<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
sexta-feira, abril 30
 
O Grande Salto


A partir deste momento, somos 25. Para o bem e para o mal. Bem-vindos! - PM
 
Sondagens
Entre os dias 22 de Março e 9 de Abril, o grupo Gallup levou a cabo uma sondagem no Iraque, inquirindo 3.444 adultos sobre a actual situação no país e as suas expectativas relativamente ao futuro. «As sondagens valem o que valem», costuma dizer-se. As feitas em tempo de guerra e convulsão social devem valer ainda mais.
Cenário: Alentejo, há 29 anos...
- «Hi, amigo. Sou de uma empresa de sondagens norte-americana e estou aqui para saber o que pensa sobre o futuro de Portugal.»
- «Você é americano? C'o caraças, corra já daqui. Viva a revolução do proletariado!»
- «Sim, amigo, mas isto é muito importante. Responda a uma só questão.»
- «Uma só, homem. Depois ponha-se a andar. Americanos, rua!»
- «Qual é a sua expectativa quanto a quem será o primeiro-ministro de Portugal quando se comemorarem os 30 anos do 25 de Abril?»
- «Os 30 anos? Porra, isso é daqui a muito tempo... mas acho que vai ser aquele jovem... como é que ele se chama?... aquele jovem todo cheio de paleio e de cabedal... o Durão qualquer coisa... sim, o Durão Barroso do MRPP, esse mesmo... Ah!, quando isso acontecer é que vai ser lindo. Vocês, ó porcos americanos, nunca mais cá metem os pés, 'tás a ouvir? Nunca mais!»
- «(...)»
- «Vá, agora toca a andar... toca a andar, que eu já respondi à pergunta...» - JHJ
 
O cromossoma x voltou a atacar
Anteontem, depois de um rápido almoço familiar, aproveitei a boleia da minha tia. Às tantas, quando parou o carro para eu sair, esqueceu-se de ligar os quatro piscas. Como é costume nestas situações, houve uma outra condutora que, enquanto se desviava, não lhe perdoou o descuido: «Sai da frente, palhaça!». A minha tia ficou lívida. «"Velha"?! Ouviste aquela tipa? Chamou-me "velha"?!», perguntou indignada. «Tia, eu percebi... "palhaça"», respondi eu, um pouco a medo. «Ah bom!», exclamou ela, nitidamente aliviada. - FN
quinta-feira, abril 29
 
This is not 'Nam, Smokey - there are rules here
Deus quer, Santana sonha, a obra nasce. Face à vontade de Deus e ao sonho de Santana o que valem planos rodoviários, projectos de execução, estudos de tráfego ou avaliações de impacto ambiental? Ou o bom-senso de uma pergunta como "mas afinal, para que raio é que serve o túnel do Marquês?"?
As pessoas não percebem que são insondáveis os desígnios de Deus - e, por consequência, de Santana. O túnel começa a fazer-se porque sim. E continua a fazer-se porque se começou a fazer. Tautologia imbatível. Ontem, em conferência de imprensa, Santana manifestava, com razão, toda a sua indignação:
"Os termos da lei que hoje existe permitem que qualquer cidadão chegue a um tribunal, ponha uma acção, e possa parar uma obra do Estado - e mesmo que perca a acção, não tenha custas a pagar! Eu diria que é uma lei que, como tal, não existe já em nenhum outro país!"
É a mais pura das verdades. Com os elevadíssimos níveis de participação cívica em Portugal, é da máxima urgência desencorajar as pessoas de exercerem os seus direitos. É preciso que pensem duas vezes quanto lhes pode custar questionarem a legalidade de uma decisão camarária ou governativa. É que a continuar assim, sabe-se lá onde é que isto vai parar...- PE
 
O meu «onze»
Depois de mais um desaire - desta vez com a Suécia, essa superpotência do futebol escandinavo -, já não me restam dúvidas sobre o «onze» que melhor representaria Portugal no europeu: Ricardo; Miguel Garcia, Beto, Polga e Rui Jorge (sem castigo); Carlos Martins, Rochemback (recuperado da lesão) e Pedro Barbosa; João Pinto, Lourenço e Liedson. Aliás, podem já começar por mostrar o que valem no derby deste domingo com a «rapaziada do Colombo». - JHJ
 
Bandeira amarela
Por todas as razões e mais a de ter sido escrito na Praia das Maçãs, o artigo de Marçal Grilo no Público de ontem sobre a importância de se diferenciar ensino superior politécnico e universitário, é de leitura aconselhada. Das várias passagens, destaco:
«Há uns meses atrás, num congresso internacional em que participei nos Estados Unidos, um dos grandes especialistas de ensino superior que conheci nos últimos anos fez uma intervenção em que afirmou sem rodeios que o grande factor de diferenciação positiva dos Estados Unidos em relação à Europa no ensino superior é a existência dos Community Colleges que por toda a América formam os milhares e milhares de técnicos qualificados que alimentam a economia norte-americana. E isto, porque estas instituições permitiram no pós-guerra a massificação do ensino superior, ao mesmo tempo que as universidades puderam consolidar os programas e projectos de grande qualidade que fizeram da América o país mais poderoso do Mundo, como afirmou há poucas semanas em Lisboa o Manuel Castells quando proferiu a sua conferência na Fundação Gulbenkian sobre a organização das sociedades em rede.»
De facto, não há que recear a massificação do ensino superior. Uma sociedade assente em recursos humanos qualificados é necessariamente mais moderna e pode mais facilmente sustentar uma economia diversa e competitiva. Em Portugal, tal só será possível num cenário em que os ensinos superiores universitário e politécnico sejam claramente distintos. Se caminharmos para a degenerescência entre os dois - o que parece ser o caso -, corre-se o risco de se reproduzir nos politécnicos os equívocos actuais das universidades: um ensino excessivamente teórico e pouco interessado em responder às necessidades de mercados de trabalho em constante mutação. - JHJ
 
Operação Al-Sadr
A situação no Iraque continua complicada. O senhor Al-Sadr está barricado há semanas numa mesquita em Falluja (acho que é assim que se escreve). Os americanos já garantiram que, em caso algum, destruirão lugares sagrados. Isto não tem nada de especial: é uma regra básica. Todos nos lembramos - pelo menos todos os que viram a Música no Coração -, que nem o nazismo se atrevia a entrar nas Igrejas para prender pessoas. Ou seja: para apanharem o senhor Al-Sadr, os soldados americanos teriam de entrar descalços, sem capacete e sem metralhadora, na mesquita. Conseguem imaginar a cena? O mais provável é que, lá dentro, completamente desmoralizados, acabassem por se converter ao Islão. É, portanto, uma operação impossível - e mais uma golpe genial do fundamentalismo islâmico. - FN
quarta-feira, abril 28
 
O que se passa com este rapaz?


Sempre tivemos bons guarda-redes. Mas desde o Mundial da Coreia há uma espécie de maldição na baliza portuguesa. Ricardo esteve mal contra a Itália, e voltou a comprometer hoje contra a Suécia. Sobre as exibições que tem feito no Sporting, o melhor é nem falar. Quando isto começa a acontecer, não há nada fazer: é substituí-lo enquanto é tempo.
Importa, no entanto, perceber o que está por trás destes frangos do Ricardo. Acho que, também neste caso, a História pode ajudar a compreender o problema. Ricardo transferiu-se do Boavista para o Sporting. Uma transferência de guarda-redes neste sentido nunca deu bons resultados. Costinha era uma jovem esperança no Bessa. Quando chegou a Alvalade, desatou a frangar. Os adversários, apercebendo-se da falta de auto-confiança de Costinha, chegavam a rematar do meio campo (e, muitas vezes, com sucesso). Nem Mourinho, no Leiria, o conseguiu recuperar para «a prática do futebol». Uma tragédia. Com Lemajic aconteceu exactamente o mesmo. Não é por acaso que o Sporting só voltou a ser campeão com Schmeichel: um guarda-redes confiante é meio caminho para a vitória (e não digo isto por esta ser a única posição em que joguei nos últimos dez anos).
No futebol, como em tudo, a História repete-se. Não aconteceu só entre o Boavista e o Sporting. O Belenenses também vendeu bons jogadores ao Benfica: Paulo Madeira, Cabral, Mauro Airez, Luiz Gustavo, etc. Pouco tempo depois, estavam todos, sem excepção, com a carreira arruinada. O Sporting, o Benfica e o Scolari já deviam ter percebido que não se brinca com a História. - FN
 
O «Professor» Durão
Já sabemos que a grande maioria das pessoas desconfia dos políticos. Em certa medida isto até pode ser saudável. O pior é quando são os próprios políticos profissionais a alimentarem essa desconfiança, fazendo-se passar pelo que não são. Há um mês, o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva (1985-1995) veio confessar que a política não o «viciou» e que prefere «ser visto unicamente como professor». Há uns dias, esta obsessão ancestral atingiu novos patamares: o actual primeiro-ministro entendeu por bem comunicar à nação que, apesar das evidências, também não é um político profissional e sempre se viu como «professor». Tanto quanto se sabe, desde os 29 anos, a única actividade vagamente académica do «professor» Durão foi desenvolvida na Universidade de Georgetown (1996/1997), onde há uma cátedra que costuma ser atribuída a antigos governantes. Durante esse período, constou que andava a «preparar» um doutoramento. Mas como disse o Professor (sem aspas) Sousa Franco, «um doutoramento não se prepara, ou se faz ou não se faz».
Uma vez que a paciência para esta conversa atingiu o limite, e para que não restem dúvidas, aqui está a biografia oficial do Dr. Durão:
· Nascido em Lisboa, em 23 de Março de 1956
· Iniciou a actividade política muito jovem [isto é uma maneira de dizer que foi do MRPP], ainda durante o regime anterior ao 25 de Abril de 1974
· Militante do Partido Social Democrata desde Dezembro de 1980
· Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna (1985/1987)
· Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação (1987/1992)
· Promotor do Acordo de Bicesse entre o MPLA e a UNITA para a paz [!] em Angola (1990)
· Ministro dos Negócios Estrangeiros (1992/1995)
· Deputado pelo Círculo de Lisboa
· Presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República (1995/1996)
· Eleito Presidente do Partido Social Democrata (1999)
· Reeleito Presidente do Partido Social Democrata (2000)
· Eleito Presidente da Assembleia Municipal de Valpaços (Dezembro de 2001)
· Primeiro-Ministro desde 6 de Abril de 2002
· [Manifestou arrependimento nas vésperas do 25 de Abril de 2004] - FN
 
Bolsa de valores
No domingo troquei uma garrafa de vinho do Porto corrente por um sofá reclinável e outro de dois lugares. Foi o melhor negócio da minha vida. Este post que o diga. - JHJ
terça-feira, abril 27
 
Efeito placebo (II): a revolução pós-industrial segundo o mesmo autor
Splite and Malice

Revolution
Dope, guns, fucking in the streets...

(...)

Placebo, Black Market Music - MC
 
Efeito placebo (I): a revolução materialista e industrial segundo Brian Molko
Slave To The Wage

Run away from all your boredom
Run away from all your whoredom
And wave your worries and cares goodbye
All it takes is one decision
A lot of guts, a little vision
To wave your worries, and cares goodbye

It's a maze for rats to try
It's a race
A race for rats
A race for rats to die
(...)

