<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
quarta-feira, junho 30
 
Vamos fazer frente ao laranja!*
No futebol...


...como na política.


*Apelo de Luiz Felipe Scolari aos portugueses, ontem, na conferência de imprensa da Selecção.- FN
terça-feira, junho 29
 
SMS do dia
«Todas e todos ao aeroporto evitar que Durão fuja à tropa dele». - JHJ
 
Felicidade instantânea e a duplicar
Ligam-me para me dizer que o meu melhor amigo vai ser pai de gémeos. De repente, nada mais, mau ou bom, me interessa. Estou aqui, onde crescemos juntos, a torcer para que o(a)s teus filho(a)s tenham a sorte de ter um amigo como tu. E que conheçam a amizade e a cumplicidade como nós conhecemos. - MVS
 
Tenham medo, muito medo da escolha popular
Na tentativa de desacreditar a solução de eleições antecipadas como resposta à crise política e institucional que se vive em Portugal, alguma direita tem-se esforçado por diabolizar o cenário legislativo em que Ferro Rodrigues seria primeiro-ministro (aqui, por exemplo). Ao fazê-lo, ensina-nos duas coisas. Primeiro, que tem a noção clara que os eleitores dariam provavelmente a vitória ao PS se as eleições se realizassem hoje. Segundo, que prefere um primeiro-ministro escolhido por um grupo de dirigentes partidários a um primeiro-ministro escolhido por sufrágio universal. Alguma direita nunca muda. - JHJ
 
Instantâneos da democracia (I)

Manifestação contra o regime de partido único na RDA. Leipzig, 7 de Outubro de 1989- PE

 
A Democracia, segundo Durão Barroso
Quase uma semana depois de todos já saberem, Durão Barroso finalmente informou o país de que aceita o convite para Presidente da Comissão Europeia, demitindo-se por isso do seu cargo de Primeiro-Ministro. Avisou (quem de direito)também que o projecto com que assumiu um compromisso com os portuguesas em 2002 deverá continuar. Hão-de querer formar governo numa sala, às escondidas, e um dia dirão aos portuguesas quem é. Clareza, transparência e Democracia lá para os lados de S. Caetano à Lapa é assim. - MVS
segunda-feira, junho 28
 
O Público errou
Relativamente às declarações da Senhora Ministra de Estado e das Finanças, Dra. Manuela Ferreira Leite, onde se lia «Sem um congresso ninguém tem legitimidade para nomear um novo presidente do PSD e, por inerência, primeiro-ministro. Tal configuraria um golpe de Estado no partido. Quando os militantes votaram, no último congresso, não estavam a escolher também o número dois ou número três do partido, estavam a votar na lista do presidente do partido», devia ler-se «Sem eleições ninguém tem legitimidade para nomear um novo primeiro-ministro. Tal configuraria um golpe de Estado no país. Quando os eleitores votaram, nas últimas eleições, não estavam a escolher também o número dois ou número três do partido, estavam a votar na lista do presidente do partido- FN
 
O governo de Schrödinger
Passei os últimos três dias sem acesso à internet. Tudo o que conheço sobre a actualidade foi-me relatado por telemóvel (sem SMS), ou resulta da leitura que acabei de fazer do Público online e de alguns blogues. Estou fascinado com a incerteza e a sobreposição de «realidades». Deslumbrado, até. E não estou a ser sarcástico. - JHJ
 
E se um dia os peixes se transformassem em ratos?
Uma oportunidade fantástica para Portugal não passa à porta duas vezes (curiosamente, diz-se ser esta a segunda vez). Ele não queria. Nem era candidato mas, de repente, 24 países da Europa assim o pediam e ele lá se sacrificará deixando o país, rumo à Europa. Ele é o homem do consenso. À esquerda e à direita, de este a oeste. Um homem de quem poucos verdadeiramente gostarão, mas de quem ninguém parece desgostar. Desconhecido? Obscuro, escrevia um jornal espanhol.
Quando o desafio no país parece estar perdido, não será pessoa de voltar as costas a um desafio na Europa. Mas que seja um desafio seguro: chegar a presidente sem ter de se assumir como candidato.
Recordo-me de um comissário português que era candidato e de um governo português que afirmava apoiar a sua candidatura. Mas o comissário não era da família política certa... Já o primeiro-ministro português sentado à mesa das negociações (que coincidência!) era! O comissário não tinha experiência como chefe de governo do seu país... e não é que o primeiro-ministro português tinha?! E ali estava ele, saído da maior derrota da direita numas eleições europeias no seu país, indisponível para ser candidato e tão à mão para ser presidente.
E nós? Nós temos a confirmação da matéria de que é feito este governo. Promessas válidas a prazo (a curto prazo), quer sejam cumpridas quer não. Compromissos assumidos com o país em que o benefício próprio é o mais evidente. Gestão de silêncios e de valores. Princípios adaptáveis às circunstâncias. Um governo para quem estabilidade iguala permanência no poder. O país, acordado da euforia do futebol, finalmente perceberá do que Lisboa se tem vindo a queixar? Que não seja tarde demais! E a Europa? Lamento, mas essa que não se venha queixar? - SS
 
Obviamente, dissolva!
Nas vésperas das eleições europeias, vários antigos comissários preparavam-se para se candidatar pelos seus partidos ao Parlamento Europeu. O próprio senhor Prodi, presidente da Comissão, desejava ardentemente regressar à política doméstica. Então, escrevi aqui que um movimento deste tipo era impensável entre nós. Para o provincianismo dominante na elite política, não há nada mais importante do que «uma carreira na Europa» (de preferência num cargo de nomeação). Isto diz tudo sobre a maneira como olhamos para a Europa e sobre a saúde da relação entre eleitores e eleitos em Portugal.
Esta tendência nacional atingiu novos patamares com a mais que provável aceitação do cargo de presidente da Comissão Europeia por parte do Dr. Durão Barroso. A meio do mandato, o Dr. Durão rompe o compromisso com os eleitores, em nome do chamado «interesse nacional». Uma decisão destas não passaria pela cabeça de mais nenhum primeiro-ministro europeu. Ao contrário do que pensa o dr. Guilherme Silva, não são as eleições antecipadas que são típicas do «terceiro mundo» (aliás, no terceiro mundo não abundam eleições livres e justas); típico do terceiro mundo é desrespeitar os cidadãos e pensar que tudo se resolve no interior do partido único.
Mas estranhamente, esta leitura das coisas não se resume ao dr. Guilherme Silva. A maioria dos editorialistas (do Público, do Expresso, etc.) vibrou com a escolha do «estadista» Barroso para a União Europeia. Para eles (e para alguns sms de esquerda), o único problema é Santana Lopes. Como diz Marcelo Rebelo de Sousa, «O PSD deve escolher não em função dos interesses partidários mas nacionais»; isto é, deve escolher alguém que agrade ao dr. Sampaio. Talvez uma eminência parda do regime sirva melhor «o interesse nacional». Ou talvez - porque não? - ele próprio, o inconfundível professor Marcelo.
Como é evidente, já não há outra saída politicamente aceitável para esta situação que não passe pela antecipação de eleições. Sobre isto, o Ivan Nunes tem dito o essencial: «Quem, para discutir o significado político do que está a acontecer, me invoca o artigo da Constituição que diz que, nas eleições parlamentares, eleitos são os deputados e não o governo, não merece, politicamente, o meu respeito.» O Ivan lembra que «o regime político em que vivemos hoje tem sido por vezes caracterizado como "semi-presidencialista de primeiro-ministro"». Na verdade, o regime até tem sido definido como «presidencialismo de primeiro-ministro» (por exemplo, pelo professor Adriano Moreira), conceito para o qual a redução dos poderes presidenciais e os mandatos do dr. Sampaio muito contribuíram. Neste sentido, tendo em conta o que são, de facto, as eleições legislativas - e em coerência com o que tem acontecido nas crises institucionais mais recentes (1987, 2002) -, o Dr. Sampaio só pode dar uma resposta: «obviamente, dissolvo». - FN
 
O Ricardo que temos e o Ricardo que também queríamos* ter


* para quem não me conhece a primeira pessoa do plural refere-se ao Sporting - MVS
domingo, junho 27
 
O dia em que teria pena da Direita moderada...


...seria o dia em que fosse dada posse a um governo Santana Lopes / Paulo Portas. Sou um adversário leal e custa-me um pouco ver-vos chegarem a este estado. Sim, sei que a vossa derrota no dia 13 foi esmagadora - mas acham mesmo que a única hipótese que vos resta é o hara-kiri? - PE
 
Santana Lopes
Podem vir com os formalismos constuticionais que quiserem. Mas para quem leve a democracia a sério é inaceitável qualquer solução que passe por impor ao povo português, na secretaria, um primeiro ministro em quem ninguém votou e que, se hoje fosse a votos, com toda a probabilidade perderia as eleições. - MK
 
A música na ponta dos teus dedos
(para o meu irmão Miguel)
Faz mais de um ano que viraste as costas a tudo e seguiste o teu caminho. Passado poucos dias (ou)vi-te tocar e soube que tinhas feito a escolha certa. Soube-o também quando te (ou)vi, dias após dia, repetir harmonias até que estivessem perfeitas. Passou pouco mais de um ano e juntas à tua persistência inabalável a primeira recompensa. Lá em casa mudas a vida de todos nós, todos os dias. Com a música na ponta dos teus dedos. E com aquele olhar.- MVS
 
O pesadelo
Sexta-feira estive isolada do mundo toda a tarde. Sem contacto com ninguém e sem bateria no telemóvel. Várias pessoas me tentaram ligar, mas as chamadas caíam sempre. A caminho de casa, já depois das oito, tentei ligar o telemóvel com o resto da bateria e recebo uma mensagem (para mim) incompreensível contra Santana Lopes a Primeiro-Ministro. Tento todas as rádios, mas todas transmitiam futebol. O trânsito parecia mais infernal que o costume e quando cheguei a casa eram quase 9 horas. A minha mãe diz-me que «eles» estão loucos, que «isto» é inacreditável. Acho que ainda estou em estado de choque e que, com o optimismo que não tenho, espero que nada disto passe de uma piada de mau gosto. Mas, ainda assim, sugiro a Jorge Sampaio uma visita à Câmara Municipal de Lisboa (que ele conhece bem) para ver o estado a que aquilo chegou. - MVS
 
Prioridades
Sexta feira saí a correr da Faculdade para chegar a tempo de ainda ver algumas notícias. Decidi apanhar um taxi. Quando entro, dou o mote: «Então o Durão lá vai para Bruxelas...» O taxista estava indignado: «É uma vergonha, isto são eles [os outros países] a quererem desestabilizar a Selecção.» - FN
 
Choque e pavor
Na sexta feira estive a vigiar exames entre as 18.30 e as 20.00. Durante essa hora e meia fui recebendo, através de sms, notícias extraordinárias sobre o nosso governo. Às 20.00 ainda ninguém tinha terminado o exame. Para grandes males, grandes remédios: «Tenho duas coisas para vos dizer. A primeira é que estamos em cima da hora. A segunda é que, enquanto aqui estivemos, mudámos de primeiro-ministro. Quando entrámos era o Durão Barroso, agora é o Santana Lopes». O exame acabou ali. - FN
 
Portugal-Holanda


Petit na conferência de imprensa de hoje: «Vamos oferecer a vitória a esta massa associativa maravilhosa que é Portugal». - FN
sexta-feira, junho 25
 
Sing along


"He was a sweet and tender hooligan, hooligan
And he swore that he'll never, never do it again
And of course he won't (oh, not until the next time)".

