<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
quinta-feira, julho 29
 
The Dude abides...


... e vai dar uma volta. Lá para meio de Agosto falamos - se eu não tropeçar numa ligação à internet antes, claro. - PE
 
Um Verão quase, quase perfeito
Acabou o campeonato. Começou o europeu. Acabou o europeu. Começou a copa América. Acabou a Copa América. O defeso durou uma semana. Logo a seguir, começou a pré-época. Começou o vaivém das transferências (e respectivas réplicas) todos os dias e os infindáveis jogos de Nyon a Ayamonte, com passagem obrigatória pela catedral. Vem aí a Liga dos Campeões. Isto devia ser sempre assim. Um Verão quase, quase perfeito. - MC
 
A cura (parte III) - incursão nocturna em Vilar de Mouros
Com a garantia de uma romaria de fiéis, os Cure têm-se revelado um investimento certo para os cartazes de festivais de Verão. Não admira por isso que nos últimos dez anos, e apesar da escassez de produção, tenham estado quatro vezes (!) em Portugal nesse formato, muitas vezes pouco estimulante. Depois do concerto em Alvalade em 1989, regressaram em 1995 (SuperBock SuperRock), 1998 e 2002 (Sudoeste), e agora em 2004 (Vilar de Mouros). E se 2002 os apanhou na preparação para o dvd trilogy (2003), em ambiente sonoro denso e impenetrável, que terá agradado apenas aos mais conhecedores e aos admiradores da face mais negra do grupo, e 1998 os apanhou na mais íngreme curva descendente, este ano, munidos de do tal álbum de originais que lhes devolveu alguma notoriedade, tudo foi diferente. Alinhamento bem conseguido, público a responder, um concerto confiante (tirando as crónicas, e irreparáveis, deficiências técnicas de um baterista que tem dez anos de grupo), numa cadência infatigável (só à beira do fim Smith dirigiu escassas palavras ao público) a percorrer para a frente e para trás o património de toda uma carreira.
Começando pelo seguro, com a abertura clássica de plainsong (primeira faixa de disintegration), a noite foi vagueando por entre várias músicas do novo álbum e um desfile (quase) ininterrupto de bons momentos retirados de fases muito diversas. De memória, 10.15 saturday night e boys don't cry (boys don't cry, 1979), m e play for today (seventeen seconds, 1980), strange day, one hundred years e a forest (pornography, 1982), lovecats (Japanese whispers, 1983), inbetween days, a night like this e close to me (the head on the door, 1985), just like heaven e why can't I be you (kiss me kiss me kiss me, 1987), plainsong, pictures of you, lovesong e fascination street (disintegration,1989), friday I'm in love e from the edge of the deep green sea (wish, 1992), maybe someday (bloodflowers, 2000), foram algumas das eleitas.
Contas feitas, dos cerca de quinze álbuns de originais, só o medíocre wild mood swings (1996), o exótico the top (1984) e o desolado faith (1981) não fizeram parte do concerto (sendo que, no último caso, vários concertos desta digressão têm encerrado justamente com a faixa que dá nome ao álbum, o que infelizmente não aconteceu em Portugal). No meio disto tudo, ainda houve lugar para ausências inesperadas, como o aracnofóbico êxito lullaby (1989), ou clássicos como let's go to bed e the walk (1983), mas em duas horas e meia de um concerto muito festivaleiro (ou seja, adequado à ocasião) não cabia muito mais. Voltem sempre. - MC
 
A cura (parte II) - quatro anos depois, o álbum
Depois dos anos iniciais de actividade frenética, os The Cure alargaram os tempos e foram-nos (des)habituando a um ciclo de produção cada vez mais espaçado, com um álbum de originais a cada quatro anos e oscilações de qualidade significativas: disintegration (1989), wish (1992), wild mood swings (1996), bloodflowers (2000), e o recém-editado the cure (2004) - disco homónimo cujo título não deixa de ser, vinte e cinco anos de carreira depois, enigmático.
"I can't find myself". A frase repetidamente murmurada por Robert Smith na abertura de lost, primeira faixa do álbum, é desde logo uma declaração de princípios e uma razão suficiente para continuar a escrever música, mesmo que as razões para esse desencontro sejam álbum após álbum basicamente as mesmas, num labirinto de coordenadas há muito estabelecidas: desconforto identitário e descontinuidades pessoais, estranheza e pessimismo face a um mundo profundamente autocentrado, ironia, histeria e depressão como faces da mesma moeda, dependência-desconfiança em relação ao outro, medo do desconhecido e aversão à mudança associadas à mitificação sistemática do passado.
Ao longo de the cure, estes temas e obsessões pessoais, tão familiares, são basicamente os mesmos, e omnipresentes. Não é por isso de admirar que  se encontrem no álbum referências numerosas a outros momentos do percurso da banda - seja nas letras, seja do ponto de vista formal ou das sonoridades. Às vezes, de maneira tão explícita que só pode ser propositada (a linha melódica de in your house (1981), descaradamente plagiada em alt.end; fragmentos e ressonâncias de letras diversas em copy-paste abundante).
Perspectivado no longo prazo da carreira do grupo, the cure fecha um ciclo de três álbuns com paralelos mais ou menos evidentes com os três anteriores. Tal como wild mood swings (1996) invocara o espírito disperso e criativo de kiss me kiss me kiss me (1987), assassinando-o de caminho na mediocridade do resultado, e bloodflowers (2000) tentou recuperar o ambiente de disintegration (1989), como sublinhado no dvd trilogy (pornography-disintegration-bloodflowers ao vivo), the cure recria o som rugoso e fortemente baseado nas guitarras de wish (1992), mas de maneira menos "limpa" em estúdio, mais inquieta, mais experimental. De alguma forma, é como se the cure viesse fechar um ciclo longo de quinze anos, com um resultado razoavelmente coerente e com canções razoáveis - sucedendo a um álbum desequilibrado de más canções (wild mood swings) e a um bom álbum muito homogéneo, que apagava a individualidade de cada tema (bloodflowers).
Do ponto de vista da novidade, tão cara à indústria, the cure apresenta ainda assim pistas escassas. Ao mesmo tempo, porém, há um novo ciclo que se abre: a mudança de editora para a multinacional Geffen (depois do abandono da mítica Fiction Records), um novo co-produtor (Ross Robinson - Korn, entre outros) que acaba com o obsessivo controle de Smith sobre o processo criativo, e os novos métodos de trabalho que daí resultaram, ajudam a explicar (e a adivinhar) algumas das novas direcções exploradas (ou entreabertas).
Talvez daqui por três ou quatro anos haja cenas dos próximos capítulos. Talvez. - MC
 
A cura (parte I) - remexer no fundo do baú
Quando os grupos entram na inevitável decadência criativa, a tentação de explorar filões de produção secundários torna-se forte. Este é o espírito da caixa Join the Dots - B-Sides and Rarities 1978-2001, que reúne o essencial da produção dos The Cure não incluída em álbuns. Todos os lados b de singles, contribuições para bandas sonoras de filmes (judge dredd, x files, the crow), versões de outros autores (purple haze de Jimi Hendrix, hello I love you dos Doors, young americans de David Bowie, world in my eyes dos Depeche Mode), bem como canções ou versões até agora não editadas. E ainda um livro profusamente acompanhado de fotografias que, em discurso não raras vezes auto-elogioso, explica a história de cada uma das 70 faixas.
Lançada no mercado há uns meses como aperitivo para um novo álbum de originais, é preciso que se diga que mesmo na lógica irritante do nicho de mercado de "coleccionadores" de raridades de interesse sempre discutível, há opções de casting incompreensíveis. Como as de incluir material disponível em álbuns (10:15 saturday night, por exemplo, ou a totalidade de japanese whispers (1983), que pode ser adquirido em qualquer fnac) e numerosas remisturas pouco diferentes das versões já comercializadas; ao mesmo tempo que foram excluídas verdadeiras raridades da discografia oficial da banda, como o ep lost wishes (1991), retirado das sessões do álbum wish, a banda sonora do filme carnage visors (1981), já para não falar dos primórdios (os tempos dos easy cure) ou de projectos paralelos como os the glove.
Assim sendo, Join the Dots vale sobretudo pelas pequenas pérolas à espera da descoberta; e por estarmos, como quase sempre acontece nas compilações de raridades, perante uma boa base para traçar a "outra história" das bandas em causa - a história das tentativas fracassadas, dos caminhos abandonados, os restos que não couberam, aquilo que vai sendo deixado para trás.
Como seria de esperar, este outro lado reflecte os altos e baixos da história mais oficial: um primeiro cd (período 1978-1987) muito diverso e experimental; segundo e terceiro cds (que retratam a década entre 1987 e 1996) com material de consistência suficiente para figurar em álbuns de originais, revelando que em momentos significativos deste período o lastro criativo permitiu deixar de fora canções com qualidade muito próxima daquelas que efectivamente fizeram a discografia dos Cure; e, por fim, um cd bem menos interessante (1996-2001), amálgama indistinta de canções sofríveis, à semelhança do trajecto criativo mais divulgado.
Depois, sobram as músicas, várias, a merecer pelo menos uma oportunidade de audição. E alguns momentos próximos da preciosidade: o vibrante the exploding boy (1985, lado b de inbetween days); this twillight garden (1992, lado b de high); ou a remix inédita de Paul Oakenfold para out of this world (2000), citando apenas uma selecção pessoal. Para ajudar a desarrumar este pequeno monstro da prateleira. - MC
 
O exílio segue dentro de momentos (1)
Este nosso amado país orgulha-se de ter uma companhia de bandeira. Pelo menos, assim se motivou a injecção maciça de capital público há uns anos para sanear e reestruturar a TAP. Depois, percebeu-se, tal como os chineses, que não bastava o peixe, era preciso ensinar o pescador a fazer-se ao cardume com a cana. Tomou, então, o accionista Estado uma decisão sensata: recrutar um gestor com experiência e conhecimentos comprovados no sector da aviação comercial. Parece que, até então, a TAP se tinha transformado em poltrona rotativa de gestores públicos vindos dos correiros, da radiodifusão ou das telecomunicações - tudo áreas, como se sabe, muito úteis para se manejar uma companhia de aviação. Veio, então, um credenciado gestor brasileiro com a sua equipa. Já se sabe que, sempre que se recruta um gestor ou um treinador no Brasil, a polémica é garantida. Mas superada a polémica, o gestor brasileiro cumpriu os objectivos a que se tinha proposto: devolveu a TAP aos lucros e colocou-a numa aliança comercial digna desse nome para fazer esquecer megalomanias do passado geridas por companhias anãs. A companhia passou a ostentar uma bandeira menos esfarrapada. Só que, pelo meio, começaram a esfarrapar-se as competências do gestor brasileiro com a a criação de uma estrutura bicéfala no conselho de administração. Depois da ciência política, o bicefalismo presidencial é vendido, assim consta, como o novo querubim da corporate governance. Mas como duas cabeças nem sempre pensam melhor do que uma, o gestor brasileiro prepara-se agora para deixar a bandeira entregue à outra cabeça. O que, no caso vertente, pode significar a acefalia da companhia. E os sindicatos, sempre tão activos na TAP, que dizem? Bom, eles até queriam protestar. Só que, a fazer fé nesta notícia do Público de ontem, andam muito divididos. E, depois, a comissão de trabalhadores também não se mostrou muito pelos ajustes em aceitar comunicados sindicais. Ou seja, na nossa abençoada companhia de bandeira prevalece a mais feroz das tutelas: o presidente esvazia as competências do gestor, a comissão censura os sindicatos. Assim se gere uma companhia de aviação em terra. - PM
 