Placebo, Black Market Music - MC
 
Porque mo pediste um dia… (um post dedicado a FN)
Aconteceu-me na semana passada. Como hoje, estava calor. Demasiado para a época. Sentia o corpo amassado, dorido. Aquele cima-baixo constante estava a dar cabo de mim. A verdade é que estava cansada. Há já algum tempo vinha antecipando o fim. Desacelerei... e parei. Deixei, finalmente, o ar acariciar-me o rosto. Rodei o pescoço e procurei o seu olhar. Encontrei-o e, instintivamente, estendi a minha mão até à sua. Os nossos dedos praticamente não se tocaram antes de ambos recolhermos os braços. Esboçámos um sorriso e agradecemo-nos mutuamente. Poderá a vida melhorar com a via-verde? - SS
 
Espanha: o rescaldo II
Uma semana depois de Zapatero ter anunciado a retirada das tropas espanholas do Iraque, no mais curto prazo possível, a vozearia clamando “rendição” e “vitória dos terroristas” não se podia fazer esperar. Por mim, direi que Zapatero tomou uma decisão menos feliz do ponto de vista formal do que do ponto de vista da substância. Materialmente, a decisão é inteiramente legítima. Julgando a intervenção no Iraque contrária ao direito internacional, e não se vislumbrando que a mesma seja caucionada pela ONU no imediato, não pode um governo continuar a manter uma situação que reputa de ilegal. Formalmente, Zapatero precipitou-se ao anunciar a decisão antes da primeira reunião do conselho de ministros. Deixou, assim, a impressão que a decisão saíu mais do apoio ao governo negociado com Llamazares – e, eventualmente, com a Esquerra Republicana – do que de uma decisão colegial.
Dito isto, não se percebe, a não ser por manifesto enviesamento intelectual e moral, a posição daqueles que, nos meses escaldantes que precederam a intervenção no Iraque, se afoitaram em lançar libelos contra a França e a Alemanha, acusando-os de falta de solidariedade e de serem insensíveis à posição de quem, como os americanos, havia sofrido um ataque tão horrendo como o do 11 de Setembro. Não se percebe muito bem porque a decisão da administração americana de intervir no Iraque se pode justificar, moralmente, pelo traumático ataque terrorista sofrido em território americano, enquanto que a decisão de retirar as respectivas tropas do Iraque por um país que sofreu um ataque terrorista igualmente traumático merece censura. No primeiro caso, invoca-se falta de solidariedade e incompreensão da parte de quem recusou fazer a guerra do Iraque; quanto a Espanha, invoca-se precipitação e rendição. Esta duplicadade no tratamento das decisões americana e espanhola de, respectivamente, intervir e retirar é tanto mais incompreensível, no caso espanhol, quanto estamos a falar de uma sociedade marcada por mais de três décadas de terrorismo etarra, sem nunca se ter vergado ou feito concessões a este. E vêm, agora, os estrategas de poltrona, encartados na moralização alheia, lançar indecorosos lábeus contra uma sociedade com um passado recente marcado pelo terrorismo e traumatizada no presente pelas bombas da Al-Qaeda. Tendo, aqueles, invocado antes a tolerância perante o 11 de Setembro para justificar a intervenção americana. E, por favor, guardem a ladainha do respeito pelos compromissos internacionais. Estes apenas existem no quadro do direito internacional, não por situações de facto criadas ao arrepio deste. - PM
segunda-feira, abril 26
 
«Kit 25 de Abril» - modelo para governos de direita

- JHJ
 
Túnel entupido
O Tribunal Administrativo de Lisboa anunciou ao princípio da tarde que a Câmara Municipal de Lisboa será obrigada a suspender a obra do Túnel do Marquês até à elaboração de um estudo de impacto ambiental. Com aquela zona da cidade em estado de sítio esperaremos por tempo indeterminado até que as obras recomecem. Já posso imaginar o ar de vítima de Santana a dizer que o estão a impedir de completar a sua grande obra e a dizer que a culpa é das forças de bloqueio. Mas não é. A culpa é de quem começa uma obra sem projectos acabados, sem estudos de tráfego, sem consulta pública. Sem nada. - MVS
domingo, abril 25
 
Quiz da Revolução, parte I*

1. Quem é o autor da frase «Se tivesse lido os livros certos a tempo eu era o Che Guevara da Europa»?
a) Ramalho Eanes
b) Vasco Gonçalves
c) Otelo Saraiva de Carvalho
d) Duran Clemente

2. Quem partiu a cabeça de José Magalhães na Faculdade de Direito de Lisboa durante o PREC?
a) José Pacheco Pereira
b) Durão Barroso
c) Lobo Xavier
d) Tarzan Taborda

3. Que dirigente do MRPP ao ver José Manuel Durão Barroso chegar com um camião de cadeiras e mesas recentemente nacionalizadas da FDL lhe disse: «Devolve lá essa merda, pá, tás maluco, não queremos cá isso... Já chegámos à China ou quê?»
a) Arnaldo de Matos
b) Saldanha Sanches
c) Maria José Morgado
d) Maria João Rodrigues

4. Qual o nome da propriedade onde foi realizado um famoso documentário sobre as cooperativas, a colectivização e a reforma agrária?
a) Quinta Patiño
b) Torrebela
c) Quinta do Lago
d) Riba Fria

5. Quem estava de pijama e roupão no Largo do Carmo no dia 25 de Abril?
a) Sottomayor Cardia
b) Valentim Loureiro
c) Luiz Pacheco
d) Maria Cavaco Silva

6. Quem era conhecido por «Almirante Vermelho»?
a) Borges Coutinho
b) Rosa Casaco
c) Almeida Bruno
d) Rosa Coutinho

7. Indique o local do posto de comando do MFA na noite do golpe.
a) Pyongyang
b) Chelas
c) Santa Comba Dão
d) Pontinha

8. Quem era o máximo representante dos EUA durante o PREC?
a) Mark Kirkby
b) Frank Carlucci
c) Artur Albarran
d) Richard Perle

9. Quem disse «Portugal será a vacina da Europa contra o comunismo»?
a) Professor Gentil Martins
b) Henry Kissinger
c) Pasteur
d) Gerald Ford

10. Quem foi o aquitecto da «Evolução de Abil»?
a) Moais Samento
b) Macelo Ebelo de Sousa
c) Telmo Coeia
d) Aquitecto diecto do Expesso

* Uma iniciativa do clube de política «Imaginar Portugal» - PR
 
Aqui posto de comando (II)
O PR passou a ter uma versão atómica, pronta para ser vista em newsreaders. - PR
 
Aqui posto de comando (I)
A lista de links do PR foi actualizada. À esquerda, à direita, e para além disso. - PR
 
«Descer» a Franklin Street com um cravo ao peito


Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Tanto Mar (primeira versão)
Chico Buarque (1975) - JHJ
sábado, abril 24
 
Aniversário
Faço 29 anos hoje. Só tenho mais 365 dias até me passarem a chamar Edro. - PE
 
O Dani, parte II
Segundo a revista do Expresso da semana passada, em 1995, o Dr. Santana Lopes, à época presidente do Sporting, teve uma reunião com Dani e restante família: «A tua vida social é muito activa em Portugal. Tens que ir seis meses para o estrangeiro para ver se isto acalma.», disse o actual presidente da câmara de Lisboa. Santana mandou o rapaz para Londres. Cometeu o mesmo erro de avaliação que os treinadores de bancada, achando que Dani, como qualquer bom português, no estrangeiro ia assentar, ia ser mais produtivo. No máximo, numa noite de loucura, ia jogar matrecos até à meia noite na casa do Benfica de Londres. Puro engano: «Vocês dizem que a minha vida social é muito activa e vão mandar-me para Londres?», pensou Dani. Foi como deitar gasolina para cima do fogo.
Quando chegou a Londres, os tabloids desempenharam o seu papel habitual, alertando as famílias para o perigo que aí vinha: «Lock up your daughters! Dani has arrived». Mais uma vez, Dani não frustrou as expectativas. Como não tinha carta de condução, arranjaram-lhe um motorista num Jaguar, «24 horas por dia». Inicialmente, ainda fez uns bons jogos, mas rapidamente percebeu que o treinador não o podia convocar mais: quanto mais jogasse, mais o passe subia - e assim, no fim da época, o West Ham não o podia comprar. «Pensei: se isto não vai a bem vai a mal». De motorista e Jaguar, arrasou as noites de Londres com mais intensidade que a aviação nazi. «Era uma loucura, adorava (...). Fui ver o Miss Saigin com o José Veiga e o Santana Lopes. O Veiga quase a adormecer...» (nisto, sou forçado a concordar com «o Veiga»). Para além dos musicais, Dani também frequentou «as premières dos filmes - Brad Pitt, Bruce Willis, as estrelas todas. E depois eram as festas privadas... Fartei-me de viajar em primeira classe. Para ir a Paris, conhecia uma mulher lindíssima. Era novo pensava agora é a altura de fazer isto, não daqui a 10 anos quando for casado» Sem dúvida. Um homem acaba sempre por cometer estas loucuras. Quanto mais tarde o fizer, mais devastadoras serão as consequências.
Depois de Londres, Dani partiu à conquista de Amsterdão. «Via nos filmes os tipos entrarem num stand e saírem de lá com um Porsche.» Não é tarde nem é cedo: «Foi o que fiz.» E não se ficou por aqui: «Arranquei com o meu primo para o Mónaco, para a Fórmula 1. Gastei quatro mil contos em dois dias. Às três ou quatro da manhã, estávamos no bar da Stéphanie, a conversar com duas miúdas». Aliás, não é só no Mónaco que as miúdas são conversadoras: «As mulheres holandesas são completamente diferentes das portuguesas. Enormes, muito giras, para a frente, conversavam» (aqui nota-se bem que não viveu em Portugal durante os últimos 10 anos). Em suma, Dani «adorou» a Holanda: coffee shops, «peace and love, tudo na boa, tudo a rir», lembra hoje. Ficaram famosas as suas festas privadas. Mas ele desmente os boatos da vizinhança: «Tinha uma mesa de snooker em casa e jogava à noite. As bolas caíam nos buracos e os vizinhos diziam que estava a jogar à bola em casa. Puxava o autoclismo e eles vinham bater-me à porta».
Entre Amsterdão e Madrid, Dani ainda fez escala em Lisboa, desta vez para jogar no Benfica. Vilarinho não gostou das «farras» de Dani, especialmente as que aconteceram depois das derrotas dos encarnados. Daniel Carvalho não compreende esta visão do mundo: «Tinha perdido, estava lixado, mas em vez de ir para casa (...) pensar no golo que falhei, estive com uns amigos». É costume dizer-se que «ganhar ou perder é desporto»; que «o futebol é uma festa». Para Dani, estas frases não são chavões, são lemas de vida.
Depois de Madrid, ainda teve alguns convites para jogar noutros clubes, «mas em Madrid já estava mesmo perto de Portugal». Estava na hora de assentar, isto é, de deixar de jogar futebol. No Verão passado casou-se, e prepara agora a sua candidatura à New York Academy School of Acting. Quer ser actor: «É um curso de seis meses e ajuda bastante», diz, com modéstia. Depois de ler a entrevista que deu ao Expresso, acho sinceramente que ele não precisa do curso para nada. Em 27 anos, seguiu como poucos aquele bom conselho que a Bárbara Guimarães repete no fim de cada «Sociedade das Belas Artes»: «Faça da sua vida uma obra de arte». - FN
 
To: myself
Comprar cravos p'rá festa de amanhã, pá. - JHJ
 
Breve nota sobre postais


Sabes o que é que eu fiz com os postais de Frankfurt? Fiz o seguinte: primeiro mostrei-os a toda a gente, por estar tão orgulhoso. Sentia-me inteligente por ter ido ao museu, e duas vezes. As caras dos amigos nunca chegaram a revelar a mesma admiração que a minha, seja porque já conheciam alguma das peças, seja porque não conseguiam perceber o que têm assim de tão especial. Bem, argumentei com eles o melhor que sabia, mas a partir de um certo ponto parei. A certa altura tornou-se óbvio que aquilo era inexplicável. E mais do que isso: que eu não queria explicar. E porventura isso fará parte do «valor» de qualquer obra de arte: as circunstâncias inexplicáveis em que elas são vistas.
Depois, peguei nos postais em maço e coloquei-os em exposição. Em cima de uma estante. Dia sim, dia não, pego neles e mudo aquele que está virado para a sala. Escolho aquele de que mais gosto naquele dia de acordo como me sinto ou com o estado de espírito. E tenho onze para brincar. Hoje escolhi o «The Promenade» de Chagall. Go figure. - RB
sexta-feira, abril 23
 
