<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
quarta-feira, março 31
 
Shame on us
Foi no dia 23 de Março. O País Relativo fez um ano e por aqui ninguém notou. Está aqui o primeiro dia! - MVS
 
Marinheiros e mentirosos
Hoje de manhã, ao pequeno-almoço, lia a notícia do New York Times sobre o pedido da comissão nine-eleven para que Condoleezza Rice deponha publicamente e sob juramento. Na mesa atrás, quatro homens vão contando histórias de viagens e guerras passadas, descrevendo, detalhadamente, imagens congeladas nas suas memórias de namoradas perdidas nos portos dos cinco oceanos. Alguns minutos depois a conversa parece terminar e um deles, de saída, aproxima-se da minha mesa:
- «I hope we didn't disturb your reading of the newspaper with our conversation.»
- «You sure didn't.»
- «We're a group of sailors and liars that gets together on Tuesday mornings. We seat back there every time we meet.»
- «Really?»
- «Uh-huh. If you're either a sailor or a liar, you're more than welcome to join us next week.»
- «Oh, thank you...» - JHJ
terça-feira, março 30
 
O catolicismo económico - I
Por respeito à brava minoria de economistas que o recusa, não confundirei o que vou descrever a seguir com a Economia. Falo do catolicismo económico. O catolicismo económico é um termo para o moralismo para o qual muitos economistas, infelizmente, resvalam com demasiada frequência - mesmo que não atinjam o requinte de um Bagão Félix ou de um Abominável César das Neves. Antes de me esquartejarem, digo-vos já que há igualmente um 'catolicismo sociológico; mas como ninguém liga peva ao que os sociólogos dizem, é consideravelmente menos perigoso e falarei dele noutra ocasião.
O catolicismo económico partilha vários traços com o seu homólogo religioso:
moralismo a rodos, obsessão com a culpa (normalmente dos outros), apologia da auto-flagelação (desde que praticada por interposta pessoa), messianismo redentor, etc.. Podíamos fazer um loto com os seus chavões: "vivemos acima das nossas possibilidades", "somos um país pequeno e periférico", "esta é a nossa última oportunidade", etc.
Entender o catolicismo económico é capital para entender o contexto mediático que permitiu legitimar a desastrosa acção do actual Governo sobre a economia. De acordo com o catolicismo económico, os "portugueses" (referidos sempre indistintamente, como se estas coisas não atingissem os cidadãos de forma muito diferente consoante a classe social, o género, a etnia, o local onde vivem, etc.) devem aceitar "sacrifícios" no seus rendimentos e direitos, a bem da "economia portuguesa".
Desenganem-se se pensam que isto é um apelo ao patriotismo. E nem pensem que estão assinar um qualquer contrato social. Isto é uma exigência - e uma exigência profundamente moralista; são "pecadores" e o que estão a fazer é a expiar os vossos "pecados" do passado: pecado da soberba (o descaramento de reivindicarem e/ou usufruírem de direitos sociais e de melhores condições de vida), pecado da gula (o "endividamento das famílias") e pecado da preguiça ("a baixa produtividade"). Como tal, até têm sorte se a infinita misericórdia de Deus (o "Mercado", a grande metáfora reificada) eventualmente lhes acabar por conceder umas gotitas da prosperidade futura (a "retoma" que virá sabe-se lá quando). Por isso, trazer à discussão questões incómodas como a repartição do rendimento é quase um sacrilégio; se é mencionada de todo, é rapidamente remetida para uma tarde soalheira do dia de São Nunca com um cinicamente condoído "não se pode repartir riqueza que não existe". À boa maneira católica, bem-aventurados os fracos e os pobres porque deles será o reino dos céus - porque quanto ao reino da terra bem podem tirar o cavalinho da chuva. - PE
 
O princípio do fim do EXPRESSO?
Não é que se perdesse grande coisa nos dias que correm, mas não deixa de ser preocupante ler as palavras de Luiz Pacheco na Pública. Afinal, ainda me recordo do princípio do fim da Coluna Infame. E se Daniel Oliveira, no Blogue de Esquerda, pisou os calos a JPC, Luíz Pacheco pisa descaradamente os da família toda!
“O fascismo era péssimo. Mas agora, por parte da malta nova, não há a noção do que era. Nada. Noção nenhuma. E há esses rapazinhos, que são uns remanescentes - como o Pereira Coutinho, esse tipo que escrevia no Independente e que agora parece que escreve no Expresso, enfim, gente de más famílias. A reacção está aí com toda a força. Talvez ainda não com a força que eles queriam. Nova direita? Extrema direita!”
Responderá JPC à provocação? E se responder? Haverá solidariedade ou demarcação por parte da redacção do Expresso? Aguardam-se novos desenvolvimentos. - SS
 
Comida
De vez em quando reparo naquela frase, escrita ali no canto superior direito: «O País Relativo alimenta-se dos posts de:». Reparo que a frase tem qualquer coisa de ominoso e franzo o sobrolho. Hoje à tarde, esse reparo de tantas vezes, ao invés de estacar como de costume, deu o solavanco que ainda não tinha dado. O blog alimenta-se dos nossos posts – muito bem – mas o que a frase na aparência inócua quer mesmo dizer é que ele se alimenta literalmente de nós – das nossas vísceras –, que nos sangra. Se tem relação ou não, não sei, mas sei que pensei nisso depois de ler este post do Pedro Lomba, o melhor que li nos últimos tempos. - RB
 
Há mar e mar, há ir e votar
Sucedem-se as iniciativas para combater a abstenção. Primeiro foi o PS, com a ideia de alargar o horário da votação até às dez da noite. Depois foi Saramago, que, apesar de ser candidato nas listas da CDU (ou se calhar, por causa disso mesmo), apelou ao voto em branco. Agora, chegou a vez de Luís Filipe Menezes dar o seu contributo. Tudo indica que o presidente da câmara de Gaia já percebeu que os jovens têm uma maior tendência para não exercer o direito de voto. As declarações citadas no Público de sábado são reveladoras deste voluntarismo democrático que tomou conta de Menezes: «Uma sondagem dizia que eu tenho muitos apoiantes entre as senhoras e os jovens. Então se eu raspar o cabelo e usar um brinquinho é que vai ser». - FN
 
Teina matemática com o...
Para combater o crónico insucesso escolar na matemática, o jornal Público lançou uma iniciativa meritória. Trata-se de uma colecção de oito lições com diferentes títulos: "Treina matemática com o FC Porto"; "Treina Matemática com o SL Benfica"; e "Treina Matemática com o Sporting CP". Então e o Belenenses? Já percebi que ainda não é desta que vou aprender a fazer contas. - FN
 
Um já está convencido
Não tem partido político e costuma votar em branco. - MVS
segunda-feira, março 29
 
Causas fracturantes


No próximo dia 8 de Maio os lisboetas vão ter a ventura da escolha. Ou vão ver o Elvis Costello ou vão ver os Lambchop. Onde outros vêem uma infeliz coincidência, uma circunstância aziaga, eu vejo uma oportunidade para uma clarificação que já tardava, para um separar de águas que corriam já turvas. Os fãs do co-autor (com a Aimee Mann) de “The Fall of the World’s Own Optimist” (uma das minhas canções preferidas, mind you) vão então para o Coliseu, os outros para a Aula Magna. Eu já tenho o bilhete, e não hesitei. - RB
 
Autocrítica ou neo-surrealismo?
Saramago confessa que não sabe ainda em quem vai votar nas próximas europeias e faz apelos mais ou menos velados ao voto em branco - que, admite, é uma possibilidade para o seu próprio sentido de voto. O mesmo Saramago é candidato de uma das listas concorrentes às eleições, a do PCP. Ou seja, o prémio nobel aceita candidatar-se e admite ao mesmo tempo não votar em si mesmo e na lista de que faz parte.
É um pouco difícil perceber a relação lógica que permite a Saramago conciliar estes dois factos. Será por estar ele próprio na lista? Será por não gostar dos camaradas que, como ele, são candidatos? Será por estar descontente com o lugar não elegível que lhe foi atribuído? Será tudo isto de uma irresponsabilidade e inconsistência manifestamente surreais? Será da idade? Será que Saramago não pensa no que diz? Será que não tem nada para dizer? Será que tudo isto não passa de um lamentável golpe de marketing, tão ao gosto da indústria, para vender mais uns livrinhos? - MC
 
O regresso à política
Há umas semanas, o Partido Popular preparava-se para ganhar as eleições em Espanha por uma margem pouco mais do que tangencial. Confrontados com uma tragédia de dimensões monstruosas - e confrontados os espanhóis, pela primeira vez, com consequências bem reais dos riscos assumidos no passado por Aznar - os responsáveis populares deixaram-se enredar nos erros derradeiros da negação da realidade, da manipulação e da mentira. E perderam as eleições. Foi quanto bastou para, em mais uma manipulação grosseira da realidade, muito boa gente viesse dizer que tinha sido o terrorismo a ganhar as eleições, caso limite de miopia e de terrorismo político.
Sendo certo que as eleições de ontem em França têm um âmbito completamente distinto, será curioso ver agora o debate sobre as razões da calamidade eleitoral que se abateu sobre a direita francesa, que pela sua dimensão não pode deixar de ter leituras nacionais. O bode expiatório do terrorismo, neste caso, é insuspeito, e não se vislumbram outros facilmente disponíveis. Resta, por isso, e para tristeza de alguns, uma ordem de explicações: a(s) política(s). - MC
 
Allez les bleus! Allez la rose!


Anteontem à noite, os bleus vergaram a rosa inglesa. Ontem, a rosa coloriu a França. Um fim-de-semana estonteante, com uma pequena obra-prima pelo meio: o ensaio de Yachvili no final de primeira parte. Demonstrando que o râguebi é um dos desportos mais bonitos quando jogado como no sábado no Stade de France. - PM
domingo, março 28
 
O mapa cor-de-rosa


Fonte: Libération, 28 de Março. - FN
 
Tempos verbais


A Europa organiza cimeiras para debater o insucesso de cimeiras anteriores onde se debateu a necessidade de promover a inovação.
O Estados Unidos inova. - JHJ
 
O grande comunicador
«João Soares avança contra Ferro». É um dos títulos do Expresso desta semana. Ontem à noite, em entrevista na SIC Notícias, foi o próprio João Soares a confirmar isso mesmo. Na memória ficou-me apenas a crítica que fez à «falta de capacidade da actual direcção do PS em comunicar com os portugueses» (se as palavras não foram exactamente estas, era pelo menos este o sentido). Já Bobbio dizia que a esquerda tem um problema com a comunicação. João Soares é uma excepção; uma verdadeira autoridade em matéria de comunicação política. Todos estamos recordados da forma (particularmente eficaz) como comunicou com os lisboetas nas eleições autárquicas de 2001. - FN
sábado, março 27
 
Hoje somos muitos, amanhã seremos todos*
«Quero obter em 2006 a maior maioria parlamentar alguma vez alcançada por um governo português desde que a democracia foi implantada
Durão Barroso no Economist, Expresso, 27 de Março
* Título de O Independente, após a última maioria absoluta do PSD (Out. 1991) - FN
 
Irreal Social Democrata


A dois anos de distância, o PSD já tem dois candidatos à presidência da República. Mas estranhamente, a dois meses das eleições europeias, a coligação Força Portugal ainda não tem cabeça de lista. O único nome que se conhece é o do presidente do Boavista, João Loureiro, o que não deixa de ser coerente com o carácter futebolístico da coligação. No Público de ontem, claramente inspirado pelas letras dos Ban, o presidente da concelhia do PSD Porto defendia assim a inclusão do jovem Loureiro nas listas: «futebol é paixão, política é razão».
Já foram «testados» como cabeças de lista (a palavra certa é queimados) os nomes de Leonor Beleza, Deus Pinheiro, Dias Loureiro, etc. – e nada. O desespero é total. A coisa é de tal maneira que ontem no DN Luís Filipe Menezes propunha a vários empresários que arruinassem as suas carreiras em nome da Europa e dos interesses da direita. No caso desses empresários não aceitarem o repto, outra hipótese, segundo Menezes, é abrir a lista «a gente sem filiação, até mesmo sem ser da área do PSD». Podem ser pessoas da área do PS, portanto. Parece-me uma excelente ideia. Isto resolvia, simultaneamente, o problema do Dr. Durão Barroso (ter candidatos a menos) e o problema do Dr. Ferro Rodrigues (ter candidatos a mais). - FN
 
