergências" nem "urgências" "imediatas" e "únicas", ao contrário do que Bush disse e repetiu; nem, muito menos, fantasias de ataques ao Ocidente em "45 minutos", na versão de Blair. Em suma: Não havia nada que justificasse, do ponto de vista da factualidade objectiva, as teorias apresentadas por Bush e Blair para legitimar a invasão. O que é novo, e surpreendente, é que é o próprio director da CIA que agora vem sacudir a água do capote e endossar à Casa Branca a responsabilidade da grosseira mistificação levada a cabo. Confirmando assim, com a legitimidade de quem tem toda a informação na sua posse, o que já se suspeitava à medida que o tempo passa e as inspecções se aproximam do fim sem novidades de maior sobre o fabuloso arsenal bélico iraquiano.
Mais: o director da CIA diz que a agência não "retocou" relatórios de espionagem e que ninguém pressionou as investigações. Num certo sentido, isto iliba a administração Bush de parte das suspeitas que sobre ela recaem nesta matéria. Mas então cabe perguntar: de quem é o ónus da deturpação e dos "erros" de percepção da situação no terreno? Tenet mente? Ou a culpa será dos estrategas de Bush, procurando sofregamente um pretexto para a invasão? Terão sido os serviços secretos ingleses? Ou o governo inglês a precipitar-se?
Neste jogo do empurra, alguém vai acabar por pagar caro por tudo isto. Veremos se não são todos. - MC
 
A Norte do mundo
Podia jurar que era este o nome de uma série que eu via no princípio dos anos 90 e que um dia desapareceu sem deixar rasto. Como mais ninguém a reconhecia por este nome ou pela minha descrição, cheguei mesmo a pensar que tinha sido vítima de uma alucinação prolongada. Mas graças aos poderes conjuntos da insónia, do zapping e da "SIC Mulher", não só confirmei ontem a sua existência como tive o prazer de constatar que afinal a tradução portuguesa de "Northern Exposure" atirava a série não para lá do pólo do planeta mas apenas para o seu fim.
"Northern Exposure - No fim do mundo" passava na TVI no tempo em que se conseguia ver aquele canal durante 10 minutos sem ser necessário cumprir em seguida um rigoroso programa de desintoxicação numa câmara hiperbárica. O pretexto para a série era a colocação contra vontade de um jovem médico nova-iorquino numa pequena cidade no Alasca, habitada por uma população peculiar - que contava, entre outros, com uma irascível (e muito bonita) piloto do avião de ligação com Anchorage e um "Bigfoot" que era cozinheiro diplomado.
Vista hoje, a série não parece tão boa como isso e seria provavelmente massacrada pelos actuais pesos pesados da RTP2 (ou 2: para aqueles que notaram a diferença). Admito que para a minha admiração na altura contribuísse a ideia preconcebida de que - com a notável excepção do humor e da Balada de Hill Street - era impossível fazer séries televisivas que fossem algo mais do que pastelões insuportáveis tipo "Shogun", "Masada" ou "Shaka Zulu", adaptações competentes mas inevitavelmente rígidas de obras literárias ou 'space operas' como "Galactica" ou "Espaço 1999".
Mas a verdade é que foi em "No fim do mundo" que me deparei com alguns dispositivos que, sendo correntes nas melhores séries actuais, não eram então muito vulgares - pelo menos no que era emitido por cá. O mais interessante talvez fosse a estrutura narrativa descentrada dos episódios. Dava-se, é certo, alguma preponderância à divertida relação entre o Dr. Fleischmann e a (disse já que muito bonita?) piloto Maggie O'Connell; mas esta preponderância era muito matizada e acompanhada por um investimento considerável nas personagens secundárias. Era assim possível uma coexistência fácil em cada episódio de tramas independentes e igualmente fortes - sem que que fosse necessário o recurso a quaisquer preâmbulos ('flashbacks' ou técnicas similares) para explicar os pressupostos ou a pertinência de cada uma delas. Outro ponto forte era um tipo de humor subtil, baseado não no grotesco ou no insólito, mas nos embaraços, bloqueios e inadquações das relações interpessoais quotidianas; a série podia passar-se "No fim do mundo" mas os seus personagens era tão urbanos que, apesar do tema, não sobrava muito espaço para os habituais discursos moralistas sobre os contrastes cidade-campo (que ironicamente se viriam a tornar imagem de marca da "ficção portuguesa" e, pior, da "informação" produzida pela TVI). É engraçado pensar que algo de "Sete Palmos de Terra" ou de "Dr. Katz" já estava em embrião em "No fim do mundo"...
"Northern Exposure - No fim do mundo" não é nenhum clássico intemporal da televisão como, por exemplo, "Sim, sr. Ministro" ou "Monty Python's Flying Circus". Mas vale bem uma vista de olhos. E para os tristes como eu que estão em casa numa madrugada de Sábado, é capaz de haver maneiras bem piores de passar o tempo... - PE
sexta-feira, fevereiro 6
 