O mundo de Maria da Graça
A mini-entrevista da ministra da ciência e do ensino superior ao jornal Público de dia 22 é um autêntico mimo. Quase ao nível da de Daniel Carvalho ao Expresso, cinco dias antes. Só que ao contrário deste, Maria da Graça é do grupo dos «crânios». Veja-se. À observação da jornalista de que a ministra teria, na base de dados do ISI web of knowledge, «pelo menos 40 artigos», Maria da Graça contrapõe «são mais». De facto, Dani não diria melhor. É sabido que a jovem promessa do Sporting não sabia muita matemática porque faltava às aulas para jogar à bola, mas a senhora ministra deveria saber que «pelo menos 40», quer dizer 40, ou mais.
Mas antes, já Maria da Graça tinha dado um ar de sua graça. «Depende da forma como se pesquisa», afirmou, para justificar o facto de a jornalista do Público só ter sido capaz de encontrar dois cientistas portugueses com mais de cem artigos na base de dados do ISI. De facto, contar é uma coisa menor: os já famosos «100 artigos», afinal, podem ser só cinquenta. Ou quinhentos e cinquenta. E os «mais de 40» da ministra, não serem mais de quatro.
Na entrevista ao Expresso, no fim de semana anterior, Dani fala dos «amigos do bairro» e diz-se «amigo dos seus amigos». Maria da Graça não lhe fica atrás no reconhecimento público das suas amizades. Para ilustrar a ideia de que em Portugal há cientistas com mais de cem artigos publicados, a professora do Instituto Superior Técnico dá como exemplo os seus amigos da Avenida Rovisco Pais: «A professora Teresa Leal e o professor Ramôa têm mais de 100 artigos. O professor Pombeiro e o professor Sampaio Cabral têm mais de 300. No Departamento de Física há cinco pessoas. O professor Dias de Deus é um deles». E noutros sítios que não no Técnico? A ministra não diz. Ao contrário de Dani, Maria da Graça nunca deve ter jogado à bola noutros bairros.
Por fim, a ministra justifica a medida dos «100 artigos» como um «prémio de carreira». Para os jovens cientistas, «temos bolsas e outros pacotes complementares». Emprego científico? Nah... 'Tá quieto. Afinal, tinha razão: Praia das Maçãs, só aos 70. - JHJ
 
Blog next door
Cruzamo-nos aqui pelos corredores muitas vezes, mas por manifesta distracção ainda não tinha dado pela existência do blog do Walter Rodrigues. Afinal, pode sempre haver blogs escondidos atrás de cada porta. Este, no entanto, está cada vez menos escondido, e bem, porque vale muito a pena visitas regulares e uma leitura atenta. - MC
 
Investigue-se
Ninguém tem falado disto. Mas queria lembrar que no ano passado o Benfica foi eliminado da Taça pelo Gondomar. Na altura achei estranho, mas agora acho que o melhor é repetir-se o jogo e os jogos subsequentes. Perder na secretaria é que não. - PAS
 
Lived life to the moment


Tive o privilégio de assistir à estreia do Dani em Alvalade. O adversário era uma equipa amarela (o Paços de Ferreira, o Estoril, o Beira Mar?). Lembro-me que foi um jogo de fim de época, porque, com um bilhete de Superior, conseguimos entrar na mítica «Bancada Nova». Depois de umas tantas jogadas, o diagnóstico era unânime: temos homem! O Pedro Estêvão, que faz anos amanhã, é testemunha. Tratou-se, como agora se diz, de «um erro de julgamento». Está tudo explicado na entrevista que Dani deu ao Expresso de 17 de Abril.
Dani era um puto da classe média: «O meu pai é professor de Filosofia, a minha mãe é médica». Ora, como diz Valdano, os génios da bola têm de vir das classes populares. Como Maradona. Para além do talento inato, devem sentir a necessidade de «subir na vida». E isso, Dani, manifestamente nunca sentiu: «Não precisava do salário do Sporting, tinha a mesada». Na verdade, Dani é aquilo a que em ciência política se chama «um eleitor pós-materialista»: «Vivi like there’s no tomorrow», confessa. «Lived life to the moment», diz mais à frente. (Depois de dez anos fora do país, Daniel Carvalho admite ter dificuldades com a língua portuguesa: «Tenho uma professora para me tirar o sotaque.»)
No início da década de 90, Dani era um puto e não admitia que lhe dissessem que aqueles não eram os melhores anos da sua vida. Aos 15 anos, o Sporting ofereceu-lhe o primeiro contrato: 250 contos. «Aí começaram as dificuldades todas», diz hoje. O que para qualquer outro miúdo significaria o início de uma nova vida, para Dani representava o princípio do fim. «Gosto de jogar à bola. Só que para mim o futebol era um hobby, não uma profissão. O que interessam os títulos? [De facto, quem se lembra hoje de Juanico e Chico Faria?] Os meus títulos são a forma como encarei a vida: presente para a família, amigo dos meus amigos». É verdade. Uma vez esteve quase a perder um avião fretado pelo Sporting por causa da festa de anos de um amigo. É «amigo dos seus amigos» - e, digamos, amigo das suas amigas. Já nos tempos da secundária do Cacém, Dani – que pertencia ao grupo «dos malucos» - investia tudo nas miúdas. Fiel à velha máxima (elas perdoam-te se tentares, mas nunca te perdoam se não tentares), ele «Via a mais gira da escola, ia atrás dela, mesmo estando ela no 12º e eu no 9º». Os outros, os chamados «crânios», ficavam a ver. Hoje arrependem-se.
No fundo, a bola sempre gostou mais do Dani do que Dani da bola. Em todas as relações, há sempre um que gosta mais. A questão é que Dani, na sua relação com o futebol, apesar das traições, foi sempre acompanhado por uma «estrelinha». No mundial do Qatar (2º melhor jogador), no apuramento para o europeu de sub-21 (dois golos), no West Ham (um golo contra o Chelsea), no Ajax (dois golos de cabeça contra o Rangers) e no Atlético de Madrid (esteve na subida de divisão) - em momentos decisivos, a «estrelinha» esteve sempre presente. E os contratos, naturalmente, foram-se sucedendo.(Continua amanhã.) - FN
quinta-feira, abril 22
 
Ainda os 100 artigos
A promessa entre o estapafúrdio e o incompetente da Ministra da Ciência, com vista a fazer regressar os investigadores a Portugal, começa a ser, final e justamente, desmontada. Mas a verdade é que, para além das questões substantivas que se escondem por detrás da medida (por exemplo, a discriminação das ciências sociais, por relação a outros campos), este é mais um exemplo da forma como o governo age. Primeiro, propagandeia-se algo de absurdo e perfeitamente irrealista (só das últimas semanas, para além dos 100 artigos, a promessa de fazer crescer a produtividade dos actuais 60% da média europeia para 75%, em seis anos, quando nos últimos dois só perdemos terreno; o programa de combate ao drop-out escolar, repleto de medidas anedóticas). Depois, e quando chega a desmontagem das medidas incompetentes e insultuosas (tem outro nome a promessa da Ministra da Ciência, quando há milhares de investigadores que, doutoramentos concluídos, gostariam de poder regressar e investigar em Portugal?), já a promessa é outra, noutra área. Mas, no entretanto, são os próprios compromissos assumidos solene e unilateralmente pelo governo que não são cumpridos. Quem quiser, por exemplo, que se entretenha a olhar para o descalabro orçamental que continua em curso e que atente na forma como foram chutados para o início de 2004 milhões de euros de despesa de 2003 – tudo para arranjar um número mirífico, para o qual não chegava nem sequer a negociata irresponsável e ruinosa com o City Bank. E para o ano haverá mais. - PAS
 
Durão + Portas =

- PR
 
O interesse nacional
Durante o Estado Novo não havia greves porque eram proibidas em nome do interesse nacional. Em 1975, o PCP (eu repito: o PCP) no governo proibia igualmente greves em nome do mesmíssimo interesse nacional. Em 2004, o Dr. Durão Barroso pede às pessoas que não façam greve durante o Europeu em nome do interesse nacional.
Estaria tudo dito, não existissem no mundo pessoas como Gilberto Madaíl. É que hoje de manhã ouvi Gilberto Madaíl dizer na TSF: «o Europeu são só três semanas...e o ano tem tantas semanas. Porque é que as pessoas com reivindicações não fazem greve durante o resto do ano. Agora durante o Europeu...Os turistas que vêm cá o que é que vão pensar dos portugueses?» - RB
 
It's politics, stupid!


No tempo do Dr. Cavaco, havia um pide bom e um pide mau. O que a Dra. Manuela Ferreira Leite tirava com uma mão (contenção orçamental), a Dra. Isabel Corte-Real dava com a outra (revisão do sistema retributivo da função pública). A estratégia resultou em cheio: Cavaco voltou a ter maioria absoluta em 1991. Mas basta ouvir hoje a conversa do professor Cavaco para se perceber que esta forma de fazer política já faz parte da História. A viragem brutal do sentido de voto (da direita para a esquerda) registada em Espanha, e também nas eleições regionais francesas, mostra que, mais do que velhas e novas clivagens, mais do que a conjuntura económica, é a exigência cívica quanto à forma de fazer política que parece determinar as escolhas do eleitorado. Como diz o cartaz do bloco, «eles mentem, eles perdem».
O Dr. Durão é que não quer perceber isto. Já insultou Zapatero na política externa, e vai repetir a estratégia cavaquista na política interna, seguro de que, com aumentos e «discurso social», os broncos dos portugueses perdoam-lhe as trapalhadas em que os meteu durante dois anos. Assim, o que a Dra. Ferreira Leite tirou nos primeiros dois anos, vai, a partir de agora, ser «redistribuído» por Carlos Tavares, «o ministro da retoma» (título do suplemente de economia do Expresso). Ainda não se convenceram que o tempo não volta para trás. O único que, intuitivamente, percebe isto é Santana Lopes. Felizmente, ninguém o leva a sério. - FN
 
Something's gotta give
[Diane Keaton tinha ido jantar fora com o jovem pretendente Keanu Reaves. Chega a casa, tenta perceber se Jack Nicholson ainda está acordado. Está. Está, mas no quarto, à espera que ela chegasse. Trocam mensagens no chat, de quarto para quarto. «Tens fome?», pergunta ele. «Tenho», responde ela, pensando «como é que este gajo sabe tudo?». «Encontramo-nos na cozinha dentro de cinco minutos». Na cozinha, ambos de pijama, ela pergunta «como é que sabias que tinha fome?». Ele: «as mulheres quando vão out on a date nunca comem nada»].
«A maioria das mulheres vive mal o eixo peso – prazer oral. Ora bem, como sabemos, comer é prazer. A entrega a uma boa refeição tem uma dimensão de libertação, de erotismo, etc. Tem também o contraponto de perda de controlo (sobre a situação, sobre o corpo), de exposição, e de renegociação do peso do corpo. Muita mulher estagnou num equilíbrio complicado onde suster o prazer oral (de comer) parece estar associado ao controle do corpo, da situação e por consequência do macho. Controlo, poder, o costume. Não é assim tão estranho que o comportamento oscile entre depenicar uma entrada e devorar uma caixa de gelado. Quando em cena está em controlo, descontrola fora de cena. O que é chato é que o impasse é difícil de resolver. Vê por mim, sempre achei que tinha tanto direito a comer como o comum dos mortais, mas se a minha libido me puxa (por comer) para uma situação (em que engordo) onde se retrai... ou mudamos todos para uma visão Rubeniana de beleza ou sopas... sem azeite, claro.» [de um email]. - RB
quarta-feira, abril 21
 
"FORÇA PORTUGAL": Faz como te digo e não como eu faço
O Governo aprovou o Decreto-Lei n.º 86/2004, 17 de Abril que “estabelece o regime de protecção jurídica a que ficam sujeitas as designações do Campeonato Europeu de Futebol de 2004, bem como, - note-se - os mecanismos que reforçam o combate a qualquer forma, directa ou indirecta, de aproveitamento ilícito dos benefícios deste evento desportivo”.
Mais: no respectivo preâmbulo afirma expressamente os objectivos de “garantir que as denominações e símbolos já criados ou a criar para designar este evento desportivo não sejam utilizados, para efeitos publicitários ou comerciais, por entidades que, indevidamente, pretendam usufruir dos valores que lhe estão associados”, e que “se torna necessário criar instrumentos que permitam reagir contra quem, por qualquer meio, sem estar autorizado a associar as suas marcas ou outros sinais distintivos do comércio a este evento (...), dele se possa indevidamente aproveitar em termos de benefícios promocionais e de visibilidade”. Espantoso, não? - MK
 