Desejo Casar
Desejo Casar. Era o nome de um dos meus blogues preferidos. Hoje é apenas a frase que mais se ouve em Benton County, um concelho do Estado do Oregon (EUA). De acordo com o correspondente do Público em Nova Iorque (26/03), «As autoridades de Benton County impuseram uma moratória a todos os tipos de casamento até que o Estado do Oregon tome uma decisão definitiva sobre a legalidade do matrimónio homossexual. "Pode parecer esquisito, mas temos de tratar toda a gente da mesma maneira", declarou à Reuters Linda Modrell, autarca local.» - FN
sexta-feira, março 26
 
Os momentos de Bagão (parte II)
Na mesma entrevista, outro grande momento, este revelador da grande solidariedade institucional e da coragem e espinha dorsal do homem. Aconteceu quando o jornalista, oportunamente, foi repescar umas imagens de 2001 em que Durão Barroso, ladeado por uns especialistas de ocasião (um tal Abel Mateus e um senhor cujo nome não recordo), denunciava indignado o "negócio político" (boa coisa quando os negócios são desse tipo!) do PS com o PCP para salvar o sistema público de segurança social (coisa terrível, coisa terrível). De caminho, e como demonstração do que vociferava, ia brandindo uns gráficos e uns números manifestamente surrealistas sobre a catástrofe que aí vinha, já a curto prazo, para os trabalhadores com as novas fórmulas de cálculo das pensões.
Como se sabe, o actual governo manteve a então escandalosa fórmula de cálculo e o jornalista interrogou Bagão sobre o que motivava tamanha mudança de posição em poucos meses. Bagão, aflito, corpo reclinado afastando-se da mesa, lá foi dizendo, com gestos de pudor horrorizado e o seu já inconfundível sorriso: "o que lhe posso dizer é que eu já na altura fui a favor desta fórmula de cálculo". Ou seja, não tenho nada a ver com isso, pá, o Durão que se desenrasque. Muito bonita, esta solidariedade dos ministros com o primeiro-ministro. Os governos coesos são assim. - MC
 
Os momentos de Bagão (parte I)
Ontem, entrevistado na SIC notícias, Bagão Félix esteve uma vez mais em grande. Entre vários momentos de luxo, pelo menos dois são candidatos ao não esquecimento.
Primeiro, quando justificou os longos regimes de transição para o novo modelo de cálculo das pensões de reforma com a seguinte frase: "nós, na segurança social, temos um princípio sagrado: o respeito pelos direitos adquiridos" das pessoas. Muito bem, por uma vez estamos absolutamente de acordo. O problema é que não ouvi o dr. Bagão chegar-se à frente e dizer o mesmo quando, não há muito tempo, as regras de aposentação dos funcionários públicos foram mudadas de um dia para o outro, lesando seriamente pessoas que, ao engano, trabalharam durante trinta e tal anos tendo como expectativa benefícios (contratualizados pelo estado e consagrados na lei) que se um dia para o outro se esfumaram. Mero oportunismo político? O estranho e obsessivo anátema contra os funcionários públicos, claramente não merecedores desse tratamento "sagrado" (e como o dr. Bagão mede estas palavras!)? Provavelmente, ambos. - MC
 
O pirómano tranquilo
José Saramago pergunta-se, em entrevista a propósito do seu último livro, o que aconteceria à democracia se a esmagadora maioria da população votasse em branco. Dessa possibilidade faz o motor da narração. Todavia, ao ouvi-lo, ficamos com a sensação de que o pergunta como se o desejasse. O pirómano tranquilo escreveu um livro como quem empunha um fósforo e aguarda o circo pegar fogo. E eu pergunto o que pensaria Saramago de Saramago se soubesse que a esmagadora maioria dos seus leitores tinha comprado O Ensaio Sobre a Lucidez apenas para ocupar o espaço vazio nas estantes lá da sala. Só para fazer lombada com os outros. Imagine Saramago que o tinham feito como «acto de lucidez perfeita», «um acto revolucionário dentro do sistema», afinal subversivo no «bom sentido». Serão hipóteses académicas, de acordo (mais a primeira que a segunda). Saramago deseja um sistema de governo melhor. Ora, também eu, também todos. Mas se Saramago admite prescindir da democracia para o efeito, essa é a única coisa de que eu absolutamente não prescindo. É que eu não desejo para Saramago o que aparentemente Saramago deseja para à democracia: o quanto pior melhor. - RB
 
«Silence can be beautiful. But it's always powerful»



[Kasimir Malevich, Black Square, óleo sobre tela, 1913]


- RB
quinta-feira, março 25
 
Parece um post do Barnabé, mas não é



[George W] - Those weapons of mass destruction have got to be somewhere.


Podia ser um post à la Barnabé, mas é um acontecimento que parece estar a deixar alguns norte-americanos muito pouco satisfeitos: «Bush put on a slide show, calling it the "White House Election-Year Album" at the Radio and Television Correspondents' Association 60th annual dinner (...). There was Bush looking under furniture in a fruitless, frustrating search. "Those weapons of mass destruction have got to be somewhere," he said.» [da CNN.com]. - JHJ
 
A regra de três simples da contra-revolução
D. Miguel


está para o Arcanjo S. Miguel


Como o Dr. Bagão Félix


está para D. Miguel


«O papel desempenhado por D. Miguel na Vilafrancada [27 de Maio de 1823] criou as condições necessárias para o início do processo de heroicização e mitificação da figura do infante num quadro religioso através da sua assimilação ao Arcanjo S. Miguel, à imagem de quem tinha esmagado a «besta» revolucionária. Imaginário que será útil vir a articular com o imaginário da sacralidade próprio do Antigo Regime» [Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, Rebeldes e Insubmissos. Resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Lisboa, Afrontamento, 2002, p. 19.]
Em 2004, duzentos anos depois da Vilafrancada, o Dr. Bagão Félix e o Dr. Portas propõem-se fazer o mesmo, esmagar a «hidra revolucionária». Em Novembro passado, foi a própria Dra. Catalina Pestana a elogiar o rei D. Miguel pela celeridade com que puniu «em dois dias» um seu afilhado acusado de abuso sexual de crianças da Casa Pia, tendo acrescentado que «nem tudo na República é mais célere que na monarquia, e que os reis, mesmo absolutistas, percebiam que nem os seus afilhados e compadres tinham o direito de abusar dos que viviam ao cuidado da realeza, na real Casa Pia» e que ela e o Dr. Bagão Félix não deixariam o «nevoeiro» impedir a «verdade de emergir». Ora nevoeiro, nem mais.
É que, e de volta ao nosso sistema de equações, a mais elementar regra de três simples mostra que o Dr. Bagão Félix é igual a D. Miguel ao quadrado a dividir pelo Arcanjo S. Miguel. Um resultado esclarecedor.
Agora só falta o Dr. Bagão Félix aparecer numa gruta em Carnaxide como a Senhora da Rocha em 1822, ou surgirem falsos Drs. Bagões do mesmo modo que surgiram falsos D. Miguéis (por exemplo, em 1825, no concelho da Guarda) ou falsos D. Sebastiões (como ainda ontem – três – no Rossio) e aí sim, teríamos lançado um novo culto popular: o bagãofelismo. - RB
 
Onde é que eu nunca vi isto?
Por muito que nos meios de comunicação social norte-americanos se discuta e opine sobre os depoimentos que alguns dos mais destacados responsáveis das administrações Clinton e Bush têm prestado ao painel da "The National Commission on Terrorist Attacks Upon the United States", um recurso informativo permanece imutável: ao serem públicos, os depoimentos estão acessíveis, na íntegra e em formato texto e vídeo, a quem os quiser consultar, pouco tempo depois de serem produzidos. Aqui, à distância de um clique. - JHJ
 
Post spam [mas do bom]


O grupo de teatro do Porto Visões Úteis estreia amanhã, na casa das artes de Famalicão, a sua 24ª produção. "O Inimigo" - a partir do texto "Um Inimigo do Povo", de Henrik Ibsen - tem direcção, dramaturgia e interpretação de Ana Vitorino, Carlos Costa, Catarina Martins e Pedro Carreira.
Ao longo destes dez anos, já foi dito pessoalmente, por telefone, FAX e E-mail. Hoje, vai por post: «Boa merda a todos». - JHJ
 
Volta, Tony, estás perdoado
A chegada de Tony Blair causou uma certa confusão nas ruas de Lisboa. Foi pelo menos o que aconteceu na Alexandre Herculano, onde a polícia se viu obrigada a mandar parar o trânsito para a caravana poder passar. Como é evidente, isto não tem nada de extraordinário. O que é extraordinário é que essa não tenha sido a opinião das pessoas que estavam no quiosque (o mesmo de que falei aqui ontem). A dona do «estabelecimento», por exemplo, desenvolveu logo um raciocínio de elevada sofisticação: «Se ele [Blair] fosse boa pessoa, não precisava de ter tanta polícia à volta dele». Ao que a cliente respondeu: «Não, não é isso». Nesse instante, o meu optimismo antropológico levou-me a pensar que ia sair dali qualquer coisa pedagógica, qualquer coisa cívica, como diria o Ivan. Mas não: «não é nada disso, minha senhora. Sabe o que é? É que em vez de irem trabalhar, andam-se a passear pelas avenidas [coisa que ela, contra todas as evidências, não estava a fazer] e a empatar o trânsito. São uns chulos!». Quando este discurso se manifesta, reconcilio-me logo com quem nos governa. Os cães ladram, a caravana passa. Volta, Tony, estás perdoado. - FN
quarta-feira, março 24
 
Elogio do Halibut

[Halibut é produzido pelos Laboratórios Andrómaco, Lda. Bem hajam!]
O creme Halibut é daquelas coisas que supomos existirem em todo o lado, como a Coca-Cola. Pois em Itália não há. Vai-se a uma farmácia e nada. Têm muitos outros, claro, e melhores e mais modernos. Mas eu gosto do Halibut, da bisnaga branca com a faixa verde. Até gostava de o ter no copo de lavar os dentes e da bisnaga ganhar uma pontinha de ferrugem porque era – pouco ecologicamente – feita de metal (parece que a nova embalagem em polyfoil evita já tudo isso, mas é mole e tem muito menos pinta). Gosto de não se perceber bem para que serve o Halibut. Gosto de aparentemente ele dar para tudo e para nada. Lê-se a «literatura» e pouco adiantamos: erupções ambíguas na pele, rabinho de bebé assado, queimaduras mas não graves senão já não serve, pelos encravados e que mais? Poucas coisas me chocaram mais do que ter percebido, há dois anos atrás, que um amigo tinha Halibut e o usava para fins medicinais por ele considerados totalmente lícitos, a saber: aliviar o cão de maleitas igualmente várias e indefinidas. Depois percebi a funda sageza da sua opção e nada lhe disse sobre isso. O não haver Halibut em Itália não é de somenos. Afinal o capitalismo industrial não funciona tão bem como pensávamos. Que não haja leite Vigor à venda em Florença, tudo bem percebe-se, agora Halibut... - RB
 
TONY, GO HOME!


