<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
terça-feira, agosto 31
 
E ele?


Quem? Ah, ele... Acho que vai estar atento. - PE
 
Palavras para quê?
este homem é que é o Ministro do Mar.

os portugueses "vivem num país livre onde há liberdade de expressão", mas ao Estado compete "fazer cumprir a lei". Paulo Portas dixit.
- PAS
 
América Latina, essa desconhecida
Além de amigo da maior parte dos relativos, o Andrés é um politólogo argentino radicado, em Portugal, pelo destino e pelo amor. Fala e escreve sobre a América Latina com a simplicidade de quem vai percebendo, com a sua meticulosa investigação e curiosidade académicas, a complexidade dessa parte do mundo - e não de quem explica hermeticamente para disfarçar o que não percebe. Tudo isso é fruto de um espírito atento e uma mente altamente inteligente que investiga, disseca e expõe. Não fossem circunstâncias pessoais, provavelmente o Andrés não estaria a viver em Portugal. E não fosse um espírito de abertura de uma instituição académica, como o ISCTE, que contrasta com o atavismo bolorento de outras instituições na área das ciências sociais, provavelmente o Andrés não estaria, em razão da sua nacionalidade, a trabalhar em Portugal. Mas, felizmente, a conjunção do acaso pessoal e da vontade institucional permite que o Andrés nos ajude a compreender e a perceber, talvez como ninguém até aqui em Portugal, essa imensa América Latina. Esta entrevista à edição de hoje do DN é a melhor prova de que é um privilégio ter o Andrés entre nós. Espero que não sejam apenas os leitores do DN a percebê-lo. - PM

 
Com jeito vai...a guerra

- RB
segunda-feira, agosto 30
 
Más ondas
O triste folhetim do barco da women on waves, lamentável desde o princípio, parece ser infindável. E seria um discreto bocejo estival, não fosse a multiplicação dos sinais de máxima gravidade nesta história, que tinha, é verdade, tudo para ser um bom golpe publicitário e um episódio mais ou menos bem sucedido de campanha cívica a favor da despenalização do aborto. Mas não mais do que isso.
Começou com o IPJ a ameaçar os promotores portugueses da iniciativa de cortar financiamentos à organização, por mero garrote de uma inusitada censura de Estado, antes de tentar sequer averiguar se havia irregularidades na utilização de quaisquer apoios públicos. Continuou com a patética e desproporcionada escolta do navio, em águas internacionais, por barcos da marinha portuguesa, que claramente não devem ter nada mais importante para fazer. E arrasta-se com a proibição de permitir que o navio se possa aproximar da costa para atracar.
O mais espantoso de tudo é que esta sucessão de coisas vai acontecendo, na máxima tranquilidade, sem merecer grandes comentários ou justificações por parte de quem toma semelhantes decisões. Do Governo, claro, nem sinal. Como dizia o outro, tudo perfeitamente normal. É isso que é grave. - MC

 
Verão azul
No calendário, o Verão termina um pouco mais tarde, mas com o final de Agosto as férias políticas na prática acabam. E começa a tornar-se inevitável escrever sobre tudo aquilo que, suave e militantemente, tentámos ignorar durante as férias. Acabaram os jogos olímpicos, os fogos que são sempre culpa do calor, as reportagens sobre as bandeiras azuis, afogamentos, salvamentos e afins, poluição das praias ou sobre os "famosos" em veraneio, alheios à "crise" que para aí vai.
Será, então, tempo de o dr. Santana Lopes começar a pensar em ser notícia por razões mais prometedoras do que a escolha do dr. Fernando Negrão para um ministério chamado "da Segurança Social, da Família e da Criança". Ou o debate estruturante em torno da pulseira do Ritz. Ou o truque circense das secretarias de estado plantadas, à pressão, como eucaliptos, pelo país. Ou a mão cheia de entrevistas que foi dando, muito blasé e cheio de si mesmo, no mais puro vácuo.
O Verão chega ao fim e há uma regularidade em tudo isto. Que longe de dissipar as reservas iniciais, começa a assustar. Assustar. É a palavra certa. - MC

domingo, agosto 29
 
Asleep in the back
Were you crushed
Did I rush you
All my time is yours
My twisted heart is yours
The faithless shit is yours
The shameless fits of love that only smother you for moments
Until I fold them up and leave
All yours

Oh you had to ask, didn't you?
Oh you had to know

Show your scars
Not to rush you
The hieroglyphic hints in all the toilet scrawl
Guilty little pins
And all the things I never talk about
Are spilling with the gin
Test how tough you are
All yours

Oh you had to ask, didn't you?
Oh you had to know

Not to rush you...

Elbow, Asleep in the back (2001) - MC

sábado, agosto 28
 
Finisterra
Hoje o meu irmão cumpriu um desejo meu, velho de anos. Percorridas várias ilhas dos Açores, venceu o enjoo e desembarcou no Corvo para o primeiro concerto de uma orquestra naquela terra circunscrita em que a palavra periferia parece um eufemismo demasiado suave, e cinzento, e técnico, para o desolado isolamento vivido no fim ocidental de um certo mundo. Se há poética da insularidade habitada, é ali, na naturalidade daquelas centenas de pessoas, que a encontraremos. Não fui ainda ao Corvo; mas fico hoje um pouco mais próximo do desconforto semicerrado daquele ilhéu. Reconfortado. - MC

sexta-feira, agosto 27
 
A fome que dá ler o Jornal Oficial
* Regulamento (CE) n.o 1483/2004 da Comissão, de 20 de Agosto de 2004, que completa o anexo do Regulamento (CE) n.o 2400/96 da Comissão relativo à inscrição de determinadas denominações no registo das denominações de origem protegidas e das indicações geográficas protegidas (Carne de la Sierra de Guadarrama, Ternera de Navarra ou Nafarroako Aratxea, Carne de Vacuno del País Vasco ou Euskal Okela, Ternera Asturiana e Carne de Cantabria)

* Regulamento (CE) n.o 1484/2004 da Comissão, de 20 de Agosto de 2004, que altera o Regulamento (CE) n.o 917/2004 que estabelece normas de execução do Regulamento (CE) n.o 797/2004 do Conselho relativo a acções de melhoria das condições de produção e comercialização de produtos da apicultura

* Regulamento (CE) n.o 1485/2004 da Comissão, de 20 de Agosto de 2004, que completa o anexo do Regulamento (CE) n.o 2400/96 relativo à inscrição de determinadas denominações no registo das denominações de origem protegidas e das indicações geográficas protegidas (Pimiento Riojano)