Treina a gramática no Fernão Mendes Pinto
Hoje de manhã votámos ( ) matéria ( ) sumário da aula de História dos Movimentos de Libertação. A Camarada Professora colocou à nossa consideração o voto ( ) ou o voto de ( ) no ar. Optámos, após aceso ( ), e democraticamente, pelo voto ( ), pelo que construímos umas ( ) de voto ali mesmo, de improviso. Depois da aula de História, tivemos a ( ) de Desenho ( )-neo-realista. O tema era a Revolução dos ( ) e o ( ) de Março. O assunto deu muita celeuma porque tantos de nós são filhos daqueles senhores, os ( ) de Abril, e filhos de ( ) do Partido. O Manuel Tiago até disse que aquilo parecia a Assembleia ( ) do MFA. Elegemos o delegado de ( ) antes do almoço para tratar da questão da auto( ) da direcção do Fernão em relação àquele assunto desagradável dos Pupilos do ( ). Ao almoço (levei umas sandes de ovo), aprendemos o que era a Frigideira do ( ). Já da parte da tarde, em Educação ( ), ouvimos o Caetano e o Chico e o Fanhais. Eu gostei mais do «Já ( ) tua festa, ( )», que já conhecia. Mas o Fanhais não é ( )? Depois do toque de saída, fomos ao ( ) de Benfica comer uns ( ). - FN/RB (ex-alunos do Formigueiro e do Colégio Moderno, respectivamente)
 
Silhueta


Há quase quatro anos, conheci vários portugueses por causa do campeonato da europa de futebol. Hoje, desinteressado em conhecer novas caras lusas, vivo angustiado com o facto de me sentir obrigado em dizer «olá» ou «bom dia», quando percebo que alguém fala a mesma língua que eu. Ontem tentei resistir. Não poderia ter acontecido de pior forma.
Depois de ter entrado no elevador da biblioteca para subir ao quinto andar, entraram duas raparigas para subir ao sétimo (onde estão os livros de literatura europeia). Ainda antes de as portas se fecharem, percebi que uma era brasileira e a outra portuguesa. Era a circunstância ideal para pôr à prova a minha capacidade de resistência. Durante os segundos seguintes, estaria confinado a um espaço com menos de quatro metros quadrados, na presença de duas raparigas a falar português intensamente. É o ultimate test por excelência.
Foi tudo muito rápido, assim que as portas se fecharam. Uma delas parece olhar para mim e sorrir. Eu sorrio. Elas continuam a falar, e fazem-no cada vez mais alto. Tento abstrair-me e olhar para a porta do elevador. Elas insistem em falar alto e olham agora as duas para mim. Ignoro-as; não oiço o que dizem. A situação começa a ficar insuportável. Parece que há algo em mim que lhes está a dizer que sou português. Quase vencido, estou prestes a dizer «olá». Penso: «Será evidente? Não pode ser. Estou de t-shirt, calções e sandálias. Pareço mais norte-americano do que português. Terei expressado reacções ao que têm estado a dizer? Não, não é isso... Nem sequer estou a ouvir o que dizem... Não aguento mais estes sorrisos. Tenho que lhes dizer qualquer coisa...». Finalmente, as portas do elevador abrem-se no quinto andar. Saio, apressado, com um profundo sentimento de conquista. De repente, paro. Nessa manhã, tinha vestido a t-shirt com a silhueta do Fernando Pessoa. - JHJ
 
Tarde de chuva
Banda sonora adequada para o tempo que corre lá fora, uns largos anos depois.

Video Maria

Tarde de chuva
É a península inteira a chorar
Entro numa igreja fria como um círio cintilante
Sentada, imóvel
Fumando em frente ao altar
Silhueta, o esboço, a esfinge de um anjo fumegante

Há em mim um profano desejo a crescer
Sinto a língua morta, o latim vai mudar
Os santos no altar devem tentar compreender
O que ela faz aqui fumando...
Estará a meditar?

Atirem-me água benta
Por ela assalto a caixa de esmolas
Com ela eu desço ao inferno de Dante
Atirem-me água benta

Por parecer latina, calculo que o nome dela é Maria
É casta, eu sei
Se é virgem ou não, depende da vossa fantasia.

Rui Reininho
GNR, 1988 - MC
 
Onde está o Avelino?
Há uns meses, Avelino Ferreira Torres dirigiu-se assim a uma jornalista da Renascença: «A menina é mal educada, mas é muito bonita. Se eu tiver que fugir para algum lado, levo-a comigo.» Ontem, dia em que rebentou a «operação apito dourado», Avelino era dado como «desaparecido». A grande questão não é se Avelino está envolvido no escândalo. Para mim, o que interessa saber é se ele levou a jornalista consigo. - FN
 
Cromossoma Xis
A amizade entre a Charlotte e a Inês «durou uma semana». Nada mau. - FN
 
Regresso às origens
Regressamos todos os dias aos sítios onde fomos felizes e onde está o princípio de todas as coisas. Pode ser que seja o eterno mito do retorno. Mas, daqueles tempos, guardo a melhor e mais pura das memórias. O tempo primeiro, das liberdades suaves e das descobertas, que só agora, olhando para trás, vejo com clareza que diariamente fazia(mos). Dá-se o caso de, de quando em vez, descobrimos outros, que por lá andaram e que guardam também a lembrança dos tempos passados. Quando nos encontramos, partilhamos inevitavelmente, com mais ou menos palavras, e quase sempre sob os olhares suspeitos dos estranhos ao lugar, as lembranças de quando crianças começávamos a fazermo-nos adultos. Para a maior parte das pessoas, isto naturalmente nada significa. Mas, os que têm a enorme alegria de saber o que é o Pastelinho e a escola primária que se mostra do outro lado da rua, sabem do que falo. Numa altura em que, trinta anos depois, há um bando de alegres filisteus que resolveu violentar as nossas memórias, é reconfortante encontrar na blogosfera quem conheceu e vê com os mesmos olhos aqueles lugares e, no meio disto, descobrir que um companheiro de ondas, já o era antes de o ser. - PAS
terça-feira, abril 20
 
Terça à tarde, num cinema da avenida


Hoje à tarde fui ao cinema ver o «Something’s gotta give», aquele com a Amanda Peet. O cinema estava quase vazio, como seria de esperar de uma sessão depois do almoço. Reparei, contudo, que, para além de mim, os espectadores eram casais da idade de Jack Nicholson e de Diane Keaton. Mas mesmo todos e, tanto quanto pude julgar espreitando por detrás do «Público» com que me escondia, todos felizes. Um fenómeno não sei se melhor explicado pela economia do trabalho se pela cinefilia. Eu também não sei se, como diz a letra da música, uma vez as luzes apagadas se lhes acendia o coração, mas sei que o burburinho na sala aumentava cada vez que a palavra «Viagra» surgia no écran. Confirmei uma vez mais que Keanu Reaves não nasceu com talento para protagonizar papéis masculinos, como aliás já suspeitava desde o último Matrix. Agora, porem-no no mesmo filme com Jack Nicholson – esse Manuel Alegre americano –, e às vezes na mesma cena, isso já é pura maldade. - RB
 
Amor é
Se amor é humor como escreveu Osvaldo de Andrade, então «humour me» quer dizer «ama-me». - RB
 
...ou pelo menos curvas bem maiores do que é habitual
Quem leu as reacções de Paulo Portas sobre a escolha do cabeça de lista da coligação fica esclarecido sobre o entusiasmo reinante por aqueles lados. O habitualmente entusiástico e eloquente líder do CDS comenta o assunto nos seguintes termos, sem rimas e cheio de curvas e contracurvas: “Não tenho nenhuma dúvida de que o professor Deus Pinheiro é um bom cabeça de lista”. “O professor Deus Pinheiro foi confirmado pelo partido que tem a responsabilidade da escolha, que é o PSD”.
Traduzindo para português: ter dúvidas sobre se este é um bom candidato faz tanto sentido que eu, Paulo Portas, até me pronuncio publicamente nesses termos sobre tal escolha: haverá quem tenha dúvidas sobre este nome, mas eu pessoalmente não as tenho. Deus Pinheiro é um bom candidato. Enfim, não “excelente”, não “muito bom”, mas simplesmente “bom”. Mais: eu e o CDS não tivemos nada a ver com isso, foi o PSD que o escolheu em nome da coligação.
Lançado, Portas conclui: “Deus Pinheiro foi ministro dos negócios estrangeiros vários anos, foi comissário europeu em nome de Portugal, sempre nos representou bem, conhece a Europa de cor e salteado [sic]...”. Pois. Já é crueldade a mais. Será que à segunda tentativa de enterrar o mesmo homem é de vez? - MC
 
Re-post: afinal a vida dá mesmo voltas...
Não resisto a repescar parte do post que escrevi quando pela primeira vez ouvi falar na hipótese Deus Pinheiro para encabeçar a lista da coligação de direita às europeias (sexta-feira, 12 de Março). Na altura, pensei que estávamos algures entre a manobra de diversão, a piada de mau gosto e uma hipótese meramente académica. Mas não.
Deus Pinheiro vai encabeçar uma lista feita sob a tutela do subordinado que o decapitou alegremente enquanto ministro quando, depois de anos de guerra surda e intriga, lhe tirou finalmente o tapete, perdão, a manta. E vai candidatar-se em coligação com quem o fritou depois, aceitando das mãos do primeiro a cabeça - bem enroladinha na famosa manta - do agora candidato (...).
As voltas que a vida dá. Como se não bastasse, Deus Pinheiro ainda vai ter de gerir a manta de retalhos ideológica que inevitavelmente vai sair dessa aliança. Em suma: é impossível esperar sem ansiedade pela campanha, pelo manifesto eleitoral da coligação, e por ver Durão, Portas e Deus Pinheiro, todos muito juntos e sorridentes numa foto de família feliz
”. - MC
 
Nem se percebe porque é que existe
Pacheco Pereira, deputado do Parlamento Europeu, denuncia ao povo português, no seu blogue: «Hoje, votou-se, em duas horas, seiscentos e vinte artigos, emendas, resoluções, etc. Seiscentas e vinte e duas votações». De facto, é um bicho-papão, este Parlamento Europeu. - JHJ
segunda-feira, abril 19
 
A reconstrução do revisionismo histórico
Na passada quinta-feira, assisti ao primeiro debate (subordinado ao tema da "Europa Social") entre os cabeças de lista às europeias - ao qual faltou apenas o inexistente candidato da coligação. Entre vários momentos típicos deste formato, duas afirmações interessantes merecem ficar para a posteridade, porque mostram bem como é ténue, e traiçoeira, a linha entre as afirmações grandiosas e sonantes e as simples enormidades.
Às tantas, um dos participantes afirma, convicto e grave, que "a Europa não tem, nunca teve uma dimensão social". O mesmo interveniente, aliás, que produziria mais tarde mais uma teoria revolucionária, ao melhor estilo revisionista: "A Estratégia de Lisboa foi toda feita por Blair e Aznar, o governo português e António Guterres não tiveram quase nada a ver com ela". Fabuloso. Quem terá sido o autor destas tiradas brilhantes?
a) o demagogo Manuel Monteiro
b) a estreante Ilda Figueiredo
c) o bem informado Miguel Portas
Você decide. - MC
 
Armas de depressão maciça
A imprensa côr-de-rosa noticia uma baixa por depressão, por razões profissionais, de Manuela Moura Guedes. Já corre o rumor de que se trata de mais um lamentável caso de terrorismo patronal: consta que na TVI a obrigaram, nos últimos tempos, a ver os telejornais da própria estação todos os dias, excedendo em vários dias por semana a dose máxima humanamente tolerável - MC
 
O primeiro dos saramaguistas
Donde menos se esperava, eis que surge o nº2 da tendência Saramago e tudo devidamente condimentado com sintomáticas referências ao dr. Lopes. Assim vai a coligação. - PAS
 
João de Deus Pinheiro – uma certa ideia de Europa

- PR
 
País Relativo
«Estou contra o sistema que nos governa e consegui encontrar o instrumento por excelência da contestação: o voto em branco
José Saramago, candidato ao Parlamento Europeu nas listas da CDU, Expresso, 3 de Abril

«Se a ideia do voto em branco fosse seguida pelos portugueses, nós conseguíamos eleger os 24 eurodeputados
Carlos Carvalhas, Expresso, 3 de Abril

«O Iraque seguro, próspero e governado democraticamente já vem a caminho
Teresa Gouveia, Ministra dos Negócios Estrangeiros, Expresso, 3 de Abril

«Não se compra segurança com posições dúbias
Durão Barroso, ex-MNE e mau pagador de promessas, sobre Zapatero, Expresso, 17 de Abril