Lições da Indonésia
"Votei nele porque prometeu pouco. Os outros prometiam educação gratuita e muitas outras coisas. Ele só prometeu melhorar um pouco as coisas na Indonésia." Ele é Susilo Bambang Yudhoyono, popularmente conhecido por S. B. Y., o mais votado dos cinco candidatos que se apresentaram à primeira volta das eleições presidenciais indonésias e foi deste modo que uma empregada de restaurante, com simplicidade e simpatia, mas, também, com uma maturidade típica dos balineses, me explicou o sentido do seu voto nas eleições de há vinte dias.
continue a ler aqui - PAS
quarta-feira, julho 28
 
Blog Shop
Cansado de lhe atirarem à cara promessas não cumpridas? Falta-lhe já imaginação para novos slogans? Precisa de aumentar a sua popularidade mas o que lhe resta de bom senso inibe-o de fazer promessas irrealistas? Não desespere: o Procond® - Promessa Condicional é para si!
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António C. e C., presidente do Conselho de Aministração da companhia de aviação

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António G. P., dirigente de partido maoísta

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(com Santana Lopes, a vida nunca é aborrecida) - PE
 
O «núcleo duro»
A demissão de Ferro Rodrigues provocou as mais variadas reacções. Mas numa coisa todos estão de acordo: Ferro estava «fechado» no Rato com um «núcleo duro de fiéis», o que terá prejudicado um envolvimento mais alargado dos «quadros» e da militância em geral. Esta crítica revela uma aparente ignorância acerca da forma como funcionam os partidos políticos nas democracias modernas. Houve um tempo em que os partidos eram organizações de massas, caracterizados pela burocratização das carreiras, mobilização da militância e articulação de interesses sociais. Em rigor, entre nós, apenas o PCP correspondeu a este modelo. O PS e o PSD sempre foram, no essencial, partidos de eleitores, marcados por uma forte dependência face ao Estado e por uma grande centralização do poder (e da gestão da informação) nas lideranças. Para o bem e para o mal (quanto a mim, mais para o mal do que para o bem), este é o modelo que domina hoje a organização de todos os partidos europeus de centro-esquerda e centro-direita. Soares, Cavaco, Guterres, Durão, Santana - todos têm ou tiveram os seus «núcleos duros». De facto, os «núcleos duros» são uma coisa muito desagradável, especialmente se não fizermos parte deles. - FN
 
Show me the money!
Tenho um passatempo de Verão para os nossos amigos gestores e economistas - um enigma que me tem posto a cabeça em água.
Segundo o Público de ontem, o grupo Media Capital (que detém, entre outras, a TVI e a Rádio Comercial) registou um prejuízo de quase um milhão de contos só no primeiro semestre do ano. Isto apesar de toda a publicidade e autopromoção, da conversa do dar-ao-público-o-que-ele-quer-e-que-só-por-acaso-é-sempre-aquilo-que-eu-quero dos responsáveis pelas programações de rádios e do canal de TV, do Big Brother, do Jornal Nacional, dos intervalos publicitários de 20 minutos, dos Morangos com Açúcar, dos treinos do Benfica, dos Batanetes e do Vidas Reais (OK, gosto do Vidas Reais e o Rui Vasco Neto tem sempre uma tirada de Esquerda no final de cada caso - é um verdadeiro intelectual orgânico).
A questão é esta: é impressão minha ou o investimento em rádios, jornais e canais de TV não compensa - pelo menos directamente? Quero dizer, deve haver pelo menos 54762 actividades com retornos maiores e menos arriscados, não? Em vez de "modelos de negócio", não deveríamos estar antes a falar de coisas como influência política e social, controlo da informação, participação em actividades a montante, mecenato, caridade, auto-ilusão, birra - o que for? É que quanto a dinheiro, parece-me que só há o que é lá torrado... - PE
terça-feira, julho 27
 
Afinal ficámos a perder
Confesso que não sou um grande conhecedor do sistema político europeu. Em todo o caso, sempre ouvi dizer que o presidente da comissão era uma espécie de árbitro que controlava as tentações nacionalistas dos comissários. Se bem percebi, com a eleição de José Manuel Barroso para presidente da comissão, em virtude da nossa dimensão populacional, perdemos o direito a ter um comissário. Ou seja, não só não ficámos a ganhar, como o mais provável é que tenhamos ficado a perder. - FN
 
Princípios, meios e fins II
Aquele arrazoado de ontem vinha a propósito disto.
O RMG tinha, claro, um princípio: todo o cidadão, nacional ou residente, tem o direito a viver em condições dignas - um direito inalienável, como votar ou exprimir-se livremente. Por isso, convenciona-se um limiar mínimo em escudos sem o qual essa vida digna não é possível e cobre-se a diferença, se mais nenhuma prestação social o fizer já.
Defender este princípio ainda controverso é um dever. Mas como havia mil e uma maneiras de o tentar concretizar, o que era mesmo interessante era o que vinha a seguir - e a solução escolhida foi bem criativa.
Primeiro, reconhecia que este direito vem com um dever de integração social. Só que sem moralismos - nada de workhouses nem de trabalhos degradantes. A integração não resulta só da vontade das pessoas e a questão é dar-lhes/impor-lhes condições básicas para poderem ser parte inteira da sociedade nos dias de hoje: ter uma casa decente, formação, os miúdos na escola para ajudar impedir que a pobreza se repita na geração seguinte, etc.
Depois não tinha ilusões sobre os limites da acção a partir de um centro distante (nacional ou regional) e por isso assentava numa estrutura leve e elástica. Cabia ao Estado fornecer os blueprints da medida e convencer as associações patronais, sindicatos, instituições de solidariedade, associações de moradores, etc., a entrarem nas Comissões Locais de Acompanhamento. A ideia era obter os insubstituíveis conhecimentos práticos, capacidade e influência local das várias instituições, dando-lhes em troca participação na gestão e na forma final que a medida assumia em cada concelho. Um negócio justo.
Tinha também muito pouco espírito burocrático, reduzindo ao mínimo a informação e os documentos que um candidato tem de apresentar - senão assustava-se as pessoas a que é preciso chegar e lá ia tudo pelo cano - e assentando a fiscalização sobretudo no conhecimento profundo do terreno e das pessoas pelos assistentes sociais.
Finalmente, não se via como uma revelação divina num mundo imutável e continha os mecanismos da sua própria avaliação e aperfeiçoamento, permitindo ver e corrigir as muitas falhas que só se revelam com a prática.
Em suma, era infinitamente mais do que um princípio; era - e só há pouco tempo a descobri com algum pormenor - uma grande ideia, ou melhor um conjunto de pequenas e grandes ideias e um exemplo interessante para outras políticas públicas.
Tudo isto foi, comprova-se agora, minado por puro preconceito ideológico.

(Continuo amanhã, agora vou almoçar e está demasiado calor)- PE
 
Grandes invenções culinárias - o arjamolho*
Ingredientes
2 Dentes de alho; 3 tomates; 1 pimento; 4 colheres de sopa de azeite, vinagre q.b., orégãos; sal; água da torneira; 300 g. de framboesas.

Outro material necessário
Varinha mágica (adoro este nome...) com respectivo copo; tomada de electricidade (220 volts); água corrente ou fervida; frigorífico (opcional); mãos; boca (não opcional)

Preparação
Com as mãos, atira-se tudo para dentro do copo, excepto a água e as framboesas. Mas não se esqueçam primeiro de tirar a casca aos dentes de alho e aos tomates - se estes últimos forem sem grainhas, melhor ainda; o pimento, não é preciso dizê-lo, vai em tiras.
Agora vem a parte mais divertida: pega-se na varinha mágica (adoro este nome...), liga-se à tomada de electricidade (220 volts) e vroom, vroom - até fazer uma papa. Prova-se. Precisa de mais sal? Se sim, força. A consistência não é a desejada? Água na papa e vroom, vroom outra vez - e outra vez, e outra vez, até ficar no ponto (se quiserem também só ficar fazer vroom, vroom, estejam à vontade). Já está - as framboesas eram só para despistar mas podem ficar para a sobremesa.
Pode servir-se à temperatura ambiente, mas a ideia é ser fresco, por isso frigorífico com ele, se tiverem algum à mão. Os recipientes a usar oscilam entre pratos de sopa e - se forem alarves como eu - canecas.

Variantes
Quase infinitas. Se não gostarem de pimentos, azar o vosso - mas podem sempre substitui-lo por uma cebola, o que até dá um picante engraçado ao arjamolho. A minha mãe disse-me que se podia também substituir o azeite e o vinagre por um ou dois iogurtes - como ainda não experimentei, não respondo por eventuais efeitos secundários.

*também conhecido como "gaspacho" noutras partes da Ibéria. - PE
segunda-feira, julho 26
 
Princípios, meios e fins
Graças a Durão Barroso e a Jorge Sampaio, a prática e os resultados do XV Governo constitucional nunca serão escrutinados nas urnas. Além da gravidade da coisa em si, há vários efeitos colaterais para a democracia. Um deles é o facto de o XVI Governo ser tão fraco e carente de legitimidade que o debate eleitoral dentro de dois anos acabará mais uma vez a ficar-se pelo nível técnico e a enxotar o nível político. Ou seja, mesmo com a minha bola de cristal na revisão, consigo prever que em 2006 estaremos a falar de competência/incompetência de Ministros e Secretários de Estado, dos homens e mulheres que nomearam e dos respectivos salários - e não sobre o que pretendiam e o que conseguiram ao iniciarem, prosseguirem, alterarem ou cancelarem determinadas políticas.
Não estou a dizer que não haja nenhuma ligação entre os dois níveis. Não acredito que exista tal coisa como um "técnico" desprovido de experiências e ideias políticas (nem que sejam tácitas ou inconscientes); ou que seja possível conceber e pôr em prática boas políticas sem o auxílio de um conhecimento e trabalho técnico aprofundados. E tenho mesmo muitas dúvidas que, na maioria dos casos, a distinção entre o "técnico" e o "político" sirva para grande coisa.
O problema só aparece quando a) se quer à força evitar reconhecer que o nível político (que engloba coisas tão diferentes como concepções de justiça e da sociedade, a preferência por um ou outro indicador estatístico, ou o conhecimento e capacidade de influência sobre as pessoas que permitem pôr em prática uma política) existe e existirá sempre; e b) quando se procura por isso mascará-lo como uma série decisões técnicas inevitáveis, em vez de o tornar tão aberto e discutível quanto possível.
Mesmo quando o nível político consegue ser alvo de alguma atenção, não se avança muito por este lado. Isto porque essa atenção se centra quase sempre em torno de princípios, sendo, ainda por cima, os termos da discussão escolhidos mais por suscitarem emoção (por exemplo: "Estado", "mercado", "sociedade civil", "iniciativa privada") ou consenso (por exemplo: "desenvolvimento", "crescimento" ou "inovação") do que pela sua capacidade para nos ajudar a perceber o que se passa.
Os princípios são importantes, claro. E, às vezes, como acontece com muitos direitos sociais e económicos, não estão seguros (ou sequer consagrados) e precisam de uma defesa activa da nossa parte. Em geral os princípios são o mais fácil de formular numa política; e, ao dar-se-lhes demasiada atenção, fica a ideia que tudo o resto corre por si. Só que não corre - até porque um mesmo princípio pode dar origem a políticas muito diferentes. Da escolha, alteração ou criação das estruturas as põem em prática até à construção dos instrumentos da sua avaliação, passando pelo dar mais importância a algumas consequências previsíveis ou verificados em vez de outras, tudo isto tem tanto de "técnico" como "político". Porquê ignorá-lo?
Confusos? Sim, até eu estou. Acho que é do calor. Isto vem a propósito, vejam lá, de uma sucessão de peças do Público sobre os resultados desastrosos das alterações e do abandono sofridos pelo Rendimento Mínimo Garantido sob o XV Governo. Vou escrever sobre isto e tentar ser menos chato - mas agora vou ver os Sopranos. Tune in tomorrow. Same Bat-time, same Bat-Channel.- PE
 
