<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
sexta-feira, dezembro 31
 
Na senda de melhores académicos
Cheguei lá através do incontornável Paulo Gorjão. Paulo Amaral de Sousa, José Peres Jorge, Maria do Rosário Moreira, Rui Henriques Alves e Samuel Alves Pereira, docentes da Faculdade de Economia do Porto, assinaram um artigo fascinante no Público. O célebre texto do Professor Cavaco, o da moeda boa e moeda má, representou para eles um autêntico chamamento divino. Foi uma nova versão do terramoto de 1755: «teve ecos cujas ressonâncias ainda hoje se fazem sentir». Aparentemente, Cavaco deu «voz pública» a uma angústia que paira sobre os «sectores dinâmicos da sociedade portuguesa». Estes novos valores da vida cívica portuguesa confessam que, «no retiro da sua meditação», até já sabiam que «a qualidade dos actores políticos se abandona, regra geral, pelo precipício da decadência». Só que «constatar a realidade de pouco vale» - frase que, vinda do mundo da ciência, não deixa de ser extraordinária. De facto, se constatassem a realidade, se lessem mais e escrevessem menos sobre o que não sabem, facilmente poderiam verificar que o nível de qualificações da elite política portuguesa tem vindo a crescer e é dos mais elevados da União Europeia (Almeida e Pinto, 2001; Freire, 2001).
Mas constatar a realidade dá muito trabalho. Ao ler o artigo, o leitor é convidado a acreditar que há mais virtude na Faculdade de Economia do Porto do que no Mosteiro de Alcobaça. É lá que podemos encontrar «aqueles jovens, os mais capacitados, os mais sonhadores, os mais tocados pela vocação política». Fartos de «fazer de figurantes em jantares e festividades» partidárias e cada vez mais «tocados pela vocação política», estes jovens docentes ameaçam passar à acção. «Se estivessem organizados, constituiriam uma força política e o problema de que padece a nação portuguesa não existiria», desde logo porque os «aparelhistas» passariam a ser eles.
Sinceramente, espero que os partidos continuem a deixá-los «esmagados nas suas mais nobres pretensões». É precisamente de excesso de «nobres pretensões» que padece a nação. Para eles, «A primeira grande questão a que deve responder-se é esta: porque temos assim tão maus políticos?». Depois de ler isto, para mim, a primeira grande questão a que deve responder-se passou a ser esta: porque temos assim tão maus académicos?
Bibliografia
Almeida, Pedro Tavares e António Costa Pinto (2002), «Portuguese Ministers, 1851-1999: Social Background and Paths to Power», South European Society and Politics, Vol. 7, Nº2, Autumn 2002, pp. 5-40.
Freire, A. (coordenador) (2001), Recrutamento Parlamentar: Os Deputados Portugueses da Constituinte à VIII Legislatura, Lisboa, STAPE/MAI.
PS: Aproveito este último post do ano para agradecer à Rua da Judiaria a distinção que me concedeu. - FN
quinta-feira, dezembro 30
 
Campolide

Estação de Campolide (c.1980)

Nada desorienta mais do que a incongruência de uma paisagem que deixou de ser familiar. O aqueduto ainda está lá, tal como a avenida ou o túnel ao fundo. Mas o resto... 15 anos passaram assim, Pedro? - PE
 
Jesus doesn't want me for a sunbeam
Gare do Oriente ao meio-dia de ontem, com vontade zero de correr meia Lisboa para ajustar contas demasiado velhas com a Câmara. Três horas de sono e uma bela alucinação; da escadaria de acesso à plataforma oito, uma enxurrada de guitarras e mochilas arrasta gente entre os 16 e os 29 anos - uma classe etária que lamento abandonar dentro de poucos meses. Parecem eufóricos e ponho-me a pensar que são capazes de ter razão. Está um dia soberbo de Inverno e ainda há zonas da Expo que são agradáveis. O meu comboio nunca mais chega e cometo um erro - pergunto para onde vai aquela multidão. Estão ali para almoçar e para rezar, diz-me uma retardatária.
Um baque. Rezar?! A Direita grita cada um por si, só temos de levar outra vez com Natal daqui a 12 meses, dobrámos o ano nas competições europeias pela primeira vez em 14 anos - e estes vão rezar?! O almoço de celebração ainda vá - mas rezar?! Qual é o problema desta gente?!- PE
 