«Não existe uma política para as cidades. Penso que dentro de uma semana ou duas terei já um documento de reflexão para lançar essa política
Amílcar Theias, Ministro das Cidades, Expresso, 3 de Abril

«O meu sucessor tem dito tantas coisas erradas que a continuidade do meu silêncio poderia ser vista como uma aceitação
Isaltino Morais, Ex-Ministro das Cidades

«Um campanha curta é boa para a abstenção
Pedro Santana Lopes, Vice-Presidente do PSD, DN, 14 de Abril

«Estou a pensar comprar um Smart para fugir ao trânsito de Lisboa
Pedro Santana Lopes, Presidente da Câmara de Lisboa, 24horas, 13 de Abril

«Quem não cumpre o seu programa não tem moral para ser candidato a nada. É ponto de honra
Pedro Santana Lopes, sobre as presidenciais, DN, 14 de Abril

«Ou cumpro ou então não posso ir-me embora. É ponto de honra
Pedro Santana Lopes, sobre as autárquicas, idem

«Comigo, tudo tem um interesse extraordinário
idem

«Considero-me libertária de esquerda, com fortes traços católicos e conservadores
Clara Ferreira Alves, «O Santana, parte II», Expresso, 3 de Abril

- FN
domingo, abril 18
 
Grandes inventos da humanidade
Semanas deprimentes, estas. Acabou o "Sete Palmos de Terra". O "Belleville Rendez-vous" e o "Shattered Glass" foram uma desilusão. O Governo parece possuído por tiques estalinistas: manipula estatísticas, já não distingue a sua própria propaganda da realidade, apaga letras indesejadas da História e alia-se a Saramago na ridicularização do próximo acto eleitoral. Pior de tudo, está frio, estou farto de casacos e camisolas, não consigo atinar com a mudança da hora e estou de ressaca de mais um milagre da Paixão de Bruno.
Por isso viro-me para o trabalho onde estive imerso no último mês e meio. Vale a pena. Num volume chamado «Breadline Europe», dedicado à discussão do conceito e à construção de indicadores de pobreza, encontro esta pequena jóia:

"The idea of the welfare state is one of the greatest... social policy inventions of the 20th century. It has been exported around the world and arguably done more to alleviate human suffering and improve health than any other single invention including antibiotics."

Simples, bonito e reconfortante. E tão verdadeiro como eu chamar-me Pedro. - PE
 
Está solteira

- RB
 
Treina matemática com a RTP
Quando ouvi o comentador da RTP dizer (cito de memória) «o Sporting, com nove cantos marcados, tem nove vezes mais cantos do que o Boavista, que não tem nenhum», percebi logo que a noite não ia correr nada bem. - JHJ
sábado, abril 17
 
Nem com a ajuda de Deus a direita ganha as eleições
A frase é de Sousa Franco e, até agora, é a melhor reacção a mais um nome apontado para cabeça de lista da coligação de direita às eleições europeias. - MVS
 
O Santana, parte III
Na entrevista ao DN de quarta-feira, Santana Lopes acaba por dar razão a uma tese antiga (e, pelos vistos, desinteressada) do Professor Marcelo Rebelo de Sousa: «Cada vez mais me convenço que o trabalho que tenho para fazer na câmara exige mais do que um mandato». Santana admite que prometeu muita coisa: «ou cumpro, ou então não posso ir-me embora. É ponto de honra». Estranhamente, noutra fase da entrevista, reconhece que «quem não cumpre o seu programa não tem moral para ser candidato a nada» - o que não deixa de ser também um ponto de honra. Ou seja: «pode haver a hipótese de não ser candidato a nada». Neste cenário, Santana já tem candidato: «o professor Marcelo [que já no passado levou com a herança de Abecassis] pode ganhar Lisboa».
Acham isto confuso? Então, não devem ser do «povo»; devem ser «da oposição» (categorias de Santana). A culpa é sempre do Santana. Já chega! Há não sei quantos túneis na cidade. Mas como o túnel do Marquês foi ideia do Santana, «acham logo que é uma obra perigosa do Antigo Egipto». Há não sei quantas torres em Lisboa. Mas como as torres de Alcântara são ideia do Santana, vão cair de certeza. «Comigo tudo tem um interesse extraordinário», desabafa Santana. E tem toda a razão. -FN
sexta-feira, abril 16
 
(Des)Governo
- Figueiredo Lopes, ministro da administração interna, segundo a TSF: «Se, por hipótese, o conflito se agudizar e a GNR não tiver condições para exercer a sua missão a única coisa a fazer é retirar.»
- Durão Barroso, primeiro-ministro, segundo o Público: «Qual é a alternativa? Se todos saíssem, seria uma irresponsabilidade sem nome, seria dizer aos terroristas que eles venceram. Desertar seria uma boa notícia para eles.»
Não foi sincronizado, mas não faltou muito. - JHJ
 
Sempre a subir
O número de pessoas desempregadas voltou a subir. Como sempre ao longo dos últimos dois anos, sobre este assunto o silêncio é de ouro ali pelos lados da praça de londres. Dir-se-ia até que o problema não existe; mas, como se sabe que existe, talvez o silêncio se deva então ao facto de pura e simplesmente não interessar ao governo o que acontece no campo do emprego e do desemprego.
Talvez não seja um problema. Talvez se pense que a "política de emprego" não é matéria de competência do governo, porque se deve tratar apenas do resultado do funcionamento dos mercados. Talvez. Mas nada disto passa de um exercício de suposição, porque à rapidez na produção de um código do trabalho não tem correspondido, estranhamente, um mínimo esforço de transparência, accountability e acção política numa questão tão básica como a situação e evolução do emprego em Portugal.
Um dia o desemprego vai parar de subir. Não porque isto seja importante, ou por interessar, ou por alguém ter manifestado grande preocupação e capacidade de acção na altura devida, mas tão só porque os ventos económicos hão-de mudar. Nessa altura, veremos se este espesso silêncio se mantém. - MC
 
Páscoa
É muito mau ir pela vida a perder pessoas que, quando vão às suas vidas, num rasgo de coragem te oferecem, na despedida, um bonequinho de bebé com cotos no lugar em que os anjos têm asas. Eu não sabia como era ser assim, agora sei. Como uma vez escreveu o Ivan, se sou assim agora é porque não tenho opção. Mas algo dentro de mim me diz que não quero ser esse alguém - ou, se calhar, é só medo - a quem outros, indo às suas vidas, num rasgo de coragem e generosidade, oferecem ao despedir-se um bonequinho de bebé com cotos no lugar em que os anjos têm asas. É possível que do «desamparo nasçam asas que ficam para além do que nos deixam quando partem». É também possível que não e que no lugar das asas nasçam cotos e que em lugar do voo fique apenas literatura. Que em lugar da víscera reine Ícaro, portanto. - RB
 
Começar tudo de novo
Hoje à noite, os tindersticks voltam à cidade.

Can We Start Again ?

So many times
I said that I love them
Looking over my shoulder at the door
So many times
"I can't live without her"
The wheel kept turning round
My feeling's changed, I went my own way
What can I say to make you stay?

Cos in my dreams
They smother all over me
And I'm trying to explain
So many arms reach from my memories
Pull all at once
I'm lost amongst the folds in their skin
I did you wrong
But I'm sorry now
And I'll show you how
If you were here now

You couldn't change
you wouldn't understand
but I'm ready now, I'm ready now
I'll make you proud I was your man
and sing a song
but it's so ugly now
and I'll show you how
cos I'm ready now

I'm ready now

Can we start again?
so many times I said that I loved them
but I'm ready now

Can we start again?

So many times
"I can't live without her"
The years was more than I could bear
It's turning round

But in my dreams...can we start again?
They smother all over me but I'm ready now
And I'm trying to explain...can we start again?
So many arms reach from my memory
The wheels kept turning round

Tindersticks
in Simple Pleasure, 1999

- MC
 
Conturbada eurolândia
Afinal, os efeitos da introdução do euro não foram apenas sentidos nos bolsos dos consumidores. - PM
 
Espanha: o rescaldo I
No momento em que decorre, no Congresso espanhol, a sessão de investidura do novo governo, a ocasião não poderia ser mais propícia para recordar as eleições que deram origem, há um mês, à mudança governamental. Realizadas em condições dramáticas, foram vistas, em muito arrazoado opinativo deste lado da fronteira, como uma vitória do terrorismo outorgada por um eleitorado amedrontado. Como se o terrorismo tivesse entrado na campanha eleitoral apenas com o deflagrar das bombas nos comboios madrilenos. Quem se entreteve em raciocínios marialvas do género demonstrou que apenas tinha acordado para as eleições espanholas no passado 11 de Março. Acontece que – e é bom não perder de vista este facto – o tema do terrorismo havia marcado, antes dessa fatídica data, toda a campanha eleitoral e havia sido usado pelo PP, até à saciedade, como arma de arremesso contra o PSOE. E isto porque o PP tinha denunciado, logo no início da campanha eleitoral, a reunião de Carod Rovira, da Esquerra Republica (ER), com membros da ETA em Perpignan antes das eleições regionais na Catalunha. Aparentemente, o político catalão negociou, nessa ocasião, uma trégua com estes para a Catalunha; e esta foi anunciada, por etarras encapuzados, em plena campanha eleitoral. Não se questiona a gravidade do acto do líder da ER, que aliás merece vivo repúdio, sobretudo pela falta de solidariedade nacional que revela uma trégua regional assim pactada. Mas um dos pormenores deste episódio foi a gestão criteriosa da informação feita pelo PP, que estava em posse dos pormenores da reunião de Perpignan muito antes da campanha eleitoral, mas que a deliberadamente guardou para essa ocasião.
Por outro lado, o abortamento de um ataque etarra na estação da Chamartin na quadra natalícia e a detenção de uma furgoneta com meia tonelada de explosivos duas semanas antes das eleições, segundo as informações oficiais, haviam contribuído para fazer do terrorismo o tema da campanha. Obviamente, que a ameaça terrorista, assim moldada, convinha os propósitos eleitorais do PP. Porque privava o PSOE de qualquer iniciativa eleitoral própria, obrigando-o a desmultiplicar-se em justificações por aparecer coligado na Catalunha com um partido que dialogava e negociava com a ETA – e, de caminho, abalando a própria coligação catalã e pondo em causa a manutenção do governo autónomo. E porque permitia ao PP arvorar-se em único guarante da luta contra o terrorismo.
A estratégia eleitoral do PP assentou, por conseguinte, em centrar toda a campanha no terrorismo. Se a firmeza e eficácia no combate contrastava com a promíscua debilidade do partido opositor, revelada na coligação catalã, a iminência de um ataque etarra constituía o chamariz irresistível para o eleitorado sem afinidades ideológicas ou partidárias – e permitia sonhar com a maioria absoluta. Só que a realidade do ataque terrorista nos comboios de Madrid desfez, num ápice, esta estratégia.
Pode, por isso, ver-se no medo a motivação do eleitorado espanhol em ter votado pela mudança. Mas porquê então condenar, como o fez certa marialvagem doméstica, o medo provocado pelos ataques terroristas de Madrid senão se condenou ou denunciou antes a exploração, deliberadamente feita pelo PP, do medo do eleitorado perante o terrorismo etarra? Porque se vê no primeiro um acto de cobardia e se explica o segundo por um legítimo sentimento de segurança?
Dito isto, ainda não vi os iluminados teóricos da cobardia do eleitorado espanhol explicar porque, mesmo após as eleições e a vitória do PSOE, a Espanha continua a ser alvo dos terroristas da Al-Qaeda, como o demonstra o recente episódio de Leganés. E, mais importante, ainda não percebi onde está a cobardia de quem votou num governo que se propõe reforçar o contingente no Afeganistão. Ou será que este já não conta na luta contra o terrorismo? - PM
 