Tony Soprano em Wall Street
Vale a pena meditar no que escreve, no FT de hoje, Frank Partnoy, Professor de Direito na Univ. de San Diego e antigo empregado do Morgan Stanley. Este pequeno excerto explica muito do que é o reputadíssimo investment banking:

Why is investment banking still a man's game? Because it is the character of Wall Street that discriminates, even more than loutish men. Investment banking is dominated by men for some of the same reasons the Mafia and other gangs are dominated by men. The business attracts and rewards people with certain skills and predispositions - appetite for risk, willingness to bend the law, knack of cultivating clients while fleecing them - that are, or at least are perceived to be, more prevalent among men than women.
It might be nature or nurture but the facts support this theory. During the past decade, women have held 20 to 40 per cent of positions on Wall Street, but all the high-profile prosecutions for financial wrongdoing have involved male defendants. Paul Mozer of Salomon; Nick Leeson of Barings; Joseph Jett of Kidder, Peabody; Henry Blodget of Merrill Lynch; Frank Quattrone of various banks; John Rusnak of Allfirst Financial; and so on. Where are the women? Now that women occupy so many banking jobs, one would expect to find a few rogues here and there. But even the most criticised women, such as Mary Meeker, a stock analyst at Morgan Stanley, have not been prosecuted. Ms Schieffelin was undeniably a straight shooter, too. Indeed, one unreported aspect of Ms Schieffelin's claim was that Morgan Stanley employees engaged in illegal "stock parking" with one of her clients, something she apparently would not do. On July 2, just before Morgan Stanley agreed to settle the case, a magistrate judge ruled against the firm's request to submit expert testimony that the transactions were legal. Now the details of those allegations will remain secret.
Given this evidence, one might expect banks to want to hire more women. They do the opposite because financial wrongdoing helps their business. Banks say they do not condone illicit behaviour because they have reputations to preserve. But Wall Street has recently suffered every public indignity imaginable, yet profits and bonuses are skyrocketing. Banks can easily overcome negative publicity by waiting for memories to fade (and by spending a bit more on advertising and charitable donations). Banks treat reputation as a capital asset, investing in it only so they can deplete it later.
The consequence is that even if sex discrimination were eliminated, the numbers of men and women would remain unbalanced. Simply put, the nature of Wall Street's business favours men. For anyone who believes investment banking's culture could use a dose of professionalism, the prescription is obvious: hire more women
.- PM
 
Labyrinth
Say it's the same sun spinning in the same sky
Say it's the same stars streaming in the same night
Tell me it's the same world whirling through the same space
Tell me it's the same time tripping through the same day

So say it's the same house and nothing in the house has changed
Yeah say it's the same room and nothing in the room is strange
Oh tell me it's the same boy burning in the same bed
Tell me it's the same blood breaking in the same head

Say it's the same taste taking down the same kiss
Say it's the same you
Say it's the same you and it's always been like this
Say it's the same you
Say it's the same you and it always and forever is
Say it's the same you, Say it's the same you
Yeah tell me it's all the same
This is how it's always been
But if nothing has changed...
Then it must mean...

But the sun is cold - the sky is wrong
The stars are black - the night is gone
The world is still - the space is stopped
The time is out - the day is dropped
The house is dark - the room is scarred
The boy is stiff - the bed is hard
The blood is thick - the head is burst
The taste is dry - the kiss is thirst

And it's not the same you, It's not the same you
No it never was like this
It's not the same you, It's not the same you
And it never really is
It's not the same you, It's not the same you
Oh it's not the same
This isn't how it's always been
Everything has to have changed...
Or it's me...

The Cure in "The Cure" (2004) - MC
sexta-feira, julho 23
 
Silêncio


Ele morreu.- PE
 
Saber escolher
A comunicação social, com a ajuda de alguns dirigentes do partido socialista, costuma separar o PS entre «ala esquerda» e «ala direita». Na verdade, a grande clivagem no PS, como de resto noutros partidos, não é tanto entre «esquerda» e «direita», mas entre renovação e ortodoxia - entendidas aqui no sentido ideológico, mas principalmente no sentido organizativo. Uma clivagem entre formas de fazer política próprias do século XIX e a defesa da qualidade da democracia interna. É por isso que, em torno da candidatura de Manuel Alegre, vemos representadas diferentes esquerdas.
Admito que a entrevista à RTP de José Sócrates revelou, aqui e ali, uma certa fragilidade intelectual, mas não o considero um «Santana da esquerda» nem tenho paciência para andar a ver «quem é mais à esquerda» ou «mais ético». Essa é a atitude típica dos puristas do Bloco que, perante um confronto Bush-Gore, preferiam dar gás ao candidato vegetariano. Contudo, do que se trata agora no PS não é apenas escolher um candidato a primeiro-ministro; trata-se também de optar por uma estratégia política. Nesta matéria, há três aspectos essenciais: a defesa da renovação das estruturas, a recusa do populismo e a diferenciação face à coligação de direita.
A revisão dos estatutos do PS abriu caminho a novas formas de fazer política (clubes, gabinete de estudos, etc.) e trouxe gente nova para a participação. Todas as inovações têm os seus efeitos perversos, mas foram dados primeiros passos que, perante as pressões das clientelas, podem ser rapidamente anulados. Em segundo lugar, o tão falado populismo. O populismo é definido, na própria declaração de princípios, como um dos «inimigos da democracia». Aqui não se pode transigir - por razões de substância e até de táctica política: não é certamente imitando os populistas que a esquerda democrática chega lá. Como se costuma dizer, entre o original e a cópia, os eleitores preferem o original. Finalmente, temos a questão da estratégia eleitoral. O PS tem hoje uma cultura de governo. Deve, sem dúvida, encontrar uma nova agenda política. No entanto, é ilusório pensar que apenas se chega ao poder reproduzindo o discurso e as práticas da coligação de direita. Não há temas tabu para o PS, mas as abordagens devem ser diferentes: se tudo é igual, para quê votar? Aliás, a campanha das europeias, liderada por Sousa Franco e Ferro Rodrigues, mostrou bem que é possível ganhar o centro sem ceder ao populismo e ao bloco central.
Não duvido que pessoas como José Sócrates ou António Costa, à partida, até subscrevam este diagnóstico. A questão é que, num momento de clarificação como este, a necessidade desta estratégia só se tornará visível através do voto numa candidatura que não esteja exclusivamente centrada na lógica do poder. É por isso que vou votar na moção e na candidatura de Manuel Alegre. - FN
 
A terceira via
Os jornais e o barnabé gostam de dividir o PS entre uma «ala direita» e uma «ala esquerda». Situando-me no centro-esquerda, pode dizer-se que pertenço à «ala direita». «Como é que tu, uma gajo da esquerda liberal, estás a apoiar a candidatura do Manuel Alegre?», perguntam-me alguns amigos. Ao contrário do que possa parecer, esta é a opção ideologicamente mais coerente para «um gajo da esquerda liberal» como eu. É que a moção de José Sócrates está a ser escrita por Sérgio Sousa Pinto («ala esquerda»), ao passo que a de Manuel Alegre vai ser coordenada por Augusto Santos Silva («ala direita»). - FN
quinta-feira, julho 22
 
Conselhos estivais
1. Evite assistir aos jogos da pré-época do Benfica - sobretudo, na Suíça.
2. Evite as imediações do Palácio da Ajuda - ainda pode acabar em ministro ou, com maior probabilidade ainda, em secretário de Estado.
3. Evite regressar de férias - e se não puder, evite a televisão ou os jornais.

Verá que, assim evitando, tudo lhe parecerá mais normal. - PM
 
Welcome back, boys!
Nunca fiquei muito impressionado quando os meus amigos benfiquistas se gabavam que o seu clube tinha mais taças ou adeptos; como um clube de futebol não é uma loja de penhores nem ganha jogos por referendo, nunca percebi o alcance dos argumentos. Mas às vezes diziam uma coisa que acertava em cheio e magoava como tudo: que preferiam ver a sua equipa ganhar ao Porto do que ao Sporting. Nunca acreditei - nem acredito - numa palavra dessa frase; mas o simples facto de ela poder sequer ser concebida já era doloroso, porque lembrava quanto o clube tinha descido nesses anos.
A minha escola era povoada por um punhado de bravos verde-e-brancos e o ocasional belenense que resistiam ainda e sempre à imensa e volátil legião que trocava o cachecol dos Diabos Vermelhos por juras de amor exclusivo à Selecção consoante o resultado dos da Luz no Domingo anterior. Do FC Porto, nunca vi sinal antes dos meus 14-15 anos senão pela televisão. Para mim, querer que o Sporting ganhasse todos os seus jogos e que o Benfica perdesse até com a selecção de Marte eram - e são - quase uma e a mesma coisa e cuja tentativa de separação nem sequer fazia grande sentido. Como o facto de o jogo com o Benfica ser sempre a melhor vitória ou a pior derrota. Todos estes sentimentos eram parte integrante do teatro e do gozo da coisa; e esperava retribuição equivalente do outro lado, claro. A chave era a proximidade - e ser trocado por um Ausente a 300 kms de distância tinha assim tanto de bizarro como de humilhante.
Ontem contaram-me que o folheto promocional dos lugares cativos do novo estádio do Benfica diz que "há estádios feitos para ficarem vazios" e mostra as bancadas do Alvalade XXI. Fiquei radiante por saber. A sério. Radiante por ver como o Sporting voltou a ser o Outro, o referente emotivo negativo principal para os benfiquistas. É um tributo ao que clube progrediu desde aqueles anos negros do final da década de 80 - e, sobretudo, o regresso das coisas aos seus devidos lugares. Welcome back, boys! - PE
 
O elogio acidental
Duas horas antes da tomada de posse, Teresa Caeiro ocupava a secretaria de Estado da Defesa. Nomeação que deixou Paulo Portas radiante. O ministro da Defesa não se cansou de elogiar os dotes da "filha e neta de militares". "É com orgulho que agora nomeio Teresa Caeiro", disse ontem em Viana do Castelo. O discurso mudou ao final da tarde: "Em articulação com o primeiro-ministro, foi decidido que Teresa Caeiro era mais útil na Secretaria de Estado das Artes e dos Espectáculos". - PR
 
O Acidente
Boa sorte também para Teresa Caeiro, que é a primeira mulher portuguesa a desempenhar funções governativas na área da Defesa. O Acidental gosta muito dela e sabe que a Teresa está mais do que habituada a grandes desafios: foi uma brilhante Governadora Civil de Lisboa; depois uma incansável e impecável secretária de Estado da Segurança Social; vai ser certamente uma excepcional secretária de Estado Adjunta da Defesa e dos Antigos Combatentes. - PR
terça-feira, julho 20
 
Vai um "abrir caminho a uma sociedade socialista"?
Não deixo de ficar impressionado como certas pessoas, de um dia para o outro, se tornaram defensoras ferozes da Constituição e de interpretações literais do seu texto. Mais vale tarde que nunca.- PE
 