Sidepost sobre os "castelos no mar": exploração visual
Fazer uma pesquisa de fotografias sobre "albufeira" no google pode-se revelar uma experiência limite. - MC
quarta-feira, dezembro 29
 
Castelos no mar



(Re)conquistada em 1249, no reinado de Afonso III (como aliás quase todo o extremo sul do país) só em Agosto de 1504, em pleno período manuelino, Al-Buhera (que significa "castelo do mar") teve o seu primeiro foral. Isto é, há exactamente quinhentos anos.
Nestes cinco séculos, Albufeira não foi, foi sendo uma terreola ultra-periférica, sobretudo piscatória, empurrada para o mar não por vocação ou destino histórico mas pelo isolamento, pela pobreza e pela irregularidade e aridez dos solos. De caminho, foi praticamente arrasada pelo terramoto de 1755 (a lembrar os tsunamis que por estes dias estão na ordem do dia), de que só recuperaria por completo várias décadas depois. E, como que a confirmar que o destino histórico não estava exactamente no mar, tornou-se no expoente máximo do turismo algarvio das últimas três décadas - que com o que tem de bom, e de muito mau, e que a um dia voltarei, lhe mudou a face para sempre.
Mas ao passear pelas ruas absolutamente desertas do pequeno, ultrapovoado e quase engolido centro histórico de Albufeira, ou o que resta dele do caos em volta, como de todas as outras vezes não encontro nenhuma semelhança destes pequenos sítios com o que, a meses intervalados, toma conta desta terra. Albufeira é cidade desde 1986 e resistiu a tudo, aparentemente, menos à impiedosa voracidade do mercado. Mas o que haveria - de factos e de razões - para resistir? - MC

 
o tempo da memória
O ano que está para acabar teve uma característica distintiva: o seu tempo, o ritmo a que passou. Bem sei que há uma urgência que nos leva a dizer o mesmo no fim de cada ano que passa. Mas, tendo a acreditar que neste caso não terá sido assim. Em 2004, combinaram-se os tempos demasiado velozes, com os tempos lentos e persistentes. Isto porque neste ano, o modo como percepcionámos os acontecimentos e os transformámos em memória foi, em si, diferente de um passado não muito distante. continue a ler aqui. - PAS
 
Corte de cabelo

Há uma forma muito simples de se perceber se um político do Leste é pró-ocidental ou pró-russo: basta olhar para o corte de cabelo. Invariavelmente, os pró-ocidentais usam o tradicional risco ao lado enquanto os pró-russos preferem o cabelo todo para trás, pintado e cheio de laca. - FN
terça-feira, dezembro 28
 
Sontag
Faleceu hoje, aos 71 anos, a escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag. Odiada por muitos, adorada por outros. Registo aqui a sua morte, mas também a ironia de ter morrido com um cancro, doença sobre a qual escreveu, aliás, brilhantemente em A Doença Como Metáfora e a Sida e as Suas Metáforas (editado em Português pela Quetzal).- MVS
 
Geniais, eles é que são geniais
Passei este ano por três natais e em qualquer um dos três se viu o DVD do Gato Fedorento. Conseguir pôr a rir adultos de todas as idades e crianças não é para todos. É mesmo só para eles.- MVS
 
Escreve o Pulga:
«Hoje não estou de acordo com o Filipe Nunes. Creio que o insuficiente conhecimento dos dossiers não decorre da ausência de recursos por o PS estar na oposição (como o Filipe Nunes já sustentava, aliás, numa conversa virtual que mantivemos há dias). O PCP, que também está afastado da governação, conhece a realidade (e tem sempre os números na ponta da língua). Para isso não é preciso ter mais de dois ou três técnicos que, por exemplo, esquadrinhem as estatísticas do INE. Neste sentido, o que parece faltar ao PS é organização
Caro Pulga, de acordo com os dados disponíveis, o PCP tem 661 funcionários e o PS 85. O PCP pode estar em declínio eleitoral, mas continua organizado à semelhança da burocracia do Estado. E isso faz toda a diferença.
De resto, o artigo de João Cravinho que o Pulga cita é bom, como quase tudo o que ele escreve e diz. Além disso, não me custa nada admitir que a lógica dos «adesivos» (gestores, dirigentes da administração) parece revelar uma estratégia mais virada para administrar o Estado do que para mudar a sociedade (de facto, onde estão os sindicalistas? os movimentos sociais?). - FN
segunda-feira, dezembro 27
 