Santana no DN


«Adorava que todos os políticos fossem como eu», disse Santana Lopes em entrevista ao Diário de Notícias (14 de Abril). Subscrevo inteiramente. Se fossem todos como ele, tínhamos assunto todos os dias. De facto, mais uma vez, Santana não desiludiu. Começou por traçar o perfil do cabeça de lista da direita às europeias: «Para travar este combate duro não se pode estar destreinado, tem que se estar com os estágios feitos». O vice-presidente do PSD não abriu completamente o jogo, mas, a avaliar pelos requisitos, cada vez mais me convenço que o cabeça de lista da Força Portugal vai acabar por ser o presidente do Boavista, João Loureiro.
Por outro lado, quando falamos de europeias, falamos de abstenção. Apesar de considerar que «o perfil do abstencionista não está estudado» (olhe que não, olhe que não), o autarca de Lisboa insiste na ideia de que «é mau para a abstenção uma campanha demasiado longa». De acordo com esta teoria, se não houvesse campanha, teríamos uma participação eleitoral a rondar os cem por cento. Não é que a coligação de direita não queira «um bom debate». A questão é que esse «bom debate (...) só se justifica depois das comemorações do 25 de Abril». Se a esquerda já não respeita a evolução de Abril, é problema da esquerda.
Nitidamente contrariado, Santana ainda teve de dissertar sobre dois assuntos que, manifestamente, lhe desagradam: as presidenciais e a remodelação do governo. Em relação ao tema presidenciais, fez um apelo: «como dirigente do partido, atrevo-me a pedir aos militantes que guardem esse tema para outro tempo». Como no último congresso do PSD foi Santana Lopes o único a falar do assunto, é bem possível que, desta vez, «os militantes guardem esse tema para outro tempo». A ver vamos se o candidato Santana respeita os apelos do dirigente Lopes. Quanto à remodelação, se dúvidas existissem, o outro Lopes (o Dr. Figueiredo) já tem o destino traçado: «Precisamos de estabilidade. A questão do Euro2004, a realização das eleições. Um ministro que é muito falado como remodelável é o da Administração Interna, por exemplo. É importante que continue em funções numa altura como esta.» A única dúvida que resta é se Figueiredo Lopes sai antes ou depois de Scolari. - FN
quinta-feira, abril 15
 
E os portugueses?
E que tal testar nomes de cientistas portugueses na base do ISI? Os resultados são espantosos. Sobrinho Simões, João Magueijo, Sérgio Rebelo, Boaventura de Sousa Santos, Villaverde Cabral, António Damásio. Nenhum deles regressaria a Portugal. - PAS
 
Estou a 93 de distância, e tu?
1. Do Diário de Notícias de ontem:
“Governo português vai pagar aos investigadores nacionais e estrangeiros que se queiram radicar em Portugal. A medida, que entra em vigor já a partir de 1 de Julho, destina-se a todos os doutorados «com grau de excelência» e visa combater a actual «fuga de talentos» nas ciências. O princípio, definido no novo modelo de financiamento do sistema científico, é alargado à criação de bolsas de retorno, para os jovens portugueses que façam o doutoramento no exterior e pretendam prosseguir a sua actividade no nosso País - uma proposta já apresentada a Bruxelas, mas cujos critérios estão ainda por definir. Segundo as normas do novo modelo de financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a ser anunciado hoje ao meio-dia, no site do Ministério da Ciência e do Ensino Superior (MCES), o Estado pagará as despesas de investigação a todos os doutorados, nacionais e estrangeiros, que tenham publicado 100 artigos em revistas internacionais e supervisionado pelo menos dez doutoramentos concluídos.”
2. de um email
Do ISI, Web of Knowledge. Pesquisa por nome em “articles” e “all languages”, desde 1945 até hoje.
Ronald H. Coase, prémio Nobel da Economia 1991: apenas 28 artigos originais publicados em revistas internacionais desde 1959.
Gary S. Becker, prémio Nobel da Economia 1992: apenas 50 artigos originais publicados em revistas internacionais desde 1957.
Douglass C. North, prémio Nobel da Economia 1993: apenas 49 artigos originais publicados em revistas internacionais desde 1956.
Juan J. Linz, cientista político, Prémio Príncipe de Astúrias 1987: apenas 10 artigos originais publicados em revistas internacionais desde 1972.
Jurgen Habermas, sociólogo, Prémio Príncipe de Astúrias 2003: apenas 87 artigos originais publicados em revistas internacionais desde 1970.
Anthony Giddens, sociólogo, Prémio Príncipe de Astúrias 2003: apenas 37 artigos originais publicados em revistas internacionais desde 1960. - PAS
P.S. um bom post sobre este mesmo tema pode ser lido aqui.
 
Vida de retornado
Não tenho feito outra coisa que não «trabalhar, trabalhar, trabalhar», desde o dia em que a ministra do ensino superior e da ciência anunciou que os cientistas portugueses radicados no estrangeiro poderão receber «bolsas de retorno», desde que tenham escrito mais de 100 artigos e orientado pelo menos 10 alunos de doutoramento. Com um pouco mais de dedicação, talvez consiga supervisionar a 10ª tese e escrever o 100º artigo antes dos 70 anos, e assim «retornar» a Portugal ainda com capacidades mentais e físicas para «estudar» a flora do jardim de uma casa na Praia das Maçãs. - JHJ
 
O que Luís Delgado não disse
Eu sei. toda gente me diz que não faz sentido perder tempo a comentar as inanidades que Luís Delgado produz, com uma frequência estonteante, na sua coluna diária no DN. O homem que já anunciou trezentas e cinquenta e seis vezes a retoma económica do país (está à vista), o homem que, a par com o Professor Marcelo e com o Presidente Sampaio, é o apologeta maior do pensamento positivo como remédio para a saída da crise (se os portugueses se convencerem que são os maiores tudo correrá bem) revela hoje a ideia que tem de si próprio em resposta a artigo de EPC, ontem, no Público. Para LD, ele próprio e EPC são dois brilhantes spin doctors, que por isso conseguem "ver", "manobrar", "alterar" e "potenciar". Refere o qualificativo apenas a EPC, mas fica claro que o aplica também a ele quando afirma que "EPC se aplica a manobrar a minha própria manobra (reconheço), o que em termos teóricos (sic) anula qualquer dos efeitos". A bizarra teoria traçada no caso concreto por Luís Delgado é em si, como de costume, impenetrável. Mas fica claro porque é que foi indigitado pelo governo para dirigir a agência noticiosa oficial Lusa. Porque é um spin doctor, talvez daqueles que conseguem "ver", "manobrar", "alterar" e "potenciar". - MK
 
Santana no 24horas


A entrevista de Santana Lopes, publicada no 24horas de terça-feira, foi conduzida (literalmente conduzida) pelas ruas da capital, num pequeno Smart. Santana está fascinado com o carro, e vai comprar um «para fugir ao trânsito de Lisboa». Inicialmente, ainda terá planeado uma política de trânsito para a cidade, mas, pensando melhor, acabou por optar pelo Smart. Sempre ao volante, Santana falou de tudo o que interessa: das mulheres («sou um homem livre»), das ex-mulheres («dou-me bem com todas»), das noitadas («saí do Stones antes de fechar, às 4.30h») e de quanto ganha (cerca de mil contos para gastar nos filhos, nas gravatas e na pintura de Manuel Amado).
Enquanto dava as suas voltas por Lisboa, Santana ainda arranjou tempo para abordar alguns temas menores, nomeadamente a sua obra enquanto presidente da câmara. Na Voz do Operário («Aqui vamos fazer a renovação da cobertura»); na Graça («Olha, o vice-presidente da Junta!»); no Alto de São João («Aqui estamos a reinstalar a junta»); nas Olaias («Vamos lá ver se já começaram as obras, senão levam nas orelhas!»); no Areeiro («A estátua de Sá Carneiro é um problema. Aquela cabeça...»); e em Chelas («Pintei aqueles prédios de branco; pintei, salvo seja!») – enfim, é um autêntico caleidoscópio na cidade de Lisboa.
Registe-se que, ao longo do trajecto, o dr. Lopes não ouviu um único insulto. Pelo contrário, até houve um jovem que o elogiou: «Ah, ganda presidente! Está em forma!» Santana agradece: «É isto que me comove. Eu não oiço uma boca. Não sou maltratado. Ele podia ter dito “vai tomar banho” ou “vai trabalhar”, mas não». É que «tomar banho», ainda vá lá que não vá; agora, «trabalhar»?! - FN
quarta-feira, abril 14
 
Modelos do comportamento eleitoral II
A democracia faz apenas 30 anos. A ciência política ainda vai no 2º Congresso. Só agora é que começamos a ter estudos pós-eleitorais. Pouco importa. Não é isso que nos vai impedir de sermos um país fértil em teorias do comportamento eleitoral. Durante uns anos (isto é, no intervalo de duas eleições), convenceram-nos que «os portugueses nunca põem todos os ovos no mesmo cesto», isto é, nunca escolhem presidentes e governos do mesmo partido. Não fosse alguém ter a mesma ideia genial, a tese nasceu ainda durante a presidência de Mário Soares (o primeiro presidente civil e oriundo dos partidos). Por azar, logo nas eleições seguintes, a dita tese foi por água abaixo: o PS ganhou as legislativas e Sampaio as presidenciais.
Sucedeu-lhe uma nova tese, igualmente popular e não menos fundamentada: «primeiro-ministro que se recandidate nunca perde». Ao contrário do que se passa com os treinadores de futebol, o primeiro-ministro pode estar descansado. Mesmo que tenha estado quatro anos a fazer asneira, esforçou-se - e, por uma questão de respeito, se for essa a sua vontade, deve continuar.
Num destes dias, numa repetição do Expresso da Meia Noite, voltei a ouvir isto. Sem se rir uma única vez, Rui Oliveira e Costa (especialista em sondagens, Sporting e relações laborais) repetiu a tese com a autoridade própria dos comentadores desportivos. É certo que ainda só tivemos duas recandidaturas ao fim de uma legislatura (Cavaco em 1991 e Guterres em 1999). Mas, como diria Albert Hirschman, a teoria de Oliveira e Costa «baseia-se numa sólida amostra de dois exemplos». - FN
 
Abril é Revolução
Miguel, de um ponto de vista de esquerda, não deixa de ser positivo que Alvalade, um antigo bairro social, seja hoje um bairro do social. - FN
terça-feira, abril 13
 
Puritanismo e paranóia
Leio na imprensa de hoje que, na sequência da polémica "Janet Jackson shows breast" e da multa aplicada a Howard Stern pela difusão de "imagens com conteúdo sexual" (ainda pensei que era o imposto devido pela estupidez e pela boçalidade do programa), a Victoria's Secret entendeu que era "necessário encontrar novas formas de promoção da marca". Ou seja, a empresa decidiu "superiormente" cancelar as transmissões televisivas dos desfiles da sua última colecção de lingerie.
Por outras palavras: o clima intelectual e cultural de moralismo ultrapuritano que hoje domina os Estados Unidos, a "terra da liberdade", vai fazendo o seu caminho. E que melhor prova disto mesmo que a sanção do mercado? - MC
 
Dos bairros “novos”, do seu envelhecimento e da reescrita das cidades
Passei um destes dias pelo local onde em tempos se erguia o antigo Alvalade, o cinema, há muito fechado e durante anos abandonado à sua sorte - agora transmutada num imenso buraco de obras que apaga de vez as memórias visíveis da vida anterior daquele espaço. Houve um tempo em que Alvalade, o bairro, antes de ser o reino fechado sobre si mesmo das tias recém-chegadas, dos sobrinhos betos e dos sotaques afectados, era uma das zonas de Lisboa mais jovens e dinâmicas do ponto de vista cultural, em que o cinema, em particular, era uma presença vincada. Eu já não sou desse tempo, mas ainda apanhei o lastro, a decadência e o progressivo sobreaburguesamento entrópico daqueles quarteirões – à semelhança do que sucedeu com outros bairros que foram “novos” na capital em meados do século XX.
Talvez por isso, alguns dos cinemas a que mais fui em criança e até à adolescência já não existem ou, basicamente, mudaram de vida. O Roma, recauchutado muitos anos depois; o Alvalade, que está à vista como se encontra; as salas do Centro Comercial de Alvalade, que em abono da verdade não deixam assim muitas saudades, desapareceram; tal como desapareceu, com curtas ressureições, a pequena sala do ACSantos da Avenida da Igreja. Se quisermos ir um pouco mais longe, o soturno Sétima Arte, já em Entrecampos, perdeu-se no seu sensaborão beco sem saída; tal como se perderam os míticos Alfa, ao Areeiro, o Berna, nas Avenidas Novas ou, vários anos antes, o cinema do Lumiar cujo nome me escapa de momento. Com toda a certeza, escapam-me também outros exemplos mais desta razia. De tudo isto, em Alvalade ou nas redondezas restarão talvez o Londres, partido e remodelado, e hoje vizinho do McDonald’s, o King e o Quarteto (sobre o qual já escrevi) - porventura dois dos cinemas lisboetas com uma programação mais estimulante.
Repare-se, porém, que não há aqui nenhum saudosismo. Na verdade, pouco se terá perdido nesta mudança, a não ser a memória de uma certa cidade em transformação. A oferta de cinemas é hoje provavelmente maior; a diversidade de públicos igualmente. Mudou, sim, o modelo de usufruto do cinema enquanto lazer e o seu enquadramento como prática de consumo. E, com essas transformações, mudaram as salas, as suas localizações, a sua inserção no espaço urbano, e a economia explica facilmente porque se concentram todas nos mesmos sítios, junto a outras lojas, enfiadas em centros comerciais, salas iguais aqui e em toda a parte.
As cidades e a sua vida reescrevem-se continuamente; é por isso que a memória de quem as vive, de maneira necessariamente contingente e particular, se pode tornar preciosa, num estatuto quase documental. - MC
 