* Regulamento (CE) n.o 1486/2004 da Comissão, de 20 de Agosto de 2004, que completa o anexo do Regulamento (CE) n.o 2400/96 relativo à inscrição de determinadas denominações no registo das denominações de origem protegidas e das indicações geográficas protegidas (Farinheira de Estremoz e Borba, Domfront, Kiwi Latina, Valle del Belice e Noix du Périgord)

(in Jornal Oficial da União Europeia, L 273, 21.8.2004)

Será isto a prova de que os políticos só querem tacho? - PM

 
O Público errou outra vez
Sempre que leio alguma peça jornalística sobre algum dos (poucos) assuntos que domino, encontro invariavelmente incorrecções, preguiça, ignorância. E não estou apenas a falar dos comentários dos especialistas em generalidades, mas também no chamado «jornalismo de investigação». Por exemplo, ontem, a jornalista Isabel Braga, escreveu o seguinte na primeira página do Público: «O juiz desembargador Varges Gomes, do Tribunal da Relação, que é o relator do recurso do Ministério Público da não pronúncia de Paulo Pedroso no processo da Casa Pia, foi um dos fundadores da Fundação e Prevenção e Segurança (FPS), criada por Armando Vara, ministro da Administração Interna (MAI) do primeiro Governo de António Guterres.» Sem perder tempo com a insinuação acerca da falta de isenção do juiz, há uma coisa que desde logo me chama a atenção: Armando Vara nunca foi ministro da Administração Interna; nem no primeiro nem no segundo governo de António Guterres. Ora, se o Público funciona assim nos assuntos que conheço, como é que hei de confiar no que este jornal escreve sobre o que não estudei? - FN
quarta-feira, agosto 25
 
O anti-semistimo como barómetro
P. En España está muy extendida la xenofobia contra los moros; en Alemania, contra los turcos, y en Francia también contra los árabes. Todas estas manifestaciones podrían definirse como islamofobia. No supone esto un peligro mayor que el antisemitismo?
R. Usted mismo distingue entre naciones, y en Inglaterra el problema se manifesta de una forma distinta. El desafio del mundo islámico a Occidente se presenta en cada país ante un trasfondo de experiencia nacional diferente. En Alemania, ahora como antes, el antisemitismo es el barómetro y la señal de alarma para el estado de la cultura política. En este síndrome se concentran motivos más oscuros y abismales, anclados también en nuestras tradiciones, y que, ya mucho antes de la época nazi, adquirieron la fuerza de forjar mentalidades. Por otra parte, la xenofobia contra los componentes de nuestra mayor minoría y - por islámica - también mas visible están arraigados en idénticos miedos y proyecciones que el antisemitismo. Incluso están mas extendidos y encuentran en la opinión pública una comprensión también mayor. Los partidos conservadores que se revuleven contra el antisemitismo no tienen reparos en llevar el agua de la islamofobia a su molino. Como ocurre hoy con el ingreso de Turquía en la UE.

(Excerto da entrevista de Jürgen Habermas ao El País, 31.01.2004, p. 8) - PM

 
Essa mancha que perdura
No momento em que Israel é governada por quem ignora a legalidade internacional com a construção de muros; no momento em que o governo de Sharon executa uma política sem outra perspectiva que não seja incendiar ainda mais o que já arde sem cessar; no momento em que uma administração norte-americana ora apoia ora silencia os efeitos dessa política, torna-se ainda mais importante denunciar o anti-semitismo na Europa. A indignação e o agastamento pelo tratamento dos palestinianos não justifica que se cale a repulsa por essa mancha que, de novo, alastra na Europa. Porque o silêncio apenas serve os propósitos daqueles que se dedicam, por ora, à profanação de cemitérios e à queima de sinagogas. - PM

 
O primeiro-ministro e as secretárias
O monstro populista tem várias faces, de tal modo que não só olha para muitos lados ao mesmo tempo, como até por vezes corre o risco de o fazer para lugares contraditórios. Senão vejamos, esta semana, a comunicação social, naquele seu jeito tablóide que tende a tornar-se hegemónico, noticiou abundantemente as diversas nomeações para os gabinetes ministeriais, culminando tudo nas 13 secretárias nomeadas pelo primeiro-ministro para o seu gabinete. A notícia tem um encanto inicial, que à primeira vista faz crer que estamos perante mais um exemplo de políticos que se "enchem" e que "enchem" os seus amigos. A verdade é que pode ser assim e pode não ser assim.
Continue a ler aqui. - PAS

terça-feira, agosto 24
 
Brócolos vermelhos



Um amigo disse-me que eu devia torcer pelo Benfica contra o Anderlecht por causa dos "pontos para o ranking de Portugal". Eu respondi-lhe que isso era tão persuasivo como dizer a um miúdo que ele devia gostar de brócolos cozidos por causa da dose diária recomendada de potássio e do zinco. - PE
 
Desmentido
A propósito do meu post de sábado, «A culpa não pode morrer solteira», recebi o seguinte comment da Dra. Raquel Santos, da empresa Fertagus:
«Lamentamos a falta de conhecimento de quem publica este tipo de artigos. Pois a empresa que assegura o transporte fluvial é a Transtejo e não a Fertagus. Gostaríamos de ver publicado um desmentido no prazo máximo de 5 dias úteis a salvaquardar o bom nome da Fertagus.
Raquel Santos»

Confirmo o meu desconhecimento acerca do transporte fluvial. Os meios de transporte - fluviais, aéreos, marítimos, terrestres, ferroviários ou espaciais - não são o meu forte. Seguindo o exemplo da minha avó, ando a pé no meu bairro e vejo o mundo pela televisão. Foi precisamente através da televisão que soube que um senhor apressado tinha morrido afogado no Tejo, depois de ter saltado do barco antes do tempo. Na peça, a repórter atacava, incompreensivelmente, a empresa de transporte fluvial. Percebi que a empresa se chamava «Fartejo»: tenho mau ouvido. Depois, fontes próximas, informaram-me que se tratava, provavelmente, da Fertagus. Mas a responsabilidade do erro é inteiramente minha. Neste sentido, no prazo mínimo de um dia útil, e a fim de «salvaguardar o bom nome da Fertagus», informo que a empresa que eu pretendia defender «neste tipo de artigos» era a Transtejo e não a Fertagus.
- FN
 
viva l'Italia, l'Italia che resiste


Eu não sei mas suspeito. A Itália anda a ganhar medalhas na ginástica. Primeiro, um regressado Iuri Chechi, bronze nas argolas - que merecia mais, mas os juizes foram caseiros e beneficiaram um grego. Ontem, na barra fixa, um magnífico Igor Cassina, que fez um novo elemento, já com o seu nome, e conquistou o ouro. Iuri e Igor. Ninguém em Itália tem estes nomes. Eu não sei mas suspeito que estes rapazes são filhos da "Italia che resiste", que os pais eram do PCI e incentivaram-nos a fazer ginástica. - PAS
segunda-feira, agosto 23
 
Até ao outro extremo
A meio de Agosto, meio a derreter de calor, uma viagem até ao outro extremo do sistema. Solar.