Relativismo moral
Li no Expresso que o professor João Carlos Espada está a escrever o programa eleitoral do dr. Lopes. - FN
 
As astrólogas valem o que valem
Linda Reis lançou as cartas e garante que o PS não vai ganhar as eleições de 2005. - FN
 
Santana a caminho do Centro de Emprego
«É muito difícil querer trabalhar e não ter trabalho
Da mensagem de Natal de Sua Excelência o Primeiro-Ministro Demissionário- FN
domingo, dezembro 26
 
Eu bem os vejo
Contaram-me que uma cidadã beneficiária do Rendimento Social de Inserção tentou viajar este Natal para o Canadá com o seu filho. Era a família emigrada que lhe pagava o voo, mas o Ministério da Solidariedade e da Criança ameaçou cortar-lhe o apoio perante tão extravagante exibição de riqueza. - FN
quinta-feira, dezembro 23
 
Negativo com negativo
A propósito do ainda Ministro Nobre Guedes: o que é que acontece a um ministro demissionário de um governo demissionário? Não ficará com mais "poderes"? (designadamente no contexto de um pacto pré-eleitoral de não agressão).
- PAS
 
Podia ter sido pior


Fernando Rosas escreveu ontem, no Público, que estes quatro meses de Santana não podiam ter sido piores. Está a ser injusto. - FN
quarta-feira, dezembro 22
 
A branco no orçamento para 2005
Parece que hoje saiu nos principais jornais diários um encarte que explica aos portugueses as opções que orientam o Orçamento de Estado para 2005. Pois bem, comprei o Público e o DN e nada de suplemento. Fico, portanto, na ignorância. O Orçamento que era opaco e que, finalmente hoje, se terá tornado transparente e colorido para os portugueses continua um mistério para mim. -MVS
 
Desnorte - um episódio mais
Não vi o tempo de antena do PSD, embora corra por aí que foi um dos melhores de sempre. Delírio, humor nonsense, total alheamento da realidade. Perdi o tempo de antena (ao mesmo tempo que perdia a gloriosa jornada de taça na luz), mas vi os anúncios na imprensa a publicitá-lo, e só eles já dizem muito do que se passa no PSD hoje em dia. Um deles dizia que o líder do PS se ia fechar sozinho para assistir a tão fantástico programa, o outro grunhia qualquer coisa como "o Francisco Louçã pode ver, que não vai perceber". Marketing tonto, agressividade na linguagem, tom pouco usual num partido de governo (a fazer lembrar as campanhas do Bloco, mas sem piada nenhuma). Acima de tudo, total ausência de bom gosto e de bom senso. Mas quem depende absolutamente de marqueteiros importados (ou não importados, pouco importa) está sujeito a estas coisas. - MC