A semelhança
Não concordo com as teses sobre o "vazio" do discurso de Pedro Santana Lopes. Não que fique impressionado com os disparates que o povoam: de Thomas Skuhravy e do saneamento financeiro do Sporting com uma quota suplementar de 25 mocas a Frank Gehry e ao Casino de Lisboa, é definitivamente o mesmo homem. Transferir ministérios para Faro e para Santarém e descer o IRS são assim apenas esforços de manutenção da média por semana.
Disparates como estes não têm graça nenhuma e são graves porque, entre outras coisas, destroem a ideia de que as pessoas devem ser responsabilizadas pelo que dizem. Este "devem" não é moralista mas instrumental: é que esta ideia de inimputabilidade (desculpem o palavrão) é a condição básica para a demagogia em versões muito mais agressivas e perigosas.
Concordo que este espalhafato tem apenas como função, no discurso de Lopes, esconder. Só não acho que o que é escondido seja o vazio; é antes a regra da formação desse discurso: a semelhança.
A semelhança é um traço fundamental dos saberes ocidentais até ao século XVI. Refere-se a um universo visto como fechado e em que todos os seres estão relacionados entre si por contiguidades, analogias, imitações e atracções. Trocado por miúdos, cheirar uma flor usada num funeral faz-nos tristes, uma planta é só um animal com a boca enterrada, o corpo humano é um atlas universal, o tempo é circular, as palavras e as sílabas juntam-se porque têm em si propriedades vindas do fundo dos tempos que se atraem ou repelem, etc, etc.*
Aborreço-vos com isto só porque o discurso de Lopes é formado de uma maneira muito parecida. Por exemplo, na sua entrevista à RTP em 5 de Julho não se cansou de repetir que "...tive grandes mestres: o Dr. Sá Carneiro, o Dr. Balsemão, o Prof. Cavaco Silva" - um pouco como Luke Skywalker com Obi-Wan Kenobi e o Mestre Yoda. Não há nada novo para aprender debaixo do Sol; não há conflitos, não há ideias, não há projectos: há apenas e sempre o mesmo saber governar. Os que querem governar dividem-se apenas entre os que foram ensinados pelos mestres e os que não o foram, os que têm e os que não têm "sentido de Estado" - uma das expressões em política mais horríveis e socialmente discriminatórias que conheço.
Depois há a crença de que existem Grandes Homens através dos tempos ("os grandes governantes e estadistas") e a referência constante a um Grande Homem em particular. A evocação de um fundador de um partido não tem em si nada de especial; mas o ressuscitar do culto a Sá Carneiro promovido por Santana Lopes é bem mais do que isso. A analogia pretendida é óbvia: Santana e a coligação PSD-PP estão para 2004 como Sá Carneiro e a AD para 1980. A imitação também: Santana torna-se Sá Carneiro.
Claro que isto só faz sentido se se acreditar que o tempo é circular e que 1980 é 2004. Aqui entra a obsessão mística com as datas. Parece frívolo alguém anunciar que gostava de ter a cerimónia da tomada de posse no dia em que o PSD conseguiu a primeira maioria absoluta em 1987? Bem, ainda ontem, numa peça bizarra da SIC, além de depositar flores na campa de Sá Carneiro, Santana lá desfiava datas: "Sá Carneiro faria 70 anos no meu primeiro dia de trabalho como Primeiro-Ministro" ou "o dia em que fui escolhido para presidente do meu partido foi o dia a seguir ao dia em que me apresentaram ao Dr. Sá Carneiro em 1978 - são coincidências que me impressionam". E não há coincidências, não é Dr. Lopes?
A sua reverência por uma sigla, "PPD" - uma convenção de recurso na época que não representa nada de concreto mas que é agitada como se revelasse por si só um programa político ancestral - diz também muita coisa. Enfim, a lista é longa e nunca mais saía daqui.
Esta forma de se ver a actividade política e a si próprio dá-me arrepios. E mais ainda quando desconfio que é ela - veja-se como Judite de Sousa achou relevante referir, ao apresentar Santana, que "se diz que estava nos astros que seria Primeiro-Ministro" ou como a capa do Público do dia em que foi indigitado apresentava uma foto de um jovem Lopes e de um jovem Portas ao lado de um jovem ligado mais tarde a Durão - e não os disparates semanais que tornam Pedro Santana Lopes ao mesmo tempo cativante para alguns e inimputável perante todos.

*(aos fanáticos das referências: é verdade, fanei o conceito e os exemplos ao Michel Foucault de "As palavras e as coisas") - PE
 
Só acontece aos outros II
Enquanto o governo italiano se vai partindo aos poucos, o Presidente italiano tenta apanhar os cacos do país com a memória da unificação. Meus amigos, quando ouvirem Sampaio repetir-se em referências à história pátria, já sabem por onde vamos. Ou, pelo menos, em que situação estamos. - PM
 
Só acontece aos outros I
O que custa, ao ver este novo governo tomar posse, é que sempre pensei que isto apenas acontecia aos outros. Passo a explicar: na Primavera de 2001, assisti na televisão pública italiana a um episódio que sempre julguei representar, nas democracias europeias, o auge do populismo: a assinatura em directo, com reconhecimento notarial incluído, do contrato de Berlusconi com os italianos. Vivia, então, há quase três anos em Itália e sempre me questionei como tinha sido possível a política de um país descambar tão fundo ao ponto de se chegar ao populismo notarial. É certo que as lutas intestinas da coligação governamental de esquerda haviam alimentado esta nova variante populista. Afinal, mal chegado a Itália, pude acompanhar o folhetim da queda do governo Prodi arquitectada em conúbio por Bertinotti e d'Alema, o primeiro dito comunista renovador, o outro ex-comunista, para que o último fosse primeiro-ministro. Mas sempre pensei, ingenuamente é certo, que a idiossincrasia italiana carregava muito do fardo desse declínio. E nesta confortável, mas patética premissa, logo concluí que as demais democracias europeias ficariam, apesar de tudo, imunes às formas mais acabadas do populismo italiano. Depois de sábado, acho que chegou a nossa vez de ser tocados pelo populismo autenticado por notário. Que, no nosso caso, tem a particularidade de ser um notário eleito. - PM
 
Cypher
Duas coisas que tenho de dizer sobre Cypher: não o achei tão interessante como Cubo; e, não me perguntem porquê, por mais de uma vez dei por mim a pensar no Fight Club e no Total Recall. Mas não deixa de ser um filme de espionagem curioso, com vários momentos de caricatura ao género e um final surpreendente. Além disso, a sua melhor cena confirmou as minhas suspeitas sobre os verdadeiros motivos para a organização de alguns colóquios e congressos. Mas estejam descansados - prometo que não conto a ninguém.- PE
sábado, julho 17
 
Leituras para férias (I)


Afinal parece que os clássicos sempre são fundamentais para a compreensão do nosso tempo...- PE
sexta-feira, julho 16
 
Democracia de opinião
Há uns tempos, Emídio Rangel disse que a televisão tanto vendia sabonetes como Presidentes da República. Na altura, muita gente se riu com a sua megalomania. A televisão ainda não elegeu nenhum Presidente da República - mas já fez um Primeiro-Ministro, um Presidente de Câmara, e aquele que será muito provavelmente o próximo líder da Oposição. - FN
 
O meu tributo a Brando


I speak not to disprove what Brutus spoke,
But here I am to speak what I do know.
You all did love him once, not without cause;
What cause withholds you then to mourn for him?
O judgement, thou art fled to brutish beasts,
And men have lost their reason. Bear with me;
My heart is in the coffin there with Caesar,
And I must pause till it come back to me.

Julius Caesar

(Reparei que o formato do blog ia atirar este post da Mariana para o arquivo amanhã e que eu ainda não tinha posto aqui nada sobre O Actor) - PE
 
Detalhes numa manhã de canícula
Uma das razões porque gosto de ter comentários no blogue é porque me dão ideias para escrever, o que, com o calor que está, é um bem precioso. Isto não quer dizer que eu vá dividir direitos de autor com vocês, meus caros, mas é uma forma de agradecimento.
Num comentário ao meu post anterior, JV reparou num pequeno detalhe: chamei II República ao período que vivemos desde 1974. E reparou bem, porque é propositado.
O que é mais estranho é que eu me sinta sempre preocupado com esse detalhe, quando em geral aplico o princípio "paciência zero" aos debates escolásticos sobre precisão de designações. Uma História, como qualquer narrativa, é um exercício de selectividade e logo de uma dose considerável de arbitrariedade; por isso as designações não têm grande importância, desde que os outros tenham uma ideia razoável do que é que eu estou a falar. Nominalismo - acho que é o que os filósofos chamam a isto quando não estão a fazer qualquer coisa mais importante como fazer o jantar, pagar a conta da luz ou a renovar o cativo no estádio.
Mas neste caso, não consigo. Imaginemos que as pessoas se podiam levantar da tumba e votar no nome do período histórico que lhes puseram em cima. OK, ninguém se levanta da cama, quanto mais da tumba, por tão pouco - mas vamos imaginar também que o voto era obrigatório (não, não sei como é que se obriga um morto a fazer qualquer coisa - empurra-se ou ata-se uma corda, suponho). Acho que opositores e defensores do Salazarismo só concordariam numa coisa: não queriam que aquele período tivesse nada a ver com o nome República. Os primeiros porque achavam que ele tinha precisamente matado a República; os segundos porque viam na República a raíz de todos os males, da dor de cabeça à ferrugem dos portões. Deve ser raro encontrar tanta unanimidade. Por isso, porque não fazer a vontade a ambas partes e chamar-lhe só Estado Novo e reservar o termo II República para o pós-25 de Abril? - PE
quinta-feira, julho 15
 
Ferro humano
Um mal nunca vem só. A injustificável decisão de Jorge Sampaio de não dissolver a Assembleia trouxe consigo, entre outras coisas desagradáveis, a demissão de Ferro Rodrigues do cargo de Secretário-Geral do PS. Fiquei surpreendido e um pouco desapontado quando ouvi a sua reacção. Estava convencido - todos temos as nossas intuições - que Ferro ganharia as eleições que seriam, num regime democrático, a saída lógica para a crise política que se viveu a seguir ao abandono do Primeiro-Ministro e à queda do Governo democraticamente eleito; acredito que Ferro seria um excelente primeiro-ministro - possivelmente o melhor da II República; e penso que Ferro constituía uma grande oportunidade para ancorar na Esquerda moderna um partido que a inércia e o lastro histórico empurram - por vezes demasiado - para o Centro. É certo que a decisão do Presidente foi injusta e grave; mas mesmo assim a atitude de Ferro pareceu-me excessiva e... excessiva e... errr... Corta! Corta! Mas quem é que escreveu este argumento? "É certo que"? "Desapontado"? "Excessiva"? Ma come parla! Ninguém diz coisas destas! Quero dizer, pensem nisto:
Estou a falar de um homem que pegou num partido em cacos e que, poucos meses depois em condições quase impossíveis, o levou a menos de 2,5% de uma vitória eleitoral.
Estou a falar de um homem que recusou sempre a demagogia e a quem nunca ninguém viu prometer o que sabia não poder cumprir.
Estou a falar de um homem que soube sempre dizer "não, muito obrigado" ao plástico que marketistas e jornalistas adoram.
Estou a falar de um homem que enfrentou (e venceu) adversários sem escrúpulos e capazes de recorrerem ao jogo mais sujo e à mentira mais delirante por nada mais lhe terem a apontar.
Estou a falar de um homem que viu um amigo preso apenas porque era membro da sua direcção.
Estou a falar de um homem que viu um seu cabeça-de-lista morrer em campanha.
Estou a falar de um homem que conseguiu o maior resultado eleitoral de sempre do seu partido.
Estou a falar do homem que fez em pedaços o mito de que só o Centrão ganha eleições e que mostrou que a clareza e a diferenciação de propostas sérias não só é saudável para a democracia como é eficaz nas urnas.
E, sim, estou a falar de um homem que vê o Presidente que ajudou a eleger a tomar uma decisão injusta e gravíssima para a democracia apenas para que não se diga que foi "parcial".
Bem, estou a falar deste homem que fez e sofreu tudo isto nestes dois anos e pouco - e venho falar de "atitude excessiva" ou que "fiquei desapontado"? Mas quem é que raio sou eu para ficar ou deixar de ficar? Quantas vezes me levantei do meu sofá, arrisquei e me dei ao trabalho de fazer qualquer coisa? Pois, fiquei a saber que até a sua força e paciência tinha limites e que se chama Ferro mas não é nenhum Super-Homem. E então? "Excessiva"... Quando eu passar pelo mesmo, talvez ganhe o direito a largar palpites assim. Até lá, Ferro só me merece duas coisas: admiração e gratidão. E mais nada.- PE
 