PLUTO

Excuse me
but I just have to explode

Explode this body
off me

I'll wake-up tomorrow
brand new

A little bit tired
but brand new

Bjork (1997), Homogenic

- MC

domingo, agosto 22
 
Já não há heróis (Francis à parte) IV
Mentira! Que dizer de Overman que todos os dias enfrenta vilões como Vasco Pulido Valente, Luís Delgado, Vasco Graça Moura ou Miguel Portas, tentando impedir que o DN seja o jornal mais aborrecido do planeta Terra? OK, não quer dizer que o consiga sempre...


- PE
sábado, agosto 21
 
Ainda há heróis


Veio da Nigéria para trabalhar nas obras. O Belenenses recuperou-o para o atletismo. Chama-se Francis Obikwelu. É um herói português.
- FN
 
A culpa não pode morrer solteira
Não sei porquê, mas criou-se a ideia de que em Portugal a culpa morre sempre solteira. Preocupados com a sorte da dita culpa, os jornalistas esforçam-se diariamente por arranjar bodes expiatórios. Ontem, no Cais do Sodré, um cidadão apressado tentou saltar para a plataforma antes do barco atracar. Terá calculado mal a distância e acabou por morrer afogado no Tejo. A culpa só podia ser da Fertagus: «por que razão não têm mais seguranças a controlar as saídas dos barcos?», perguntava uma jornalista indignada.
Nos últimos anos, vários jovens têm sofrido traumatismos em resultado da queda de balizas. Admito que as histórias e as causas até possam ser diferentes entre si. Mas em todas parece haver um ponto em comum: antes da tragédia acontecer, os jovens penduraram-se nas barras das balizas. Invariavelmente, os jornalistas exploram a dor das famílias e acusam as autarquias de negligência. Sempre que alguém perde a vida, a responsabilidade, por definição, não deve ser imputável ao protagonista da tragédia. Tirando o pobre do Zé Maria, ninguém gosta de morrer, não é verdade? - FN
sexta-feira, agosto 20
 
Mulheres de Atenas


Vendo ao acaso uma ou outra transmissão dos Jogos Olímpicos - e digo já que para mim os exercícios no cavalo de arções valem 20 finais dos 100 metros - passou-me pela cabeça esta música. É das mais antigas que me lembro de ouvir - nem sei ao certo quando, como ou porquê. Na verdade, nem percebia quase nada da letra e a melodia fazia-me sempre chorar. Mas cá ficou.

...
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas


(Chico Buarque - Meus Caros Amigos, 1976)

Já não há heróis - e ainda bem.- PE
 
Já não há heróis (III)


"Menina! Vai mas é cortar o cabelo!" (Grito comum em Alvalade, c.1993). - PE
 
Já não há heróis (II)
Eu era viciado em romances policiais quando era miúdo. O que era engraçado é que acreditava mesmo que os investigadores davam respostas tortas aos jornalistas, procuravam pistas e sabiam - ou pelo menos queriam - distinguir assinaturas falsas de impressões digitais verdadeiras. Estava convencido, em suma, que tinham como objectivo apanhar o culpado e eram, para o conseguir, capazes de requisitar um carro, passar trinta sinais vermelhos e arrombar a porta à machadada só para o impedir de queimar os papéis comprometedores na lareira. Está visto que poucas ilusões de infância sobrevivem à idade adulta. - PE
 
Já não há heróis (I)
Great costume, nice chick, lousy film.


O que é que querem? É Verão... - PE
quinta-feira, agosto 19
 
Esperteza saloia
Uma vez perguntaram a Salazar por que razão os portugueses, ao contrário de outros povos europeus, não podiam viver em democracia. O ditador justificou-se com a tendência dos portugueses para a desobediência, que, segundo ele, só poderia ser controlada por um Estado autoritário. É, de facto, uma coisa que vem de longe. Durante o PREC, destapou-se a tampa e o país assistiu a mais uma explosão de «desobediência», nuns casos politicamente orientada mas muitas vezes inorgânica. Com a consolidação da democracia, os militares voltaram para os quartéis e a maioria dos cidadãos foi à sua vidinha. A sociedade despolitizou-se, mas o «bichinho» da desobediência ficou. Aqui ou ali, vão surgindo agora «novas formas de luta», de preferência sem motivações cívicas: bloqueando estradas, organizando milícias populares, fugindo ao fisco, ultrapassando limites de velocidade, cuspindo para o chão ou praticando o «tuning» - alguns compatriotas fazem tudo para preservar a gloriosa "identidade nacional".
A última moda é avariar os parquímetros da EMEL. Na minha rua, as máquinas estão todas partidas. A EMEL arranja, mas no dia seguinte fica tudo na mesma. Obter o cartão de residente dá muito trabalho. Passei dois dias na loja do cidadão a mudar o bilhete de identidade, a carta de condução e o cartão de eleitor. Para nada. Pensando bem, é muito mais simples partir aquilo tudo. - FN
 
Oferece-se

Jogador para jogos complicados, fases finais e finais de torneios e competições importantes. Contactar o seleccionador, o presidente da federação de futebol ou o presidente da República de Portugal.

Despediu-se da selecção com um daqueles apertos de mão moles. Aqueles que oscilam ente um pressuposto medo de quebrar e o frete e que deixam sempre uma sensação melosa, meio peganhenta, a roçar o nojo. Sem vigor, frontalidade, vontade. Sem garra! Que estranho texto a propósito de Luís Figo!- SS


 
Onde está o Tony?



Um dilema de Verão do País Relativo - PR

 
Onde está o Silvio?