Para os mais esquecidos

Vieira da Silva, A Poesia está na Rua
- JHJ
 
Manifestas dificuldades de agenda
Na Visão de ontem, leio que a agenda para o ano de 2004 lançada pela Comissão Nacional para a Fámília, tutelada pelo Ministério da Segurança Social e do Trabalho do dr. Bagão Félix, tem uma pequena gralha. Lembraram-se de todas as datas e efemérides possíveis e imaginárias, feriados ou não. Só se esqueceram de um detalhe mínimo: o 25 de Abril.
Para este dia, um dia como os outros, não há menção especial na data, destaque de qualquer espécie ou sequer indicação de que é um feriado nacional. Nem aos trinta anos do dia que marca o arranque para o regime democrático em Portugal. Zero. Um lapso, certamente. E são lapsos como este que, por se repetirem com vezes demais, fazem com que declarações recentes de Mário Soares façam todo o sentido, porque é cada vez mais claro quem estes senhores são e o que de facto querem, muito para lá das falinhas mansas com que vão levando a água ao moinho. - MC
 
Your blue room
Coragem, Pedro! Eu consegui resolver a coisa por auto-sugestão, repetindo mil vezes para mim próprio que aquele “Amanhã, entro para o convento” dela no “Para além das nuvens” era literal...- PE
quinta-feira, fevereiro 5
 
Aborte-se o referendo!
Na minha opinião, o “se e quando engravidar” e o “se e quando ter filhos”, são assuntos privados, íntimos. São decisões do casal e, em última instância, da mulher.
Tenho, portanto, alguma dificuldade em discutir o aborto. Não em tomar uma posição relativamente à sua despenalização (quanto a isso não tenho dúvidas!), mas na discussão em si.
Estou convencida que o aborto (note-se a ausência da palavra despenalização) pode ser discutido a diversos níveis e que seria útil, quando está em causa um referendo e uma tomada de posição política com consequências legislativas, que se identificasse muito bem o que está a ser votado e as implicações do resultado. Logo, não creio que valha a pena discutir tudo ao mesmo tempo. Apenas confunde, baralha e desinforma.
Acredito ser prejudicial para a discussão sobre a despenalização (ou não) do aborto passar a mensagem que só se pode ou faz sentido discutir a questão do aborto como um todo, olhando a causas e consequências, com a falsa pretensão de resolver, por acréscimo, as desigualdades económicas e sociais do país. Na melhor das intenções é utópico, na pior, desonesto e hipócrita e, em qualquer dos caso, não leva a lado nenhum.
Assim, se o que está em causa é a despenalização (ou não) do aborto, não vejo qualquer valor acrescentado em discutir-se, simultaneamente: programas de educação sexual e planeamento familiar (assuntos que, na minha opinião, não deverão estar reféns de qualquer outro assunto e muito menos da discussão da despenalização do aborto); o papel do Estado na provisão e/ou financiamento da prática do aborto no âmbito de um Serviço Nacional de Saúde (a discussão dever-se-ía limitar à acção da Assembleia enquanto legislador e apenas no que diz respeito a despenalizar, ou não – é impressão minha ou há leis regulamentadas à posteriori?); e, finalmente, a questão do ínicio da vida humana (uma questão acima de tudo filosófica, cientificamente inconclusiva e sem qualquer desfecho à vista).
Se a questão é, de facto, despenalizar ou não, o Governo tem apenas duas hipóteses. A primeira passa por deixar-se de hipocrisias, assumir as consequências duma lei que não quer ver mudada e não vir para a praça pública ostentar qualquer incómodo, constrangimento ou compreensão para com mulheres, que tendo abortado, se tornaram, aos olhos da lei, prevaricadoras e, consequentemente, deverão ser constituídas arguidas do crime de prática de aborto e condenadas pelo mesmo. Pelo contrário, deverá sim defender uma lei em que, supostamente, acredita e pela qual se bateu (ou nem por isso...). Caberá a nós, portugueses, tomar uma decisão sobre se é este o Governo que queremos! A segunda hipótese é o Governo assumir que não se revê nesta lei e, tendo poder para isso, alterá-la. Haja coragem!
Se um outro referendo apenas servir para pessoas que gostam de se ouvir, terem direito de antena para os seus disparates e para depois apenas um terço da população de pronunciar, dispenso! -SS
 