Nos idos de 80 havia muitas frases políticas nas paredes de Lisboa. As frases que mais me marcaram talvez tenham sido «Soares/Pinto Rua!» e «Reagan Go Home». Lembrei-me disto por causa da visita que Tony Blair faz hoje a Portugal. Mas duvido que desta vez os maoístas pintem alguma parede: provavelmente até estão no governo a receber o senhor. Quem devia fazer alguma coisa era eu. Confesso que tenho uma relação complicada com as lideranças trabalhistas. Aos dezoito anos preferia os liberais democratas porque achava os trabalhistas demasiado à esquerda. Aos vinte e oito volto a preferir os liberais democratas porque acho os trabalhistas demasiado à direita. - FN
 
Speaker's Corner
Ia ontem calmamente a caminho do Marquês de Pombal quando, de repente, sou abordado por um senhor muito indignado. Acelero o passo, mas ainda assim ele consegue acompanhar o meu ritmo. Vai atirando umas frases para o ar a ver se a conversa pega. «Isto é uma vergonha. Houve agora uma ameaça de bomba no metro da Baixa-Chiado. Qualquer dia é a sério e ninguém acredita.». Eu só respondia com o habitual «pois é, pois é». De repente, com muita pena minha, despediu-se porque tinha de contar a mesma história a «um amigo que trabalha ali». O amigo trabalhava «ali» - ali na banca dos jornais. Por acaso eu até queria comprar o jornal, mas, pelo sim pelo não, optei por seguir rumo a outra banca. Chegado a outra banca, deparo-me com outro maluco. Este devia ser militante da secção do MPLA de Lisboa. «O João Soares é um bandido. O Monteiro é um ladrão de diamantes. Andavam a trabalhar para a UNITA. Eu qualquer dia vou ao Parlamento contar isto.» «Então vá», respondeu a dona da banca.
Em Londres, mais precisamente no Hyde Park, há um Speaker’s Corner onde maluquinhos de todas as tendências podem pregar livremente para gáudio dos turistas. Não percebo porque é em Lisboa, onde até já há uma pista de gelo, não temos um simples Speaker’s Corner. Enquanto isto não se resolver os maluquinhos continuam a invadir as bancas dos jornais e os fóruns da comunicação social. Socorro, Dr. Santana Lopes! - FN
terça-feira, março 23
 
Breaking news
A minha vida acabou de mudar. Isso aconteceu há menos de dez minutos atrás. É que descobri, depois de algum empenho dos meus pais, que a minha hora de nascimento, afinal, ocorreu cinquenta e cinco minutos depois daquela que eu sempre tinha pensado. Cinquenta e cinco minutos alteram por completo um mapa astral. Terei passado a ser compatível com imensas pessoas com quem sempre desejei ser mas achava que não dava (e pensava, pesaroso: «se ao menos tivesse nascido uma hora depois...») e passei a ser incompatível com outras com as quais eu já suspeitava as coisas não iam bem, com quem eu já não simpatizava muito mas não tinha, até agora, um motivo, uma única razão que o justificasse. Mas sobretudo sinto que me deram uma segunda oportunidade, um segundo futuro para desfrutar sem ainda ter gasto o primeiro. Está lá, a piscar, como uma vida extra numa máquina de flippers. - RB
 
À atenção dos senhores que se reúnem amanhã em Lisboa
leia-se aqui. - PAS
 
Um aquário nobel


[David Lurie] “About Melanie”, he says.
[Sr. Isaacs, pai de Melanie] “Yes?”
[David Lurie] “One word more, then I am finished. It could have turned out differently, I believe, between the two of us, despite our ages. But there was something I failed to supply, something” – he hunts for the word – “lyrical. I lack the lyrical. I manage love too well. Even when I burn I don’t sing, if you understand me.”
[J. M. Coetzee, Disgrace, Vintage, 2000, p. 171]

Li isto e pensei: «o tipo é aquário». Fui ver e Coetzee nasceu a 9 de Fevereiro de 1940. Uma ciência tão exacta quanto o desejável: nem de mais, nem sequer menos.- RB
segunda-feira, março 22
 
Perturbante
Galinhas de plástico empoleiradas nos parapeitos de janelas de cozinha em rés-do-chão virados de costas para um rio lamacento. - RB
 
Muito bom


Marc Chagall, Comedia dell'Arte
[aqui]. - RB
 
San Giminiano-am-Main


- RB
 
Por uma nova retórica sobre o terrorismo
Confesso. Estou cansado da retórica neo-conservadora sobre o terrorismo e da forma como ela se tornou quase senso comum nos discursos políticos e mediático. Estou farto das suas hipérboles mais ou menos cruas (e.g. 'Guerra ao terrorismo', 'Capitulação ao terror'), das suas metáforas batidas (e.g.'o choque de civilizações') e das suas perífrases óbvias (e.g. 'X é um Churchill' e 'Y é um 'Chamberlain'). Por isso decidi finalmente escrever sobre isto.
Sou um defensor acérrimo da Retórica enquanto ramo do conhecimento humano. Mas para o peditório do maniqueísmo já dei. A Retórica é fundamental para darmos sentido ao que nos rodeia e interagirmos com os outros; mas a má retórica torna-se um empecilho porque nos oferece sempre o mesmo quadro, fazendo-nos persistir em erros e escondendo-nos soluções - ou seja, tornando-nos, como Wittgenstein dizia, obcecados com o nosso próprio simbolismo. E o terrorismo é um problema demasiado grave para nos darmos a esse luxo.
A chave para a questão do terrorismo não está nos delírios racistas e xenófobos da ETA ou em discursos de lunáticos sobre as virgens no céu dos mártires ou desforras das cruzadas da Al-Qaeda. Entrar nesse jogo, usando uma retórica maniqueísta quase simétrica como é a neo-conservadora não ajuda nada. Só atrapalha. Pensem bem: O que é que se ganha em olhar para o problema do terrorismo como uma "Guerra"? Será que a repetição até à náusea de analogias históricas mais do que forçadas (e.g. 1939/2003) serve para alguma coisa na procura de uma solução? E o que diabo significa "negociar a paz"?
Talvez nos falte algo para tirar a reflexão sobre o problema do terrorismo do beco sem saída em que se encontra - e esse algo é uma nova retórica. Paradoxalmente, este nova retórica passa por dar menos importância ao que a Al-Qaeda ou outros grupos terroristas dizem e concentrarmo-nos antes no que fazem. E este 'fazem' vai muito para além dos atentados; inclui: (1) perceber como e onde estas organizações terroristas recrutam membros, o que lhes oferecem no dia-a-dia, quais os seus esquemas e meios de financiamento, como conseguem manter uma cadeia de lealdades nos locais e comunidades onde estão implantados, como distinguir entre organizações com real capacidade e os 'free-riders', etc.; e (2) ter em conta as condições sociais e económicas que permitem às organizações terroristas implantarem-se e florescerem: crescimento desmesurado e caótico das cidades; falta dos mais elementares mecanismos de protecção social; exclusão social e económica, pobreza - problemas que, embora particularmente agudos no Terceiro Mundo, estão muito longe de serem seu exclusivo.
Posta a situação assim, percebe-se que não há apenas um caminho; ao contrário do que a retórica neo-conservadora pretende fazer crer, há diversas 'defesas da democracia' possíveis e importa discutir as consequências de cada uma delas o mais abertamente possível. Deixa de se entender, por exemplo, como é que se pode sequer conceber uma solução para o problema do terrorismo que não envolva um enorme esforço de cooperação internacional, fomento do desenvolvimento económico e social e regulação dos mercados e transacções financeiras a nível global.
É claro que não podemos excluir um elemento repressivo (e.g. a recolha de informação, a dispositivos de prevenção nos aeroportos ou a detenção de terroristas). Seria uma loucura ignorá-lo. Mas importa que se compreenda que, neste campo, o equilíbrio é muito frágil (o caso dos GAL, que o Filipe referiu há uns dias, é exemplar a este respeito); tudo tem de ser feito com o máximo cuidado, sob pena de também os direitos dos cidadãos serem vítimas. É uma tragédia ferir a democracia enquanto se tenta protegê-la. Não pode por isso haver neste campo dogmas ou respostas definitivas porque os abusos, embora sempre mais ou menos fáceis de ocorrer, não são muitas vezes previsíveis à partida. Basta pensar, por exemplo, na assustadora banalização e nos usos muitas vezes grotescos e graves que são dados às escutas telefónicas - pensadas originalmente, lembre-se, apenas como meio excepcional para o combate à grande criminalidade dotada de fortes meios tecnológicos.
Para pensar tudo isto (o que não é nada fácil), uma retórica assente no maniqueísmo de pares como 'Guerra/Capitulação' ou 'Bem/Mal' pode ser muitas coisas - mas útil não é de certeza. É preciso uma nova retórica, que nos destape soluções e cubra os impasses. Urgentemente. - PE
domingo, março 21
 
País Relativo*
«Foi a ETA, não tenhas a menor dúvida.»
José Maria Aznar para o director do El Periodico, Público, 17 de Março

«Isso é uma coisa lá deles...»
Ivone, portuguesa de 41 anos, sobre os atentados em Madrid, Público

«Este minuto de silêncio foi uma homenagem aos nossos compatriotas espanhóis.»
Comentário de uma funcionária portuguesa do El Corte Inglês, SIC, 12 de Março

«Estou disponível para fazer campanha com o PSD, o CDS, os socialistas atlantistas. É guerra, é guerra.»
Pacheco Pereira, Público, 18 de Março

«No CDS já se fala em fusão com o PSD. A comparação que um dirigente faz é com o PP espanhol, onde tanto há gays como militantes da Opus Dei anti-legalização das relações homossexuais.»
Notícia do Público, 17 de Março

«Coligação a caminho do desastre.»
Primeira página da revista Visão, 18 de Março

«O Dr. Durão Barroso diz que anda a pôr a casa em ordem. Vê-se logo que nunca ajudou nas tarefas domésticas.»
Sónia Fertuzinhos, Conferência do PS na FIL, 21 de Março

«Cavaco Silva está dentro do prazo.»
Nuno Morais Sarmento, Expresso, 13 de Março

«O timing ideal para Cavaco era o dia seguinte às eleições, depois de saber se ganhava ou não.»
Rui Gomes da Silva, Expresso, 20 de Março

«Estou num patamar de tranquilidade.»
Santana Lopes, Expresso, 13 de Março

«Eu até alimento muitas polémicas. Por exemplo, agora estou a ler a documentação da Associação Portuguesa de Medicina Postural, e vou lançar outra polémica.»
Dom Duarte, DNA, 6 de Março

«Não se pode dizer que o 25 de Abril tenha valido a pena.»
idem

«Temos andado há 28 anos a não cumprir o ideal democrático.»
Maria de Lurdes Pintasilgo, Público, 20 de Março

* Quinzenalmente, a selecção das melhores frases. - FN
sábado, março 20
 
Como acontece quase sempre, assino por baixo
«A aliança que o SPD austríaco aceitou fazer com a extrema-direita de Haider é uma vergonha para toda a esquerda democrática. Não é pela cedência e o compromisso que se combate a ameaça populista. Noutra ordem de coisas, mas pelos mesmos motivos, não me parecem aceitáveis as declarações que se vêm sucedendo, incluindo da parte de Mário Soares, sugerindo a "compreensão" do terrorismo e alguma "negociação" com ele. Naquilo que divide a civilização da barbárie, não há meio-termo possível
Augusto Santos Silva, Público, 20 de Março - FN
 
Diz o roto ao nu
«O presidente Jorge Sampaio disse-me que aquilo que eu digo só daqui por dez anos é que vai ser entendido
Maria de Lurdes Pintasilgo, Público, 20 de Março - FN
sexta-feira, março 19
 
Quadrúpedes vários
Manuela Moura Guedes apresentou ontem à noite uma reportagem sobre aqueles que designou como "os nossos concidadãos de quatro patas". A peça fazia um apelo no sentido de que os (supõe-se) concidadãos de duas patas "sejam solidários" e ajudem a "salvar a raça portuguesa". E podem fazê-lo, de facto. Para além de comprarem e reproduzirem os cãezinhos "nacionais", coisa muito justa, podem por exemplo condenar à mais absoluta ignorância as tropelias e disparates dos quadrúpedes cuja ubiquidade, muitas casas a dentro todos os dias, é perfeitamente assustadora. - MC
 