Steven Patrick Morrissey, Sweet and Tender Hooligan - PAS
 
Mark, não fiques triste


- FN
 
Rooooony!


- FN
 
«A única coisa que penso quando é para marcar é em metê-la lá dentro, e mais nada»


- JHJ
quinta-feira, junho 24
 
A festa dos portugueses
Se depois de uma tímida vitória contra a Rússia houve festejos nas ruas, não espantou que em todo o lado tivesse havido uma espécie de loucura colectiva com a qualificação para os quartos de final do europeu. Tendo em conta que o discurso oficioso é há muitos meses o do favoritismo, deve haver qualquer coisa que nos escapa. E escapa há muitos anos. Num país demasiado habituado às "vitórias morais" e aos "quase feitos", todos os passos do caminho são festejáveis porque nunca se sabe ao certo quando é a última oportunidade para o fazer, mesmo que ainda não haja nada que objectivamente justifique qualquer festa.
A outra face desta forma de encarar o mundo, que não tem nada a ver com fado mas sim com uma inescapável e periférica pequenez, encontramo-la nos media e nos discursos das pessoas. Depois da vitória sobre a Espanha, transformada em "exibição inesquecível", a equipa estava de novo entre as melhores, superiormente orientada por Scolari, a união e o espírito de grupo eram cada vez mais fortes e ouvi mesmo um comentador dizer que "quem acompanhou a selecção desde o estágio sabia que tudo ia correr bem".
Curioso. Umas horas antes de um jogo que de inesquecível só teve um penoso sofrimento até final, a equipa era mediana e desequilibrada e as exibições muito pouco convincentes; o "brasileiro" não percebia nada de futebol e da mentalidade dos jogadores portugueses, o ambiente era terrível e cheio de divisões internas e a vitória contra a Espanha transformara-se num cenário altamente improvável.
Hoje, quase em dar por isso, voltámos ao ponto de partida: um optimismo desenfreado faz com que a selecção seja de novo favorita e tornou necessários apelos contra o excesso de confiança, lembrando que as coisas podem não correr assim tão bem. Daqui por poucas horas, saber-se-á qual das duas faces o país exibirá. - MC
 
Imprecisões categoriais
Tenho estado ausente do país relativo algures em Lisboa, acampado entre quatro paredes e muito papel numa espécie de férias forçadas pelo trabalho, servido em doses ininterruptas. Já tinha saudades de blogar ao sol, um sol vagamente alaranjado a cair sobre a cidade através dos vidros emoldurados virados a norte, no conforto seco, esterilizado e sem mácula de uma sala com ar condicionado. - MC
 
Eu acredito


(Este ainda é pior que o Ricardo.) - FN
quarta-feira, junho 23
 
Alemanha eliminada...


- FN
 
O pesadelo von Trapp
O grande Buffon - um guarda-redes anormal, absurdo, como ontem dizia certeiramente um amigo - lamentou o 2-2 do Suécia x Dinamarca. Sugeriu combinações menos lícitas. Perguntou como é que vamos explicar o sucedido às criancinhas. Qual quê. Mas alguém consegue imaginar um sueco e um dinamarquês em combinações mafiosas de resultados? Dava um sketch divertido. É que não conseguem, mesmo que quisessem: são demasiado bem formados, escolarizados, desenvolvidos, estado-providenciados, nórdicos, protestantes e louros para isso. Sim, bem sei que houve em tempos um senhor sueco que era guarda-redes e que se chamava Thomas Ravelli. Ravelli. O problema da Itália não é esse. A Itália não lamenta hoje o 2-2 combinado; a Itália lamenta, sim, Trappatoni. Duvidam? É ver esta noite o Porta a Porta na Rai Uno. - RB
 
Nadar
Nadei hoje como quero nadar sempre: com um relógio de pêndulo dentro do peito. Comecei por sorrir a cada respiração ao sentir o calor do sol na cara e ao redor dos olhos. A meio da piscina ria já a bom rir. Acelerei, e os braços obedeceram. A água fresca deslizava mais e mais depressa pelo meu corpo de repente parado, trazendo com ela o cais da piscina sempre para mais perto, o t pintado, e a antecipação da viragem. Fui feliz dentro de água, mesmo sabendo que dentro de água tudo pesa menos, a começar por nós. Nadei hoje como quero escrever sempre, com um pêndulo dentro; feliz. - RB
 
Ainda a simbólica da República
Eis um artigo muito interessante de Nuno Severiano Teixeira sobre o processo de invenção dos símbolos da República, a necessidade de os recuperar do verniz chauvinista com que o Estado Novo os cobriu e a oportunidade que o Campeonato da Europa de Futebol tem sido para isso.
O meio século de Ditadura foi uma tragédia de tal ordem que nós (e digo "nós" porque me refiro ao aqui-e-agora e a várias classes sociais) ainda hoje a pagamos. Mas a Direita ultramontana que a sustentou não era parva de todo. E se houve coisa que nunca desprezou foi a simbólica e o seu poder de desequilibrar - e até ganhar - batalhas políticas e culturais. É curioso que um regime, que era reaccionário até ao tutano na sua prática quotidiana e cujo objectivo era acima de tudo o congelamento à bastonada da mudança social, tivesse uma propaganda tão inovadora e, em muitos casos, revolucionária.
E também sem grandes pruridos quanto aos símbolos da República. Pôs uma mola no nariz, calçou luvas de borracha, pegou em algo que representava tudo aquilo que detestava e deu-lhe um significado de acordo com os seus propósitos. Foi, e com pena o digo, um golpe de génio - de tal maneira que eu próprio, apesar de republicano indeféctivel e de estar para aqui escrever isto, me sinto pouco à vontade com esses símbolos (são foleiros, não são? E se me apanham na TV? Será que me vão confundir com um facho? Devo aqui agradecer ao Miguel por me ter sugerido um dia cantar o hino com o punho erguido - não é que funciona?!).
Duas conclusões disto. A primeira é uma trivialidade. O significado dos símbolos nunca está fechado e as suas possiblidades, não sendo infinitas, são muito variadas e objecto de lutas sociais constantes - e se foi possível à Direita mudar-lhes o significado há 70 anos, não vejo porque é que Esquerda não pode fazer o mesmo hoje. Podemos dizer, por exemplo, que as cores representam o compromisso da República política para com o estado providência e a defesa do ambiente, que a esfera armilar representa o cosmopolitismo e a tolerância, que os cinco escudos são os cinco conjuntos de direitos que protegem o cidadão: direitos sociais, políticos, económicos, sexuais e... err... alguém ajude. Não interessa muito o quê ao certo, desde que sirva para propor e fixar uma visão de Esquerda da nossa comunidade política.
A segunda conclusão é um corolário. É uma chatice, mas todo o terreno que - por repulsa, arrogância ou preguiça - deixarmos sem um discurso de Esquerda enraízado, podemos ter a certeza os nossos adversários pegarão nele. E depois lá teremos aturar os sangues, os espíritos dos povos, os colonialismos, os reis e baboseiras do género.

P.S.- O que um gajo não faz para justificar a si próprio o facto de ter uma bandeira na janela ...- PE
terça-feira, junho 22
 
...è una ingiustizia, però!


Fui eu que me lembrei desta. Sozinho. Original, não é? Passei à frente de toda a gente. Hem? Hem? Fica já registada. O quê? Ora, façam de conta que é uma bola de futebol. E a partir de hoje, chamem-me Pedro, o criativo. "Cris" para os amigos.
Não, estou só a esconder o meu desapontamento. Lá se foi a "minha" equipa de sempre nos torneios internacionais - desde de uma tarde longínqua de 1982 (ano mágico!), numa sala cheia de gente a torcer pelo Brasil. E hoje foi mesmo injusto...- PE
 
Errata
Aqui há uns dias, opus o patriotismo bem-disposto ao nacionalismo chauvinista. Mas as dicotomias fazem-me sono. Fico por isso contente por ter encontrado uma nova variedade que, se não é simpática como o primeiro, também não é perigosa como o segundo: o nacionalismo piroso. Ora digam-me lá se este pequeno parágrafo do site da RTP sobre o Euro 2004 não é uma maravilha? - PE
 
Os «profissionais»
Há uma semana, no seu comentário da TVI, Miguel Sousa Tavares (MST) disse algumas coisas elementares. Que ninguém votou em Figo, Rui Costa ou Fernando Couto para mandarem em coisa nenhuma, muito menos na selecção. Que o senhor Scolari, em vez de inventar, devia aproveitar a equipa do Porto (com Figo no lugar de Alenitchev, Nuno Gomes no lugar de Macarty e Ronaldo no lugar de Derlei). Não sou do Porto, mas reconheço que MST tinha razão (só falta o Paulo Ferreira). Figo, transformado em sindicalista da geração de 91, não gostou do que ouviu. Depois de ganhar à Rússia, aproveitou a conferência de imprensa para atacar MST, sem nunca o nomear. «Somos profissionais, merecemos mais respeito», disse ele. (Uma reivindicação que se ouve muito na «classe» das prostitutas e dos «profissionais circenses».) E não se ficou por aqui: «Logicamente, pois que se eu sou profissional de futebol não vou opinar de agricultura ou de cinema. Por isso, também não admito que pessoas que não são profissionais de futebol falem do que não sabem». (Couto, ao menos, limitou-se a exigir respeito pela «classe arbitral».) Vasco Pulido Valente uma vez referiu-se a Cavaco como «o algarvio desconfiado». Figo é o típico português desconfiado, que teve a sorte de nascer com neurónios nos pés.
Tirando Valdano, Futre e Dani, não conheço nenhum futebolista que tenha alguma coisa para dizer. Quem ouviu os comentários de Diamantino Miranda ao Portugal-Espanha (Sportv) pôde confirmar isto. Ao contrário do que mandam as regras, Diamantino pôs-se a fazer prognósticos no início do jogo: «Acho que Scolari errou ao pôr Ronaldo de início, é muito inexperiente». Aparentemente, Ronaldo, titular do United, não aguenta a famosa «pressão»; Simão, que foi dispensado pelo Barcelona, é que era o indicado. Aos 52 minutos, segundo Dimantino, «Portugal não está a conseguir chegar à baliza espanhola.» Segundos depois, Nuno Gomes marcava o golo. Como se isto não bastasse, aos 75 minutos, o nosso Diamantino voltou a dar a táctica: «Acho que o Scolari deve mexer na equipa. O Deco já não segura a bola nem ganha faltas.» Entre os 76 e os 92 minutos, Deco foi o jogador que melhor segurou a bola e mais faltas ganhou. A opinião sobre o futebol é uma coisa demasiado importante para ser deixada aos futebolistas. - FN
 
Intervalo para publicidade institucional


Alberto Sordi, impagável como actor de fotonovelas em "O Xeque Branco". Hoje, às 21:30 na Cinemateca. Desgraçados os que têm de ficar a aturar a Manuela Moura Guedes...- PE
segunda-feira, junho 21
 
Está decidido
Vou estar fora de Portugal durante o próximo Europeu. O futebol perde a piada toda quando se está em maioria.- PE
 
O que tem Santana Lopes em comum com Zé Zé Camarinha
Não sabemos se impelido por uma necessidade de afirmação sexual à Zé Zé Camarinha, ou numa manifestação da intolerância reaccionária que perpassa por esse gueto de conservadorismo arrogante e popularucho que é, cada vez mais, a Câmara Municipal de Lisboa, o Presidente Santana Lopes quer impedir que a Marcha do Orgulho Gay evolua pela Av. da Liberdade. A justificação é inenarrável. A Avenida "DA LIBERDADE" segundo Santana Lopes, deve estar reservada para eventos importantes como provas desportivas, ou as marchas de Lisboa. Não está aqui apenas em causa uma recusa da ideia de um certo cosmopolitanismo tolerante que Lisboa associou a si própria nos últimos anos. Está aqui em causa, para além de uma visão da cidade "apenas para alguns", a afirmação de uma ideologia bafienta, que promove as marchas populares e as noivas de Santo António, mas que oferece resistência a um desfile de minorias sexuais. Vergonhoso e ridículo. - MK
domingo, junho 20
 
No pasarán!