Um passatempo de Verão do País Relativo - PR

quarta-feira, agosto 18
 
O tempo certo
Há uns tempos, subia a Rua da Escola Politécnica com um amigo quando nos cruzámos com o dr. Souto Moura e o seu imperturbável semi-sorriso. "Olha, aquele ali não era o Procurador-Geral da República"? Era, pois. - MC

 
Uma pequena memória do Ministério Público
Reconheço que não serei a pessoa mais qualificada para falar do comportamento do MP na acção penal. Durante os cinco anos em que exerci advocacia, limitei-me a intervir em processos criminais apenas quando obrigado pelo patrocínio oficioso e, como tal, falha-me a necessária experiência para falar da intervenção dos magistrados do MP na acção penal. Pelo contrário, enquanto advogado, devo ter trabalhado não em menos do que duas centenas de processos no contencioso administrativo - recursos contenciosos de anulação, meios processuais acessórios, acções de responsabilidade civil, acções de perda de mandato, etc. E intervim quer do lado de particulares quer do lado da administração.
Dessa experiência guardo, porém, uma inquietante memória da intervenção processual do MP. Na lei, esta aparece justificada pela garantia da legalidade e é suposto ser guiada pela imparcialidade; na prática, assisti à completa demissão dos magistrados do MP da sua função. Com raríssimas excepções, a intervenção destes resumia-se à defesa, de forma superficial ou mesmo disparatada, da legalidade dos actos impugnados ou da improcedência das acções contra a administração. Questionar a legalidade da acção administrativa, mesmo quando havia bastas e evidentes razões para o fazer, parecia um acto contrário à natureza dos magistrados. Provavelmente por ignorância ou falta de empenho dos mesmos, do seu comportamento processual apenas retenho uma postura servil e irresponsável perante a conduta da administração - e isto aplica-se igualmente aos processos em que intervim do lado desta - e uma atitude desinteressada e preconceituosa perante as pretensões dos particulares.
Ao contrário da acção penal, não está em causa, no contencioso administrativo, o exercício do poder punitivo do Estado e a eventual privação física da liberdade. Mas está em jogo um valor não menos essencial: a preservação da liberdade dos cidadãos face à acção do Estado. A experiência que guardo do contencioso administrativo leva-me, há muito, a descrer na possibilidade de o MP contribuir para a garantia dessa esfera mínima. Só que, tratando-se de uma experiência limitada à jurisdição administrativa, sempre me recusei a daí extrapolar conclusões para o trabalho do MP na acção penal. Com o caso das cassetes roubadas, parece, todavia, que a extrapolação começa a justificar-se. Só que com outra gravidade: o que no contencioso administrativo parecia uma postura processual mais motivada pelo desleixo e pela ignorância traduz-se, na acção penal, num comportamento extra-processual de má-fé. Mas, provavelmente, continuo a não ser a pessoa mais qualificada para fazer semelhantes juízos. Até porque, nesta matéria, parece que o MP se considera melhor qualificado para ajuízar em causa própria. - PM

 
O País Pirata
Com particular intensidade já lá vai mais de um ano, o País anda num processo lento de apodrecimento. Sim, isso mesmo. Apodrecimento, decomposição lenta das suas características essenciais, das suas instituições. Até que ponto este processo é definitivo é que está ainda por saber. É natural que seja difícil identificar uma causa única que nos tenha trazido até aqui. Como em todos os fenómenos complexos, há sempre um conjunto de causas explicativas. Não será, por isso, de excluir que o estado a que chegámos resulte, entre outros factores, de sermos uma democracia menos institucionalizada do que todos nós pensávamos; de termos meios de comunicação social que agem dentro de uma alegre e sobranceira impunidade; e de os agentes institucionais dos quais depende o regular funcionamento da democracia se revelarem manifesta e objectivamente incapazes de desempenhar as funções que lhes competem. Com o panorama que vivemos, é natural que os portugueses lancem um olhar entre o cínico e o fársico sobre as suas instituições e o regime que estas suportam. continue a ler aqui.- PAS
 
Excesso de auto-estima
A presença portuguesa nos jogos olímpicos de Atenas está a ser, genericamente, a desgraça do costume. Mas há um desporto em que batemos recordes mundiais: inventar histórias para justificar más prestações. De facto, é pena não estarmos perante um desporto olímpico, porque no campeonato das desculpas esfarrapadas ganharíamos certamente a medalha de ouro.
Ao longo destes dias, tenho visto as entrevistas dos «atletas» à RTP e constato que a culpa dos maus resultados nunca é deles. Em plenas olimpíadas, o nadador ficou abaixo dos mínimos olímpicos: «a federação não me apoia o suficiente, está a ver?» O velejador deixou cair a vela: «foi da falta de vento, percebe?». A exibição do voleibol de praia deixou muito a desejar: «nunca tínhamos jogado à noite...». O cavaleiro ficou em vigésimo lugar (se calhar, o cavalo constipou-se): «rezei para que ele não caísse do cavalo, o resto não me interessa...», diz a mulher. No tiro, o mesmo resultado, a mesma resposta: «não entrei bem na primeira prova, e depois já entrei na segunda um bocado nervoso». Para quê complicar? Bastava reconhecerem esta coisa tão simples: «isto correu assim porque eu sou uma merda». - FN
terça-feira, agosto 17
 
Isto não é um Procurador-Geral
O país surrealista. Depois do escândalo, de uma gravidade sem precedentes, das cassetes do Correio da Manhã, esse que toda a gente, a começar pelo PR e pelo PM, considera imperativo investigar "até às últimas consequências", mantém-se em funções, com apoio reconhecido do Presidente da República e do Governo, um Procurador-Geral, que dirigirá o corpo de magistrados responsável por investigações cujo resultado, em última análise, poderá à partida ser susceptível de cusar embaraços e pelo menos responsabilidade política ao próprio Procurador-Geral, na medida em que uma das pessoas visadas pela investigação é a sua assessora de imprensa, que era, mas já não é. Parece complicado, não é? O miopismo e o autismo institucionais atinjem a sua expressão plena. Para mais, com argumentos que não fazem sentido: que não se deve substituir o Procurador nesta fase, porque isso pode prejudicar o bom andamento do processo Casa Pia. Sucede que 1. O processo há muito que está por demais perturbado e este senhor não pouco tem contribuído para isso; 2. Há pouco mais para perturbar porque a acusação está feita e, que se saiba, o PGR não terá - não deverá ter - influência sobre o trabalho dos magistrados do MP na fase de julgamento. MK

 
Optimismo de pré-época


Renovei o meu cativo em Alvalade e recebi hoje uma carta a dizer que fiquei por isso habilitado ao sorteio de viagem, estadia e bilhetes para os jogos fora das duas primeiras eliminatórias da Taça UEFA. Estamos ambiciosos este ano... - PE
segunda-feira, agosto 16
 