O que eles dizem
O Expresso bem se esforça por tratar bem o Prof. Cavaco Silva. Reparo agora que na última edição o colocou «em alta». «Não precisou de dizer uma palavra sobre o tema para reforçar a sua condição de potencial candidato às presidenciais de 2006. Bastou-lhe a simples apresentação do livro». Quem escreveu foi José António Lima. Como se isto fosse uma coisa boa. Como se isto não revelasse a forma indigente como se faz política (e, já agora, «análise») em Portugal. Apesar disto, apesar de mais este esforço de aproximação por parte do Expresso, na sua autobiografia, o ingrato do Prof. Cavaco insiste em tratar mal os jornalistas. «Tenho a sensação de que para os jornalistas vale tudo», escreveu o homem que não lia jornais. Lima reconhece, humildemente, que «Cavaco tem razões de queixa dos jornalistas»; e que Cavaco é «o melhor e mais credível candidato do centro-direita». A única coisa que Lima exige é «que não se confunda tudo. Há jornalistas, como há políticos, pouco sérios e oportunistas». Tal como há jornalistas muito sérios e admiradores do Professor Cavaco como o senhor Lima.
Sei que o Professor Cavaco Silva não lê jornais. Mas também sei que aderiu recentemente à internet. Partindo do princípio que já colocou o País Relativo nos seus favoritos, deixo este post à sua consideração. Nem todos os jornalistas são anticavaquistas. Dê o benefício da dúvida ao senhor José António Lima. Repare que ele até se tem portado bem. - FN
 
Ao contrário do que eu próprio esperava...
«Quero aqui sublinhar que o líder do CDS tem sido de uma lealdade a toda a prova
Durão Barroso, entrevistado ontem na RTP por quatro jornalistas ligados à oposição (Judite de Sousa, Sarsfield Cabral, J. Manuel Fernandes e Bettencourt Resendes) - FN
 
Palavras cruzadas
Há quem ache que "manigâncias" é uma palavra demasiado forte. Era bom que assim fosse. Mas há outras palavras que servem bem para descrever o dr. Durão Barroso e a sua actuação pré-eleitoral (como candidato) e pós-eleitoral (como vencedor): promessas por cumprir, programa escondido, mentiras, contradições. É difícil escolher o melhor qualificativo.
Só que este "vale tudo para ganhar" está entre o que há de pior em política, porque mina os fundamentos da confiança que as pessoas demonstram face àqueles que elegem e face ao sistema democrático. Leiam, vejam, ouçam. E escolham os leitores as palavras certas para aplicar às duas faces do dr. Durão. - PR











[Clique em play. Dependendo da velocidade de ligação, o filme poderá estar disponível só ao fim de algum tempo. Pedimos desculpa a quem não o conseguir ver por incompatibilidade de software.]
quinta-feira, março 18
 
A «fusão»
A primeira «fusão» juntou, entre 1865 e 1868, o Partido Regenerador e a chamada «unha branca» do Partido Histórico. A próxima «fusão» que se desenha é entre o PSD e o CDS. Na direita não se fala noutra coisa. De acordo com o Público de ontem, esta fusão «deve permitir manter a identidade de cada um. A comparação que um dirigente do CDS faz é com o PP espanhol, onde tanto há "gays" como militantes da Opus Dei anti-legalização das ligações homossexuais». - FN
 
«Ignorante e Incompetente»


Perante o primeiro orçamento deste governo, o Professor César das Neves, analisando o documento, falou em «manigâncias». Passados quase dois anos, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Marques Mendes, vingou-se. Disse hoje na Assembleia que «falar em manigância é linguagem de ignorantes e incompetentes». Definitivamente, o Professor César das Neves, reputado economista e antigo conselheiro do Professor Cavaco Silva, não merecia tamanha desconsideração. - FN
 
Obrigado pelas visitas ...


... e apareçam mais vezes. - PR
 
A ética na gaveta


Este tipo com cara de sub-chefe das SS é membro da Heritage Foundation (think tank ultraconservador) e foi escolhido pela CNN para comentar as eleições espanholas. A conversa dele faz lembrar aquele puto irritante do «Everybody says I love you» do Woody Allen. É impossível que não tenha também uma bolha no cérebro.
Na cátedra da CNN, este idiota pôs-se a dar lições de coragem política aos espanhóis. Como se isto não bastasse, ainda disse que o PSOE era um «radical left-wing party». Na América «left-wing» já significa mais do que «esquerda» aqui em Portugal: é uma categoria onde só entrariam o PC e o Bloco. Isto indica que Zapatero foi apresentado como se fosse o líder do movimento Zapatista. O assunto nem merecia comentário não fosse o caso desta ideia (o «radicalismo» de Zapatero) estar já a fazer o seu caminho na Europa. A direita viu o líder do PSOE pela primeira vez na conferência de imprensa de segunda feira e não gostou do que ouviu. Assim, o cumprimento de uma promessa eleitoral feita há meses, isto é, a retirada das tropas espanholas no Iraque (medida discutível nesta fase de «reconstrução») tornou-se imediatamente sinónimo de «radicalismo de esquerda» e, pior, de «compromisso com terroristas».
A verdade é que Zapatero foi até 2000 membro de um simpático clube do PSOE chamado «nueva via». Por acaso, na altura em que ele se candidatou a secretário-geral do PSOE (ganhou por meia dúzia de votos) estive em Espanha e pareceu-me que a inspiração da «nueva via» não era propriamente a «esquerda radical», mas sim a moderada «terceira via» de Tony Blair. Zapatero representou uma ruptura com «a tralha felipista». Defendeu, tal como Blair, uma modernização da esquerda (basta ver as linhas do programa económico) e uma política externa «ética». Aparentemente, Zapatero mantém-se no mesmo sítio. Blair é que terá metido a «ética» na gaveta. - FN
 
Temos que repensar todo o futebol português*


Belenenses eliminado da Taça de Portugal

* Frase atribuída a Rui Santos, comentador de futebol da SIC, após a última derrota do Benfica frente ao Sporting. - FN
quarta-feira, março 17
 
Ao sabor do vento


16 de Março de 2003, Açores, primeiro-ministro Durão Barroso:
«We have joined this initiative and we organized it here in the Azores because we thought this was the last opportunity for a political solution -- and this is how we see it, this is the last possibility for a political solution to the problem. Maybe it's a small chance, a small possibility, but even if it's one in one million, it's always worthwhile fighting for a political solution. And I think this is the message that we can get from this Atlantic summit.» [leia aqui]
17 de Março de 2004, Lisboa, o mesmo primeiro-ministro Durão Barroso:
«[o início da guerra no Iraque] Foi uma decisão acertada. Portugal deve pensar na luta global contra o terrorismo. Nós para lutarmos contra o terrorismo precisamos de ter aliados.» [leia aqui]
Curiosidade: Há um ano, nos Açores, a palavra 'terrorism' foi referida quatro vezes no decorrer da comunicação conjunta, enquanto que a expressão 'weapons of mass destruction' foi referida dez. [conte aqui]
Este é um claro exemplo do que se entende por tentativa de manipular e iludir a opinião pública. Já chega! - JHJ
 
Sem comentários
O primeiro-ministro, Durão Barroso, afirmou hoje que a realização da Cimeira das Lajes, nos Açores, onde se decidiu a intervenção no Iraque, foi uma "decisão acertada" (agência Lusa). - PAS
 
As três [verdadeiras] leis de Newton
[O servidor onde as imagens inicialmente publicadas neste post estavam armazenadas deixou de permitir o acesso público às mesmas]
[A partir de "PhD, Piled Higher and Deeper", a graduate student comic strip collection by Jorge Cham]
Newton's Three Laws of Graduation
First Law - A grad student in procrastination tends to stay in procrastination unless an external force is applied to it.
Second Law - The age (a) of a doctoral process is directly proportional to the flexibility (F) given by the advisor and inversely proportional to the student's motivation (m). In equation form: a=F/m, or F=ma.
Third Law - For every action towards graduation there is an equal and opposite distraction. - JHJ
 
Parabéns a vocês
O terrorismo intelectual é uma das coisas mais insuportáveis. Vive de uma cultura de desonestidade intelectual e policiamento ideológico permanente. Do género: «"Bom dia"?! O senhor disse "bom dia"? Olhe que o Estaline também costumava dizer isso. O senhor tem um discurso tipicamente estalinista.» Não será por acaso que os terroristas intelectuais são quase todos ex-militantes da extrema esquerda. Os tiques permanecem intactos. Os seus alvos são normalmente ex-companheiros de estrada que, tendo evoluído, cometeram o crime de não terem seguido o mesmo percurso «neoconservador». Em Portugal a vítima é normalmente o Bloco de Esquerda. Admito que, de vez em quando, apetece bater nos bloquistas. Às vezes, parece que não aprenderam nada. Como no outro dia quando o Daniel Oliveira quis proibir Augusto Santos Silva de ter reservas quanto à despenalização do aborto. Mas no essencial estão a realizar uma evolução positiva, séria, à vista de toda a gente. Só não vê quem não quer.
A forma como Pacheco Pereira ou José António Lima se referiram à declaração de voto de Louçã, a propósito dos atentados em Madrid, é um exemplo típico da forma de actuar das milícias intelectuais. Parece que, ao contrário do que mandou a senhora ministra dos Estrangeiros de Espanha, Louçã cometeu o crime de não referir a ETA no seu discurso... Pois eu achei o discurso excelente. E não resisto a fazer algum friendly fire, dizendo que o Bloco está a conseguir aquilo que o Professor Freitas tentou (sem sucesso) com a extrema direita: trazer o que restava da extrema esquerda para o campo da democracia. (Pena que alguns antigos camaradas se tenham antecipado e já estejam a caminho da direita extrema.) Segundo o cartaz, o Bloco faz anos por estes dias. Parabéns a vocês. - FN
 
Só neste país?
No passado domingo, noite das eleições espanholas, seguia atentamente a TVE. De repente, a noite eleitoral é interrompida para a transmissão dos resumos da primeira liga espanhola. Mais resultados da segunda liga. Mais chave do totobola. Tudo somado, uma longa meia hora. Se fosse a RTP1, não faltariam casas portuguesas onde se exclamasse "só neste país!". - MVS
 
There's a new kid in the system


Senhoras e senhores, digam olá a [rufar de tambores]... Sedna!!! - PE
terça-feira, março 16
 
A prova dos nove
Numa peça do Jornal da Noite da SIC, o Xeque David Munir demonstrava, recorrendo a uma sofisticada argumentação teológica, que as ameaças de atentados terroristas enviadas para um certo jornal não tinham qualquer credibilidade. Para o mesmo efeito, eu só precisei de uma constatação: o jornal em causa era o Correio da Manhã. - PE
 
Atrasado, mas ainda bem a tempo
Há 30 anos, começava a contagem decrescente para a Liberdade. - PE
 
MADRID ESPAÑA
Hoje de manhã, apressado, passei por uma daquelas lojas de chineses atulhadas de bugigangas que há agora em muitos cantos esconsos por essa Lisboa fora. Pendurada na ombreira da porta, em lugar de destaque entre muitas outras coisas, estava uma t-shirt de cor parda com umas estampagens. No peito, um pequeno vulto estilizado que podia ser a silhueta de uma cidade ou de outra coisa qualquer e, logo por baixo, em letras garrafais, uma palavra por cima da outra: MADRID ESPAÑA, ambas as palavras escorrendo gotas a fazer lembrar sangue.
Passaram quatro ou cinco dias desde os atentados, e estamos numa lojeca perdida algures em Lisboa. O mercado não dorme, nem sangra. - MC
 