 
El insulto definitivo español [ou português]
(...) Raro es el hombre español con más o menos notoriedad de quien no se insinue o diga en algún momento exactamente eso, que es «maricón». Yo lo he oído, en privado o en público, de cantantes, actores, toreros, escritores, periodistas, políticos, directores de cine, presentadores de televisón y de quien no. Por lo general, además, lo he oído decir de quienes no lo eran, quiero decir homosexuales, y casi nunca en cambio, de quienes sí, como si no valera mucho la pena llamárselos a sí mismos en broma. Por mucho que los también conocidos como gays parezcan estar aceptados en nuestra sociedad, por mucho que no haya programa de televisón sin algún colaborador que ejerza subrayadamente de tal, por mucho que se les rían las gracias y se los jalee y aplauda (a veces solo por eso, por su confessada opción sexual), late por debajo la misma inquina de siempre hacia ellos, el mismo menosprecio y la misma burla, por parte de los varones como de las mujeres hispânicos. (No pocas de éstas, por cierto acusan de «maricón» a cualquier hombre que no responda a sus avances lascivos, en vez de perguntarse si no le han gustado: la más primitiva reacción de despecho, que aún pervive). Qué clase de hipocresía envuelve a demasiados españoles? El adulado cineasta de la tan amable cinta va de «superprogre» de toda la vida; el crítico cinematrográfico se las da de iconoclasta y transgresor; la columnista, de desparjada, y dice adorar siempre a los gays (lo cual es ya una forma de descriminación). En público, no solo ninguno emplearía jamás el vocablo «maricon», sino que todos saldrían pomposamente en defensa de los homosexuales un día si y otro también. Pero ah, en privado... Cuando ya no saben qué más decir de quien detestan, trás haberlo puesto de vuelta y media por malo; cuando ya no les quedan palabras pero aún han de seguir, ah, esto es lo que todavia resulta definitivo en España: «Fulano es un maricón». Sucede mucho, sin césar. Y más allá, mucho más allá de la anécdota personal, la cosa da que pensar. Y deplorar.
Javier Marías, 2003, Harán de mí un criminal, Alfaguara, pp. 285-86. - FN
 
os adesivos
A expressão "adesivismo" não é nova na história política portuguesa. Remete para o processo de rápida conversão em massa quer de políticos, quer da imprensa monárquica ao regime republicano saído da revolução de 1910. No passado, o "adesivismo" foi um fenómeno que se confundia com a desideoligização, o pragmatismo e as relações clientelares e de patrocinato que predominavam na política portuguesa do final do século XIX e início do século passado. Hoje, transvestido de formas por vezes menos explícitas, o "adesivismo" continua a ser um fenómeno muito presente na política e na sociedade portuguesas. continue a ler aqui.
- PAS
 
Não faças como eu faço
"É preciso que se acabe com a demagogia"
Bagão Félix em entrevista à TVI
- PAS
terça-feira, dezembro 21
 
Seria feio, não fora patético


Hoje Santana Lopes e Bagão Félix deram, à hora de almoço, uma espantosa conferência de imprensa para reconhecer a dimensão do seu falhanço no cumprimento da meta para o défice. O seu que é também, como bem assinala a Pulga, o de Durão e de Ferreira Leite. Mas, para além disto, que é o essencial, houve ainda tempo para a dupla, mesmo na hora da despedida e com o precioso auxílio de uns quantos recortes de jornais, fazer como as crianças que se portam mal no recreio e que, em lugar de assumirem as suas responsabilidades, apontam o dedo para os outros, dizendo: eles também fizeram. É uma coisa feia nas crianças e patética nos adultos. - PAS
 
Pode um cego ser ministro?
O ministro do interior britânico, David Blunkett, demitiu-se na semana passada. Blunkett, cego nascença, numa trágica exibição de virilidade e mobilidade social, trocou o cargo político pelo prazer da publicitação de uma história de adultério com uma administradora da conservadora Spectator. Todos os pormenores aqui na Praia. - FN
 
tento acordar todos os dias assim



- PAS
 
Voltar a acreditar
Ontem metemos mais posts que o barnabé - FN
 
São assim os partidos de cartel
Lendo a imprensa, nota-se que começa a crescer na militância do PS uma certa insatisfação com a adesão de apoiantes de última hora. Que conhecidos apoiantes do PSD se virem agora para o PS não surpreenderá ninguém. Mas porque razão está o PS interessado nesses apoios? As razões eleitorais não explicam tudo. Na oposição, os partidos ficam sem contacto com a administração e deixam de acompanhar diariamente o que se vai fazendo. Como não têm autonomia, os gabinetes de estudos, na prática, estudam muito pouco. Quando regressam ao poder, PS e PSD precisam de estabelecer pontes com gente que garanta informação e continuidade governativa. O chamado «bloco central» administrativo é indecoroso mas funciona. - FN
segunda-feira, dezembro 20
 