Levar a democracia a sério II
Aos meus amigos elaboro mais, sem necessidade diga-se. A decisão presidencial não é democraticamente sustentável pelos seguintes motivos:
Primeiro, podem vir com os formalismos constitucionais que quiserem. Mas para quem leve a democracia a sério é inaceitável qualquer solução que passe por impor ao povo português, na secretaria, um primeiro ministro em quem ninguém votou e que, se hoje fosse a votos, com toda a probabilidade perderia as eleições. A questão não é que sempre que um primeiro ministro se demita seja necessário dissolver a Assembleia. Não é o problema do precedente, nem colhe o argumento, tão impressivo como bacoco, dos "desvios plesbicitários". Uma visão a sério da democracia impunha um decisão que ponderasse o agregado de factores que constituem a circunstancialismo político concreto que o país vive.
O primeiro ministro saiu, ao fim de dois anos de mandato, no contexto da crise económica e social mais grave de há décadas e no meio de um cenário de contestação social generalizada às políticas do governo de coligação;
A legitimidade formal da maioria parlamentar está fragilizada - para não dizer pior - pela derrota recente nas eleições europeias, totalmente por razões internas, que constituiu a maior derrota de sempre do PSD e, simultaneamente, a maior vitória de sempre do PS;
Todas as sondagens indicavam, não só que o PS é partido em que actualmente os portugueses mais confiam para governar, como, o que até é estranho num país como o nosso, que a maioria dos portugueses desejava eleições antecipadas;
Santana Lopes é alguém que os portugueses, mesmo os que votaram PSD, jamais imaginaram como primeiro-ministro e não houve um voto no PSD que, indirectamente sequer, possa ser entendido como um aval a que Santana Lopes seja hoje o primeiro ministro de Portugal, ele que nem foi candidato a deputado;
O presidente tem, como é óbvio, de levar em conta na sua decisão o nome que lhe é proposto pelo partido com maioria parlamentar para novo primeiro-ministro. Isto não é fulanizar a decisão. É ler a vontade dos portugueses. Alguém acredita que a decisão presidencial teria sido a mesma se o PSD tivesse proposto para primeiro-ministro o actual presidente da Câmara de Boticas? É óbvio que o "nome" é matéria que o presidente não deixa de levar em conta, ou não deveria ter deixado de levar em conta, porque só isso é coadunável com uma visão material da democracia. Dizer o contrário é pura hipocrisia.
E, depois, gosto particularmente de surpreender os meus amigos com a frase mais polémica, mas inteiramente sentida: concordo na íntegra com as declarações da minha camarada Ana Gomes a propósito deste assunto. - MK
 
Levar a democracia a sério I
Nenhum argumento, até agora, abalou a minha opinião inicial sobre o assunto: a decisão do presidente carece de fundamento democrático. A democracia é o que nós fazemos dela. E dela podemos ter uma visão formal ou uma visão material, ou seja, uma visão a sério. Ora, a minha opinião não pode ser melhor explicada do que pela forma por que a tenho explicado à minha filha Margarida, que tem três anos e meio, quando me pergunta "porque é que o meu chefe já não é o Ferro Rodigues (sic)". E eu tento explicar: havia um senhor que mandava no país que se foi embora. O presidente Sampaio, que é um senhor mais velhinho que tem por obrigação resolver estes problemas, tinha duas opções: deixar que as pessoas todas escolhessem novamente quem manda - isso é a democracia que, ela já sabe, funciona através do voto, um papel onde se põe uma cruz no partido que escolhem para mandar -, ou então escolher outra pessoa do PSD para mandar. Que o Jorge Sampaio não deixou que as pessoas votassem e escolheu sozinho outra pessoa do PSD. E que o Ferro Rodrigues ficou tão zangado que se foi embora. E que os senhores do PSD ficaram todos muito contentes, porque sabiam que se as pessoas pudessem escolher, se calhar escolhiam o Ferro Rodrigues. Não sei se a percebeu bem a história, mas o que é certo é que causou algum impacto, porque agora tenho que a voltar a contar todos os dias, perante insistências intermináveis, pelo menos cinco ou seis vezes. Como dizia um grande intelectual da nossa praça, num post épico, a propósito de um assunto parecido, as coisas são simples, as pessoas é que têm a mania de as complicar. - MK
 
António Esteves Martins
Durante o Europeu de futebol, as conferências de imprensa da selecção foram um festival de propaganda. Paulo Catarro, Nuno Luz (e outros) aplaudiam os jogadores, riam-se com a boçalidade de Scolari, davam os parabéns à equipa, etc. Naquelas semanas, não houve verdadeira liberdade de imprensa. Sobre isso, o João Pedro Henriques já disse tudo. Em todo o caso, a cobertura de um campeonato internacional de futebol dura um mês e acontece, na melhor das hipóteses, de dois em dois anos. Já as reportagens sobre as reuniões no âmbito da União Europeia são praticamente diárias. Especialmente agora que o dr. Durão se transformou em José Manuel Barroso. É certo que quase todos os correspondentes das televisões em Bruxelas caem no provincianismo, mas o serviçal António Esteves Martins ultrapassa todos os limites. Ontem, a propósito do debate de Barroso com os eurodeputados socialistas, Esteves Martins notou que o candidato José Manuel «esteve particularmente feliz, vestindo já a pele de presidente da Comissão». As perguntas ao candidato Barroso eram vistas por Esteves Martins como «provocações». As pérolas foram várias. Quando estão nas instituições democráticas portuguesas, «os políticos» são apresentados como «uns malandros que se andam a encher»; quando estão «lá fora a representar-nos» são uns heróis nacionais. Estranhamente, ainda há quem se surpreenda com a decisão de António Vitorino. - FN
 
This is an area that might be called the Twilight Zone
Num Governo sem legitimidade democrática, o Super Ministério ir para as mãos de um partido com menos de 9% dos votos é apenas uma consequência lógica.- PE
quarta-feira, julho 14
 
A constituição que Sampaio nos deixa


Mas donde surgiu esta ideia peregrina de se discutir a coragem de Sampaio? Enquanto uns fazem o elogio da sua coragem pessoal, como aqui no DN, outros "esplanam" sobre a sua coragem política (boas-vindas atrasadas, a propósito). Tudo porque acham que Sampaio foi bestialmente corajoso por ter ido contra as ambições da oposição ou ter traído quer amigos quer o seu eleitorado. Mas não percebem que a decisão de Sampaio não tem nada que ver com coragem. Ela seria sempre corajosa e cobarde, qualquer que fosse o seu sentido: se dissolvesse, porque tinha ido contra a maioria parlamentar, mas beneficiado o seu partido; se nomeasse Santana, por ir contra a esquerda, mas beneficiado o infractor.
Convocar a valentia presidencial para aquilatar da bondade da sua decisão serve para entreter, sobretudo, a especulação psicanalítica. Mas apenas serve para esconder o essencial do que fica dessa decisão. E o legado é que nos faz desejar ir para o divã. Desde logo, porque a decisão de Sampaio repousa numa avaliação política preocupante. Mas isso é demonstrado, à saciedade, pelo PAS no texto que publica n' A Capital de hoje, pelo que não vou adiantar nada mais a um argumentário que subscrevo integralmente. Mas debaixo dessa leitura política distorcida, alberga-se um entendimento da Constituição não menos grave. Trata-se de um entendimento que sapa, de uma penada, o texto constitucional por investir o presidente em poderes tutelares que não lhe assistem. Ora, a evolução constitucional portuguesa foi justamente no sentido de cingir os poderes presidenciais à discordância política e às garantias da constitucionalidade e do regular funcionamento das instituições - daí, respectivamente, os vetos políticos e por inconstitucionalidade e o poder de demissão do governo para assegurar esta última. A dissolução parlamentar, ainda que recortada com outra amplitude, acaba por ver o seu exercício condicionado, na prática, à prestação do governo. Sampaio fez, por isso, um retrocesso constitucional com as suas já famosas garantias com que decidiu cravar o - e agrafar-se ao - novo governo. E, por outro lado, enredou-se numa leitura estática da Constituição. Onde o texto constitucional lhe permitia nomear um governo atendendo aos resultados eleitorais, Sampaio optou por fazer uma leitura restritiva da fórmula constitucional e cingi-la aos resultados das legislativas, ignorando os resultados das europeias. Donde Sampaio aceitou a demissão de Guterres pela interpretação nacional que este fez dos resultados das autárquicas, mas rejeitou tomar em conta os resultados das europeias na apreciação que fez da crise política provocada pela demissão de Barroso. Também aqui, Sampaio deixa um legado enviesado. Com a avaliação política que da crise fez, Sampaio reescreveu, na parte que toca aos poderes presidenciais, o texto constitucional. E é uma herança inquietante daquele que recusa ser o notário e declara ser o garante.- PM
 
O santanismo
Segundo um amigo, «o Pedro [Santana Lopes] é um animal político que precisa de se rodear de fidelidades e homens de confiança». A revista do Expresso (último sábado) foi investigar quem são esses homens (e essas mulheres). Com pastas ou na sombra, a partir de agora, são eles que mandam no país.
No grupo dos «independentes estruturais» (também os há conjunturais), destaca-se o gestor António Mexia. «António Mexia é hoje um ministeriável», escreve a jornalista. «Ministeriáveis» são, portanto, todos aqueles que acham que o ordenado de ministro não chega para os charutos. Mexia tem uma filosofia de vida muito peculiar: «ser suficiente é horrível». De facto, para se ser santanista, não basta ser «suficiente», é preciso ser-se mesmo muito mau. A prova disso é que Rui Gomes da Silva é apresentado pelo Expresso como «uma mais valia em termos de massa crítica». No entanto, seria injusto não reconhecer que Manuel Falcão e Henrique Chaves também acrescentam algo ao grupo. Sobre o primeiro, o Expresso diz tudo: «Manuel Falcão escreveu editoriais muito críticos da política do audiovisual. Santana, então Secretário de Estado, chamou-o para lhe ouvir os conselhos e acabou por convidá-lo para dirigir o Instituto do Cinema. Mais tarde, Falcão foi seu chefe de gabinete.» Sobre Henrique Chaves, há quem diga que vai para Ministro Adjunto, o que não pode constituir surpresa, já que foi precisamente essa a função que desempenhou no programa televisivo, Cadeira do Poder.
Respeitando a organização do suplemento, segue-se Manuel Pinto Coelho, o amigo médico. Pinto Coelho trocou o tratamento da toxicodependência pelo tratamento da calvície. «Estou um Beatle», confessou depois de se ter submetido a um implante capilar. Está-se mesmo a ver quem vai ser a próxima cobaia. Quem ainda não deve ter passado pela clínica é o autarca José Raul dos Santos (seja bem aparecido!). A avaliar pelo aspecto, recorreu ao método Fernando Gomes. Ao congresso de Santa Maria da Feira, Raul dos Santos levou «um repositório de ideias», do qual o Expresso destaca a seguinte: «Pedro Santana Lopes é o único político capaz de vestir o fato».
Nos santanistas de hoje, há «mendistas» e «barrosistas» de ontem. É o caso de Pedro Pinto. Segundo o Expresso, «a fase mendista de Pedro Pinto teve início em 1995». Todos passamos por fases complicadas na vida. Por outro lado, a fazer a ponte com o «barrosismo», temos Helena Lopes da Costa, vereadora da câmara de Lisboa. A fotografia da revista mostra-nos uma tia da Costa da Caparica (sem ofensa para o "people" da Costa); mas o texto revela-nos uma teórica do fim das ideologias: «Esses ismos já acabaram. Hoje estamos todos juntos na mesma equipa».
Finalmente, falemos dos assessores. Sobre Rui Calafate, não há muito a dizer (a não ser que, tal como Miguel Almeida, é um sósia de Santana). Mais interessante parece ser o perfil de José Paulo Fafe, conhecido como «o homem que ajuda a abrir portas» - o chamado porteiro. Não se sabe de que discoteca foi porteiro. Sabe-se apenas que é «um exímio imitador de vozes» e que «foi preso numa discoteca em Lisboa». Provavelmente, porque estava a imitar Santana Lopes.- FN
terça-feira, julho 13
 