A Guerra da Mentira


Faz hoje um ano a Cimeira da Guerra da Mentira. Para que não se repita.- PAS
 
Platão e a velocidade da luz ao quadrado


O Filipe Moura, do BdE, chama a atenção para um artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias, que é um sonoro hino ao pós-modernismo de trazer por casa. Para facilitar as coisas, transcrevo algumas das frases do dito-cujo:
«O Segundo Princípio da Termodinâmica diz que os sistemas evoluem no sentido (...) do caos.»;
«Mas este processo [a civilização] de construção de entropia negativa era sistematicamente interrompido por situações de entropia absoluta [a barbárie].»;
«A luta contra a entropia é uma luta permanente.»;
«O terrorismo é a mais perniciosa das entropias contemporâneas. Porque é uma entropia difusa. Uma entropia sem rosto.».
Entropia e Terrorismo, é o título da dissertação. - JHJ
 
Somos todos espanhóis
Ontem fui, como faço sempre no dia a seguir às eleições espanholas, em busca de um exemplar do El Pais. Normalmente não tenho dificuldades. Decidi começar pelo Chiado. Nada. Tentei no Marquês de Pombal. A mesma coisa. «Desde sábado que o El Pais esgota sempre», disse-me a senhora do quiosque.
No metro, entre a estação Baixa Chiado e o Marquês de Pombal, entraram duas trabalhadoras de meia idade. Se trabalhassem em Madrid morariam algures entre El Pozo e Vallecas. E ontem era mesmo como se lá vivessem. O tema da conversa era o resultado das eleições espanholas. «O Zapateiro [sic] teve maioria», dizia uma. «Olha que eu não sei. Tive que me deitar, não vi aquilo até ao fim. Pareceu-me que ele ganhou mas não teve maioria», respondeu a outra. Por estes dias, tem sido verdade: somos todos espanhóis. - FN
segunda-feira, março 15
 
467.540
era este o número de portugueses desempregados em Fevereiro. No entretanto, o governo, pela douta voz do Ministro Bagão, está mais preocupado com as gravatas. - PAS
 
Canções para os tempos que passam


The Future - L. Cohen

"(…) I've seen the nations rise and fall
I've heard their stories, heard them all
but love's the only engine of survival
Your servant here, he has been told
to say it clear, to say it cold:
It's over, it ain't going
any further
And now the wheels of heaven stop
you feel the devil's riding crop
Get ready for the future:
it is murder.
(…)
Things are going to slide, slide in all directions
Won't be nothing
Nothing you can measure anymore
The blizzard, the blizzard of the world
has crossed the threshold
and it has overturned
the order of the soul
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
(…)
There'll be the breaking of the ancient
western code
Your private life will suddenly explode
There'll be phantoms
There'll be fires on the road
and the white man dancing
You'll see a woman
hanging upside down
her features covered by her fallen gown
and all the lousy little poets
coming round
tryin' to sound like Charlie Manson
and the white man dancin'."
- PAS
 
Zapatero Presidente
Muitas coisas podem explicar o surpreendente resultado eleitoral de ontem. Os politólogos lembrarão que a Espanha é sociologicamente de esquerda, e que houve tradicionais simpatizantes do PSOE que em momentos anteriores se abstiveram mas que desta vez, motivados pela gravidade do momento, foram votar. O terrorismo intelectual do costume dirá que os espanhóis votaram com medo e cederam ao terrorismo. Não quero contribuir para o clima de má fé. Prefiro acreditar que os espanhóis deram uma vitória ao PSOE por uma razão muito simples: porque não gostam de ser enganados. - FN
 
Má fé
Da lei da selva que vigora em Guantanamo às mentiras sobre as armas de destruição maciça, são vários os episódios que minam a confiança nas democracias. Se em nome do combate ao terrorismo abdicarmos de princípios democráticos básicos, então estaremos já a viver noutro regime qualquer. Não venham é com a conversa da «defesa dos valores da democracia liberal».
A mais recente tentativa de manipulação de uma opinião pública por parte de um governo democrático aconteceu em Espanha, na sequência dos atentados terroristas de quinta feira passada. Morreram 200 pessoas. Podia ter sido a ETA. Podia ter sido a Al Qaeda. Podia ter sido outro bando de criminosos qualquer. A questão não é essa. A questão é que logo a seguir aos atentados o senhor ministro do interior veio dizer ao seu país que tinha a certeza que se tratava de mais uma acção da ETA. Apesar das informações em sentido contrário, a senhora ministra dos negócios estrangeiros enviou para o corpo diplomático uma circular que vinculava todos os embaixadores de Espanha à «tese da ETA». Nesta mesma linha, o senhor Rajoy, candidato a primeiro-ministro, pessoa supostamente bem informada, limitava-se a partilhar com os espanhóis os seus estados de alma: «Foi a ETA: é apenas a minha convicção moral». O próprio Aznar, em conferência de imprensa, interrogava-se: «Alguém com dois dedos de testa poderia deixar de suspeitar da ETA? É essa a convicção lógica e racional do governo e da maioria dos espanhóis». Como se fosse função de um primeiro-ministro raciocinar e dar palpites na linha do merceeiro da esquina.
Esta forma aparentemente desastrada de fazer política teria a sua graça se não fosse tão desastrosa. É evidente que houve aqui má fé. A tal «má fé» de que tanto fala Pacheco Pereira quando isso convém aos seus esquemas mentais. A mesma má fé que fez com que o PP não hesitasse em romper o pacto antiterrorista assinado por iniciativa do PSOE procurando colar de forma infame Zapatero à ETA, a propósito de conversas entre o líder da esquerda republicana catalã e os terroristas do país basco. Na manhã dos atentados, a direcção do PP agiu mais uma vez em função de raciocínios perversos, e desta vez saiu-se mal: se for a ETA ganhamos; se for a Al Qaeda perdemos porque apoiámos Bush.
Subscrevo inteiramente a ideia de J. Almeida Fernandes no Público de ontem: o pior que podia acontecer às democracias era subordinarem a sua política externa à chantagem terrorista. É uma ilusão pensar-se que democracias governadas por partidos críticos da política externa de Bush estejam a salvo de qualquer ataque. Aliás, a defesa do direito internacional e o respeito por direitos, liberdades e garantias não são coisas boas para satisfazer reivindicações de terroristas. São coisas boas. Ponto final. - FN
 
Bons ventos!


- PE
domingo, março 14
 
O sobressalto cívico
A magnífica resposta de uma democracia ao terror:
Taxa de participação eleitoral 2000 - 68,71%
Taxa de participação eleitoral 2004 - 77,44%
Gracias, España! - PE
 
A última metade ...
... do nome deste blogue está de parabéns; o seu pai nasceu há precisamente 125 anos. - JHJ
 
A plenitude natural da paternidade
Edward: Having a kid changes everything (...) you spend years trying to corrupt and mislead this child, fill its head with nonsense - and still it turns out to be perfectly fine.
Will: You think I'm up to it?
Edward: You learned from the best.
(Tim Burton, The Big Fish, 2003) - PE
sábado, março 13
 
O nó na garganta de Bagão
Bagão Félix diz que o PS é liderado por uma esquerda desengravatada. Já há uns tempos, uns amigos seus se tinham queixado da indumentária do líder da oposição. Como se sabe, são estas as questões que interessam às pessoas, e é significativo que haja quem gasta o seu tempo, tempo demais, a discutir gravatas e outras questões de substância.
Deve ser porque a única coisa maior que o nó da gravata dos meninos do PP é o nó na garganta que lhes provoca o estado em que estão a deixar o país em apenas dois anos de governação: na segurança social, no emprego, na justiça, em tudo o que tocam. E o facto de saberem que ainda lhes restam (a eles e a todos) mais dois anos de pesadelo. - MC
 
Parece a gozar, mas não é
Sondagem do Portugal Diário: O Governo quer instituir aumentos salariais de dois em dois anos baseando-se na taxa média de inflacão da UE. O que lhe parece? (a) Parece-me bem, para não andarmos todos os anos com negociações. (b) É absurdo. A inflação da UE é inferior à nossa e os preços aumentam todos os dias. (c) Sou funcionário público, quero é ser aumentado. (d) Estou desempregado. Queria era um emprego.
Que as sondagens feitas na imprensa não obedecem a critérios mínimos de qualidade e de regras na construção das perguntas formuladas (já para não falar das "preciosas" fichas técnicas, normalmente em letras de contratos de seguros e suficientemente ambíguas para nada dizerem), já se sabia. Mas às vezes parecem mesmo saídas dos inquéritos de opinião do inimigo público. E, no entanto, não são feitas para rir... - MC
 
É 'natural', ninguém leva a mal
No ponto 2 de um artigo publicado no jornal Público de ontem, Miguel Sousa Tavares defende que quem criticou Luís Villas-Boas pela sua posição relativa à adopção de crianças por homossexuais, o fez recorrendo a «primários raciocínios».
Para MST, é óbvio que «um casal homossexual não oferece garantias para criar e educar equilibradamente uma criança», e como não é possível encontrar «elefantes gay ou focas lésbicas a criar filhos em comum», tal não deverá ser permitido aos humanos. Até porque, não é legítimo pedir «o que não é natural pedir e ofende os direitos legítimos de terceiros inocentes.»
Evoluído raciocínio, sem dúvida. Aqui cabe tudo: um casal heterossexual - por ser 'natural' - oferece as garantias não oferecidas por um casal homossexual. Como é 'natural', ninguém leva a mal. Mesmo que o homem passe a vida a dar enchurtos de porrada na mulher à frente das crianças.
O que eu gostava mesmo de saber, é o que é que MST entende por 'ser natural'. O Luís Villas-Boas afirmou, disparatadamente: «Ser lésbica não é ser mulher na plenitude natural do termo, porque se assim fosse não haveria o problema da procriação natural». Achará MST que uma mulher infértil (tem o mesmo problema da procriação) também não é mulher na plenitude 'natural' do termo? - JHJ
sexta-feira, março 12
 
Os novos Chacais


Durante os anos 70 e início dos anos 80, Ilich Ramirez Sanchez - mais conhecido por "Carlos, El Chacal" - foi um terrorista a soldo, de parcas referências ideológicas e com uma só motivação: provocar a insegurança e o medo a troco de dinheiro. Muito dinheiro.
Cada vez mais, parece-me que de entre os dez a trinta operacionais que se estima terem estado envolvidos nos atentados de Madrid, será muito difícil não vir a encontrar quem tenha crescido no País Basco, ou quem tenha vivido algum tempo no Afeganistão: não só não são conhecidas raízes suficientemente robustas da al Qaeda em Espanha, como a ETA parece estar ferida na sua estrutura operacional, fruto da eficaz luta anti-terrorismo dos últimos anos. O vazio de certeza quanto aos responsáveis pelos atentados parece significar uma única coisa: quem o fez, fê-lo com enorme autonomia relativamente às cúpulas. Tal e qual como no 11 de Setembro.
Não há terrorismo mais eficiente do que o mercenário: a dúvida, tal como o medo, é uma das facetas do terror. - JHJ
 
Pintar a manta nas europeias
João de Deus Pinheiro terá sido "testado" pelo PSD para cabeça de lista das europeias. Junto da opinião pública não se sabe qual o veredicto, mas Marcelo, num dos seus exames sumários, já o aprovou. Nos tempos que correm, em particular num certo canal de televisão, é quase a mesma coisa.
Vai ser bonito. Deus Pinheiro vai encabeçar uma lista feita sob a tutela do subordinado que o decapitou alegremente enquanto ministro quando, depois de anos de guerra surda e intriga, lhe tirou finalmente o tapete, perdão, a manta. E vai candidatar-se em coligação com quem o fritou depois, aceitando das mãos do primeiro a cabeça - bem enroladinha na famosa manta - do agora candidato a candidato (entre outros candidatos a candidatos).
As voltas que a vida dá. Como se não bastasse, Deus Pinheiro ainda vai ter de gerir a manta de retalhos ideológica que inevitavelmente vai sair dessa aliança. Em suma: é impossível esperar sem ansiedade pela campanha, pelo manifesto eleitoral da ecoligação, e por ver Durão, Portas e Deus Pinheiro, todos muito juntos e sorridentes numa foto de família feliz. - MC
 