- FN
 
Vamos a eles!


Manuel, the Spanish waiter - FN
 
O «castigo» segundo a UEFA


O jogador Totti foi castigado com três jogos. Ficou a ver a selecção italiana da bancada, acompanhado por Ilary Blasi.- FN
 
Que desassossego!
A desassossegada não pára quieta um minuto. Um tipo destrai-se, e quando lá volta para ler os últimos posts, tem que fazer scroll-down quase 10 kilómetros até chegar ao princípio.
Logo a seguir às eleições, mandou o Miguel Portas guardar o rolo da massa para não nos fazer passar vergonhas na Europa. E fez muito bem. Para a Sara, BE e luta de classes só mesmo quando estão menos de 30º Celsius. Por mim, aos 20º, ligo logo o ar condicionado. Mas cada um tem os seus thresholds. Quem parece ligar o ar condicionado ainda a temperatura está negativa, são estes tipos. A Sara não os linka (ou linqa, ou o raio que parta a língua portuguesa!) e eu, se mandasse no PR, linkava e deslinkava logo a seguir.
A meio da semana, andou metida com o maradona por causa de um tal de Norbert Elias, que é um sociólogo que me permitiu conhecer para aí metade das pessoas que escrevem neste blogue. Estou a exagerar, evidentemente. Em todo o caso, o maradona saiu-se com um boa que foi «pessoas que não percebam a dificuldade que é passar pelo Ricardo Carvalho não podem escrever uma linha sobre um único adepto de futebol». Estava-se a referir ao tal de Norbert Elias, que, obviamente, não deve conhecer nem o Ricardo Carvalho, nem o José Mourinho.
Voltando à Sara, parece gostar muito de esplanar, que é uma actividade igualmente adorada por um outro relativo. Principalmente, quando estão mais de 10º. E se há coisa que me tem faltado para poder sentir o Europeu é, precisamente, o acto de esplanar. Esplanar, e ver a GNR a cavalo à caça de adeptos ingleses embriagados com cerveja Sagres.
No meio de todo este desassossego, o blog da Sara declara apoiar o Euro'04 e a selecção brasileira. Se Portugal perder amanhã, declaro apoiar a Suécia. Ou as tulipas laranja. Se ganhar, também. Desde que quem ganhe a final viva a norte de Paris, vivo feliz. - JHJ
sábado, junho 19
 
Idade adulta
Há quatro anos, em pleno EURO 2000, estava no Algarve e, por entre mergulhos no mar e trabalhos de segundo semestre, segui de perto cada jogo do Europeu. Lembro-me de jogos, jogadas, golos e resultados. Agora, com o Euro entre nós, vi três jogos (no máximo), adormeci em pleno Portugal-Grécia, os trabalhos de mestrado não avançam e o mar foi coisa que ainda não vi. Deve ser isto a idade adulta. E não presta para nada. - MVS
 
Porque hoje é Sábado
É dia de artigo no Público de Augusto Santos Silva. Aqui fica o que a mim também me parece evidente. Mas vale a pena ler todo aqui.

"A mim, parece-me evidente que cabe a Ferro Rodrigues conduzir o seu partido e liderar a esquerda, neste processo de construção de alternativa. Não sei se tem apoios bastantes entre a "máquina" partidária, nem patrocínios entre os "senadores". Nem, confesso, me interessa. O que sei é que levou o PS da depressão a 38 por cento de votos, em Março de 2002 e, agora, a 45 por cento. Sei que ressituou o partido numa posição de esquerda moderna, diferente de outras identidades políticas, à sua esquerda e à sua direita, mas não fechado à interacção com elas. Sei que resistiu com coragem invulgar à mais miserável operação de assassinato moral de que foi vítima um dirigente e a sua equipa, na democracia portuguesa. Sei que não tem impedido a afirmação dos outros rostos e ideias de que um movimento político, por natureza colectivo, necessita. E, sobretudo, sei que o eleitorado confia nele. Demérito do adversário, horror ao vazio, expressão circunstancial de um protesto, voto na organização mais do que na pessoa, valor próprio dos candidatos? O que seja. Nenhuma destas razões diminui o facto singelo de parecer o povo apreciar quem o povo já percebeu que não quer ser político de plástico, nem frequentar revistas do coração, nem esconder emoções e ideias."

- MVS
 
Os comentários de futebol deviam ser todos assim
Um dia, farto de jogar Scrabble em aramaico e de levar tareias à espadinha por causa de parceiros que não sabiam marcar vazas, Deus decidiu descer à Terra. Vendo que o Homem não tinha precisado Dele para inventar obras-primas como o metropolitano, o estado providência e os gelados italianos, amuou. Virou-Se para as novas tecnologias, cortou com o mundo e tornou-Se um computer nerd - e assim nasceu a internet.
Não satisfeito com o Seu trabalho, Deus criou os relatos minuto-a-minuto do "The Guardian" e disse aos seus autores: "Deverão evitar os lugares comuns, mas escreverão num estilo despretencioso e bem-humorado. Deverão espalhar a Palavra, respondendo aos e-mails dos vossos leitores. O chauvinismo está proibido. E quando os jogos forem uma seca falarão de outra coisa qualquer que vos venha à cabeça. So it has been written, so it shall be done."
Seguindo a Sua Palavra, aqui vai a minha selecção da primeira semana do Euro 2004:

"There's a lot of people mailing in to say that slow-motion replays suggest that Ovchinnikov didn't touch the ball in that incident that saw him sent off. It raises an important footballing question: What the hell are you all doing pestering me if you're watching the game on television?"
Barry Glendenning, Portugal-Rússia

"In terms of ability I'd put them [Greece] on a par with England and Latvia."
Barry Glendenning, Portugal-Rússia

""Troy was only enjoyable at one specific moment," reckons Bas Droesen. "When hearing many 'ooh's' of surprise from viewers when the horse turned out to contain hidden soldiers." He watched it in America, I'm guessing."
Nick Harper, Grécia-Espanha

"Someone on, someone off for Greece. A defender is all I know: fill in the dots yourself." Nick Harper, Grécia-Espanha

"In terms of England, both these sides should represent a prospect about as fearful as Barney the bloody purple Dinosaur"
Ben Child, Suiça-Croácia

"Septuagenarian Croatian coach Otto Baric is not looking happy. I'd be disappointed too if I had a weave that blatantly fake. I swear there's something nesting in there."
Ben Child, Suiça-Croácia.

"From Beckham's free-kick out on the right, Frank Lampard rises 12 yards out and buries one past Coco The Clown. It was never a free-kick, but who cares?"
Nick Harper, Inglaterra-França

""Rooney gets a luck bounce and they're screaming about Wayne's World... oh god help me." God help us all, Colin."
Sean Ingle, Inglaterra-Suíça

And the winner is...

""As an American of Irish decent who also happens to be soccer mad, which team should I be pulling for?" asks Patrick McDonough... Far be it from me to name names Patrick, but I suggest you root against the old oppressor with their trademark neanderthal football style and equally delightful travelling fans."
Barry Glendenning, Holanda-Alemanha
- PE
sexta-feira, junho 18
 
Porque amanhã é Sábado


Fui gostando do Chico de todas as maneiras. Acho que comecei pelo Jumento, dos Saltimbancos que por casa me apresentaram quando ainda não me ligava ao resto que ouviria depois, mas que já tinha ouvido desatentamente antes. O Chico tem poucos defeitos e tem aliás, todos o sabemos, a qualidade de ser um homem muito bonito. Mas, dá-se o caso de, naquele jeito inconfundível de olhos verdes e olhar terno, como que a precisar permanentemente de ajuda, ser também completamente não efeminado - nisto, como em muitas outras coisas é um pouco o contrário do Caetano. Isto é tanto mais espantoso quanto tem uma capacidade (única?) de conseguir escrever as músicas como se estivesse no lugar das mulheres e cantá-las do lado dos homens, deixando que as mulheres as cantem do lado certo (há palavras para o Atrás da Porta cantado pela Elis?). Mas enquanto me associo aos anos que o Chico faz amanhã e que andam pela blogosfera há uns dias, lembro que, entre as suas qualidades, o Chico tem o gosto pelo futebol e como muitos outros que gostam mesmo de futebol, gosta dos clubes de futebol antes de gostar das selecções. O que convém ser sublinhado nos dias que correm.. - PAS
 
Chá e beatas
Detesto café e não fumo - duas coisas que dão uma bela ajuda a uma miserável capacidade de convivência social. Nem imaginam. Entrar numa interacção face-a-face com desconhecidos/as sem recursos como "vai um café?" ou "queres um cigarro?" é como tentar escalar o Everest em t-shirt e havaianas...
Seja como for, bastava aritmética simples para saber que não ia gostar de "Café e Cigarros". Pois, pois, podem ver o Iggy Pop e o Tom Waits. E 4378 planos de chávenas de café sobre um padrão de xadrez. Muito engraçado. Mas única curta decente a separar-nos de uma bela soneca é aquela do Alfred Molina e do Steve Coogan. O resto é uma sucessão de olhadelas ao relógio - e ainda por cima o que eu tenho agora tem um mostrador preto.- PE
quinta-feira, junho 17
 