A angústia do eleitor antes do voto


Que Almodóvar é um ser tocado pela genialidade, disso poucas dúvidas parecem restar. Que tenha sido tocado pela premonição, já era algo menos crível. Mas Mujeres al borde de un ataque de nervios contém um prenúncio, obviamente não deliberado, mas tão poderoso que é difícil, nos tempos que correm, ficar-lhe indiferente. Candela (Maria Barranco), tomada de amores por um terrorista xiita, aloja os companheiros deste. Após a detenção do terrorista, Candela receia ser implicada nos seus actos criminosos e, em desespero, refugia-se em casa de Pepa (Carmen Maura) - o mítico apartmento onde os personagens convergem num frenesim vertiginoso. Em casa da amiga, deixa escapar um lamento que ficou inesquecível: "Que le habré hecho yo al mundo árabe para que me trate así?". Em quantos lares espanhóis não se terá repetido esta frase, há precisamente um mês, na véspera das eleições? - PM
 
Nós bem avisámos...
Quando leio, hoje, as notícias da enorme trapalhada em que se tornou a situação no Iraque e o caos em que os americanos estão metidos, na tentativa impossível de travar a escalada de violência de origem difusa que grassa no país, não consigo, infelizmente, de deixar de me lembrar do primeiro post que escrevi neste Blog, corria Abril de 2003 "... Para mim, o paralelismo a fazer é mais ou menos este: vai um tipo muito estúpido, mas mesmo muito estúpido, a guiar alarvemente no IPI, pondo em risco a segurança e a vida dos outros condutores. Faz-me uma razia a 200 à hora e atira-me para a berma. Uns kms à frente encontro-o espetado contra uma árvore com a cabeça rachada. Fico contente? Acho que não". - MK
segunda-feira, abril 12
 
A corrida à democracia
Há uns meses já largos, escrevi um post surpreendido com a visibilidade das eleições do Benfica e com a quantidade de notícias, iniciativas de campanha, anúncios pagos nos media e cartazes espalhados pela cidade com a cara agigantada de Luís Filipe Vieira. Afinal, aquilo que eu pensava ser uma bizarria resultante dos seis milhões de benfiquistas que por aí há e dos incontáveis milhões de euros que circulam em torno desse mito, foi apenas um primeiro eposódio da apropriação privada em larga escala de espaços públicos massificados para fins eleitorais.
Hoje tropecei num outdoor da Lista C (o que faz supor a existência de pelo menos mais duas) das eleições ao ACP. Abro o Público e a página 9 é, toda ela, um imenso mar vermelho de propostas devidamente condimentadas com o sorriso do mesmo candidato. Antes disso, há semanas que ouço falar de uma candidatura de Paes do Amaral (Lista A? Lista B? outra?), já no terreno. Ainda não vi anúncios na televisão, mas é possível que lá cheguemos. Não há dúvida: a mediatização da democracia na sociedade civil veio para ficar.
E quem pensa que estas eleições são coisa de somenos, engana-se. É que ser presidente de uma associação com o número de sócios do ACP tem que se lhe diga. Não estando essa situação em causa, a verdade é que há quem pense, como ouvi a alguém num café, que "ninguém tem coragem de mandar prender o presidente do ACP". Pois é. Um célebre presidente de outra agremiação, recentemente apagado da história, que o diga. - MC
 
Ainda o Marco de Canavezes


Marco de Canavezes é o nome da terra, cantava há dias David Byrne no Coliseu, pensando em Carmen Miranda. Mas, todos estes anos depois do nascimento da cantora, esta terra não para de nos surpreender. Leia-se atentamente a entrevista de uma Presidente de Junta daquele mítico concelho do norte, eleita pelo PCP (sim, esse mesmo, o Partido Comunista Português). Para aguçar o apetite, aqui fica a resposta final:
"- Como viu aquela invasão de Ferreira Torres no campo de futebol do Marco?
- Com admiração. Eu, há uns bons anos atrás, vi o meu irmão ser agredido por um jogador de outra equipa quando jogava futebol. Entrei campo adentro, com o capacete da motorizada na mão, para tirar desforro desse energúmeno". - PAS
 
O Professor
Em entrevista com Carlos Vaz Marques, na TSF e no DNA, Aníbal Cavaco Silva apresenta-se exclusivamente como professor: «prefiro hoje não ser apresentado como político». Nos tempos que correm, parece, sem dúvida, uma opção avisada. Há pessoas que ficam viciadas na política. «No meu caso, não muito», diz Cavaco. Foram só dez anos. «Não esperava estar dez anos e ninguém aqui no país esperava que eu estivesse lá durante dez anos», reconhece hoje o professor. De facto, «aqui no país» ninguém estava à espera disto. E, «aqui no mundo», só mesmo o seu orientador de doutoramento em York é que podia esperar tal coisa. Recorde-se que, quando Cavaco ganhou na Figueira, nem o próprio Dr. Mário Soares se lembrava do nome do ex-ministro das Finanças de Sá Carneiro (não é por acaso que ainda hoje o trata por «Cavaco e Silva»).
Cavaco é diferente. Cavaco foi «educado para ser professor» (palavras do próprio) e nunca gostou da «política partidária». «O que me dava gosto era o contacto com o cidadão mais simples», recorda. Esta apetência pelo cidadão mais simples é, aliás, particularmente visível nas fotografias que constam da sua autobiografia. Lá vemos Cavaco com Helmut Kohl, Felipe Gonzalez, Bush pai, Bush mãe, os Clinton, e mesmo outros «cidadãos mais simples», como Prado Coelho e Carlos Queiroz. Assim, não pode surpreender que o ex-primeiro-ministro se defina hoje como «um espírito muito acima da vida partidária». Um espírito livre - à semelhança de «outras pessoas que trouxe para a vida política e que não estariam dispostas a fazer competição partidária na secção». Pessoas como um Mendes Bota, um Nunes Liberato ou mesmo um Macário Correia.
Apesar de tudo, Cavaco faz um balanço positivo daqueles dez anos. No melhor estilo queiroziano (isto é, do prof. Carlos Queiroz), o Professor Cavaco admite ter «a noção de que, em relação às linhas de fundo [sic], não houve assim grandes, grandes erros». É certo que muita gente terá ficado desiludida. Como aquele «homem que [na sequência da campanha de Cavaco em 87] descia pela avenida da Liberdade abaixo e dizia: agora é que eu vou conseguir um carro». Mas pelo menos, «em geral, nunca fui agredido – nem verbalmente nem de outra forma – por parte dos portugueses». Isto é único na história política portuguesa. Todos nos lembramos, por exemplo, da forma como o Dr. Mário Soares foi recebido na Marinha Grande... - FN
domingo, abril 11
 
In memoriam


 
Aforismos do dia
O mar é a religião da Natureza.
Crer é errar. Não crer de nada serve.
(Ricardo Reis)

[Fernando Pessoa, Aforismos e Afins, Assírio & Alvim, 2003, pp. 30-31] - RB
 
Treina matemática com o Isaltino
Isaltino Morais não ficou ressentido, e decidiu dar uma entrevista exclusiva ao Independente, o único jornal ainda lhe atribui alguma importância: «o jornal fez aquilo que qualquer outro teria feito: tinha uma informação escaldante que atingia um membro do Governo» - um membro do Governo igualmente escaldante, acrescentaria eu, depois de ler a entrevista.
Isaltino não aceita que se diga que fugiu ao fisco: «Eu não fugi ao fisco. Apenas não apresentei a declaração completa do meu património». Isto deve ser um tique do discurso parlamentar: nunca se diz que fulano é «mentiroso», diz-se que «faltou à verdade». O ex-ministro «admite agora que possa ter omitido alguma coisa»; só não quer que se pense que é um homem fácil: «Ao longo desse tempo em que estive à frente da Câmara de Oeiras disse não, muitas vezes».
Nesse sentido, Isaltino procura pôr tudo em pratos limpos, nomeadamente os 100 mil contos que tinha na Suíça. Explica primeiro a Suíça, para explicar em seguida os 100 mil contos. Relativamente à Suíça, Isaltino lembra o seguinte: «Sempre tive uma certa apetência pelos investimentos na Bolsa. A partir de 1987, quando o Prof. Cavaco Silva falou em comprar gato por lebre e a bolsa portuguesa teve uma queda, decidi canalizar as minhas economias para uma conta suíça.» Não perceberam? Perguntem ao professor Cavaco. Quanto aos 100 mil contos, «Cerca de um quarto do dinheiro era do meu sobrinho, um terço meu e o restante da minha irmã. É sempre difícil fazer essas contas. O dinheiro oscilava entre os 450 mil e os 650 mil euros». Complicado? Comprem, de acordo com a vossa cor clubística, a colecção do Público «Treina matemática com...». - FN
sábado, abril 10
 
Pacto de regime


As obras do túnel do Marquês têm provocado o caos em Lisboa. Nestes dias de Páscoa não se nota tanto, mas segunda-feira vai voltar tudo ao mesmo. Já aqui escrevi que os pactos entre PSD e PS só se justificam quando está em causa o regime. No entanto, se as coisas continuarem assim não é impossível que haja uma revolução. Não nos esqueçamos que a queda da Monarquia passou muito pelos confrontos no Marquês de Pombal. Nesse sentido, acho que o Dr. Ferro Rodrigues devia enviar um bilhete muito simples ao Dr. Santana Lopes: «Meu caro, todos fazemos muitas promessas. Infelizmente, as coisas são o que são. Tape lá o buraco, e não se fala mais nisso.» - FN
quinta-feira, abril 8
 
É fazer as contas


“Abriu a conta apenas em seu nome?
Inicialmente, sim. Só passados três ou quatro anos é que se transformou numa conta familiar.
Qual a verba inicial?
Cerca de 10 mil contos.
Das suas economias?
Exactamente. Depois foram sendo adicionados montantes da minha irmã e do meu sobrinho. Eu fazia a gestão da conta.
Qual era a divisão do dinheiro?
Cerca de um quarto do dinheiro era do meu sobrinho, um terço meu e o restante da minha irmã.
E em dinheiro?
É sempre difícil fazer essas contas.
Eram mais de 100 mil contos?
Eram. O dinheiro na conta oscilava entre os 400 mil e os 650 mil euros. As aplicações eram de elevado risco, sujeitas a enormes variações.
Quer dizer que os 10 mil contos depositados inicialmente, mais as verbas da sua irmã e do seu sobrinho, cresceram até aos 100 mil contos?
Exacto.”
Da entrevista do Dr. Isaltino Morais hoje ao Independente. - PAS
 