Convicções e certezas
Comecemos pelas certezas: a autoria dos atentados de Madrid ainda é desconhecida. Se o atribuí à ETA no post de ontem, fi-lo de acordo com a minha convicção, que aliás mantenho intacta. Continuo, apesar de tudo, a dar mais credibilidade às três tentativas frustradas da ETA nos últimos meses para realizar atentados semelhantes ao de ontem do que à descoberta de uma furgoneta com sete detonadores e uma cassete com versículos do Corão em árabe ou uma carta espúria reivindicando o atentado. Mas admito que, em matéria de convicções, também se erra. Veremos.
Não deixa de ser, porém, curioso que a tentativa de dissociar a ETA da autoria dos atentados de ontem começa em Otegi que assim justificou a sua convicção: "Porque ETA a lo largo de su historia siempre ha avisado de la colocación de explosivos y todo apunta a que esa llamada no se ha producido" ; e reforça o seu argumento dizendo que "es una acción que se ha hecho buscando ese alto número de víctimas, pero además buscando un alto número de víctimas entre trabajadores y población civil". Ora, se em matéria de convicções se erra, também se distorce. Que a ETA tenha sempre avisado antecipadamente sobre a colocação de explosivos, só pode relevar do domínio da ficção em que vive Otegi. Basta ler as retrospectivas dos atentados etarras que se publicam hoje na imprensa espanhola para perceber quão descabida é a sua premissa inicial. Que a ETA não tenha buscado a morte de civis, sobretudo à escala dos atentados de ontem, desmente-o a tentativa abortada, no Natal passado, de provocar um massacre em Chamartin. E das convicções de Otegi voltemos, então, às certezas: Otegi usa os atentados de ontem para urdir a mais descarada das mistificações sobre a ETA. Na linha mistificadora de que se alimentou - e continua a alimentar - o nacionalismo basco. - PM
 
A barbárie é sempre absoluta
Não deixam de ser espantosos alguns dos comentários que aqui apareceram no post do Pedro Machado sobre o atentado de Madrid, de que se desconhece ainda a autoria. A tendência justificacionista dos actos da ETA ou de qualquer outro grupo de bandidos armados que espalham o terror nas democracias é, logo a seguir aos actos em si, o elemento mais trágico do terror. Mas, regressando a Espanha, não deixa de ser sintomática a resposta do Rei Juan Carlos. Curta, serena e certeira, afastando-se da tentação - que tem sido seguida pelos senhores da guerra - de flexibilizar o Estado de direito para responder ao terror. A barbárie é sempre absoluta e a defesa do Estado de direito ou é absoluta ou é o Estado que deixa de ser de direito. - PAS
quinta-feira, março 11
 
A obsessão


Depois de várias tentativas abortadas nos últimos meses, um punhado de assassinos que não representam nada, nem ninguém a não ser uma construcção artificiosa urdida nos finais do séc. XIX e alimentada e lubrificada por uma elite política depois da transição conseguiu, hoje, concretizar a sua obsessão: matar, matar, matar. Há uma geração, sobretudo de jovens crescidos nas aldeias e vilas do País Basco após a transição, que vive oprimida. Oprimida pela obsessão de matar. E qualquer debate sobre o País Basco começa e acaba nesta obsessão. O mais é supérfluo. - PM
 
Ser-se sido comunista
Era-se comunista por se ter nascido na Emilia.
Era-se comunista porque o avô, o tio, o papá...a mamã, não.
Era-se comunista por ver na Rússia uma promessa, na China uma poesia, no comunismo o paraíso terrestre.
Era-se comunista por solidão.
Era-se comunista por se ter tido uma educação demasiado católica.
Era-se comunista porque o cinema assim o exigia, o teatro o exigia, a pintura o exigia, a literatura também...por assim o exigirem todos.
Era-se comunista porque to tinham dito.
Era-se comunista porque não te tinham dito tudo.
Era-se comunista porque antes...antes...antes se tinha sido fascista.
Era-se comunista por ter percebido que a Rússia ia devagar mas ia longe.
Era-se comunista porque Berlinguer era uma boa pessoa.
Era-se comunista porque Andreotti não era uma boa pessoa.
Era-se comunista porque, embora rico, se amava o povo.
Era-se comunista por se beber vinho e ficar comovido nas festas populares.
Era-se comunista por ser-se tão ateu que se tinha necessidade de um outro Deus.
Era-se comunista por estar-se tão fascinado pelos operários que se tinha vontade de ser um deles.
Era-se comunista por não aguentar mais ser operário.
Era-se comunista porque se queria um aumento de ordenado.
Era-se comunista porque a revolução hoje não, amanhã talvez, depois de amanhã seguramente.
Era-se comunista porque a burguesia, o proletariado, a luta de classes...porra pá!
Era-se comunista para chatear o pai.
Era-se comunista por ver apenas a Rai Tre.
Era-se comunista por moda, alguns por princípio, outros por frustração.
Era-se comunista porque se queria nacionalizar tudo.
Era-se comunista por não se conhecer os empregados estatais, paraestatais e afins.
Era-se comunista porque se tinha trocado o materialismo dialéctico pelo evangelho segundo Lenin.
Era-se comunista por se estar convencido de ter a classe operária atrás de si.
Era-se comunista para ser mais comunista que os outros.
Era-se comunista por existir o grande partido comunista.
Era-se comunista apesar do grande partido comunista.
Era-se comunista por não haver nada melhor.
Era-se comunista porque tivemos o pior partido socialista da Europa.
Era-se comunista porque um Estado pior que o nosso só no Uganda.
Era-se comunista por não se suportar mais de quarenta anos de governos democratas-cristãos incapazes e mafiosos.
Era-se comunista porque Piazza Fontana, Brescia, a estação de Bolonha, o Italicus, Ustica, etc., etc., etc.
Era-se comunista porque quem era contra era comunista.
Era-se comunista por não aguentar mais daquela coisa suja a que nos obstinamos chamar democracia.
Havia quem acreditasse ser comunista, mas se calhar era outra coisa.
Era-se comunista por sonhar uma liberdade diferente da americana.
Era-se comunista porque se acreditava capaz de estar vivo e ser feliz apenas se os outros o fossem também.
Havia quem fosse comunista porque tinha necessidade de um impulso em direcção a qualquer coisa de novo. Porque sentia a urgência de uma moral diferente. Porque porventura era somente uma força, um voo, um sonho; era apenas rasgo, desejo de mudar as coisas, de mudar a vida.
Sim, era-se comunista porque, possuído por este ímpeto, cada um era...mais do que si próprio. Era-se como que...duas pessoas numa só. Por um lado, o pessoalíssimo fastio quotidiano, por outro, o sentimento de pertença a uma raça que queria ensaiar o voo para mudar verdadeiramente a vida.
Não. Nada de saudades. Porventura, já então, muitos tinham aberto as asas sem serem capazes de voar...como gaivotas hipotéticas.
E hoje? Ainda nos sentimos como que em dois. De um lado, o homem inserido atravessando gentilmente a tristeza da própria sobrevivência quotidiana e do outro a gaivota sem já sequer a intenção do voo porque, enfim, o sonho minguou.
Duas misérias em um corpo só.
[trad. «Qualcuno era comunista» de Giorgio Gaber , no disco La mia generazione ha perso, 2001]. - RB
terça-feira, março 9
 
Sem mais
A propósito da lista, o artigo de hoje de José Vitor Malheiros. "Tal como está, a colecção de fotos de notáveis é um índex, uma lista negra: na melhor das hipóteses é um convite à denúncia gratuita, na pior uma arma de pressão, em todas as hipóteses uma fábrica de rumores. Como ninguém quer dar a impressão de que resiste a ser investigado ou quer pressionar a justiça, ninguém reage à sua inclusão. E os que estão fora não querem dar a impressão de que receiam passar à categoria de "presumíveis suspeitos" e também não atacam o método. Não é por isso de estranhar que a generalidade dos políticos - como notou Mário Mesquita- se mostre refém deste instrumento e reaja com tibieza à notícia da sua inclusão. Mas o que exigimos dos eleitos é algo diferente: que combatam a difamação que a lista constitui, o medo que a lista (e a sua difusão) pretende espalhar e a descredibilização da investigação que ela é." Sem mais. - PAS
 
Imputabilidade e responsabilidade ilimitada
Vale a pena ler. Numa nota singelamente intitulada “meditação sobre a vida”, a Conferência Episcopal Portuguesa “no seu retiro anual em Fátima”, na prática só fala de aborto. Como se tudo o que tivesse para dizer sobre a vida se cingisse ao aborto. Como se só a invocasse, como parece ser o caso, para falar de e a pretexto do aborto. E como se os bispos, no seu retiro anual, não tivessem mais nada para falar para além do assunto sobre o qual já falam, abundantemente e em muitos casos mal, o ano inteiro. É o espelho de um grupo que, em retiro, fala em circuito e em lógicas fechadas, profundamente desligadas da realidade.
O texto parece ser, em si, uma pérola, talvez porque “se nota alguma influência literária” [sic] do patriarca de Lisboa. Mas entre várias passagens a roçar o inacreditável conclui-se então que, sendo contra toda e qualquer veleidade descriminalizadora ou despenalizadora do aborto, há “circunstâncias psico-sociais que podem tornar inimputável [sic] ou com responsabilidade atenuada” quem o pratica. Inimputável ou com responsabilidade limitada – como um louco, ou alguém fora de si.
Tal é a gravidade da afirmação, e a forma como é colocada a questão, que quase dava vontade de devolver estas considerações sobre inimputabilidade e irresponsabilidade a quem as profere – mesmo desconhecendo, profundamente, as razões psico-sociais que conduziriam a semelhantes estados. Mas a tentação dura apenas um segundo. Pensando melhor, há quem tenha de ser responsabilizado pelas coisas que diz, e pelas suas consequências. - MC
 
Sete nomeações abaixo de m***a


Nicole Kidman é a única coisa que não é gélida, chata, comprida, entediante, mal feita, bocejante, irritante por demasiado longa no filme Cold Mountain, que vi ontem. Ela e o Giovanni Ribisi em mais um fabuloso small part, como aquele outro - e eu estou ciente das minhas obsessões, o que suponho ser um bom sinal - no Lost in Translation. É por ela que a montanha é mágica e não fria. - RB
segunda-feira, março 8
 
Dia Internacional da Mulher


Hoje é o dia internacional da mulher e, a propósito, tem lugar uma exposição fotográfica numa das salas do instituto de investigação onde trabalho. Por isso, foram afixados por todo o lado posters alusivos à dita exposição. Bom, esse poster contém uma fotografia de um par de pés feminino, em sandálias, sugerindo as pernas cruzadas, com a legenda: «Technologies of the Self by Emma Innocenti». Fiquei com um para mim e tudo (tinha pensado colocá-lo aqui mas não consegui). Fez-me lembrar, como muitas outras coisas ultimamente, o filme Lost in Translation. E pensei: «bom, há mesmo aqui qualquer coisa com a relação entre as raparigas e os seus pés, tirarem-lhes fotografias e a sua identidade». Até agora, e a propósito do filme, a coisa tinha sido uma espécie de piada. Perguntei a algumas amigas se alguma vez tinham tirado fotografias mais ou menos artísticas dos seus pés e elas, quase unanimemente, e para ingénua surpresa minha, disseram sim, sim, tiramos todas. Mas hoje foi como que a caução empírica que faltava. O mais engraçado nisto tudo é que estou apenas meio a brincar – o outro meio é, para meu espanto, a sério. - RB
 