Salomé, Fátima e a República
Admito que temi o pior quando vi o desfilar de personagens: o deputado, o banqueiro, o cardeal, o militar bronco como as casas, o radical pequeno-burguês... Lá vamos nós outra vez para o género sátira em que a cada personagem fala, respira, come e dorme como representante de um grupo social e nada mais. E, claro, para mais uma tareia nesse saco de pancada da historiografia portuguesa que é a I República. Bocejo. Já não há pachorra - nem para uma coisa nem para a outra. Então quando oiço as risadas da sala que seguem a acção do deputado Mota Santos no bordel da Dona Rosa, ponho-me a mastigar o meu bilhete: não, por favor, não o enésimo panfleto sobre venalidade dos "políticos", blábláblá, etc & tal (a propósito, eis um excelente post sobre os riscos colossais da retórica anti-políticos no "A Praia")! Bolas! Quero o meu dinheiro de volta!
Bem, senhoras e senhores, tenho o prazer de anunciar que estes receios eram de todo infundados. E que gostei muito de "O milagre segundo Salomé". Diálogos desenvoltos, narrativa fluida, desempenhos muito aceitáveis dos actores, passagens entre planos resolvidas com muita elegância, boa fotografia, nada de obsessões com a precisão da reconstituição - e sobretudo personagens complexos e cuidados. Não era fácil e por isso este nome merece ser fixado: Mário Barroso, o realizador.
O filme parte de Salomé, uma mulher cuja beleza, amor e amizade é a ligação entre todos os personagens. É ela própria uma personagem trágica: sem querer ser nenhuma destas coisas é à vez prostituta e mestre-de-cerimónias do banqueiro Sertório, aparição da Virgem e veículo da denúncia republicana da fraude. Tudo e o seu contrário, parece.
Digo parece porque as aparências enganam. Muito. É raro ver alguém ter coragem de tocar na oposição cinismo "mau" / sinceridade "boa", quanto mais de a mandar às urtigas como Mário Barroso fez. É esta a originalidade e a vantagem de "O milagre": a ausência de moralismo. Com grande lucidez, faz com que a nossa simpatia se dirija aos personagens cínicos porque são eles que são capazes de não se levarem demasiado a sério, de criarem distância face a si próprios - Sertório descrevendo-se como novo-rico da República e Mota Santos rindo-se das baboseiras positivistas de Gabriel - e assim de distinguirem o essencial do acessório. A antipatia fica reservada para o Tenente Braz e para Gabriel, os puros sinceros que acham que qualquer compromisso com a realidade lhes suja as mãos, que não sabem o que é uma prioridade e que se tornam assim causadores directo e indirecto da morte de Salomé.
Na cena final, tudo se revela. Em Salomé podiam ter vivido ao mesmo tempo Marianne e a Nossa Senhora - uma relação difícil e instável, mas possível. Mas o excesso de zelo inútil de Gabriel não fez mais do que matar Marianne e oferecer Salomé com um lacinho à Nossa Senhora.
Ah, o compromisso! A vida é uma grande trapalhada e precisa tanto dele como do oxigénio e do passe social. Podia ter salvado Salomé e podia ter salvo a República; pena que Mota Santos tenha chegado demasiado tarde.- PE
quarta-feira, junho 16
 
Fazes tanta falta para hoje, Paulo Jorge

- JHJ
 
Elementar
Uma vergonha as notícias que hoje abundam nas televisões e na imprensa que temos. Em letras garrafais, em leads chocantes, anuncia-se que o filho de Leonor Beleza, que por acaso até é maior e provavelmente vacinado, foi detido por estar alegadamente envolvido numa rede de tráfico de droga. Porque razão é que é invocada para título da notícia a maternidade do suspeito? O que é que isso tem de relevante? A única coisa que é relevante e elementar numa sociedade com um mínimo de dignidade é, por um lado, a discrição quanto à identidade de presumíveis suspeitos de qualquer crime e, por outro, não menos importante, o respeito e a dissociação dos seus familiares face a esses mesmos actos. No meio disto a dúvida começa a ser se estamos todos a caminhar para um enorme esterco, ou se já estamos mesmo envolvidos nele e a fazer esforços, mais ou menos inglórios é verdade, para dele sairmos. - PAS
 
A minha selecção
Apoiar um clube - especialmente um como o meu - exige muito. É um trabalho a tempo inteiro e não dá para distracções. Por isso, a minha lealdade à selecção acaba sempre por ser proporcional ao entusiasmo que a rodeia e ao número de jogadores do Benfica presentes. Inversamente proporcional, isto é.
Acho que nunca recuperei de uma brincadeira de um amigo do meu pai. "A selecção nacional? A selecção nacional é o Benfica!", respondeu-me ele uma vez. Uma frase que, com o E.T. do Spielberg e "Os Vampiros" do Zeca Afonso, aterrorizou a minha infância. Será que as pessoas não percebem o apego das crianças ao sentido literal das coisas?
Ainda assim, a minha adesão à selecção atingiu o zénite no início da década de 90, na fase de qualificação para o Campeonato da Europa na Suécia. Tirando o Futre, a equipa não era grande coisa. Mas, pela primeira vez que me lembro, tinha uma maioria de jogadores do Sporting. E tinha espírito. Com craques da categoria de um Leal ou de um Cadete - e um grande paio - conseguiu mesmo ganhar à Holanda do Gullit e do Van Basten nas Antas. Era divertido porque ninguém dava um chavo por essa equipa e ninguém lhes exigia nada; os jornais ruminavam o despeito pelo sacrilégio de o Benfica estar em minoria, mas os jogadores respondiam com milagres, como se cantassem "Nobody likes us / We don't care". O lema foi levado ao extremo, num Portugal-Grécia jogado no Estádio da Luz, a que assistiram 192 pessoas, incluindo a minha, a do Filipe e as de 50 tropas que devem ter conseguido uma borla qualquer. Acabei a festejar uma vitória sobre os gregos por 1-0, e a lamentar a qualificação falhada por 1 ponto e por um golo sofrido em Roterdão já na segunda parte. Com sinceridade.
Depois disso a Selecção benfiquizou-se demasiado para o meu gosto. Muita bazófia, muito murro no peito antes das competições - e depois resultados ridículos quando a coisa aquece. Do patriotismo condescendente e bem-humorado pós-Saltillo, passou-se para qualquer coisa mais agressiva, exigente e consensual - e chata, terrivelmente chata. Dei por encerrada a minha carreira de adepto ao vivo da Selecção num jogo com a Irlanda em 1995. Achei que ter de torcer, na Luz, pela maioria de vermelhos favoritos contra a simpatiquíssima minoria de verdes e ainda por cima ter de aturar um golo do Rui Costa, era pedir demais a qualquer ser humano.
A partir daí, tenho mantido um pacto de neutralidade com Selecção. Claro, fiquei triste com a Coreia - mas só porque nada menos do que um terço da selecção era do Sporting e o que se passou com eles lhes arruinou logo ali a época seguinte.
Pois bem, acho que esse pacto morreu no jogo com a boa e velha Grécia. Certo, a presença do Sporting é residual e ainda há demasiados tipos do Benfica para o meu gosto. Mas os jogadores - todos - jogaram tão mal, pareciam tão mal preparados, tão tacticamente ineptos, tão surpreendidos pelo seu adversário que me lembraram as aventuras do meu Sporting na Europa. Fiquei com vontade de torcer por eles. E de repente, as bandeiras nas janelas não só me pareceram agradáveis como me deram ideia. Porque não mandar à fava os complexos e recuperar para a Esquerda os símbolos nacionais que foram criados por ela? Porque não aproveitar a ocasião para espalhar o tal patriotismo bem-humorado e tolerante e correr com o nacionalismo chauvinista? Este gajo do Guardian é que tem razão: "football is still the loveliest of harmless diversions". Vá lá; não custa nada, caramba - até já puseram o Rui Costa no banco!- PE
 
Stolichnaya


Lev Davidovich Landau (1908-1968) foi um dos mais brilhantes físicos e matemáticos russos de sempre, e co-autor dos mais intragáveis manuais de física que li na faculdade. Com Rui Costa ou Deco no meio-campo, a vingança serve-se à temperatura de um shot de Vodka. Assim o espero, pelo menos. - JHJ
 
O milagre de dia 13


Na noite de 13 de Junho, Paulo Portas desvalorizou a derrota da coligação «Força Portugal» sublinhando a reduzida participação do eleitorado. Até à noite anterior, era reconhecida no mesmo Paulo Portas uma atitude energética na defesa da legitimidade do resultado de um referendo que continua a ser o acto eleitoral menos participado de sempre em Portugal -- em Junho de 1998, 68% dos eleitores portugueses não responderam a uma pergunta que insiste em ter uma resposta adiada. - JHJ
terça-feira, junho 15
 
Sabes que és um viciado em futebol quando...
... apanhas um taxi para chegares a casa a tempo de assistir a um jogo entre a República Checa e a Letónia. Na TVI. Com comentários do Toni.- PE
 
Três notas sobre o 13 de Junho
Ferro: No último ano, a generalidade dos comentadores políticos anunciou morte política de Eduardo Ferro Rodrigues. Já se conhecia o desfasamento entre opinião pública e opinião publicada, mas nunca se pensou que tivesse esta dimensão. No dia 13 de Junho o PS de Ferro Rodrigues obteve uma vitória esmagadora. Foi o melhor resultado de sempre do Partido Socialista, após um ano marcado por uma acumulação de acontecimentos absurdos sem paralelo na história ou na política comparada. Está à vista que as consequências desses acontecimentos foram mais psicológicas, mediáticas, do que propriamente sociológicas ou eleitorais. E não há dúvida que Ferro Rodrigues revelou uma capacidade de resistência psicológica notável. Como dizia A Capital, com uma fotografia de Ferro a ilustrar, «As notícias da minha morte eram manifestamente exageradas».
Os Eleitores: Igualmente exageradas podem ser as notícias que dão como certa uma vitória do PS nas próximas eleições legislativas. O 13 de Junho foi apenas um primeiro dia, um primeiro passo que não nos deve impedir de analisar as diversas variáveis com atenção. Em primeiro lugar, a tão falada abstenção. É evidente que, ao contrário do que disse o Dr. Portas, antigo director dos estudos eleitorais da Moderna, esta taxa de abstenção não é «histórica»; «histórica» é a derrota da direita. O nível de participação eleitoral verificado é em tudo idêntico ao verificado em eleições europeias anteriores e pouco abaixo da média registada no conjunto dos países da U.E.. Também não é verdade que os abstencionistas sejam eleitores da direita que não chegaram a tempo de ir votar. Vários estudos de opinião indicavam que não existia uma «reserva» de eleitores de direita entre os indecisos ou potenciais abstencionistas. Pelo contrário, o «núcleo duro» da direita até estava mais mobilizado do que o da esquerda. Só com estudos pós-eleitorais poderemos perceber o que, de facto, motivou o comportamento dos portugueses no domingo. Mas, politicamente, uma coisa é certa: os socialistas não podem deixar que a mobilização dos seus eleitores fique exclusivamente dependente de factores externos, como acontecimentos trágicos, conjunturas económicas e erros de gestão política do governo de direita.
O Partido Socialista: Para consolidar o resultado das europeias e mobilizar os abstencionistas de esquerda, o PS deve tornar claras as suas diferenças em relação à coligação de direita. De facto, «se tudo é igual, para quê ir votar?», perguntarão alguns desiludidos. E não se trata aqui de alimentar polémicas estéreis entre «viragens» à esquerda ou à direita, de temas fracturantes ou de pactos de regime, tão do agrado dos comentadores. Trata-se de fazer com que, independentemente das conjunturas, os eleitores identifiquem o PS com determinadas prioridades políticas, como tão bem conseguiu o Professor Sousa Franco. Para enfrentar com sucesso este desafio, é fundamental a organização do partido e o diálogo das suas estruturas com a sociedade. Ora, neste aspecto, o que sucedeu na lota de Matosinhos mostra bem que é uma ilusão pensar que se pode voltar ao poder sem se renovar a forma de fazer política no PS. Há, pois, que capitalizar as novas estruturas (clubes de política, etc.) e envolver toda a gente que quer contribuir para a mudança política. O pior que podia acontecer ao PS era reproduzir erros do passado, deixar andar, organizar «comissões de honra» ou «Estados Gerais» apenas para fazer um número de televisão. É essencial assegurar que o chamado «diálogo com a sociedade» vai ser efectivamente continuado e organizado. Para que o 13 de Junho se possa repetir. - FN
 