As palavras são importantes


A campanha posta na rua para a comemoração do 25 de Abril é, mais do que infeliz, preocupante. Refiro-me ao outdoor, de resto bem feito e bonito, «Evolução». É infeliz desde logo por sucumbir à provocação barata. Mas não só. Aqueles outdoors dão corpo a algo mais grave: propõem um revisionismo irresponsável.
Se quisesse ser provocatório, diria que nomear o cientista político António Costa Pinto como director das comemorações seria um pouco como nomear Tocqueville para comemorar a Revolução Francesa, ou, à falta dele, François Furet. Mas, para além da fulanização, repare-se no seguinte. As comemorações do 25 de Abril não são as comemorações de uma qualquer categoria científica de «golpe de Estado» integrante de uma tipologia de «processos de transição democrática». As comemorações do 25 de Abril não são um colóquio científico sobre o 25 de Abril. Nos livros de ciência política, o «25 de Abril» será tudo isso, mas não é esse o 25 de Abril que eu quero comemorar ou que eu penso deva ser comemorado. O 25 de Abril que eu quero comemorar é outro – na verdade, e se tiver que escolher uma palavra, é emoção.
A palavra de ordem é, pois, «evolução» - em vez de «revolução». Ora, as palavras são importantes. Por detrás da amputação do «r» está todo um programa político e quem não perceber isto é ingénuo. Está o salientar dos aspectos de continuidade sobre os de ruptura; está o sublinhar da noção de fim de ciclo sobre a de horizonte de possibilidades; está o rotinizar os aspectos carismáticos da revolução sobre o usá-los para algo de construtivo. E porquê a palavra «evolução»? Haverá quem não se lembre logo da expressão marcelista «evolução na continuidade»? Se se pretendia sublinhar aqueles aspectos, existiam outras palavras disponíveis: progresso, mudança ou transformação. Assim, se se opta por «evolução» eu proponho que se abandone a ideia de «comemoração» em favor da noção mais exacta de «reacção».
Afinal de contas, o que existe de objectável à noção de Revolução de Abril naquilo que, olhado a trinta anos de distância, tem de essencial: liberdade, democracia, descolonização, integração europeia, direitos sociais? Trata-se portanto ou de uma enorme ingenuidade ou de um caso de idiotia útil. Em muitos sentidos, e nesta conjuntura isso é evidente, o referido programa político continua a ser mais, e não menos, pertinente. Quando certos traços antigos da sociedade portuguesa ganham renovada visibilidade, quando os elementos de continuidade se tornam mais nítidos, seria agora útil comemorar o lado revolucionário da revolução, em lugar de sublinhar, numa perspectiva mais longa, o seu lado evolutivo (comum, aliás, a qualquer mudança revolucionária). Seria importante fazê-lo de um ponto de vista normativo, nos termos da proposição de um ideal de cidadania. Se o PSD fosse mais inteligente - e tivesse tomates - associava-se às comemorações do 25 de Abril e descia também a Avenida.
E não se venha com a conversa de que já ninguém liga ao 25 de Abril. Eu tenho uma relação emotiva com o 25 de Abril – e gosto disso e não tenho vergonha. Agora parece que é foleiro uma pessoa emocionar-se com isso, descer a Avenida, achar piada ao cravo, ouvir as secas dos discursos na Assembleia, pôr a tocar o «Ser Solit(d)ário» do José Mário Branco. O embrulhar o 25 de Abril numa retórica asséptica de ciência política só ajuda a afastar ainda mais as pessoas do evento. A não ser que se pretenda isso mesmo. É que, como dizia Sorel, as consciência e acção políticas das pessoas movem-se muito por emoções e mitos. Por que razão deixar o seu usufruto apenas aos autoritarismos de todas as cores e de todos os tempos? - RB
 
Angústia pascal
Que pena não acreditar na ressurreição! Sempre viveria no conforto de poder escolher o livro ou o filme da minha vida. - PM
 
Fica para a próxima
«Portugal – Pensar o Futuro». Foi o título de um debate promovido pelo cardeal-patriarca de Lisboa. Uma vez que «esquerda e direita unidas jamais serão vencidas», foram convidadas diversas sumidades da vida pública portuguesa – de Carvalho da Silva a Adriano Moreira. Como acontece sempre nestes debates, «os pensadores» são gente sem tempo (alguns até sem cabeça) para pensar. Nunca analisam nada em perspectiva ou com base na realidade: as «ideias» saem-lhes no momento, e toda a gente acha que se encontrou a receita para o desenvolvimento nacional.
Pinto Balsemão voltou a insistir na importância da «sociedade civil» (um conceito que, como toda a gente sabe, foi ele que inventou). Seguiu-se Marçal Grilo, naquela que foi, talvez, a intervenção mais extraordinária. «Como são escolhidos os políticos?, perguntou, referindo-se aos aparelhos partidários» (in Público, 3 de Abril). Aparentemente, o ex-ministro da Educação do PS está convencido que o grande obstáculo ao desenvolvimento do país é o facto de os políticos serem recrutados nos partidos. No tempo do Doutor Salazar é que era bom: os ministros eram quase todos catedráticos e ninguém nos parava.
No final, como é costume, falou-se muito da «necessidade de consensos que perdurem para lá dos ciclos eleitorais». Em acta, ficou também registado que é «necessário pensar o país num contexto cultural mais exigente». Fica para a próxima, portanto. - FN
quarta-feira, abril 7
 
Teatro


Anda ultimamemente muito em voga, na blogosfera, a dicotomia blogues pessoais/blogues políticos. Em geral, as dicotomias são cómodas, mas redutoras. Esta tem, pelo menos, o mérito de enterrar aqueloutra entre blogues de esquerda e de direita. Por ser perfeitamente redundante, nem vale a pena perder tempo com esta última.
O que se esconde, porém, na nova dicotomia pessoal/político é a tentativa de marcar um reduto distintivo dos blogues pessoais face aos outros. Os outros, os ditos "políticos", são comprometidos, logo construídos racionalmente e escritos empenhadamente para um fim determinado. Os pessoais são, pelo contrário, diletantes, descomprometidos, espontâneos, intimistas, umbiguistas, experimentais. Numa palavra, livres. Como se, em cada um desses blogues ditos "pessoais", não se albergassem as mais diferentes manifestações de intervenção política, tão ou mais empenhadas do que naqueles apelidados de "políticos" (basta pensar neste).
Interessa-me menos, em todo o caso, discutir o pretenso carácter livre (ou até libertário) dos blogues pessoais do que perceber como neles se constroem personagens. Parece evidente que os blogues pessoais vivem da – e servem a – construção de um personagem. Ao contrário do que o nome indica, tais blogues não expõem a pessoa, mas apenas um personagem que se alimenta dos posts daquela. Um personagem, como muitas vezes se tem a impressão enquanto leitor desses blogues, moldado para um fim pessoal determinado. Ou, outras vezes, demasiado curtido para que possa sequer revelar a pessoa. Daí que melhor fosse apelidar estes blogues, simplesmente, de teatrais. Blogues que se sustentam, uns frenética, outros placidamente, em jogos de sombras e espelhos. E que o fazem não sem riscos, como o revelou Cassavetes em Opening Night. - PM
 
Europa sim, Portugal nunca!
O senhor Michel Barnier trocou o cargo de comissário europeu pela pasta dos Negócios Estrangeiros em França. O famoso comissário Solbes é o novo ministro espanhol da Economia e Finanças. E a própria Anna Diamantopolou, titular dos assuntos sociais na comissão, largou «o conforto» de Bruxelas para ir a votos na lista do PASOK para as europeias. A verdade é que um movimento deste tipo não entra na cabeça de nenhum português. De acordo com a cultura política dominante, uma carreira política que se preze tem de terminar num «cargo de prestígio internacional», de preferência na União Europeia. Atingido esse objectivo, «a besta» de ontem torna-se, subitamente, «bestial» ou, como diria Cavaco em auto-retrato recente, «um espírito livre acima dos partidos».
É assim que olhamos para a Europa e para nós. Basta ver a forma saloia como as presidências da União Europeia são encaradas. Ao contrário do que acontece nos outros países, em Portugal aquilo não é visto com a naturalidade de um direito, de uma simples rotina. Presidir à União Europeia é um prémio que nos pode ser retirado a qualquer momento - não por causa da nossa irrelevância, mas por causa da «imagem que passamos lá para fora». É um momento de especial gravidade, perante o qual uma demissão no governo, uma crítica da oposição, podem arruinar o futuro da pátria.
No Público de 3 de Abril, lia-se que «O senhor Prodi permanece fisicamente na Comissão Europeia mas tem a cabeça em Itália». Aqui é exactamente ao contrário: ao fim de um tempo, os primeiros-ministros estão fisicamente em Portugal, mas com a cabeça na União Europeia. Se calhar não foi por acaso que tanto Cavaco como Guterres saíram de cena a seguir a uma presidência da União. Só lamento que o alargamento não permita uma presidenciazinha até 2006: era uma boa forma de garantir que o dr. Durão ia rapidamente para «um cargo de prestígio internacional». - FN
 
Santa Páscoa
Biblioteca Nacional, terça-feira. A sala de leitura e as fotocopiadoras estão estranhamente disponíveis. No café, apenas vislumbro Antonio Tabucchi com um pequeno séquito. Em pouco tempo, consigo fazer o que normalmente ocuparia uma tarde inteira. Não perco mais de duas horas - a contar com pausas para fumar e atender o telemóvel na excelente varanda. Aproveito esta sorte, e ainda passo pelo Instituto. O cenário é o mesmo. No terraço, ao contrário do que é costume, não há charros nem hermenêutica. Temos de reconhecer que a doutora Maria Filomena Mónica tem alguma razão: a Universidade é uma grande ideia. É só pena ter professores e alunos. - FN
 
O futuro é fodido
As relações «estáveis», ou as que de si mesmas têm a imagem de «longa duração» (namoro, casamento, benfiquismo, etc.), estão viradas para o futuro como o girassol para o sol. Nelas, o «nós» que se cria a dois projecta-se indefinidamente no futuro. A noção de fim, o seu quando e como, está em regra ausente, ou melhor: suspenso. Por muito que um ou os dois se perguntem todos os dias se é aquilo que querem ainda estou para saber de alguém que tenha concluído: «não é isto e o fim é já hoje». O benfiquismo é o melhor exemplo. O que vier, virá no plural. Olha-se para o futuro «a dois» como para uma paisagem aberta eriçada de projectos.
Andei às voltas com a pretensiosa e difícil tarefa de definir futuro e proponho o seguinte: futuro é tudo aquilo que constrange o presente, no sentido «transcendental» de «limitar» e «possibilitar» ao mesmo tempo (e basta de sociologia). Então o que isto quer dizer é que nas relações longas o grau de constrangimento admitido por cada um sobre o presente é muito elevado. Na verdade, é tanto maior quanto mais «futuro» tiver a relação, posto que seja algo de consentido, uma escolha, desejado mesmo.
Nos casos entre amantes é ao contrário: eles só existem por, e vivem de, não terem futuro. Por exemplo, entre amantes com relacionamentos «estáveis» respectivos, é a inexistência de futuro que esvazia o presente de constrangimentos. Será isso que, por ser de todo incomum na vida (pense-se no trabalho), é bom e é diferente. É o saber que nada daquilo se transformará em constragimento, ou seja, que nada daquilo tem «futuro», que liberta uma prodigiosa energia criativa (chamemos-lhe assim). É como acelerar um carro a 300 à hora em direcção a um muro propositadamente ali deixado para o efeito. O não-futuro é condição de possibilidade e válvula de segurança última. O «nós» existe, mas no presente do indicativo. Os amantes estão condenados a viver no presente e a possuir apenas passado porque o fim está sempre iminente – ou deixariam de ser amantes.
As relações estáveis acabam quando se lhes acaba o futuro. O «nós» extingue-se, evaporado. A relação morre de súbito, na vertical, asfixiada, sem apelo nem agravo. E morre porque alguém (ou ambos) deixou de admitir que o seu presente siga sendo constrangido como até aí, ou no mesmo grau, ou porque quer ser constrangido por outra pessoa. Os casos entre amantes definham pela aflição simétrica: morrem se se lhes abre um futuro e se o tentamos colonizar («amanhã» ou «a semana que vem» dificilmente fazem parte do campo lexical). Como se de um excesso de luz se tratasse. E morrem por, nesse exacto momento, o presente se coalhar de limitações, o carro desacelerar e o muro afastar-se. E quem já se relacionou em total liberdade (quer dizer, sem futuro) tem dificuldade em relacionar-se em algo menos que isso (ou seja: em algo com futuro). O problema dos amantes é, como nos acidentes de automóvel, a desaceleração súbita. De 300 a 0 de um momento para o outro faz com que o peso de cada um seja multiplicado por várias vezes ao ser arremessado contra a parede. O problema dos casados é diferente. É, como o dos astronautas em Marte, o da rarefacção súbita e por isso mortal do ar que respiram. Não sei bem o que é que eu ser benfiquista ferrenho diz sobre tudo isto, mas calculo. - RB


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