A instituição parlamentar vista da cadeira do já designado futuro presidente
A futura coligação pré-eleitoral CDS-PSD já decidiu que vai ganhar as próximas legislativas. Como tal, decidiu ir escolhendo o sucessor de Mota Amaral: o exilado das ilhas que se segue, Alberto João Jardim. O perfil e as tropelias deste senhor são bem conhecidos, e só a ideia que haja quem fale no PSD de tal nome para presidente da assembleia da república (segunda figura do estado), comissário europeu, ou outros cargos institucionais de projecção nacional ou internacional já revela bem o desvario que vai naquelas cabeças.
Mas, nem de propósito, o público de hoje faz-me tropeçar nesta frase do pré-designado futuro presidente da AR: "O dr. Salazar ainda foi lá [ao parlamento] dois ou três dias. Mas eu, eleito sucessivamente para ocupar um lugar na bancada do PSD, nunca lá pus os pés e não tenho intenção de os pôr". Assim, sem mais. E, definitivamente, sem mais comentários.- MC
 
Os complexos e as suas tutelas
Ontem à noite o dr. António Pires de Lima foi à sic notícias comentar os "ataques" "violentos" e "cerrados" a que o seu partido tem sido sujeito nos últimos tempos. Nada de mais, foi dizendo, porque o CDS já está "habituado" a este tipo de coisas desde a sua fundação. O problema, explicou, é que o regime foi ao longo de décadas construído "do centro para a esquerda", tendo a direita uma presença "marginalizada" e "residual" com a qual a postura "descomplexada" do partido do dr. Portas não se compadece.
Vários minutos de vitimização contínua depois, Pires de Lima chegou ao corolário do seu raciocínio. Nos idos de 70, o enviesamento do regime foi feito "sob a tutela do Conselho da Revolução", e "depois por várias outras instituições". Quais, não explicou ao certo. Talvez a Assembleia da República, não? - MC
 
Provavelmente a mulher mais bonita do mundo


Não sei se a "mais bonita do mundo" existe, mas sei que houve uma vez, não há demasiado tempo, em que estive suficientemente próximo para poder falar com a mais bonita do mundo que para mim existe. Hesitei quanto à língua a usar e num ápice, ainda que vislumbrando um sorriso que, teimosamente, continuo a insistir que era a mim dirigido, perdi a oportunidade – e as oportunidades não costumam vir duas vezes. Claro que nada disto é demasiadamente relevante, o relevante é que o blog estava a ser objectivamente prejudicado porque há dias que não aparecia aqui uma mulher muito bonita.- PAS
 