António Vitorino, seis da tarde


A mesma água não passa três vezes por baixo da mesma ponte. - FN
 
Atrás de mim virá quem de mim bom fará


Artur Jorge sai do CSKA de Moscovo e é substituído pelo seu antecessor no CSKA de Moscovo. - RB
 
Anacronismo acidental
Estiveste bem, muito bem, Rui. - RB
 
O que é bom para Lisboa é mau para Portugal
O dr. Lopes deu ontem a sua primeira entrevista na qualidade de líder do PSD (com Judite de Sousa foi um tempo de antena). Ricardo Costa questionou-o sobre o seu trabalho enquanto autarca da capital. A resposta veio em tom de ameaça: «Muitos dos bloqueios à Câmara de Lisboa vão deixar de existir com a minha saída». - FN
 
Considerações leves sobre o «liberalismo» (IV)
O Dr. Miguel Veiga é uma das personagens mais fascinantes da vida política portuguesa. Há ali qualquer coisa de anacrónico. Ainda há poucos dias, defendia (sem se rir e sem recurso a eleições) a solução António Borges para primeiro-ministro. Segundo o Público, ontem, no conselho nacional do PSD, o Dr. Veiga disse que o que o divide do Dr. Lopes são «as suas visões demasiado liberais». Tudo indica que não sabe o que significa o liberalismo (tanto no sentido económico como político) e que ainda não percebeu o que representa o Dr. Lopes. Não sei se era esta a garantia que o Dr. Miguel Veiga pretendia, mas pode ficar descansado: com este primeiro-ministro não vai faltar «política social». - FN
segunda-feira, julho 12
 
Imparcialidades parciais
Primeiro, sejamos claros: a imparcialidade é uma invenção de juristas para consumo de juristas. Homens ou mulheres que sejam imparciais no sentido etimológico da palavra i.e. que não pertençam a nenhuma parte, estão incluídos na mesma classe dos unicórnios e dos gambozinos: são seres fantásticos. As pessoas de carne e osso têm uma trajectória biográfica e a forma como vivem e avaliam qualquer situação faz-se nos termos de um stock de experiências passadas e de um feixe de redes e identidades sociais, culturais políticas e económicas que partilham e em que estão inseridos. Isto não é uma questão de "devia" - é uma questão de "é". Pela sua própria definição um ser humano imparcial, a existir, seria um alienado total - e para pôr uma decisão nas mãos de um alienado, mais vale fazer um sorteio.
O que se exigia de Jorge Sampaio não tinha, portanto, nada a ver com imparcialidade. O que se lhe exigia era que usasse todo o conhecimento e a experiência de uma vida política de 40 anos para avaliar uma situação e os que nela estavam envolvidos. O que se lhe exigia era que desse às partes envolvidas um tratamento minimamente comparável. O que se lhe exigia era que, na sua decisão, os diferentes argumentos tivessem um peso proporcional à sua relevância e consistência. O que se exigia de Jorge Sampaio era, em suma, que fosse justo. Não imparcial, repito, mas justo.
Ora ao ouvir-se a paupérrima defesa (desculpem-me mas é a verdade) que Jorge Sampaio fez da sua decisão torna-se evidente para todos que não foi. A base formal da sua decisão é o argumento mais fraco que estava na mesa, a existência de uma maioria parlamentar - esquecendo-se que era precisamente porque a existência de uma maioria não era suficiente para assegurar a legitimidade de um novo Governo que a sua intervenção se tornou necessária! Mas ao mesmo tempo que esvazia assim a sua função, assume para a Presidência a posição de tutor do novo Governo, auto-iludindo-se quanto ao alcance dos seus poderes e competências. Esquizofrenia, anyone?
Lamento, mas não acredito que um homem inteligente como Jorge Sampaio tome uma decisão tão grave com base em argumentos tão fracos e contraditórios entre si. O verdadeiro motivo da sua decisão tem de estar noutro sítio: e quanto a mim esse sítio é precisamente a sua obsessão com a imparcialidade.
Sampaio - um jurista, não nos esqueçamos - comportou-se para os defensores de eleições antecipadas (a Esquerda que o elegeu mas não só) como o professor self-righteous que, com medo de que o acusem de favorecer o filho, o obriga a ser e a fazer não duas nem três, mas dez vezes mais do que os outros para ter a mesma nota. Sacrificou o justo e o sensato ao medo, não de ser parcial, mas de poder ser visto como não-imparcial por alguma Direita (que aliás explorou esse medo até à exaustão, não tendo escrúpulos em recorrer à provocação e à fronteira do insulto). Ao fazê-lo, mostrou egoísmo e uma enorme vaidade. E é isso que eu, como cidadão e antigo eleitor de Jorge Sampaio, não lhe perdoo. - PE
 
As garantiazinhas
O «choque fiscal», prometido por Durão Barroso na campanha, mas nunca posto em prática nos dois anos de governo, é ou não uma «mudança radical» de política? Imagino que a resposta seja «sim»; todavia, é cumprir o programa de governo. Em que ficamos?
As garantias de continuidade nas políticas exigidas por Jorge Sampaio não têm qualquer conteúdo político substantivo e não são sindicalizáveis. A ninguém obrigam de forma efectiva e específica (como se exigiria), a não ser o próprio Presidente. Para Santana, são de cumprimento meramente retórico, fácil porque não substantivo. Ou Sampaio vai dissolver daqui a meses dizendo: «Meus Senhores, desculpem lá mas, ao contrário do que se previa, enganei-me»?
Com esta conversa das garantias, Sampaio amarrou-se de pés e mãos ao governo. Com esta decisão, Sampaio vê o seu espaço de liberdade diminuído e não aumentado. Com esta decisão, Sampaio agrafou a sua carreira política ao futuro de um governo que é a antítese ponto por ponto do percurso que o próprio Sampaio simboliza. Com esta infeliz decisão, Sampaio chamou ineptos aos eleitores de esquerda que o elegeram presidente. Ao fazê-lo, chamou inepto a si próprio. Foi a única coisa em que acertou. - RB
 
O caso Jorge Sampaio: uma hipótese de interpretação

- RB
 
Atordoado
Acreditam que ainda não tive estômago para comprar jornais desde sexta? Pois, o tipo de coisa que só me acontecia quando o Sporting perdia com o Benfica. Ainda pensei que a exposição à TV em doses curtas aumentaria gradualmente a tolerância do meu organismo à ideia. Ligo o aparelho e acerto em cheio numa peça com palpites sobre os ministros do governo de Pedro Lopes: Teresa Caeiro para a Cultura, Luís Nobre Guedes para a Justiça, Luís Filipe Menezes para a Saúde, Carlos Tavares para as Finanças, Dan-Din-Tsuri tem menos cavalos agora. O frio intenso e a falta de comida também fizeram as suas vítimas. Há seis meses atrás, as temperaturas nestes prados estavam 60ºC mais baixas do que agora... admitiu instalar a sede do Ministério da Agricultura em Santarém, do Ministério da Economia no Porto e transferir para Faro... partimos agora em direcção a Sul. Até chegar ao Gobi, não há caminhos. Na nossa busca do vale dos dinossauros, em breve temos de abandonar os veículos... Pelos vistos, não resulta.
Sei que não podemos ficar parados perante o que aconteceu. Sei que tenho o dever cívico mostrar a indignação que sinto. Sei que é preciso pensar e agir. Tudo isso virá, com certeza. Por agora, preciso de uns dias para me recompor do momento mais baixo de 30 anos de democracia portuguesa - afinal, sou apenas humano.- PE
 
Emigrar
Um verbo de novo em moda. - RB
 
A entrevista de Santana Lopes
Quando o conteúdo é a forma, o problema reside nas perguntas. A entrevista de Pedro Santana Lopes à SIC teve como único conteúdo, para a SIC, ser um seu exclusivo, para Santana, o simples estar ali a falar sem dizer nada. A pose de estado, a nova maneira de falar, a ponderação em pessoa: traços, todos, todos, a fazer lembrar permanentemente a outra imagem que visam ocultar. Santana estava sempre a dizer que «sobre esse assunto não me pronuncio, tenho de manter reserva porque devo falar antes com o Senhor Presidente». Claro que não mantinha reserva de nada, porque daí a bocadinho lá estava a entrar nos ditos assuntos sobre os quais era suposto manter reserva. Mas então percebia-se que não tinha nada para dizer. Nunca nada de concreto, a não ser as tolices sobre o número e localização dos ministérios. Nada de verdadeiramente novo, portanto. - RB
 
Considerações leves sobre o «liberalismo» (III)
Uma das possíveis justificações para o reduzido número de liberais em Portugal é a ausência de literatura sobre o assunto em português. Recorrer aos originais em língua inglesa para recrutar membros para a «causa» torna-se uma missão quase tão difícil como convencer um daltónico a torcer pelo Benfica. Mais ainda se os textos forem de Ann Coulter, onde uma em cada dez frases é: «It's all liberals' fault». - JHJ
 
Considerações leves sobre o «liberalismo» (II)


Aparentemente, uma das autoras preferidas dos liberais portugueses é Ann Coulter. Em Slander, talvez o mais lido dos seus livros, a autora defende a tese que a esquerda norte-americana faz uso da sua presença nos media para difundir uma série de mentiras sobre os conservadores. Na página 21 (Three Rivers Press, New York, 2002), a coisa parece tornar-se pessoal: «More than any of their other hate speech, the left's attacks on [right-wing] women for being ugly tell you everything». - JHJ
 
Considerações leves sobre o «liberalismo» (I)
Segundo os próprios, em Portugal não há mais do que 13 ou 14 liberais. Tendo em conta o natural exagero de quem conta os seus, os liberais portugueses não serão, de facto, mais do que 10 ou 11. Num universo de dez milhões potenciais clientes, é caso para se dizer que o «liberalismo» está longe de poder ser considerado um produto atractivo no mercado nacional das filosofias políticas. - JHJ
 
Soprar no balão
A minha simpatia política pelo Dr. Sampaio foi crescendo à medida que me encontrava com o Pedro Adão e Silva e o Nuno Costa Santos no bar da primeira candidatura, chamado Espaço Mais. Em certo sentido, cheguei ao «sampaísmo» pela via dos copos. Era jovem, tudo era possível. Sabendo o que sei hoje, acho que - mais do que introduzir o voto electrónico - era importante consagrar na lei a obrigatoriedade de os eleitores soprarem no balão antes de exercerem o direito de voto. - FN
sábado, julho 10
 
Eco
Do discurso de ontem de Jorge Sampaio, para além das consequências conhecidas, fica para mim o eco insuportável desta frase. Completamente contrária à ideia de política que eu tenho. E que eu pensei que o Sr. Presidente tinha:
"Um quadro de continuidade das políticas essenciais, onde além do mais se incluem a Europa, a Política Externa, a Defesa, a Justiça, bem como as políticas de consolidação orçamental, são fundamentais para que possa optar-se pela constituição de um novo Governo." - MVS
 
Uma réstea de confiança em tempos sombrios


While I was waiting, I had this dream one night. Two dreams, really. I dreamt them on the same night. In the first dream, my dad was alive once more, and he was giving me a ride on his shoulders. I was this little kid, maybe five or six years old. Get up here, he said, and he took me by the hands and swung me on to his shoulders. I was high off the ground, but I wasn't afraid. He was holding on to me. We were holding on to each other. Then he began to move down the sidewalk. I brought my hands up from his shoulders and put them around his forehead. Don't muss my hair, he said. You can let go, he said, I became aware of the strong grip of his hands around my ankles. Then I did let go. I turned loose and held my arms out on either side of me. I kept them out there like that for balance. My dad went on walking while I rode on his shoulders. I pretended he was an elephant.