Da projecção internacional do Dr. Lopes
Numa altura em que a política passou a ser feita na apresentação de livros e na avaliação de quem e quantos estiveram neste ou naquele lançamento, eis que, provavelmente para compensar o facto de nada ter para lançar por estes dias e para marcar o senhor dos tabus, o dr. Lopes vai ser recebido no Vaticano pelo Papa João Paulo II, no dia 12 de Março. De acordo com o DN, "a audiência já foi confirmada por fonte da Embaixada de Portugal junto da Santa Sé. Santana Lopes empenhou-se neste encontro que lhe dará projecção a nível internacional ao mais alto nível, pois não é qualquer alma cristã que consegue ser recebida pelo Santo Padre.
Segundo o DN apurou, Santana Lopes tentou que a audiência, negociada no maior dos secretismos, ocorresse no fim-de-semana, numa jogada de antecipação a outro acontecimento mediático, o lançamento do II volume da Autobiografia Política de Cavaco Silva, a decorrer na segunda-feira em Lisboa. E só não conseguiu ver realizados os seus intentos devido ao período de retiro espiritual da Páscoa de João Paulo II, que se prolonga até amanhã." Parece a gozar, não é? Leia-se mais aqui. - PAS
 
Um indivíduo completamente normal III
«Não se pode dizer que o 25 de Abril tenha valido a pena», disse D. Duarte ao DNA. Ao contrário do que acontecia no tempo do Estado Novo, «temos hoje as piores reformas, os piores salários, a pior formação profissional da Europa do Sul». A única coisa que valeu mesmo a pena no imediato pós-25 de Abril foi a casa de S. Pedro de Sintra. «Esta casa foi a minha conquista revolucionária». Não pensem, no entanto, que o Duque de Bragança militava no movimento dos «okupas»: «a casa foi comprada», mais precisamente em 1975.
Entre 1975 a 1995, o nosso rei partiu muitos corações, tendo vivido histórias de amor em praticamente todos os continentes. «Depois houve uma com quem acreditei que ia mesmo casar, uma russa, mas não se concretizou.» Ainda bem que não se concretizou. Estávamos ainda em plena guerra fria, e um diplomata como D. Duarte podia ser um alvo apetecível para as agentes do KGB.
Foi já com 50 anos que se perdeu de amores por Isabel de Herédia. «Eu conheci a Isabel em criança, em Angola [sempre Angola], ela tinha sete anos.» Mas não se assustem: «Fomos sempre como irmãos». A questão é que o tempo foi passando, a jovem tornou-se mulher, e D. Duarte deu consigo «a comparar as namoradas com a Isabel, ela era a referência, as outras eram sempre menos interessantes, menos bonitas». Pois é: as outras não saem nada bem desta história. Mas o que importa é que casaram, tiveram muitos filhos e, até ver, têm vivido felizes. Para utilizar uma expressão que lhe é cara, diria que D. Duarte é o protótipo de «um indivíduo completamente normal». Leva uma vida simples, que em nada se distingue do dia-a-dia da dona de casa portuguesa. «A última vez que tive um salário foi na Força Aérea [anos 70], agora ocupo-me muito com as crianças, que são a actividade mais sonante [sic] e mais interessante do meu dia-a-dia». - FN
 
Um indivíduo completamente normal II
Após uma infância feliz, passada nos Alpes suíços (ali para as bandas da casa da Heidi), aos 17 anos tinha chegado o momento das grandes decisões para D. Duarte Nuno. Que carreira seguir? «Eu fiz os testes psicotécnicos», lembra D. Duarte. Estranhamente, os testes não deram para Rei; deram apenas para engenharia agrónoma. Ao mesmo tempo, D. Duarte «queria muito ser piloto». Depois de ter tirado o curso da Força Aérea em Tancos, voltou novamente a experimentar «o cheiro» de Angola. Desta vez para aplicar os seus conhecimentos de aviação. Lamentavelmente, colocaram-no «numa base onde não havia helicópteros e só podia voar em aviões normais. Mais tarde vim a saber que eram ordens do Ministro da Defesa, que era um republicano fanático.» De facto, como é que um «republicano fanático» se podia dar ao luxo de pôr em risco a vida deste príncipe herdeiro?
Ao longo da sua já longa carreira, este grande estadista esteve por detrás de importantes negociações internacionais. «Procuro levar a minha diplomacia a países em que é mais difícil o relacionamento», admite com modéstia. Foi assim em Timor (cujo futuro devia passar por «uma associação com a União Europeia»), e também podia ser assim em Angola: «Também tenho uma solução para Angola, que não é ouvida». Na verdade, o chefe da Casa Real tem uma qualidade indispensável em qualquer bom diplomata: dá-se bem com gregos e troianos. Deve ser porque «descende», simultaneamente, «do profeta Maomé» (via Rainha Santa Isabel) e de David (via D. Afonso Henriques). Em vez de andar a candidatar o Dr. Vitorino a tudo e mais alguma coisa, o governo português devia dar ouvidos a este homem. Parece ser a pessoa com o perfil indicado para concretizar o «roteiro da paz» no Médio Oriente. - FN
domingo, março 7
 
Um indivíduo completamente normal I


Sandra Nobre, a jornalista que entrevistou S. A. R., o senhor Dom Duarte para o DNA de sexta-feira, «não o imaginava uma pessoa polémica». «Não? Eu até alimento bastantes polémicas! Veja-se o caso de Timor». Sim, apesar de um cordão humano do Minho a Timor, nesta matéria, verdadeiramente consensual era «a posição das elites portuguesas», nomeadamente a do senhor Macedo da associação de amizade Portugal-Indonésia. Mas as polémicas do senhor D. Duarte não se ficam por aqui. «Agora, por exemplo, estou a estou a estudar a documentação da Associação Portuguesa de Medicina Postural, e vou desenvolver outra polémica», avisa em tom de ameaça. As escolas substituíram as mesas «verticais» do Estado Novo pelas modernas «mesas horizontais», o que faz com que as crianças andem «todas tortas». «É um crime contra a infância» - e disto ninguém fala! De facto, o que seria das crianças deste país se não tivessem inventado o senhor D. Duarte e a «medicina postural».
É por estas e por outras que Portugal precisa de um Rei, de uma pessoa atenta como o senhor D. Duarte. «Os republicanos criaram a ideia que o chefe de Estado é eleito pelo povo», diz o nosso pretendente. Parece que, no dia das eleições presidenciais, as pessoas vão lá ao engano. «O produto que é melhor vendido, é o que ganha as eleições. E pode ser um indivíduo completamente anormal», diz Sua Alteza. Como se vê pela entrevista, com a Casa de Bragança nunca correríamos esse risco. - FN
sábado, março 6
 
Classificados
Jovem de 28 anos malparecido, ligeiramente marreco e de humor errático procura rádio suportável na região de Lisboa. Disponibilidade imediata para relação prolongada. Resposta para os comentários deste post. -PE
 
A ciência ao serviço do disparate
- "A comunidade científica mundial sabe hoje que não existe homossexualidade genética; [assim, uma criança que seja educada em ambiente homossexual] tenderá a interiorizar atitudes, aprendizagens, reacções do ambiente onde está." (Luís Villas-Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa, em declarações ao jornal Público sobre a adopção de crianças por homossexuais, 18 de Fevereiro.)
- "Estas imagens não são chocantes [e] tudo se pode dizer [às crianças] desde que seja científico e de maneira simples." (Padre Jerónimo Gomes, responsável da associação SOS Vida, em declarações ao jornal Público sobre as imagens e afirmações constantes num folheto anti-aborto distribuído em algumas escolas portuguesas, 5 de Março.)
Num país em que o canal de televisão pública paga mais aos astrólogos de serviço, do que o Estado ao seus professores catedráticos; num país em que a educação científica das comunidades é sinónimo de desinvestimento; num país em que a capacidade de promover o emprego científico está muito próxima do ridículo; num país em que se fala de ciência com a mesma obscuridade de que há 50 mil anos se falava de trovoada; num país de senhores dê-erres; neste país, profundamente relativo, não poderíamos esperar muito mais.
Como o Pedro Estêvão referiu ontem, a outro propósito: "Come parla?! Come parla?! Le parole sono importanti! Come parla?!" - JHJ
sexta-feira, março 5
 
Business as usual
A voxx nunca chegou aos pés da xfm, é verdade. Mas era, ainda assim, uma das rádios mais interessantes no ar, e das poucas que se atreviam a uma programação alternativa, flutuando entre o universo da dança e das sonoridades de guitarras. Era.
A luna era a única rádio privada que se dedicava à música clássica e ao jazz. Era, também. (E é impressão minha ou ainda há pouco tempo a sua existência foi esgrimida para justificar os emagrecimentos da antena2? Se a minha memória não mente, então esse pretexto deixou de existir).
Agora, a empresa que detinha ambas as frequências, ao que leio propriedade de um destacado dirigente do CDS, decidiu cedê-las à mediacapital de Paes do Amaral, proprietária da TVI e de outras pérolas da nossa comunicação social, pelo que em 106.2 e em 91.6 passaremos a ter "mais possibilidades" de "escolha", com a bênção do império mediacapital.
Ou como mais uma vez se prova que, em Portugal, num contexto marcado pela exiguidade dos mercados e em particular das suas franjas mais qualificadas e abertas à inovação, o mercado manifestamente não tem capacidade para suportar de forma sustentada a diversidade e a qualidade que, manifestamente também, são do interesse do(s) público(s). Mas, no fundo, nada de novo: é (só) o mercado a funcionar (só). - MC
 
Brincar aos mapas
Quando eu era uma pacata criança de quatro ou cinco anos, comecei a interessar-me por mapas e lê-los foi um primeiro passo para brincar com eles e com as realidades, paradoxalmente agigantadas, que eles encerravam. Foi por essa altura que me viciei de forma irremediável em atlas geográficos (cada um tem os vícios que pode, e que merece), devorados com inusitada avidez pelos cantos das casas, nos sofás, estendido nos tapetes, horas e horas a fio. Foi um hábito que só havia de perder muito mais tarde, e durante vários anos estive à mercê de cenários de uma prodigiosa imaginação infantil, porque tudo podia acontecer naqueles tabuleiros de realidade tão perfeitamente concebidos e disponíveis para a manipulação consciente.
Hoje, é um pouco neste universo da manipulação (in)consciente da realidade que nos movimentamos, quando assistimos ao inenarrável processo de reconfiguração territorial do país em curso, de uma forma e intenção que a palavra assustador não chega para definir. Um processo fragmentado, casuístico, não organizado, sem lógica estratégica, quase integralmente suportado por “iniciativas” inter-locais de criação de "grandes áreas metropolitanas", "comunidades urbanas" e "comunidades intermunicipais".
No fundo, no fundo, o que o Governo está a fazer é basear aquilo que vai ser a organização territorial e adminsitrativa de todo um país num mecanismo de tipo semelhante ao do mercado, privatizando as opções de agregação geográfica de cada município. Cada um junta-se com quem quer (ou com quem pode); quem não quiser (ou não puder), terá de ter paciência; no meio disto tudo, o resultado será um somatório agregado das acções de cada agente neste mercado, e saber-se-á somente no fim. Margem da decisão política central: zero, ou quase. O Estado demite-se em matéria de ordenação territorial e administrativa do seu papel fundamental, porque prescinde de quaisquer outras orientações que não as que pretendem balizar a “iniciativa” dos municípios.
Neste caso, não há, pois, privatização do público no sentido mais exacto do termo; há pura e simplesmente contaminação do primeiro pelas lógicas do segundo e uma lamentável demissão do Governo, que decide não decidir. Nos eixos iniciativa vs. estratégia; interesse local vs. geral; casuísmo vs. sistema, a opção é sempre pelo primeiro termo. Não consigo perceber o que é mais grave: se chamar reorganização do território à sua desorganização por via do puro basismo e do livre-arbítrio da negociação caso a caso; se pretender que tudo isto é uma alternativa à regionalização, quando o que está em causa deveria ser precisamente a organização de um território numa lógica nacional (coisa que era assegurado, bem ou mal, na lógica da regionalização mas não acontece aqui).
Triste o país em que tudo o que governo tem para dizer sobre algo tão sério como a organização territorial do país tem três vertentes: não fazer a regionalização, porque apesar de estar na constituição era uma medida socialista; acabar com os distritos, porque foi uma promessa eleitoral, mesmo que não haja alternativa credível à vista; e tudo o resto são estados de alma, como esta semana as tristezas cruzadas dos Relvas, Barreiras Duarte e associados: ora tristes porque Ourém foge para a esquerda, ora amuados porque Leiria fica mais pequena, ora entretidos com outra mercearia qualquer. Enquanto isto, do primeiro-ministro, ou de alguém por ele, palavras poucas ou nenhumas. É capaz de ser melhor: esta monstruosa trapalhada é irresponsabilidade a mais para ser verdade. - MC
 
E não conhecia ele a Manuela Moura Guedes...