Chamem-me comodista e avesso ao risco
Não quero ser Nobel. Não quero ganhar um Óscar. Não quero receber o prémio de "Empregado do Mês". Não quero ir aos Jogos Olímpicos.
Só quero um emprego estável, que me dê o suficiente para para pagar as contas, ter algum crédito no banco e sentir-me um cidadão por inteiro.
Um emprego onde não seja explorado e onde os meus direitos sejam respeitados.
Um emprego que me deixe tempo para as coisas que realmente importam, como os meus amores, os meus filhos, os meus amigos, os meus livros, os meus filmes, as minhas viagens ou as minhas idas quinzenais a Alvalade.
Por isso, acho que a escala de "atitudes dominantes" de José Manuel Fernandes me põe algures entre "empecilho ao desenvolvimento do país" e "verme desprezível". Já nem vou dormir esta noite... - PE (que não dá uma para a caixa a jogar à bola mas adora matemática)
 
No meu tempo é que era bom!
Nem de propósito. Escrevo umas linhas sobre a inutilidade do dever ser como ponto de partida para pensar o é e aparece um desabafo de Maria de Fátima Bonifácio (MFB) sobre os seus alunos. E, para o caso de a coisa ter passado despercebida (está tudo na praia e, como com os acidentes rodoviários, os incêndios e os jogos de futebol, toda a gente tem um palpite a dar sobre o ensino), o director do Público dedica-lhe hoje um editorial.
Parece que MFB está aborrecida porque, a cada ano que passa, a "qualidade" dos seus alunos piora. Uma vez que não os conheço, não a posso desmentir. Mas vale a pena ler a tese que MFB partilha connosco a pretexto do seu enfado. É de uma sofisticação impressionante. Tem dois princípios de explicação: um psicológico (basicamente os alunos são uma cambada de mandriões sem cérebro), o outro sociocultural (faltam instituições que lhes incutam "hábitos de trabalho e de disciplina" e sobra uma "cultura de adulação da criança"); tem, claro, uma prova do que afirma (o suposto desaparecimento da "raça" de "alunos que são hoje académicos brilhantes") e deixa implícita uma solução possível para o problema (uma ou duas boas reguadas na infância?). Genial - como é que ninguém se lembrou disto antes?
Dois pequenos comentários. Primeiro a extinção da "raça" dos "académicos brilhantes" deve ser um efeito do microclima da Avenida de Berna. MFB lá terá as suas razões para embirrar com a qualidade e quantidade dos novos investigadores em História da Nova, mas poupe-nos a generalizações. E se está mesmo convencida que isso é verdade, talvez seja mais útil olhar para a falta de incentivos à carreira de investigação e de condições institucionais para a renovação geracional dos cientistas.
Segundo, a estreiteza da visão de universidade de MFB é notável; lembra-me as teorias das elites, nas quais o modelo do membro da elite é, consoante os casos, ou o autor da teoria ou alguém que este odeia. Como MFB é uma excelente académica, a única coisa que a uma universidade deve fazer é produzir excelentes académicos, sendo tudo o resto que lá se passa concessões desprezíveis às hordas de bárbaros que conspurcaram a universidade e a obrigaram a "baixar o nível das aulas" nos últimos 25 anos (diríamos 30, mas não gostaríamos de ser confundidos com aqueles que viam o acesso ao ensino como privilégio de classe, pois não?). E cá estamos no reino moralista do devia: os alunos deviam "aplicar-se a redobrar no trabalho", os alunos deviam pôr o "estudo" à frente do "lazer", os alunos não se deveriam arrastar no bar e nos corredores. Como o é não é o que devia ser, a culpa só pode ser da má-vontade dos alunos - e lá amua MFB. Um belo exemplo de maturidade.
Recomendo antes a MFB um olhar para a "as duras realidades da vida". Às vezes custa um bocadinho - mas garanto que vale a pena. Por um lado, afasta ideias ridículas como essa de que o aumento (extraordinário dado o miserável ponto de partida mas infelizmente ainda longe dos padrões europeus) do número de pessoas com frequência universitária em Portugal tenha tido algum impacto negativo no surgimento de profissionais e investigadores de qualidade.
Por outro lado, permite perceber que, na universidade, o informal (composto pela acção de mecanismos de mobilidade e reprodução social, pela constituição e/ou reforço de redes de sociabilidade ou pela frequência ou alheamento de espaços de aprendizagem política, entre muitas outras coisas) acaba por ter tanta relevância social como os seus objectivos formais. Não é uma questão de devia - é uma questão de é e tem de se contar com ela. Por isso, deixemo-nos de criancices e falemos de coisas sérias, sim? - PE
 
Bem documentado
Ontem vi o filme de Michael Moore que só não foi uma desilusão porque não esperei nada de diferente. A verdadeira derrota americana vi mais à noite, na estafeta 4x100 livres. O vencedor: a selecção da África do Sul, sem juri. Não é Cannes, é Atenas.


- MVS
 
A culpa é sempre do mordomo
Ou da secretária, ou do assessor.- MVS
sábado, agosto 14
 
Dever e haver
Eu devia enfrentar os meus medos, tu devias ter um estilo de vida saudável, ele devia agir de acordo com a lei, nós devíamos fazer escolhas óptimas, vós devíeis amar o próximo como a vós mesmos, eles deviam ter consciência de classe... Dever - o verbo favorito do moralismo, da presunção, do paternalismo e da auto-ilusão.
Há ou não há, é-se ou não se é, quer-se ou não se quer, pode-se ou não se pode. Ama-se, odeia-se ou ignora-se, lembra-se ou esquece-se, percebe-se ou anda-se à nora, faz-se bem, mal ou não se faz de todo. Agora devia-se?! Haverá alguma coisa no devia-se que não seja irritante e, pior, inútil para o que quer que seja?! - PE
sexta-feira, agosto 13
 
Há homens de ferro
Entram pela porta para falar sobre um ano e meio que quase ninguém pode compreender. Há um papel escrito, mas há acima de tudo longas horas de pensamentos sobre o impensável, de sentimentos maiores do que nós, de incompreensão e revolta. Está tudo no papel escrito, mas está acima de tudo na voz e no olhar. Luta pela justiça e pela verdade como quem lutou desde sempre pela democracia e por um país melhor e mais justo. Por mais verdade e justiça que alcancemos nunca desaparecerá a dor e o caos deste ano e meio das nossas vidas. Mas, pelo menos, que alcancemos a justiça e a verdade. No fundo, que alcancemos um país melhor.- MVS
 
Frase retirada do contexto
"É um momento que não se repete. Como não vou viver outra vez, não podia perder esta oportunidade". Jorge Sampaio, depois de uma oportuna tomada de posição sobre um momento particularmente decisivo para o país. - MC