(Raymond Carver, Elephant, The Harvill Press, London, pp. 85-86) - PM
 
Em que mundo vive Jorge Sampaio?
Ouvindo o seu discurso - mais do que uma vez, porque não se acredita à primeira - ocorrem-me três hipóteses:

a)



b)



c)


-PE
 
A restauração coxa do eanismo
Para quem andou tão empenhado, durante as últimas duas semanas, em tentar demonstrar que a dissolução da AR representaria o enfraquecimento da componente parlamentar do sistema de governo, tem na decisão do presidente uma prova de que, afinal, a decisão contrária - ou seja, a de nomear um novo primeiro-ministro sem recurso a eleições antecipadas - é que empurrou o sistema para a sua "presidencialização". E isto é tanto mais verdade se se atentar nos termos em que o presidente justificou a sua decisão, motivando a mesma pelas garantias de suposta continuidade dadas pela coligação parlamentar ao presidente e, do mesmo passo, condicionando a acção governativa - e, julga-se, a manutenção do governo - aos critérios presidenciais. Sampaio acaba de ressuscitar o cadáver do eanismo. Só que o cadáver vem amputado pelos limites constitucionais à acção presidencial que haviam sido introduzidos duas décadas antes. E o novo governo sabe-o bem. - PM
sexta-feira, julho 9
 
Senhor Presidente, encontrei-os

.
- RB
 
Uma maioria, um governo, um presidente


[post feito por Ana Gomes há bocado] - PR
 
Imaturidade
A decisão de Jorge Sampaio faz-me lembrar aqueles alunos que recorrem exageradamente aos formalismos ignorando por completo a intuição. - JHJ
 
Luís Filipe Menezes, no momento em que entregava as chaves das novas casas aos munícipes:
«É inadmissível o tempo que se leva para substituir um governo em Portugal. O mundo avança, e nós andamos aqui a brincar às casinhas-FN
 
Ao contrário de certas e determinadas situações...
«Não me verão seguramente a integrar a próxima solução governativa. Vou honrar este compromisso com a cidade do Porto»
Rui Rio, na cerimónia de inauguração oficial do novo Hotel Sheraton. - FN
quinta-feira, julho 8
 
Entre as trocas e os truncamentos da direita
O FA, em resposta a este post, decidiu brindar-me com um jogo de trocas semânticas a partir das iniciais do meu nome. Depois da prestação truncadora do seu líder em Belém, FA continua, noutro cenário, os tiques malabaristas em que o seu partido é fértil. Aliás, basta dizer que isto vem de quem apoia um partido cujas iniciais se confundem com as do líder. Isso, sim, é fazer o pleno, meu caro FA.
Diatribes à parte, FA, no meio de tanta troca, baralha-se e acaba por confundir o poder de demissão do governo, que assiste ao Presidente para assegurar o regular funcionamento das instituições, com o poder de dissolução do parlamento na sequência da demissão do primeiro-ministro. Mas mais importante, FA não percebe o significado do compromisso institucional. Achará, porventura, FA que quando um presidente nomeia um primeiro-ministro e, como tal, lhe confere a sua confiança política para formar governo na base dos resultados eleitorais, não o faz no pressuposto de que esse primeiro-ministro, enquanto merecer a confiança do eleitorado, executará o programa de governo até ao fim da legislatura? Mas se ainda não percebeu o valor da estabilidade institucional em democracia, recomendo-lhe então a leitura atenta deste artigo - ou a sua releitura, consoante o caso. Perceberá que a dissolução do parlamento, nas circunstâncias actuais, não serve nem a minha, nem a conveniência partidária mas antes um valor tão essencial do regime democrático como a estabilidade institucional. Mas, já sabemos, que esse é o valor que menos interessa a quem se entretém em truncamentos e malabarismos populistas. - PM

P.S. Um conselho amigo: A citação do artigo 195.º da CRP seria, sem dúvida, mais pertinente do que a do artigo 120.º, que com tanto espalhafato invoca.
 
O «novo futebol português»
De vez em quando, aparecem uns optimistas que, perante alguns acontecimentos, acreditam que tudo vai mudar no futebol português. Foi assim com a morte de Feher. Voltou a ser assim com o Euro 2004. Felizmente, existe um programa de televisão, chamado Dia Seguinte, que todas as semanas nos faz descer à terra:

Dias Ferreira - O presidente do Nacional da Madeira não cumpriu a palavra dada ao Sporting.
Guilherme Aguiar - Essa coisa da palavra...
Dias Ferreira - Essa «coisa» da palavra?! O meu pai ensinou-me que é uma coisa importante.
Guilherme Aguiar - Então porque é que não lhe deu importância no caso Toñito?
Dias Ferreira - Não me fale no caso Toñito. Pelo menos não fui comido pelo sistema. Lembro-me bem como é que esse contrato foi assinado. Olhe, só lhe digo que foi preciso muito «escocês»... - FN
 
Spin doctor give me the news, I've got a bad case of ballot blues
Caro JV,
Tendo em conta o descalabro da intervenção de Portas à saída de Belém (ir dar lições ao Presidente sobre o que ele devia pensar com base numa versão truncada dos seus discursos) e dos tiros no pé de Santana quando foi à Judite (aquela das crianças não terem que levar com a cara dele e de Ferro na campanha também é de antologia) eu acho que os seus talentos de argumentação estão a ser claramente desperdiçados comigo. Alguém devia estar a pensar, a assessorar, a escrever os discursos, eu sei lá, de Portas e de Santana neste momento difícil.
Só mais uma coisa. Era mesmo preciso o Portas mudar por completo de vestuário, tipo Britney Spears, entre a reunião da tarde entre os grupos parlamentares do PPD/PSD e do CDS-PP e a reunião com o Presidente? Porque não beneficiar os senhores deputados com o avistamento do fato das risquinhas e do lencinho logo pela tardinha? Sendo esta última vestimenta obnóxia e irritante, não será isso contraproducente tendo em vista a reunião com o Presidente? Parece que não era, parece que era mesmo essa a ideia. Bom, boa sorte e vemo-nos por aí a colar cartazes.
Um abraço democrático. - RB
quarta-feira, julho 7
 
Y'all (lê-se ióle) *


Ninguém - ou muito pouca gente - vota no candidato a vice-presidente, mas John Edwards é uma mais valia para o partido democrata norte-americano na campanha que se aproxima. Não tendo nunca ocupado um cargo público antes de ter sido eleito senador da Carolina do Norte em 1998, o «milionário-de-origens-humildes» é o pesadelo dos estrategas de campanha do partido republicano. Habituados que estão a escrutinar cirurgicamente os «registos de voto» dos candidatos, os homens do presidente-de-guerra parecem ter ficado à toa com o anúncio da escolha de Edwards como parceiro de corrida de Kerry. É verdade que com o extenso e contraditório registo do cabeça de cartaz de Massachusetts, o GOP já tem material suficiente para produzir dezenas de anúncios políticos até Novembro. Mas ter muito pouco ou quase nada para dizer no dia em que o partido da oposição anuncia o candidato a vice-presidente, é de envergonhar qualquer director de (contra-)campanha. Ontem, de facto, só deu John Edwards.
A coisa foi tão descuidada, que o tablóide «New York Post» - do milionário Rupert Murdoch, o mesmo da cadeia de televisão Fox -, tentando antecipar-se, anunciava na primeira página que o escolhido teria sido o congressista do Missouri, Dick Gephardt. Gafe maior, só quando o «Chicago Daily Tribune» se antecipou às réguas de cálculo e titulou na edição matutina a seguir às eleições presidenciais de 1948 que o vencedor tinha sido o republicano Thomas Dewey.
Mas a importância da escolha de Edwards vai para além da sua «inexistência» enquanto alvo de ataque político. Sendo senador do sul, pode não só conduzir o partido democrata a vencer as eleições presidencias em alguns desses estados, como provocar um sério «boost» nas candidaturas do partido democrata em algumas das corridas para o Senado que aí se vão realizar. Louisiana, Arkansas, Tennessee, Virginia e Carolina do Norte voltam a estar no mapa eleitoral de Novembro. No presidencial e no do Congresso. De relevância puramente histórica, não deixa de ser interessante referir que nenhum presidente do partido democrata a seguir à segunda guerra mundial foi eleito sem ter ganho as eleições em pelo menos metade dos estados do «Deep South» (Truman'48, Kennedy'60, Johnson'64, Carter'76, Clinton'92 e Clinton'96).
O último Censos norte-americano mostra que o sul ganhou população relativamente ao midwest e ao nordeste norte-americano, ou seja, ganhou eleitores e representantes no «maldito» colégio eleitoral. Um único «grande-eleitor» pode fazer a diferença. E para aqueles que pensavam que o partido democrata deveria ter investido no economicamente deprimido midwest - que é o mesmo que dizer ter seguido a dica matinal do «New York Post» -, a resposta foi cuidadosa e atenta. Hoje, arranca a pré-campanha da candidatura Kerry-Edwards'04. E arranca em Ohio, o estado do midwest que muitos analistas consideram «too close to call» e um dos mais importantes campos de batalha em Novembro. Ao contrário do Pedro Oliveira, não considero que o «ticket» republicano reúna uma dupla assim tão imbatível. Mesmo com Satanás no lugar de Cheney. - JHJ
(*) Expressão típica do sul dos Estados Unidos que redundantemente significa «vocês todos».
 
Questão
Não sei que mistério te envolve e faz com que
as flores se dobrem quando passas,
caminhando para baixo
para dentro,
não sei porque se afastam as nuvens
quando olhas,
porque correm os rios à altura das tuas ancas,
e uma estranha música de flautas parece
crescer da erva e dos teus pés,
nos prados invisíveis onde vinham beber os animais antigos.
Não sei por que se fecharam todos os portos,
todas as páginas dos livros de sal,
por que lançaram âncora os silenciosos navios
da tua infância,
por que te deitaste no perfumado altar da minha mágoa,
trémula e doce, abrindo as fendas da tua sede,
da tua solidão.