O falso papão da abstenção (I)
Nunca sabemos ao certo no que vai dar uma eleição; só sabemos que há um tema que nunca falha nas noites eleitorais: o papão da abstenção. Os jornalistas adoram-no; e, como lip service, desculpa esfarrapada para a derrota ou preocupação genuína, adquire sempre a sua Game Box e o seu Lugar Especial antes dos outros todos.
É verdade que era simpático que houvesse mais pessoas a votar. É verdade que participação nas actividades dos partidos já não é o que era (se é que alguma vez o foi, salvo em condições muito especiais). E é verdade também que as taxas de filiação partidária são baixas. Mas há muitas outras coisas que são baixas por cá. São baixas as taxas de participação efectiva nas actividades de associações culturais e recreativas. São baixos os índices de filiação em sindicatos e associações mutualistas. São baixos os níveis de adesão às actividades das ONG. São baixos os índices de práticas culturais como a ida aos teatros ou a exposições de arte. São baixos as taxas de participação em associações de moradores. São baixos os índices de prática desportiva. Bolas, são baixos até os índices de assistência desportiva - até o futebol, o tal dos três jornais diários e do quarto de hora obrigatório nos telejornais, tem assistências médias nos estádios de fazer rir a Terceira Divisão da Escócia!
Portanto a falta de participação não é só política - é social, é cultural e será até económica. É um problema grave. Não faço ideia como é que se resolve; como todos os problemas graves precisa de muito trabalho de campo, muita reflexão e muita criatividade - há muitas excepções e tinha piada entendê-las, mais até do que andar a fazer quadros negros globais onde se mete tudo no mesmo saco. Mas de uma coisa tenha eu a certeza: é um problema profundo e transversal à sociedade portuguesa. Por isso, santa paciência! Para entrar no discurso "os portugueses estão a afastar-se cada vez mais dos políticos" então tem de se dizer também que se estão a afastar cada vez mais de tudo o resto, se calhar até da órbita do Sol!
Confesso que no meio disto a abstenção até é das coisas que me preocupa menos. Primeiro, porque nada menos do que 3 milhões de pessoas - gentilmente insultadas pelo Dr. Paulo Portas no seu discurso de derrota - se deram ao trabalho e à chatice de perder um quarto de hora da sua vida para ir votar. Pode não parecer muito, mas é obra nas condições em que se disputaram estas eleições; e se alguém me mostrar outro evento de adesão voluntária em Portugal com uma participação desta dimensão, as cervejas são por minha conta.
Segundo, porque, ao contrário das outras, esta pequena face de um grande problema tem uma solução fácil: tornar o voto obrigatório. Lerem bem: obrigatório. Coro de protestos, chuva de tomates e hortaliças e outros objectos cujo nome desconheço. Time out! Time out! Vocês são um público difícil, hem? Tenho de me ir limpar. Volto já para a segunda parte deste post.- PE
 
Identidade nacional


No sábado a equipa portuguesa fez história: pela primeira vez, a selecção do país organizador perdeu o jogo inaugural. Seguiu-se imediatamente a pergunta do costume: se formos eliminados, estás por quem? Um amiga minha diz que agora está «pelo Brasil». Como aparentemente isto é um europeu, discordo: «desta vez estou pela Itália». A Itália joga de azul (como o Belém), treina no meu estádio (Restelo) e está sediada no Alto de Santo Amaro (o bairro onde cresci). Assim de repente, não encontro melhor definição de patriotismo.- FN
 
Excelente pergunta
O que faz a Mulher Moderna e Independente do Século XXI quando chega a casa do trabalho e «Saia Justa» e «Sex and the City» estão a passar em dois canais ao mesmo tempo? A minha resposta: zapping, confortável no sofá (o rapaz está na cozinha e vai adiantando o jantar). - RB
 
Um gajo enfermiço
O João Mendes Cruz é um gajo enfermiço com um blog. Ele está sempre doente; dói-lhe tudo e dói-lhe tudo sempre mais. Até ser internado. Era bastante divertido e é pena que tenha transformado tudo o que lá tinha escrito na chatice escatológica e sem piada que lá esta agora. Antes, tinha pérolas destas:
«Manhã em casa,
vagueio de roupão pela sala. A Sara deixou panados de peru no frigorífico. Haverá pudim? Ontem havia...Formigueiro na perna esquerda. Estendo-me no sofá. A esta hora, milhões de improdutivos, sentados em milhões de secretárias, fingem que trabalham. Eu não finjo, sou doente. Doente mas lúcido. Merda! Sou lúcido!»
O João apresentava uma descrição lúcida, corajosa e realista do dia-a-dia ingrato da malta que anda a fazer teses. De mestrado, de doutoramento...faz pouca diferença (a rapaziada do pós-doutoramento já sai mais, apanha mais ar, tem mais uma corzinha). João, sugiro-te que faças isso mesmo, uma tese. Uma vez que já tens a vida, ao menos ficavas também com a tese feita. Onde? ICS, especialização em «Sofrimento: perspectivas sócio-culturais». - -RB
segunda-feira, junho 14
 
Correio da Manhã
Em momentos de balanço, faz sentido prestar atenção a pormenores que, pela persistência, levantam fundadas interrogações. Um deles é este: o que move o Correio da Manhã contra o PS e contra Ferro Rodrigues? O Correio da Manhã foi um dos protagonistas principais da tentativa de assassinato político de Ferro Rodrigues através do processo Casa Pia. Um sucessão de artigos caluniosos, que merecerem vários processos judiciais contra o jornal, tornam, pela insistência e patente má fé, esse facto indesmentível. Mas, no plano estritamente político, o correio da Manhã aparece, também, claramente alinhado. É ver hoje o enquadramento que o jornal faz da vitória histórica alcançada ontem pelo PS. Contra a tendência de toda a restante imprensa, o Correio da Manhã preocupa-se em desvalorizar a vitória e o papel que Ferro tem nela, chegando ao mau gosto de usar títulos como "Ferro agarra vitória de Sousa Franco". Já para não falar na sondagem inventada na antevéspera das eleições que, roçando o demencial, dava um empate técnico entre o PS e a coligação da Direita. O Correio da Manhã, quando actua dentro da legalidade - o que amiúde não tem feito - pode alinhar-se como quiser e até prescindir dos imperativos de isenção e imparcialidade mais primários. Convém é que o assuma com clareza.- MK.
 
O ye of little faith!
Vou ser sincero: eu não acreditava. Não pelas pessoas e pelo seu trabalho, porque sabia e sei da enorme qualidade de ambos. Mas simplesmente porque eram coisas a mais: uma coligação e um Governo a apostaram e a fomentarem a abstenção durante quase toda a campanha, um fim-de-semana prolongado, 30º Celsius, um Campeonato da Europa de Futebol. Era uma injustiça do tamanho do mundo; mas após dois anos de governação destrutiva nas margens da insanidade, de prioridades trocadas, de angústia e sofrimento desnecessário, de desmantelamento de políticas justas e eficazes e de retrocessos gratuitos em direitos que julgavamos já serem consensuais, tudo afinal se ia resumir ao calor, a um nome saído de um manual de publicidade enganosa e ao meu desporto favorito. Frustrante, para ficar pelo eufemismo.
Afinal, o PS obteve uma vitória histórica. Sei que nestas ocasiões é costume os dirigentes, candidatos e as pessoas que lhes são mais próximas (família e colaboradores) agradecerem aos eleitores. Está bem. Mas a verdade é que mereceram cada 0,001% que conseguiram. Por isso eu, um mero eleitor que larga umas postas de pescada de vez em quando, é que lhes devo agradecer - a eles e a elas. Agradeço-lhes porque nunca terem desanimado. Agradeço-lhes pelo imenso que sacrificam de si e da sua vida pessoal. Agradeço-lhes pela coragem férrea (nunca um adjectivo foi tão apropriado) com que se defenderam das mentiras mais delirantes e do jogo mais sujo. Agradeço-lhes porque se bateram com o que tinham e o que não tinham para mostrar que um projecto de Esquerda não só é desejável como é possível no meu país. Agradeço-lhes porque acreditaram. Agradeço-lhes porque acreditam.- PE
 
Vai dizer isso ao Portas
" «Percebi o sinal dos portugueses». Durão Barroso diz que os portugueses deram ao Governo um sinal de exigência nestas eleições europeias, que só o estimula a «fazer ainda mais» por Portugal."
" «Para o Governo de Portugal vota-se em 2006». O líder do PP recusa qualquer ilação destas eleições em relação ao Governo." - RB
 
FERRO
Não vale a pena dizer o óbvio. Mas apetece-me. Depois de um ano que foi seguramente o pior da muitas vidas, em que tive o terrível privilégio de acompanhar a luta brutal, muda, diária, dessa força da natureza e exemplo de integridade que é Ferro Rodrigues, o que ontem se passou tem um sabor a justiça cósmica. O País Relativo também deve estar orgulhoso. Porque um dos obreiros principais da campanha vitoriosa é dos seus. Não vale a pena dizer quem é, mas o apelido começa por A, acaba em O, e quando é referido na bíblia normalmente é associado a uma senhora chamada Eva. - MK
 
Deslizamento de terra
PS: 44,52%
PSD-CDS: 33,26%
PCP-PEV: 9,10%
BE: 4,92%


Ou como se diz em americano, landslide! - PE
 
Atira-te ao Rio
« Luís Filipe Menezes pediu a Durão Barroso para "deixar de ouvir dirigentes autistas como José Luís Arnaut ou Rui Rio" para não sofrer, nas legislativas, "uma derrota tão humilhante como na europeias".
"Em termos percentuais, é a maior derrota do Centro-Direita desde o 25 de Abril. Essa derrota humilhante tem rostos, os dos dirigentes que nos dois últimos anos mandaram no país, como Arnaut e Rio", insistiu o presidente da Câmara de Gaia, citado pela agência Lusa.
Para Menezes, esses é que foram "os verdadeiros adversários do PSD", até porque "a derrota deu-se contra um partido que não existe, o PS".
"É preciso deixar de assobiar para o lado. Se o partido quiser deixar de somar derrotas deve de uma vez por todas deixar de ouvir dirigentes que precisam de carros blindados e cordões policiais para, à boa maneira da antiga União Soviética, conseguir apoio popular", atacou o ex-líder do PSD/Porto.»
- RB
 