"Come parla?! Come parla?! Le parole sono importanti! Come parla?!" (Nanni Moretti, Palombella Rossa, 1989) - PE
 
Há uns anos, ...
... havia quem estivesse preocupado com a potencial 'albanização' de Portugal. Afinal, andávamos todos distraídos. O que acabou por acontecer, foi a 'alabama-mississippi-texas-zação' do país [ou de uma parte dele, pelo menos]. - JHJ
quinta-feira, março 4
 
Sophia
PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner Andersen, Livro Sexto - MVS
 
Regresso


Não! Não é sobre o regresso à blogosfera de que aqui vou curar. A blogosfera é, para mim, uma instância intermitente, de pausas e silêncios que se prolongam consoante os outros afazeres. Como não é previsível que venha a pagar as contas, não há outra forma de a encarar. O que me traz de volta é, passe o pleonasmo, o regresso a Portugal. Regressei a Portugal, há cerca de três semanas, ainda que apenas para um fim-de-semana prolongado. Ou melhor, a Lisboa. Em todo o caso, senti-o como um verdadeiro regresso depois de onze meses sem pisar solo pátrio! Uma ausência em cornucópia.
Em onze meses, pouco mudou na aparência. Nota-se, em Lisboa, a conclusão de alguns edifícios (umas torres ali para a Praça de Espanha, por exemplo), o começo do projecto santanista (ou será melhor apelidá-lo de “peronista”?) do túnel do Marquês, o mesmo trânsito caótico. Percebe-se também que Lisboa se afirma, cada vez mais, como uma cidade alternativa, com uma excelente programação de concertos e cinema que percorrem estilos e geografias diversificados.
Mas deixando a superficie e os roteiros lisboetas, sente-se que o país, em onze meses, sucumbiu, de vez, à psicastenia. Reencontrámo-nos com o nosso destino psicótico feito de medos e ansiedades, emoção e depressão. Uma reportagem sobre uma fábrica que fecha, notícias e mais notícias sobre as receitas fiscais que derrapam e lá se vai a auto-estima por água abaixo. Muito caracteristicamente, as fases psicasténicas em Portugal dão lugar à proliferação de diagnósticos. E é, nestas fases, que somos confrontados com uma originalidade portuguesa: o mercado das sumidades. As opiniões dormentes e os saberes acumulados durante a fase expansiva desfilam pujantes durante a recessão. Avalia-se, analisa-se, explica-se as causas da estagnação e do atraso. As sumidades desdobram-se em entrevistas a rádio, televisão e jornais num carrossel frenético de opiniões, receituários e previsões. Em geral, as sumidades convergem na conclusão de que temos capacidade, somos trabalhadores, alguns até se deixam levar pelo entusiasmo e chegam mesmo a declarar que “Somos bons … quando queremos!”. Mas continuamos a ser melhores a diagnosticar, disso não restam dúvidas.
Com tanto diagnóstico, acabei por fazer o próprio. E desse também poucas dúvidas me restam: é, percorrendo as ruas de Lisboa, a marginal ao entardecer, o areal do Guincho, que percebo que é para esse canto psicasténico que, ainda assim, quero regressar. - PM
 
Tempo de antena no Jornal Nacional
Por vezes surpreendemo-nos com a simplicidade das afirmações despudoradas, ou, talvez, com o despudor das afirmações simples. Citada pela Visão, Manuela Moura Guedes diz que "na TVI tenho mais intervenção do que tinha como deputada do Grupo Parlamentar do PP". Palavras para quê? Foi, de facto, sempre evidente que Manuela Moura Guedes confunde o espaço supostamente informativo que é o Jornal Nacional com o púlpito da bancada parlamentar do PP. - MK
 
The Triplets of Belleville


Numa Nova Iorque de obesos, três irmãs cantoras ajudam a portuguesa Madame Souza e o seu cão Bruno a encontrar Champion, o neto ciclista raptado pela mafia francesa durante a Volta à França... - JHJ
quarta-feira, março 3
 
TVI Gold
Um confronto de gigantes...
Um choque de titãs...
Um dia que será para sempre lembrado na história da TV em Portugal...
No canto vermelho, representando o mau jornalismo, a parcialidade gritante, a ignorância e o moralismo barato: Manuela Moura "Loud Mouth" Guedes!!! No canto azul, representando o caciquismo, o nepotismo e a arrogância sem limites da direita trauliteira: Avelino Ferreira "Caveman" Torres!!
Sentir-se-á "Caveman" intimidado com a desconcertante barragem de tolices de Loud Mouth" e com as capacidades extra-sensoriais que permitem à sua adversária saber o que "os portugueses acham" sobre tudo e um par de botas? Resistirá "Loud Mouth" ao mortífero pontapé de "Caveman" e às invectivas dos seus gorilas?
A não perder! 30 minutos electrizantes de 'Jornal Nacional' que nos dão vontade de os pôr aos dois fechados na mesma sala - juntamente com a pessoa que achou que era uma boa ideia conceder uma licença de emissão especial à Igreja Católica. Já em DVD. - PE
 
Força Portugal!
Primeiro o PS, depois o BE. Os dois partidos lembraram que o slogan da coligação da direita para as europeias (Força Portugal!) é inspirado no Forza Italia do senhor Berlusconi. Se calhar nem todos os portugueses terão percebido esta referência à política italiana. Sendo assim, abro uma excepção para fazer de treinador de bancada. Acho que seria mais simples (e eficaz) recordar que «Força Portugal» foi o nome de um projecto de partido lançado em tempos por figuras marcantes da região Norte, como Pinto da Costa, Manuel Serrão e Avelino Ferreira Torres. Não vos parece ainda mais assustador? - FN
 
Avelino não vai ao Euro
O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Gilberto Madaíl, outra glória nacional, já veio lamentar o comportamento de Avelino Ferreira Torres no último jogo do F.C. Marco - «especialmente em ano de euro 2004». Se fosse noutra altura qualquer... Agora, no ano do Euro é uma vergonha. Como lembrava o tempo de antena do PSD, «em 2004 a Europa e mesmo o mundo estão a olhar para nós». Felizmente, Avelino já veio dizer que, «em sinal de protesto com as arbitragens», não vai assistir aos jogos da selecção no Euro. Aliás, mesmo que quisesse ir não seria fácil. Nesta altura do campeonato, e depois da memorável invasão de campo que protagonizou no domingo, já deve estar identificado pelo departamento de combate ao hooliganismo da UEFA. - FN
terça-feira, março 2
 
Um mais um igual a dois, ou igual a trezentos e trinta e três
É interessante reparar na forma como os meios de comunicação social norte-americanos e portugueses têm tratado a conferência de imprensa da NASA. Nuns [aqui e aqui], a ênfase é colocada na forte evidência que mostra que Marte terá tido água em estado líquido a correr na sua superfície. Noutros [aqui e aqui], a ênfase é colocada na especulação em torno da possibilidade de Marte poder ter tido condições para albergar vida como a conhecemos. As diferenças são cristalinas como a água do oceano que separa os dois países. - JHJ
 
Dentro de alguns minutos ...
... a NASA irá dar uma conferência de imprensa sobre a Opportunity. Nos corredores corre o rumor que será anunciada a primeira evidência directa da existência de água em Marte, em algum período da sua história. Desenganem-se, se pensavam que iria ser anunciada a remodelação do governo. - JHJ
 
Convicções ma non troppo
Moderado nas soluções mas firme nas convicções. É assim o dr. Portas. Na juventude não roubava mobília na faculdade de direito, mas tinha era outras convicções. O que não seria problema, não fora andar sempre a apregoar o contrário. Veja-se aqui. - PAS
 
O «Sistema» Ferreira Torres
Após muitas tentativas falhadas, Avelino Ferreira Torres conseguiu finalmente abrir os telejornais nacionais. No Jornal da Noite da SIC pôs tudo em pratos limpos. As coisas começaram a complicar-se no final da tarde futebolística de domingo. Avelino jogava em casa - literalmente em casa (no Estádio Avelino Ferreira Torres) - quando, subitamente, viu um penalti que não foi assinalado a favor do seu clube, o Marco. «Eu devo dizer de que estava no gabinete VIP quando tudo se passou», esclareceu. Como bem lembra o próprio, «a função de um autarca é defender a sua terra» - e foi claramente em defesa da terra que desceu do «gabinete VIP» para o relvado. Apesar do ambiente de tensão que se vivia, Avelino mostrou todo o seu sentido de Estado ao «não entrar nas quatro linhas» a meio do jogo. Junto à linha lateral, apenas gesticulou, injuriou e ameaçou o árbitro perante a compreensão da GNR local. Paulo Camacho, na SIC, insinuou que Avelino queria agredir o árbitro. Avelino, em directo, discordou: «O senhor deve estar vesgo. Se eu quisesse agredi-lo tinha-o feito». Isto deve ser verdade. Como se leu no Expresso de sábado, em tempos, Avelino deu ao Comércio do Porto uma entrevista com um título esclarecedor: «Tenho um certo jeito para bater». Embora não pareça, desta vez não quis bater - até porque «O árbitro, o Nuno, é um grande valor da arbitragem», diz. Embora também não pareça, «Eu sou uma pessoa devidamente esclarecida. Aquilo foi tudo ponderado para o país ver a bagunça nas nomeações das arbitragens», admite.
Com efeito, não faltou bagunça em Marco de Canaveses. Para além de não ter assinalado o penalti, o árbitro, que é «um grande valor da arbitragem», ainda teve o descaramento de só dar cinco minutos de descontos no final da segunda parte. Avelino não se conseguiu controlar e mostrou a força do seu pé canhão, pontapeando o aparelho que assinala os minutos de descontos. «O senhor portou-se como se fosse dono do estádio», criticou Paulo Camacho. «O senhor é um aldrabão», respondeu Avelino. Como disse ao Expresso Sanhudo Portocarreia, o seu biógrafo oficial, «Avelino por vezes pode proferir palavras grosseiras, ou pelo menos quem não o conheça é capaz de ficar com essa ideia». Temo que o Paulo Camacho e os telespectadores dos restantes concelhos tenham ficado com essa ideia. Ainda assim, e apesar das palavras grosseiras, a entrevista no Jornal da Noite continuou. «O estádio não é meu. Mas aquele aparelho foi pago com o meu dinheiro. E o que eu gostava era de fazer o mesmo ao trio que nomeou o árbitro para o jogo com o Portimonense». Se o estádio tivesse sido pago com o bolso de Avelino, de certeza que não era só o «aparelho» que ficava partido. No fundo, no fundo, a culpa é do sistema. «Os árbitros quando estão a dois anos de se aposentar não deviam apitar jogos com equipas à beira da descida». Ao contrário do que acontece noutras profissões, na arbitragem a experiência é inimiga da competência. Mas atenção: não confundam a teoria de Avelino com a do dr. Dias da Cunha. «O sistema do dr. Dias da Cunha não tem nada a ver com meu sistema». É um facto. - FN


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