 
O passado que aguarda a futura Comissão
A distribuição dos pelouros pelos membros da nova Comissão foi ontem anunciada. À partida, trata-se de uma repartição sensata e equilibrada que oscila entre a confirmação das previsões e a surpresa: no caso de Verheugen, sabia-se que a Alemanha não poderia deixar de ser contemplada com as pastas da indústria ou da concorrência - saiu-lhe a primeira; no caso de Barrot, surpreende que a França, ainda que beneficiando de uma vice-presidência, fique com um pelouro tão discreto quanto o seu comissário. Ainda assim, destacaria, por ora, a entrega da pasta do comércio a Mandelson. Não se trata de uma coincidência que esta tenha sido precedida pela publicação, no início de Julho, deste White Paper com o título Making Globalisation a Force for Good. Nele, expõe-se a orientação oficial do governo britânico em matéria de comércio mundial, advogando-se uma completa abertura dos mercados europeus em detrimento da "visão mercantilista" com que a UE tem conduzido as negociações na OMC. Ainda que o alcance da estratégia britânica seja mais vasto, ele traduz-se, de imediato, num ataque deliberado aos subsídios da PAC - que, com os subsídios agrícolas americanos, estão a entravar a agenda de Doha e a condenar os agricultores de países pobres à penúria. Como britânico (e trabalhista) fiel que parece ser, espera-se que Mandelson, enquanto comissário, escolha o ataque. Mas se a Comissão de Barroso aceitar comprar esta guerra com o senhor Chirac, sempre tão pródigo a nutrir os bolsos e os excedentes dos seus agricultores com o dinheiro comunitário, terá de obter a garantia de que Blair está disposto a renunciar ao "cheque britânico", essa malfadada benesse concedida outrora à senhora Thatcher. Entre cheques e subsídios anacrónicos, a futura Comissão tem já um encontro marcado com o passado. - PM

quinta-feira, agosto 12
 
Isto só vai lá com um apertão!
O líder madeirense acrescentou que apoia as "necessárias alterações" de leis relativas ao segredo de justiça, sustentando que "em Lisboa nunca se dá o apertão que é preciso dar; as coisas fazem-se sempre por meias-tintas. Nunca se fazem como deve ser".

É verdade, sim senhor! No Funchal, só não se aperta com a despesa. No resto, é sempre a apertar! - PM

 
O poder muda as pessoas
O presidente do governo regional da Madeira, Alberto João Jardim, discorda da proposta de um pacto de regime para a área da Justiça apresentada pelo primeiro-ministro. "Este Santana que agora propõe pactos, para mim já não é o mesmo Santana que conheci", afirmou o líder madeirense.

É verdade, sim senhor! O outro Santana só propunha casinos, piscinas e túneis. Traidor! - PM

quarta-feira, agosto 11
 
Problemas de vizinhança?
Quiçá por ser barato demais (A estrutura vai ficar provisoriamente numa ala do rés-do-chão do Governo Civil, no Palácio dos Falcões [relativamente à qual] não há qualquer encargo de arrendamento ou mobiliário), quiçá por dificuldades de estacionamento (Nesta primeira fase, a secretaria vai funcionar com sete a oito pessoas: o titular da pasta -Pedro Duarte-, o chefe de gabinete, um adjunto, duas secretárias e dois a três motoristas - assumindo que haverá tantas viaturas ao serviço da Secretaria, como motoristas), a verdade é que eles já estão "a ver outro ponto no centro histórico que possa ser mais funcional e no qual a juventude se possa identificar." (com o quê mesmo? Sinceramente, não percebo.). Ou será a vizinhança? Os jovens ainda podem estranhar uma Secretaria de Estado da Juventude, mesmo ao lado de um parque radical! -SS
 
Diz-me com quem andas
Há sensivelmente dez anos, quando Tony Blair iniciou o percurso que o levaria a primeiro-ministro britânico, poucos se atreveriam a prever o que veio a acontecer. Com uma agenda política baseada na vontade de construir um New Labour, capaz de olhar para o futuro, quebrando os imobilismos que tinham afastado o partido do poder por mais de quinze anos e com vontade de romper as resistências de um aparelho arcaico que tolhiam a sua acção, Tony Blair parecia preconizar um projecto de esquerda moderna. Para além do mais, com um sustentáculo ideológico com uma densidade pouco comum na política partidária. No entanto, logo na primeira campanha eleitoral, Tony Blair começou a defraudar as expectativas criadas, dando a entender, em muitos momentos, que estava disposto a fazer cedências à demagogia.
continue a ler aqui - PAS

 
O exílio segue dentro de momentos (2)
Com o rocambolesco caso das cassetes roubadas, volta-se à retórica dos pactos de regime e da revisão dos códigos penal e de processo penal. Quando a lei não é cumprida, seja por incapacidade, incompetência ou falta de vontade, a solução passa pela sua revisão, revogação ou abrogação. De permeio, cria-se uma comissão de revisão e, de seguida, outra de acompanhamento. Tudo isto é prática estafada, mas que apenas se repete, quase por inércia, porque Portugal é, ainda hoje, menos um Estado de Direito do que um Estado de leis. E esta é uma pequena diferença que não tem nada de semântico; é apenas a diferença que não permite que aquilo que lucidamente se reclama no Aviz, sob o título "Acordo Ortográfico de Regime", não seja cumprido. - PM

terça-feira, agosto 10
 
Jogos Olímpicos 2004 (ou promessas não cumpridas)
uma prova feminina - em Atlanta, há oito anos.


Um nadador da minha idade (Pieter Van Den Hoogenband) - em Sydney, há quatro anos.


Sim, gostaria de estar em Atenas.
MVS

 
Lisboa em Agosto
Regressada a Lisboa, ao trabalho e à blogosfera leio em vários blogs inúmeras teorias sobre a maravilha que é passar Agosto em Lisboa. Também partilho(ei) desta ideia durante muitos anos. Meus amigos, desenganem-se: Lisboa só é boa em Agosto se não tiverem estado no paraíso em Julho. No regresso, em Agosto ou noutro qualquer mês, Lisboa é tortura- MVS

 
Um dia de raiva
Ontem em Albufeira, chuva de Agosto. Apesar da "crise" do sector do turismo, largas dezenas de milhares de pessoas a mais num inferno estival, produto complexo de décadas e décadas de especulação desenfreada. Às primeiras chuvas, acidentes por todo o lado, um trânsito caótico. Todas as entradas e saídas bloqueadas, gente sem fim aprisionada no calor húmido e abafado dos carros, a caminho de casa ou das praias, dos centros comerciais, hipermercados e zoomarines.
Triste a hora em que decidi deixar o refúgio de todos os anos numa cada vez menos recôndita ruralidade não muito longe desse aborto urbano para, inocentemente, como todos os dias, tentar comprar jornais. Resultado: um mergulho a frio num caos indizível e bem mais de duas horas para percorrer pouco mais de dois quilómetros. Nem de propósito, chuva e trânsito, muito pior que alguma vez em Lisboa. É verdade que o regresso já estava programado, mas a rejeição, essa, é absoluta. Que melhor dia para voltar? - MC