Forcinha Portugal

- JHJ
 
Futebol global


Num restaurante italiano, um norte-americano apoiante da seleção francesa vestia uma camisola do Arsenal com o nome «Henry» nas costas. - JHJ
domingo, junho 13
 
Sem título - só emoção

- PE
 
O estado gasoso
O balão de expectativas insuflado ao máximo passa ao estado gasoso da frustração em menos de nada. Basta que Portugal perca com a Grécia na abertura do Europeu. Esperem: Portugal já perdeu com a Grécia na abertura do Europeu. Pior do que perder um jogo num Europeu de futebol, é perdê-lo em casa sendo anfitrião, de bandeirinhas nas janelas. Na derrota, o anfitrião sente-se tanto mais vexado. As bandeirinhas ainda ontem símbolo de orgulho são de um momento para o outro o lembrete ubíquo de uma humilhação dispensável. Que pode ser o suficiente para raspar a superfície do português confiante e ufano do Euro, dos estádios novos, do FC Porto, do metro de superfície e encontrar o português de Oliveira Martins: o perene crédulo, pedinte de espinha curva e chapéu na mão. Só que agora adicionalmente esporeado pela frustração de os senhores convidados da Europa que estão de visita à nossa casa portuguesa, tão trigueira, tão típica, tão pão e vinho sobre a mesa, afinal não nos levarem a sério. - RB
 
Naming the daughter after the hotel
Paris Hilton


Paris Hilton


Paris Hilton nasceu a 17 de Fevereiro de 1981 (aquário, portanto). É bisneta do magnata Conrad Hilton (o dos hotéis), neta de Barron Hilton (quem?), sobrinha-neta de Nicholas Conrad «Nicky» Hilton (que chegou a ser por breves instantes marido de Elizabeth Taylor; não conhecem o Sr.? nem eu) e filha do tubarão do imobiliário Rick Hilton (ah é?). Assim ultimamente, ficou famosa por beijar na boca Carmen Electra nos MTV Movie Awards (aaahhh...já sei quem é). - RB
sábado, junho 12
 
Just do it
Eu cá gosto do slogan da CNE para as eleições europeias, acredita. O azar é que só converte quem já está convertido - porque é que acreditaria que outros estão a decidir algo por mim, se não achasse à partida que o voto decidia qualquer coisa?
Boa pergunta. O problema é complicado e os esforços da CNE têm toda a minha simpatia. É que o voto não é mais do que uma convenção, uma forma de resolver conflitos sem partirmos a cabeça a uns enquanto metemos os outros na prisão. Pomos uns milhões de papelitos numas caixas pretas, baralhamos tudo, contamos - e já está. A decisão é de todos porque não é de ninguém em particular. Como uma moeda ao ar ou um par de dados, mas um pouco menos aleatório. Engenhoso, mas não muito excitante - a não ser que a) nunca o tenhas feito, b) sejas um fanático da estatística ou c) tenhas, como o caramelo que está a escrever isto, crescido numa casa cujas paredes pareciam decoradas com o saque do Museu do Cartaz, Pintura e Poesia do 25 de Abril. Por isso, até percebo que aches que não vale a pena ir votar no Domingo.
Tenho-te em boa conta. Sei que não és crédulo; não te vou dar graxa e dizer-te que a tua presença é indispensável, porque não é. A CNE tem razão e se tu não apareceres, outros (uns poucos milhões) aparecerão por ti.
Sei que não és paciente e não te vou prometer que votar vai virar a tua vida do avesso. Pelo menos não de um dia para o outro. Quando acordares no dia 14, ainda pesarás mais dez quilos do que devias, o teu vizinho de baixo continuará a ouvir a Banda Eva e o Rui Costa continuará a preencher a quota de pensionistas e reformados da Selecção.
Sei que não és místico e que tudo o que eu diga sobre "vontade geral" ou "soberania popular" só te vai fazer olhar para mim como se eu tivesse uma plaquinha a dizer "Elder Estêvão".
Sei que não és um sentimental e por isso poupo-te a seca do costume - o sermão sobre quantas pessoas foram perseguidas, presas, exiladas, torturadas, deportadas e mesmo assassinadas para que hoje possamos pôr uma cruz nos tais papelitos e falar disso.
Sei muito bem que não é por aí que te vou convencer a votar. Vou antes conceder-te que o teu voto é insignificante. Sem mais. Mas vou pedir-te em troca que penses nesta analogia: votar está para a democracia (social e política) como respirar está para o corpo humano. E porquê? Porque o dono de um corpo que respira pode ser inteligente ou grunho, adorável ou repelente, tolerante ou moralista, porreiro ou sacana. Pode ser de Esquerda ou de Direita, operário ou patrão, ateu ou católico, cosmopolita ou xenófobo. Pode ser tudo, parte ou outra coisa, porque o simples facto de alguém respirar não lhe impõe ou diz nada do que ele é. Mas sabes o que é engraçado? É que se esse corpo não respirar, o seu dono não pode ser nada. O que faz da respiração ao mesmo tempo uma coisa insignificante por si e a condição básica de tudo o resto - mudança incluída. Convencido? Bom, vou inspirar, encher os pulmões de ar e dar-te com toda a força um último conselho - um slogan, se quiseres: deixa-te de merdas e vai mas é votar! - PE
sexta-feira, junho 11
 
Ainda a Fórmula 1
São 3.45 da madrugada de 26 de Outubro de 1986. Toca o despertador. Levanto-me e pego num cobertor. Vou até à sala e acendo a Salora. Deito-me no velhinho sofá cor-de-laranja. Ainda estremunhado, vejo pouco. Mas basta ouvir Adriano Cerqueira e Domingos Piedade para perceber que é aquilo mesmo: o último grande prémio da temporada, Adelaide. Na altura do arranque, pelas quatro, já estou bem acordado. Nesse ano, ganhou o Prost por dois pontos roubando o título ao Mansell na corrida de Adelaide, ficando o Piquet a três pontos (e em segundo na corrida). Quem viu viu, que não viu já não vê. Pode sempre argumentar-se que a única diferença para hoje é que eu era mais puto na altura e que a competição se mantém. Não é verdade. Quem gosta de Fórmula 1 ouve tão bem o vvrruummm-vvrruummm barulhento dos carros como os outros que não gostam de Fórmula 1 e dizem que aquilo é só barulho. Só que, na altura, o vvrruummm-vvrruummm nada tinha de monótono, as corridas eram emotivas, e havia o Keke Rosberg. Hoje, a barulheira é apenas isso mesmo: barulho entediante volta após volta. - RB
 
Ainda a Fórmula 1 (só mais esta)
Na altura dos motores turbo, havia carros que tinham 1400 cavalos disponíveis em qualificação (com slicks, «saias» e reabastecimento durante a corrida). Um pouco menos que o dobro da potência actual para carros ligeiramente mais pesados. Voava-se baixinho. - RB
quarta-feira, junho 9
 
Quando não há palavras, o silêncio
- MVS
terça-feira, junho 8
 
Anjos salvos a cinco metros do chão
Esteve assim de confirmar a minha impressão da semana passada. Mas escapou por cinco minutos finais de grande qualidade, que finalmente estiveram à altura da fama da série.
Imaginem isto: dois casais ? Joe / Harper e Prior / Louis - que vão deixar de o ser. Em princípio por motivos opostos: coragem e cobardia - a coragem de Joe em assumir a sua sexualidade perante si e perante Harper; e a cobardia de Louis face à doença fatal de Prior. O truque é construir a cena como alternância entre as duas situações, fazendo um vaivém entre um casal e o outro. Primeiro devagar, depois cada vez mais rápido; as frases sobrepõem-se, os argumentos tornam-se entrelaçados; a velocidade da alternância atinge um ponto tal que a cena é um processo de centrifugação onde os dois casais se sobrepõem, as linhas são válidas numa e noutra situação e as categorias "coragem" ou "cobardia" são inúteis para perceber o que se está a passar.
E, assim de repente, acaba. O que sobra é solidão e fim. Que valem por si e não precisam de justificações para nada. E tudo suficientemente bem feito para que se consiga sentir que os personagens estão emocionalmente exaustos. Venha mais um episódio, Boss!- PE
 
Dar bandeira


À medida que se aproxima o Euro, há cada vez mais bandeiras nacionais nas varandas de Lisboa. No próximo sábado, para além do suplemento de jardinagem e do guia do contribuinte, o Expresso vem com uma bandeira nacional patrocinada pelo BPI. Tendo em conta a tiragem do semanário, no dia do Portugal-Grécia não haverá família portuguesa que não tenha, pelo menos, uma bandeira à janela. Ainda ontem, quando vinha do aeroporto da Portela com um politólogo espanhol, ele olhou para os prédios e saiu-se com esta: «Nunca pensei que o Estado ainda tivesse um papel tão importante na economia portuguesa. É impressionante o número de edifícios públicos». - FN
 
Hoje



[Alexei Jawlensky, Meditation (The Prayer), óleo sobre tela, 1922]

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Hoje estará no passado de amanhã. - RB
segunda-feira, junho 7
 
O trânsito de Vénus


[desenho de Diana Alexandra, 10 anos, Bucareste, Roménia]


Mais desenhos aqui. - RB
 
Associação de ideias


Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Comes in bells, your servant, don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, Severin awaits you there
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colours made of tears
Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart
Severin, Severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colours made of tears
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart
[«Venus in Furs», The Velvet Underground and Nico, 1967]. - RB
 
Classificados
Jovem temporariamente ausente de Portugal procura cidadão europeu recenseado em território nacional, potencial abstencionista e crítico do sistema eleitoral, para possível troca de votos nas eleições para o Parlamento Europeu. - JHJ
 
Excertos de uma manhã «positiva»
Conversa telefónica com uma funcionária do consulado de Portugal em Washington:
- Bom dia. Gostaria de esclarecer uma dúvida sobre as eleições para o Parlamento Europeu do próximo dia 13.
- Ah!, mas eu não sei de nada. Só sei das eleições presidenciais... Aguarde um momento que eu vou ligar para a embaixada.
Um minuto depois:
- Olhe, que eleições é que o senhor disse que eram?
- (...)
Conversa telefónica com uma funcionária da embaixada de Portugal em Washington:
- (...)
- Só lhe estou a telefonar porque não consigo encontrar a morada actual do website da embaixada. Sou sempre redireccionado para uma página de turismo onde não existe nenhuma informação sobre recenseamento eleitoral.
- A embaixada não tem website. No fim do ano vamos mudar de chancelaria e talvez nessa altura possamos ter uma.
- JHJ
domingo, junho 6
 