Pacto com laranja
Vital Moreira fez referência ao meu post «Ainda os consensos», num texto em que defende o «apelo» para um acordo entre governo e oposição em matéria de finanças públicas, subscrito por várias figuras nacionais. Independentemente do que se tenha passado ontem no parlamento, gostava de reafirmar algumas coisas e acrescentar outras – mais sobre a questão política de fundo (os consensos) do que sobre o tema concreto, que manifestamente não domino (as finanças - tanto as públicas como as domésticas).
1 - O PS governou seis anos com maioria relativa no parlamento - um feito que decorre de vários equívocos e erros políticos, mas que merecia sem dúvida entrar para o Guinness. Recorde-se que, nos dois anos que esteve na oposição, Durão Barroso votou sistematicamente contra tudo o que o governo apresentava. Aqui ou ali (reformas político-administrativas) terá exagerado, mas no geral (política orçamental, políticas públicas) acho que fez bem. Assim, quando foi a votos, ninguém o confundiu com os erros de gestão política e orçamental do PS; só o confundiram com as suas próprias asneiras de campanha. Mas mais importante do que isso é que a definição de alternativas claras entre partidos de governo é boa para a própria qualidade da democracia: favorece a participação eleitoral e trava os extremismos. Por isso, acho que é de insistir na ideia de limitar os acordos de regime às reformas das regras do sistema político. Recentemente, o primeiro-ministro veio propor um acordo entre partidos de governo para a definição (de uma vez por todas) do que são cargos de «confiança política» na administração pública. Cem por cento de acordo. Agora, que sentido faz ver um governo maioritário de direita a convidar o centro-esquerda para uma espécie de junta de salvação das finanças nacionais? Como sugeriu a Dra. Teodora Cardoso, o entusiasmo do Governo com o apelo para o consenso só pode ter um objectivo: colar a oposição a algumas medidas financeiras impopulares (e mesmo anti-populares), sendo certo que o que correr bem será sempre (e justamente) mérito do governo. Vital Moreira defende, na Causa Nossa, que o consenso era bom porque permitiria ao PS «colocar na mesa das discussões alguns pontos-chave sob um ponto de vista de esquerda». Acontece que, como Vital Moreira sabe melhor que ninguém, o governo não é um executivo camarário em que o PS tem o pelouro dos assuntos de esquerda. Voltemos ao artigo da Dra. Teodora (nunca é demais): «Isto apenas serviria para fazer partilhar o descrédito, não para tornar a política credível.»
2- No seu post, Vital Moreira lembra ainda que o «apelo aos deputados» até é simpático para o PS («isenta o PS»), e que por isso não se devia desperdiçar esta oportunidade para expressar um «compromisso claro com a ideia de disciplina e bom governo financeiro». Sugere que seria uma boa maneira de apagar a imagem de «laxismo financeiro» que o PS deixou. Isto não deixa de ser algo desconsertante. É que o documento não só ignora recentes propostas do PS sobre estabilidade e crescimento, como branqueia por completo a gestão orçamental do actual governo. Não duvido que o governo PS tenha acordado tarde e a más horas para o problema das finanças públicas. Mas então, o que dizer de um governo que corta no investimento, nos salários e nas políticas sociais, e mesmo assim só consegue equilibrar as contas com as famigeradas «manigâncias»? Lamentavelmente, ninguém se lembra de fazer pactos para o emprego, mas ciclicamente lá vem um manifesto que apenas se destina a dar gás a políticas nacionais erradas e a um Pacto de Estabilidade considerado «estúpido» por entidades tão irrelevantes como o presidente da Comissão Europeia, a França e a Alemanha.
3 - A estratégia do PS para esta legislatura parece passar por um estreito caminho entre os frentismos pré-eleitorais e a tentação do bloco central. O pior que podia acontecer era ver esse caminho confundido com frentes de esquerda às segundas, quartas e sextas e pactos de regime às terças e quintas. - FN
quarta-feira, fevereiro 4
 
Arqueologia de superfície
De vez em quando, de súbito, tropeçamos em pedaços de cidade suavemente soterrados pelo tempo. Fragmentos do passado que é raro lembrarmos, ou que pura e simplesmente nunca chegámos a conhecer.
Há ainda não muitos anos, o Campo Grande era uma esguia linha sombreada de verde escuro que ia de Entrecampos à 2ª circular por uma calçada larga que guardava, orgulhosamente, as antigas linhas de uma carreira de eléctrico extinta que se prolongava até ao Lumiar, pela Alameda das Linhas de Torres. Eram umas linhas metálicas paralelas enferrujadas, há muito abandonadas e estranhamente resistentes aos sucessivos avanços do tempo. Mas, nem por isso, menos deslocadas de um espaço em definitivo tomado pelo caos das horas de ponta ao fim da tarde.
Hoje, estas linhas ainda lá estarão, a escassos centímetros do solo, inculcadas na antiga calçada e sucessivamente cobertas e recobertas por camadas sempre frescas de um asfalto bem menos perene. A imagem dessa estrada para norte que guardo, mesmo quando por ela passo, é ainda muitas vezes essa: a de uma realidade à superfície que, saltava à vista, tinha os dias, os anos contados.
Um destes dias, lembrei-me desta memória quase à superfície noutro ponto da cidade, ainda mais periférico. Ao subir a calçada de carriche, passo por umas obras de remoção de quase um metro de sucessivos pisos alcatroados e vislumbrei pela primeira vez, pelo menos até onde consigo reconstituir, um pedaço da estreita calçada , há décadas desaparecida, que deu o nome a uma via continuamente agigantada pelos anos e hoje mais conhecida pela sua condição inter-infernal (a descida ao purgatório de Odivelas; a subida penosa para Lisboa). Foram dois segundos, dois metros. Mas suficientes para transformar o olhar, num efeito de tempo e de realidade, sobre uma terra de ninguém que há muito o é para milhares e milhares de pessoas. - MC


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