 
A economia de mercado do senhor Berlusconi
Depois de ter erigido o seu império à custa de benesses políticas que outros lhe outorgaram e dos bolsos de terceiros que generosamente recheou, o senhor Berlusconi revelou-nos, mais uma vez, a sua indefectível crença na economia de mercado. Com a Alitalia a agonizar financeiramente, o senhor Berlusconi exigiu às companhias aéreas concorrentes, mas visando em especial a British Airways e a Lufthansa, que deixassem de oferecer preços mais baixos do que a companhia de bandeira italiana. O senhor Berlusconi é, no fundo, um amante possessivo: gosta tanto da livre concorrência que a quer só para si. - PM

segunda-feira, agosto 9
 
A pesada herança
O Senhor Ministro da Segurança Social, da Família e da Criança declarou há pouco estar preocupado com a situação financeira da Segurança Social. Diz-nos o Senhor Ministro que não, não será fácil ultrapassar o buraco orçamental da Segurança Social, mas que sim, que vai tentar ultrapassar a pesada herança que lhe deixaram. Pesada herança Guterrista? Não. Desta vez fala-nos da herança de Bagão. É só tocar na porta ao lado, senhor ministro, é do lado de lá, ao Deus dará. - MVS

 
Um perigoso revisionista explica-se
Só a falta de tempo justifica a minha resposta tardia à reacção encarniçada do Miguel Dias a propósito do meu post sobre Fahrenheit 9/11 - por alguns apelidado também de filme. O Miguel interrompeu as suas férias para se indignar - o autarca de Santarém, aliás, seguiu-lhe o exemplo por causa da localização da deslocalizada secretaria de Estado da agricultura. Entre a vergonha que me pede e a indignação que espuma, o Miguel parece ver no meu post um assomo revisionista que convém cortar cerce, não vá contagiar algum incauto visitante deste blogue. Se fosse ao Miguel, no entanto, não me preocupava muito; estou certo de que, quem por aqui deambula, é intelectualmente emancipado e passa bem sem o seu cuidado paternalista. Mas, antes que o Miguel interrompa outra vez o descanso estival, vamos lá ao que tanto o empertiga, tentando também dar resposta a alguns dos comentários que foram feitos ao post em questão.
Enquanto documentário, Fahrenheit 9/11 falha em contenção e rigor. Pelos vistos, para o Miguel pouco importa que se meta no mesmo saco a guerra do Afeganistão e do Iraque. Achará, de verdade, o Miguel que a guerra do Afeganistão foi feita para construir um oleoduto? É que é isso que resulta do documentário (já não falando nas inverdades que Moore conta sobre Kazai a esse propósito). Ou pensará ainda o Miguel que a guerra do Afeganistão carece da mesma legitimidade internacional que a guerra do Iraque? Se o Miguel realmente acreditar que foi motivada pela construção de um oleoduto para proveito da uma empresa com ligações a Bush, como insinua Moore, então a resposta parece lógica - e daí ser clara a admiração pelo documentário. Quanto à confluência dos interesses sauditas com os da família Bush, Moore até parecia ir pelo caminho correcto entrevistando, logo de início, Craig Unger, autor, esse sim, de uma investigação meticulosa sobre o assunto revelada neste excelente livro. É certo que Unger dá conta, no seu livro, de como a administração Bush interveio, logo após os ataques do 11 de Setembro, para proteger as figuras sauditas proeminentes em território norte-americano. Mas Unger também revela como o 11 de Setembro se tornou num foco de tensões entre a administração norte-americana e a monarquia saudita - fermentado, aliás, pelo derrube de Saddam na sequência da guerra do Iraque. Para o Miguel, porém, o documentário de Moore prova que, logo após o 11 de Setembro, era a Arábia Saudita que deveria ter sido atacada. Mas se continuarmos na veia simplificadora que o documentário lhe suscita, o Miguel deveria então rever a sua posição e apoiar a guerra do Iraque. É que, com esta, teria de reconhcer que Bush matou dois coelhos de uma cajadada só: derrubou Saddam e enfraqueceu o poder saudita na região sem necessidade de pôr o pé em solo sagrado. Pois é, Miguel! É preciso cuidado com o percurso que Moore convida a trilhar sob pena de se acabar a rever as próprias posições em relação à guerra do Iraque. E, isso sim, é um revisionismo a evitar.
Mas o meu principal problema com o documentário de Moore respeita menos à sua valia documental do que aos efeitos políticos que pode causar no eleitorado americano. Moore fica-se pela dimensão paroquial da guerra do Iraque, tida como um desavergonhado embuste decidida por uns poucos para benefício de uns quantos a troco de muitas vidas americanas. Até aqui tudo bem! Mas Moore omite, deliberadamente ou não, qualquer referência à dissensão verificada na ONU a respeito da guerra do Iraque. O trabalho dos inspectores e as críticas de Hans Blix à administração Bush não são sequer mencionados. Ora, não é sério fazer um documentário, para mais explicitamente apontado contra a administração Bush, omitindo essas referências. Não só porque são elas que tornam sólida e incontornável a oposição à guerra do Iraque; não só porque elas expõem, mais visivelmente do que em nenhuma outra circunstância, a manipulação da administração norte-americana; mas também porque, a ser o trabalho de Moore um trabalho engagé como ele o pretende, a sua crítica teria sempre de passar pelo desprezo da administração Bush pelo multilateralismo e o processo decisório da ONU. Por Moore ter irresponsavelmente descontextualizado o seu documentário, temo que a crítica ao unilateralismo da administração Bush reacenda os sentimentos "isolacionistas" de muitos americanos - o que poderá ser um mau augúrio para o futuro da política externa norte-americana e, logo, para o mundo. Até mais ver, o impacto do documentário será tanto maior ou menor quanto juízos, como este do Miguel, se tornarem mais ou menos dominantes:

Quanto à mãe, e por mais que me custe ter visto algumas cenas com ela, é a prova documental de um aspecto social que se envolve no filme, daí o documentário estar bem feito! Para quem não percebe NADA de documentários! É que a mãe é a prova de que há gente mal informada nos EUA, que há gente a empurrar os filhos mais desfavorecidos para uma carreira militar sem saber o que realmente isso acarreta, a senhora sentiu a morte do filho como uma dor de consciência! E isso não é importante...