A areia vermelha


Suponho que é apenas porque a vi mais vezes do que qualquer outra que esta é a imagem que associo ao Dia D. Mas gosto de pensar que é por outra razão.
A memória oficial do Dia D mostra lanchas de desembarque a tocar as praias e filas de soldados plenos de consciência histórica a desembarcarem. Acena-nos com algo épico, uma espécie de hino heróico à chegada-em-força-da-Liberdade-ao-continente-europeu-para-o-libertar-das-garras-do-nazismo.
Desse ponto de vista esta fotografia é uma desilusão; é pouco nítida e nela vemos um único soldado, alguns obstáculos, o repuxo provocado por um tiro de morteiro, equipamento a flutuar e, à direita, a silhueta de um barco. Ela requer muita atenção porque o que é importante não é o que a falta de nitidez mostra ou oculta mas o que sugere. E é por isso que imprecisão é a chave deste fotografia. E se os objectos que flutuam fossem afinal sujeitos? E se tudo aquilo fosse ali sentido assim mesmo, como algo onírico e pouco nítido?
Sem o revelar abertamente - e evitando assim a censura militar - a fotografia de Robert Capa dá-nos um relance do caos de mijo, vómito, tripas e miolos pelo chão, urros, corpos estropiados, membros decepados e sangue - correndo sempre em direcção ao mar como dizem na escola - em que o soldado entrou.
E sabes que mais? O que me aterroriza mais até nem é esse quadro. Ou a ideia que uma vida humana (vezes 400 ou 500 mil), com as suas descobertas, amores, crimes e enganos possa acabar assim. Ou sequer a arbitrariedade da morte que faz que com que não haja motivo racional para um tipo esbarrar num pedaço de metal - bala, estilhaço, baioneta - e outro não. O que me aterroriza mesmo é aquele salto que temos de fazer para dar significado a isto, para criar uma ordem qualquer numa miríade horrífica de experiências individuais e transformá-la numa coisa chamada "guerra" face à qual possamos dizer - porque neste caso é mesmo verdade - que ela era justa e necessária. - PE
sábado, junho 5
 
Goodbye, Mr. President


Lembro-me de ter conhecido Ronald Reagan no dia 30 de Março de 1981, quando se noticiou uma tentativa falhada de assassinato do presidente dos Estados Unidos da América. Deve ter sido por essa altura -- mais semana, menos semana -- que percebi que o mundo era maior do que a rua onde morava e a escola que frequentava.
A par de Mário Soares, Ronald Reagan foi a mais influente figura na minha educação política. Em grande parte dos assuntos por oposição, nomeadamente naqueles que se referiam às políticas sociais, que, fruto da distância, me eram pouco perceptíveis, mas cujos resultados desastrosos são hoje evidentes de cada vez que cruzo a dowtown abandonada de uma cidade norte-americana, ou um trailer park à beira de uma estrada rural. Na Europa da altura -- e na de hoje -- eram as políticas internacionais e de defesa que nos polarizavam a mente. Sobre essas, lembro-me vagamente de Granada, muito de Beirute e intensamente da «Guerra das Estrelas». Mas também me lembro dos tratados de não-proliferação de armas nucleares e, principalmente, do grito que permitiu à Europa ser aquilo que é hoje: «Mr. Gorbachev, tear down this wall».
Estou triste, mas eu sou assim; fico triste sempre que morre alguém. - JHJ
sexta-feira, junho 4
 
Coisas europeias - V/muitos


- JHJ
 
O brilho eterno da mente imaculada
Há pelo menos três coisas em que tenho muito orgulho no meu país: a abolição da pena de morte ainda no século XIX; o 25 de Abril e o subsequente esforço de construção, quase do nada e em tempo recorde, de todo um edifício de direitos sociais; e o facto de a dobragem de filmes não ser prática corrente nos cinemas.
A esta última regra só escapam os títulos, uma concessão que faço de bom grado. Além disso, sei que essa tradução não é uma tarefa nada fácil. Vejam a minha pequena demonstração com "The eternal sunshine of the spotless mind" - um candidato imbatível ao Óscar de melhor título, se esse prémio existisse. Morro de inveja por quem sabe traduzir poesia, aceito "O despertar da mente" e não se fala mais nisso.
O conceito básico do filme é excelente, assentando numa dupla pergunta com pano para mangas: E se, para evitar o sofrimento da separação, eu pudesse apagar da minha memória as pessoas que amei - com tudo o que a elas associo? Mas e se a meio do processo me arrependesse e achasse que ainda mais doloroso do que separar-me de uma pessoa amada é separar-me da sua memória? Conclusão: a mágoa (curiosa corruptela de mácula) não é nenhum bicho-de-sete-cabeças mas tão só uma parte normalíssima do meu crescimento como ser humano. É a pretensão ao brilho eterno que é doentia.
Lindo. Mas de bons conceitos está o inferno do cinema cheio - "Shattered Glass" ou "O efeito Borboleta", só para falar em experiências próprias recentes - e "O despertar da mente" é muito mais do que isso. Parece partir de uma joint-venture ficção científica/comédia romântica; e aproxima-se mesmo desta última ao ver-se como jogo de equívocos entre os dois amantes. Mas por aqui se fica; no resto afasta-se dos estereótipos do género, que já tinham levado um safanão de caixão à cova no magnífico "Embriagados de Amor" de Paul Thomas Anderson. Do lado da sci-fi, os efeitos especiais são mantidos no mínimo - até o equipamento de remoção de memória é patusco - e usados com muita inteligência.
O óptimo argumento permite ao realizador apostar na imprevisibilidade e criar alguns momentos de cinema sublimes, como a cena em que a casa de praia começa a ser invadida pelo mar - bela metáfora visual do esquecimento. E Jim Carey - um dia destes ainda alguém me põe processo em cima por achar que é dos actores mais subvalorizados que por aí anda - e Kate Winslet parecem dispostos a virar de pernas as etiquetas que lhes estão coladas - e fazem-no com grande sucesso. Numa frase? "O despertar da mente? é bom. Muito bom. Muito bom mesmo.- PE
 
Coisas europeias - IV/muitos


- JHJ
 
O partido «apanha tudo»


Luís Delgado tem razão. A grande revelação desta campanha tem sido o bloco de esquerda. Dantes, o bloco era o partido das minorias, «o movimento dos movimentos», etc. Agora, o bloco quer ser um partido como o PSD ou o PS: um «catch-all party», um partido apanha tudo. Falo aqui em «apanha tudo», não por toda a gente apanhar traulitadas do pasteleiro, mas no sentido de «partido que quer apanhar todo o tipo de eleitorado». Hoje em dia, o bloco é o partido dos velhos e dos novos, dos pobres e dos ricos, dos machos latinos e das mulheres emancipadas. Numa rua, vemos este pasteleiro trotskista, realizado por Nanni Moretti e protagonizado por Miguel Portas. É o bloco a apelar aos valores tradicionais: «Estás farto? Vota em quem lhes bate forte!» Como diz o povo, «se não souberes porque lhe bates, ela sabe». Noutra rua, outro cartaz. Desta vez, vemos uma mulher com ar de estar farta de homens. Provavelmente, quando chegou a casa, o pasteleiro bateu-lhe forte e feio. Felizmente existe o bloco: «Estás farta? Luta pelas tuas causas.» - FN
 
Fúria Azul
O deputado João Almeida era um ilustre desconhecido, até ao momento em que decidiu revelar o debate de ideias que manteve com um taxista, a propósito da candidatura do Professor Sousa Franco («aquele careca de óculos»). Graças ao blogue do Nuno Garcia, tive acesso ao currículo do jovem Almeida. Com grande surpresa, descobri que há, pelo menos, uma coisa relevante na vida cívica deste rapaz:

João Rodrigo Pinho de Almeida
Data de Nascimento
11-09-1976
Habilitações Literárias
Frequência do 4.º do Curso de Direito
Profissão
Estudante Universitário
Cargos que desempenha
Deputado; Presidente da Juventude Popular; Membro da Comissão Política Nacional do CDS-PP; Membro do Comité Europeu da World Youth Aliance em Representação de Portugal
Cargos exercidos
Representante da European Foundation for Human Rights and Family na III UN Conference on the Least Developed Countries; Assessor de Imprensa do Grupo Parlamentar do CDS-PP; Assessor de Imagem, Imprensa e Relações Internas do Gabinete do Vereador do CDS-PP na Câmara Municipal de Lisboa; Presidente Interino e Vice-Presidente da Juventude Popular; Secretário da Distrital de Lisboa do CDS-PP; Presidente da Mesa do Núcleo de Estudantes Populares da Universidade Católica; Director da "Fúria Azul", Claque Oficial do Clube de Futebol "Os Belenenses"
Obras publicadas
"Os Militares, as Artes e as Letras - 25 Anos do 25 de Novembro", obra colectiva. - FN
quinta-feira, junho 3
 
Coisas europeias - III/muitos


- JHJ
 
Meu caro Pedro Estêvão
Roswell -- uma cidade (?) no sul do Novo México -- é a capital mundial dos OVNIs. O cepticismo expresso no seu post não é nada vantajoso para o nosso país. Para que Portugal possa competir pelo estatuto de Roswell, é preciso acreditar mais. É preciso ser mais «positivo», está a ver? - JHJ
 
O perfume que caminhava à minha frente
Meto a chave na porta para a fechar e descer as escadas. Dou-lhe uma, duas, três voltas curvado por uma fechadura aparelhada demasiado em baixo. Foi hoje de manhã cedo e não fazia ainda tanto calor como agora.
Ao mesmo tempo, ouço uma porta em tudo semelhante que se fecha no andar de baixo, o segundo. Continuo a descer as escadas com cuidado. Levo na mão uma embalagem familiar de pizza e no ombro direito uma mochila. Equilibro-me ao descer: degraus altos e curtos, sem corrimão. Nos prédios antigos as escadas estreitam à medida que os andares sobem e este prédio é bastante antigo.
No fim do primeiro lanço de escadas sinto o perfume. Um corredor de perfume. É sempre engraçado caminhar por dentro do rasto de perfume que alguém deixou ao passar. Tem qualquer coisa de embaraçoso e inebriante. Ouve uma altura em que me gabava de conhecer de cor os perfumes das raparigas. Era uma coisa que dava sempre um número de belo efeito, e, pelo menos, um sorriso e um fogacho de atenção. Agora já não. Assim, às escuras, sem saber de que perfume se tratava, continuei a descer as escadas. Enquanto pensava «será de homem ou de mulher...?» já ia a caminho do primeiro andar.
Dois ou três degraus depois tive a certeza que era de mulher, o que não quer dizer que fosse uma mulher (sobretudo neste bairro). Bom. Encosto o queixo ao peito e olho para mim: caixa de pizza na mão; calções; t-shirt; barba por fazer (explico-me: ia nadar). Isto continuando sempre a descer, com cuidadinho, as escadas estreitas. Primeiro andar e a porta da rua bate com estrondo - saiu. O cheiro sempre mais e mais intenso. CK One, é isso! é isso! Algo moderno, necessariamente. E eu de chinelos. Abro o trinco, puxo pela porta e levo com a luz do sol em cheio: semicerro os olhos. À cautela, viro-me para o caixote do lixo que está à direita, no qual meto a custo a caixa da pizza. Olho à volta e dirijo-me ao carro, brincando com as chaves no bolso dos calções. - RB
 