José Agostinho Baptista, Anjos Caídos. - RB
 
Naufrágio


Os pensamentos que pensamos e as histórias que sobre nós e os outros a partir deles fazemos são barcos de papel, embarcações de palavras muito bem dobradas a partir de uma folha em branco. O barco flutua por um instante no lago das palavras. Todavia, a água reclama o barco para si, molhando-o, empapando-o, por fim dissolvendo o papel. A água nada faz - é água - está ali. É da natureza dos barcos naufragarem, pois não são diferentes da água. - RB
terça-feira, julho 6
 
Um número de focas
Santana Lopes e Paulo Portas reuniram-se hoje com os grupos parlamentares do PSD e do CDS. No final do encontro, uma jornalista colocou uma pergunta oportuna ao novo líder do PSD: «Dr. Santana Lopes, se não ouviu a opinião dos deputados, uma vez que só falou quem estava na mesa, como é que garante que tem o apoio da maioria?». A resposta de Santana diz muito sobre si e sobre o estado a que chegou a direita: «Tenho a certeza que a senhora ouviu os aplausos no final da minha intervenção.» - FN
 
O Don Juan de Lisboa
O Daniel Oliveira tem razão. Santana Lopes tinha a lição bem estudada. A última vez que isto aconteceu foi no debate das autárquicas, que acabou como acabou. Confesso que fiquei apreensivo com a performance do «Don Juan de Lisboa» na RTP. O que me deixou mais optimista foi a reacção das pessoas hoje. Especialmente das mulheres. À falta de sondagens pré-eleitorais, contento-me com as palavras de uma antiga eleitora de Santana: «para presidente da câmara tudo bem, mas primeiro-ministro...não sei.» É a versão política da velha máxima «para namorar sim, mas para casar...».- FN
 
Entre a ilusão e a inversão das práticas do regime democrático
Um dos factores que tem turvado a discussão sobre a crise política aberta com a demissão de Barroso reside na tentativa de ver o poder de dissolução parlamentar que assiste ao presidente no contexto da nossa experiência política em democracia. Basta atentar no artigo de Lomba, publicado hoje no DN, para se perceber o equívoco. É que se é verdade que cada presidente se preocupou em deixar a sua doutrina para o exercício desse poder, fê-lo ora em contextos de conflitualidade política com os governos em funções (caso de Eanes), ora no quadro do poder de demissão do governo tal como saído da revisão constitucional de 82 (Soares, sobretudo). Recorde-se que, depois da primeira revisão, o poder de demissão do governo passou a estar condicionado a assegurar o regular funcionamento das instituições. E daí que se compreenda que Soares, em particular, tenha querido conferir a esta fórmula constitucional um sentido político tão lato quanto o espaço de manobra que desejava frente a uma maioria parlamentar homogénea. Na verdade, só na aparência existiu, até aqui, uma tentativa de auto-limitação presidencial do respectivo poder de dissolução do parlamento: o intervencionismo eanista marcou o seu consulado, mas a sua efemeridade aí está para desmentir a auto-limitação; Soares, por sua vez, encontrou na ameaça de demissão do governo para garantir a estabilidade institucional uma forma de aliviar o espartilho constitucional saído da primeira revisão constitucional e, do mesmo passo, conformar a acção política do governo.
Mas Sampaio é confrontado com uma situação radicalmente diferente: não é por causa dele que o primeiro-ministro se demite, não é ele quem demite o governo para assegurar o regular funcionamento das instituições. Sobretudo, a demissão de Barroso não é fruto da irreparável quebra da relação fiduciária com o presidente. Ou melhor, não o é da parte de Sampaio, porque já o mesmo não se pode dizer de Barroso: além do compromisso eleitoral, o primeiro-ministro demissionário - que mereceu, aquando da sua nomeação, a confiança política do presidente em virtude do resultados eleitorais e da coligação que logrou formar para executar o seu programa de governo durante a legislatura - quebrou o compromisso institucional com o presidente. É que não se viu Barroso justificar a sua demissão com a perda da confiança do eleitorado por causa do resultado das europeias. Significa, assim, que abandona voluntariamente a meio um projecto político que, desde logo, personificou diante do eleitorado e que, na sequência dos resultados das legislativas, mereceu a confiança política de Sampaio. E uma demissão voluntária, nestes moldes, é simplesmente uma novidade do nosso regime político em democracia que reclama uma avaliação política autónoma por parte do presidente. Logo se Sampaio dissolver o parlamento na sequência da aceitação do pedido de demissão de Barroso, não será ele a inverter, como defende Lomba, qualquer alegada prática de duas décadas de democracia. Porque a paternidade em matéria da inversão dessas práticas pertence reconhecidamente a Barroso. - PM
 
Instantâneos da democracia (IV)


Manifestação pelo direito de todos os cidadãos, independentemente das suas convições políticas ou ideológicas, a participarem livremente na escolha dos seus governantes. Porto, 14 de Maio de 1958. - PE
 
Três explicações não mutuamente exclusivas
Há três explicações possíveis e não mutuamente exclusivas para não termos ganho o jogo com a Grécia.
Factor sorte - Embora difícil de acreditar, a gravata da sorte do primeiro-ministro grego era mais pirosa do que a do primeiro-ministro demissionário português. Se Paulo Portas tivesse publicamente afirmado que a camisa cor-de-rosa era a sua camisa da sorte, teríamos sido campeões por falta de comparência do adversário.
Factor casa - Durante a meia hora que passou entre a saída do Miguel e a entrada do Nuno Gomes, havia um único jogador em campo habituado a jogar no relvado da Luz: Fyssas, defesa esquerdo do Benfica e da selecção grega. Durante esse período aconteceu o golo da Grécia. Se o jogo tivesse sido em Alvalade, o factor casa jogaria claramente a nosso favor. O «Dragão» não conta porque não é nome de estádio. A prová-lo está o facto de aí termos perdido o primeiro jogo embora metade da equipa fosse do Porto.
Factor cósmico - Há um princípio em cosmologia de nome «antrópico» que diz que o universo que habitamos é possível porque é aquele que permite a existência da nossa espécie. Portugal não é campeão por um reasoning semelhante. No dia a seguir à vitória sobre a Holanda, o jornal Público titulava «Histórico» na primeira página. Nas horas que antecederam o jogo da final, os portugueses fizeram cordões humanos e quase bloquearam a ponte Vasco da Gama. Uns amigos relataram-me que nessa manhã, a caminho do Algarve, viram vacas pintadas de vermelho, verde e amarelo (não garanto que não tivessem abusado de substâncias ilícitas). Cosmicamente, Portugal não poderia ser campeão. De facto, a adjectivação e a intensidade dos festejos já estavam esgotadas quando o jogo começou na Luz. Nada havia a fazer. Não havia mais títulos disponíveis para o jornal Público, mais pontes para bloquear, ou mais vacas para pintar. Tavez na Grécia ainda sobrassem algumas. - JHJ
 
De outro tamanho
Se um dia me perguntarem qual a definição de «grande, enorme, gigante», respondo com o que li num guia de pesquisa rápida sobre animais marinhos: «A língua de uma baleia azul é do tamanho e peso de um elefante adulto africano e o seu coração tem um volume igual ao de um Volkswagen carocha». - JHJ
 
Coach K
Enquanto a Europa esperava serenamente pelo apito final do Portugal-Grécia para conhecer o vencedor do EURO'04 - a Europa toda não; num cantinho à beira mar plantado havia quem confiasse demasiado em gravatas pirosas -, os Estados Unidos viviam suspensos na possibilidade de o treinador da equipa de basketball da Universidade de Duke se tornar o novo treinador principal dos Los Angeles Lakers. What the fuck!? Terei lido bem? - exclama e pergunta o/a leitor(a). O treinador de uma equipa de basketball universitário foi considerado pelos todos poderosos de Hollywood para treinar os todos poderosos Lakers onde jogam os todos poderosos Shaquille O'Neal e Kobe Bryant? - Insiste o leitor mais céptico.
Mike Krzyzewski - «Coach K» para os fãs do maior desporto do mundo, o college basketball - tem sido o treinador da Universidade de Duke ao longo dos últimos 24 anos, competindo em longevidade com a permanência de Humberto Coelho no Benfica. Durante a sua estadia em Durham, na Carolina do Norte, ganhou vários títulos regionais na mais competitiva liga universitária - a ACC - e três títulos nacionais, transformando a universidade fundada com dinheiro do tabaco na maior potência actual do basketball universitário norte-americano.
Ao acenar com um contrato válido por cinco anos no valor de 40 milhões de dólares, e com Kobe Bryant a pressionar Krzyzewski, os dirigentes da equipa da cidade que não tem lagos esperavam que «Coach K» passasse a ser conhecido por «Coach H» (de Hollywood), e que este os ajudaria a recuperar de uma época que não tendo sido desportivamente desastrosa foi muito negativa na difusão da imagem que a instituição pretende representar (o caso do julgamento de Kobe é o mais visível). Mas tal como alguns adivinharam, Mike Krzyzewski disse que não. Que Duke era a casa dele. Que o contracto vitalício que assinara três anos antes, embora simbólico, induzia nos actuais e antigos alunos, nos funcionários e nos professores da universidade uma expectativa de continuidade. Que o que lhe dava gozo era treinar jovens estudantes. Que a qualidade de vida no Triangle é mais agradável do que em Los Angeles - o que é uma evidência. E que o novo presidente de Duke é um bacano. Esta foi uma grande lição vinda de um gajo que aprendi a detestar ao longo dos últimos quatro anos, ou não treinasse ele a equipa rival na terceira maior rivalidade desportiva dos Estados Unidos. - JHJ
 
Bué-bué de longe de Shrek 1


O que eu gostei muitíssimo no primeiro Shrek foi da mistura entre a história infantil e a paródia culta sobre as histórias infantis. De caminho, eram os próprios rótulos «infantil» e «adulto» que ficavam feitos em pedaços. O segredo do sucesso do filme era o sábio equilíbrio da mistura, percebi-o agora. Shrek 2 é desequilibrado. O problema de Shrek 2 é o estar sempre a piscar o olho ao espectador, a puxar da referência e da piadola, a fazer o espectador sentir-se esperto - se percebeu tudo - ou burro - se não percebeu nada. Ou pior, se nem sequer percebeu a medida da sua ignorância. Isto é muito irritante num filme, por excessivamente cerebral. O primeiro Shrek usava a irrisão para iluminar melhor tanto as referências, como a própria fábula. Funcionava nos dois sentidos, e por isso riam crianças e adultos na plateia. No segundo, não. Só riem os adultos.
Eu gostava muito do lado mesmo-infantil do primeiro Shrek, e desta vez esse lado está mais ausente. Para além disso, no meio de tanta referência culta e «adulta», perdeu-se a história, a fábula. E eu não preciso ser criança para achar a história de Shrek 2 uma banhada. Se calhar, porque a narrativa é a única componente a não ter um meta-referente satisfatório. A história dos príncipes infelizes, ogres e verdes, em «Bué-Bué de Longe», ao contrário de quase todo o restante filme, fazendo lembrar muitas outras histórias, fica-se por isso mesmo: faz lembrar muitas outras histórias, e é só. Não se distingue, não ilumina. Não será referência «culta» de nenhum outro filme. Ao contrário, por exemplo, de ambos os «Kill Bill».
No fundo, a Shrek 2 aplica-se o que uma jovem estudante de Erasmus, depois de me ter perguntado o que é que eu fazia em Florença e de eu ter dito, estupidamente, «o doutoramento», me respondeu: «Ganda cromice!!!» - RB


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