Entre tanto empenhamento social, só é pena que o Miguel esqueça a importância do respeito pela dor alheia. - PM

domingo, agosto 8
 
De noite
Um filho doente converte a noite no território de todas as angústias e medos. Os sentidos extremam-se. Tudo depende deles. E a noite é funda. Muito funda. De onde vem tanta escuridão? Onde se escondiam antes estes fantasmas nunca vistos? - PM

sexta-feira, agosto 6
 
Uma boa notícia
Cardoso e Cunha está de partida. Passada a turbulência dos últimos meses, espera-se agora que a TAP continue em rota ascendente. - PM

quinta-feira, agosto 5
 
O Prato do Dia
Uma coisa que é conhecida sobre os governos populistas é que se sabe como começam, mas raramente se sabe para onde nos levam e como acabam. O governo do dr. Santana e dos seus amigos começou muito mal e tem em si um pecado original do qual não se livrará. Falta-lhe a legitimidade do voto. Sem ter sido sufragado, o dr. Santana, quando comparado, por exemplo, com o dr. Jardim, tem essa fragilidade acrescida. Contudo, é ainda demasiado cedo para se saber para onde caminha. Se bem que seja verdade que, até prova em contrário, tudo indicia que caminha de desastre em desastre até a uma varridela eleitoral daqui a dois anos. Não devemos, ainda assim, ter ilusões, pois o pouco que até agora se viu não é nada. Deste Governo, o pior ainda está para vir. E para enfrentar o pior convém conhecer o adversário e estar preparado para lhe fazer face.
Pode continuar a ler aqui - PAS

 
Jornalismo de autuação


Esta é a fotografia publicada na edição online d'A Capital a propósito do trabalho de Bruno Silva sobre a eleição do novo secretário-geral do PS. Começa-se pelo resumo da peça jornalística e fica-se a saber que:

"Ao contrário do que acontece noutros partidos políticos, o líder não é eleito em Congresso. A votação directa não é novidade no PS. Ferro Rodrigues e António Guterres foram eleitos da mesma forma. A novidade é que pela primeira vez os militantes vão ter de escolher entre três candidatos à liderança do partido."

Depois, olha-se para a direita (o que não deixa de ser significativo) e deparamos com dois agentes da nossa querida BT em plena lavra, assim parece, de um auto de multa. Mas o que nos quererá revelar subliminarmente A Capital? Será a eleição do novo secretário-geral considerada excessivamente veloz? Ou excessivamente alcoolizada? Ou simplesmente um excesso? E o camião? Que dizer do ideário camionista associado à eleição? Oh, brilhante este novo jornalismo de autuação. Que venha a edição de amanhã, já! - PM


quarta-feira, agosto 4
 
Certeza estival


"She'll not be back. I reckon I'm safe in promising you that." [Rev. Powell, The Night of the Hunter, Charles Laughton (real.), 1955] - PM

terça-feira, agosto 3
 
Pergunta estival
Terá alguém lembrado João Soares que Santana Lopes não é candidato à liderança do PS? - PM
 
Contra a manipulação: manipular, manipular!
Mandou o acaso que tivesse visto Fahrenheit 9/11 este fim-de-semana em Madrid. Numa sala quase cheia, a sessão acabou num aplauso generalizado - devo confessar que não via semelhante coisa desde que, ainda adolescente, assisti à reviravolta épica de Stalone em Rocky IV. Nada me move contra a ovação numa sala de cinema, antes pelo contrário; só que das duas vezes que fui confrontado com a mesma, achei os filmes em questão horrendos. E, no caso de Moore, menos percebo a razão para o entusiasmo. Moore apresenta-se, desde logo, num contexto cinéfilo - o prémio em Cannes aí o está para provar -, mas enquanto pretenso documentalista. Moore move-se, assim, num território híbrido que o motiva a combinar técnicas de dois mundos distintos como se de um só tratasse - e, em resultado, oferece um produto não só desconchavado, mas duplamente desonesto: enquanto expressão artística e enquanto trabalho documental.

Entre outros defeitos, o problema central de Fahrenheit 9/11 é que se trata de um cadinho de temas que apenas se cruzam pela manipulação do autor. O desfavorecimento das minorias negras ombreia com a fraude eleitoral da Florida; as ominosas relações das famílias Bush e Saud com as férias prolongadas do presidente; a importância e os privilégios sauditas em território americano com a guerra do Iraque; esta com o regime taliban; e o excesso de zelo com a falta do mesmo nos controlos aeroportuários. Pelo meio, explora indecentemente o sofrimento de uma mãe que perdeu o filho no Iraque. Entendamo-nos: qualquer destes temas, tirando o último, merece investigação. Só que uma investigação isolada e séria que apenas associe outro(s) tema(s) se os resultados daquela para tal convocarem. Moore, ao invés, baralha e volta a dar no sentido que lhe convém: que a administração Bush é uma associação criminosa; e, em particular, que a guerra do Iraque seja menos um acto de necessidade do que de vontade. Só que esta última, em vez de ter sido a interrogação de partida como se impunha, foi a certeza sobre a qual Moore construiu o seu produto. Provavelmente, se se tivesse interrogado mais sobre a necessidade de manipular as ameaça e perigosidade do regime iraquiano, Moore teria provavelmente podido demonstrar a extrema irresponsabilidade e perigosidade que a vontade bélica dos protagonistas da coligação (de cuja composição, aliás, amputa inexplicavelmente o Reino Unido e a Espanha), e da administração norte-americana em particular, acarreta para o mundo. Em vez disso, preferiu um caminho mais fácil com receita de bilheteira garantida.

Justamente porque o que me move na contestação à administração Bush e na oposição à guerra do Iraque é a justificação desta através da mais desavergonhada manipulação dos factos e dos sentimentos de insegurança dos cidadãos, o filme de Moore só pode repugnar pela técnica manipuladora de que se socorre. E daí que me surpreendam, ainda mais, os aplausos no cinema madrileno. - PM

segunda-feira, agosto 2
 
Metafísica estival


"Salvation is a last-minute business, boy" [Rev. Powell, The Night of the Hunter, Charles Laughton (real.), 1955] - PM

Adenda: Agradecimentos à desassossegada Sara por esta recomendação - um tributo deveras original e despretensioso a um genial actor. E sobre o corpete, não podia estar mais de acordo com ele; espartilhos, só em política.


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