15 minutos e 46 segundos.
Foi este o tempo que o Jornal Nacional da TVI de ontem dedicou ao seu tema de abertura: um OVNI. Não, não estou a gozar com a Manuela Moura Guedes. E juro que não estava a ver o Gato Fedorento. Um Objecto Voador Não Identificado. Tal e qual. Luz. Brilhante. Movimento. Céu. Isso. Entrevistas a representantes do Instituto Nacional de Meteorologia, da Força Aérea, do Observatório Astronómico de Lisboa e da Companhia Espacial Portuguesa (o primeiro que vier com piadinhas leva com o giz na cabeça), para além de uma série de gente que só ia a passar. Dois directos hilariantes de Alcácer do Sal. E, claro, a banda sonora dos X-Files - a sério!
Já sei. Sou insistente. Um chato. Mas, bolas!, gostava tanto de saber a morada da criatura que teve a ideia brilhante de entregar um canal de televisão à Igreja Católica... - PE
 
Cromossoma Xis revisitado
«Amizade é aquilo que uma mulher tem por outra quando ambas detestam uma terceira.»
[Millôr Fernandes, Pif-Paf, O Independente, 2004, p.85] - RB
 
Para onde vão os Correios?
Artigo 1º da Leis Universais propostas pela Economia. Uma empresa pública ou de capitais públicos é um monstro de ineficiência, um buraco negro de vontades, um hino à inércia - enfim, uma contradição de termos.
Artigo nº2. Caso se encontre uma empresa pública ou de capitais públicos capaz de se autosustentar (ou até, sacrilégio dos sacrilégios!, de gerar lucro), de apresentar um serviço de excelente qualidade, de demonstrar uma assinalável capacidade de inovação que seja detentora um grande e precioso património de confiança por parte dos cidadãos, aplica-se o Artigo 1º.
Que terreno mais aliciante para aplicar esta lei à prova de bala do que os Correios? Ai, os Correios, os Correios... Para quem não saiba, os Correios de Portugal eram, até há pouquíssimo tempo, dos melhores do mundo. É verdade, não estou a gozar. Levavam a peito a ideia de serviço postal universal e as suas obrigações; e, contra todas as expectativas, davam-se bem e assumiam posições importantes em mercados especializados e exigentes como o do correio urgente. Investiam a sério na qualidade do atendimento ao utente, com boa formação dos funcionários, reformas antecipadas dos funcionários mais velhos e renovação da sua inestimável rede de estações. A tal rede com nós nos lugares mais recônditos do país e que permitia manter uma estratégia de proximidade e confiança com populações isoladas e de classes sociais mais desfavorecidas. E que fazia assim os Correios terem um papel relevante na captação de pequenas poupanças e serem uma peça valiosa para as políticas públicas, como nos esforços de desburocratização e descentralização dos serviços públicos ou no encaminhamento de prestações sociais. Tudo isto enquanto proporcionava aos seus funcionários serviços sociais de qualidade e alimentava um fundo próprio de pensões. Até há dois anos atrás, podia ouvir-se a empresa pública pequena dizer para a mãe: quando for grande, quero ser como os Correios.
Pois é; estes Correios são uns chatos. Mais uma herança pesada. Têm a mania que estão acima das leis do universo. Ha! Dêem-nos dois anos e nós mostramos-lhes com quantos paus se faz uma canoa! E cá estamos em 2004. A rede de estações foi gratuitamente mutilada, um estudo da Proteste denuncia quebras preocupantes na fiabilidade dos serviços postais e a Autoridade Nacional de Comunicações obriga os Correios a baixarem as tarifas devido ao incumprimento das metas de qualidade traçadas no convénio assinado em 2001. Bravo!
No meio deste enorme fiasco, lembro-me do inefável Carlos Horta e Costa, presidente dos Correios, a gabar-se no início do ano do aumento dos lucros dos Correios. Como se fosse uma grande novidade numa empresa que há muito se autosustenta e gera receitas. Acho que alguém se esqueceu de lhe entregar a carta do 'Risco' com os objectivos para os Correios. Ou será que não?- PE
 
Coisas europeias - II/muitos


- JHJ
 
Coisas europeias - I/muitos


- JHJ
 
Merecemos melhor Economia


Camaradas, então e a Sociologia? - FN
 
No dia em que Mourinho assina pelo Chelsea...
Apetece-me recordar uma conversa que ocorreu na noite em que o Porto ganhou ao Mónaco:
Jovem Benfiquista - Como é que isto é possível? O sacana do Mourinho, com uma equipa destas, ganhou a Liga dos Campeões.
Velho do Restelo - A Liga dos Campeões, qualquer um ganha. Agora a Liga Inglesa... - FN
quarta-feira, junho 2
 
O palito para a alma
Ligas e murmuras: «Trabalhar é fodido». Que trabalhar cansa. Eu: «Aqui está calor, e aí?» «Trinta graus...» «Ah...». Sem solução, mando-te então o que me é possível, o que tenho, um beijinho. Só que um beijinho a esta distância pouco mais é que um paliativo. É pouco, é muito - é uma espécie de palito para a alma. - RB
 
Dedicado a João Almeida (o mais triste da campanha)
She's an ugly girl, does it make you want to kill her?
She's an ugly girl, do you want to kick in her face?
She's an ugly girl, she doesn't pose a threat.
She's an ugly girl, does that make you feel safe?
Ugly girl, ugly girl, do you hate her
Cause she's pieces of you?

She's a pretty girl, does she make you think nasty thoughts?
She's a pretty girl, do you want to tie her down?
She's a pretty girl, do you call her a bitch?
She's a pretty girl, did she sleep with your whole town?
Pretty girl, pretty girl, do you hate her
Cause she's pieces of you?

You say he's a faggot, does it make you want to hurt him?
You say he's a faggot, do you want to kick in his brains?
You say he's a faggot, does he make you sick to your stomach?
You say he's a faggot, are you afraid you're just the same?
Faggot, Faggot, do you hate him
Cause he's pieces of you?

You say he's a Jew, does it mean that he's tight?
You say he's a Jew, do you want to hurt his kids tonight?
You say he's a Jew, he'll never wear that funny hat again.
You say he's a Jew as though being born were a sin.
Oh Jew, oh Jew, do you hate him
Cause he's pieces of you?

Jewel, «Pieces of You» (Pieces of You, 1994) - RB
 
É preciso ter lata!
Tenho um irmão. Um irmão mais novo que não ia (não vai) muito à bola comigo. Em miúdo era uma flor de estufa; mil doenças e, à falta destas, a capacidade fantástica de provocar em si próprio febres inexplicáveis de 40º sempre qualquer coisa não lhe agradava - como ir à escola, por exemplo. Disto resultava nos pais muita preocupação com o menino e no menino uma agradável sensação de impunidade.
Um dos seus passatempos favoritos era, claro está, provocar-me. Com o requinte de um plano em duas fases. Primeiro a agressão indirecta: lá iam as bolas do Subbuteo pela janela, os castelos de Legos pelo ar e as cassetes do ZX Spectrum para o chão. Depois, a violência pura e simples: empurrões, murros e pontapés quando eu estava de costas e, caso necessário, uma ou outra dentada. Até que eu finalmente perdia a paciência e me virava.
Não sei porquê, mas tinha sempre um azar do caraças: era sempre neste momento em que me virava que a minha mãe passava. Nem era preciso mais nada: lá rebolava, chorava e se contorcia o menino, como um autêntico profissional de futebol. E o pobre do Pedro lá levava um raspanete e ficava de castigo, enquanto que, à sua frente e em silêncio, o seu irmãozinho simulava gargalhadas, esfregava a barriga e apontava para ele.
Moral da história? O meu irmão cresceu; estes senhores não. - PE
 
Wedding photobooth pick-up


- RB
 
Trocadilhos anónimos
O verdadeiro melómano não tem um gira-discos; o verdadeiro conhecedor do áudio hi-fi, aquele que gasta mais em cabos do que em música (e que, no fundo, gosta mais deles do que dela), esse tem um pick-up.
Certos estratos das classes possidónias A e mesmo B, sobretudo se residentes entre o Cadaval e a Mealhada, não têm simplesmente uma carrinha; não: têm uma pick-up. Há, entre elas, quem seja ganadeiro e precise, por isso, de uma pick-up truck.
O engatatão especializado não faz conversa - tem pick-up lines.
Gostava muito do «Sítio do Pick-up-au Amarelo». - RB
 
Anjos voando a baixa altitude
Não é que não valha sempre a pena rever o Al Pacino. Ou que a América de Reagan não seja um cenário com muito que se lhe diga. Ou que alguns diálogos ("Only in America!") não puxem por um belo sorriso. Ou até que as cenas do funeral que inicia o episódio e da alucinação conjunta não sejam muito boas. Mas este primeiro episódio de 'Anjos na América' desiludiu-me.
São as personagens, acho. Eles e as relações entre si são - como dizer isto? - esperáveis. Demasiado. Embirro por princípio com personagens cheios de consciência histórica; e este episódio de "Anjos na América" pareceu-me cair nesse erro de apostar mais na 'representação' da sua época do que na complexidade dos seus personagens. Certo, é um erro a que poucos escapam quando situam a acção no passado; mas mesmo assim sinto pena de ver algo que prometia autolimitar-se assim - e tão cedo.
Se calhar são os meus padrões de exigência para as séries que estão demasiado altos e agora me obrigam a não deixar escapar nada, do genérico à fotografia, passando pela banda sonora. E estaria a ser muito injusto se só por causa disto não visse mais nenhum episódio, como receia o Boss. Mas é bom que melhore - e depressa - para merecer o horário sagrado de Segunda às 22:30. - PE
terça-feira, junho 1
 
Contra mim falo


Nelson Piquet (1983)

A Fórmula 1 é a coisa mais entediante do mundo neste momento. Há quem me diga que é assim desde a morte de Senna. Eu não concordo, ou não concordava, até porque o meu piloto favorito sempre foi o Nelson Piquet. Nunca o Prost - na altura, já entediante -, e ainda o Mansell antes de chegar ao Ayrton Senna. Mas isso agora pouco interessa: não precisamos de concordar sobre qual era o melhor piloto de Fórmula 1 nos anos 1980 para concordarmos todos que a Fórmula 1 se transformou na coisa mais entediante do mundo. - RB
 
Desde que vi um porco a voar


Tim Henman acabou de se apurar para as meias-finais de Roland Garros. Não de Wimbledon, Roland Garros. Terra batida. Pó. Meias-finais. Tá tudo doido. - RB
 
Era uma vez o ciclismo


Alguém deu pelo Giro de Itália, que terminou no passado Domingo? Não...? Pois, nem eu. Nem sei quem ganhou e - talvez mais significativo - não me interessa. É irrelevante. O doping matou o Giro, depois de já ter ajudado Marco Pantani a matar-se. - RB


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