E eu só a (ou)vi uma vez


PJ Harvey anunciou na sexta-feira num concerto em Paris que abandona os palcos. Será?
- MVS
 
«Estabilidade e Competência»
.
SIC Notícias: O Eurostat chumbou o plano do governo de cedência de edifícios públicos para salvar o défice. - FN
 
Não é apenas o mesmo idioma que os separa
Debate na televisão alemã sobre o futuro ingresso da Turquia na UE. Entre o cepticismo de um ministro do Land de Brandenburgo e os cenários apocalípticos de um emérito historiador, Otto Schily, ministro do Interior, desmontou com firmeza as acusações e os receios. É salutar ver que o governo do país que supostamente mais tem a temer com a possível entrada da Turquia na UE, não só por ser o maior contribuinte do orçamento comunitário, mas também por nele residir a maior comunidade turca, defende tão veementemente a candidatura da Turquia. Obviamente que o preconceito em relação à comunidade turca predomina na Alemanha e, há que não escamotear, a integração daquela nesta não foi um caso de sucesso. Que cómodo seria, por isso, para o governo alemão remeter-se a banais declarações de apoio, mais ou menos envergonhadas, sobre a futura entrada da Turquia sem com isso arriscar o apoio do eleitorado. Mas a intervenção de ontem de Schily - que vem na sequência do que têm dito, nos últimos três anos, Schröder e Fischer - prenuncia uma intervenção activa em defesa dessa adesão mesmo contra o sentimento dominante da sociedade alemã. Dirão que é a dimensão do mercado turco que move o entusiasmo alemão. Seja! Mas antes a motivação mercantil dos alemães que o preconceito atávico dos vizinhos austríacos.

A sul, passados os Alpes, temos um primeiro-ministro que foi um dos mentores do célebre "plano B", ou seja, a constituição de uma associação privilegiada com a Turquia em caso de falhanço negocial com as autoridades turcas - sabendo-se que o "plano B" é já um primeiro passo para esse falhanço. Derrotado pelo seu próprio partido na defesa deste caminho, Schüssel decidiu agora que a Áustria realizará um referendo no final das negociações - na senda, aliás, do que fez Chirac. É, no mínimo, espantoso que um país que passou o pós-guerra a iludir o seu passado mais recente com mentiras e deturpações (e turismo) se reserve o direito - será moral? - de se pronunciar sobre o mérito da adesão turca. E é ainda mais assombroso que o primeiro-ministro que se coligou com o senhor Haider, e que foi por esse facto alvo de inéditas sanções da parte da UE, estrebuche contra a Turquia.

É certo que os turcos estiveram, no passado, às portas de Viena - e não para fazer turismo. Mas teremos de recordar o senhor Schüssel de que o acosso otomano há muito terminou? E de que os austríacos, há umas poucas décadas, até saíram à rua para vitoriar um outro invasor? E de que, sem embargo disso, a hospitalidade concedida pelos austríacos ao dito "invasor" não foi motivo para referendar a adesão da Áustria à UE? Kraus dizia que o que separava a Alemanha e a Áustria era o mesmo idioma. Pelos vistos, também a partilha da memória os afasta. - PM

 
Em tempo de eleições - as promessas
Das diversas notícias de que o PÚblico tem dado conta sobre o Rendimento Social de Inserção (ex Rendimento Mínimo Garantido) nos últimos dias a de hoje é uma das mais impressionantes - 55 Mil Processos por Reavaliar, 260 000 pessoas ainda no RMG. O RSI completa um ano e meio de vigência e estão disponíveis os primeiros dados da aplicação desta medida e das alterações efectuadas, que tinham como propósito essencial o maior rigor na aplicação e um maior sucesso no processo de inserção. 18 meses depois os números evidenciam exactamente o contrário ? os dados de execução revelam enorme ineficácia na aplicação e pouco sucesso na inserção dos beneficiários. A suposta falta de rigor do Rendimento Mínimo deu lugar a um processo infindável que, por culpa das aplicações informáticas (como sempre), mantém uma imensa maioria de pessoas apoiadas por uma medida que já não existe (e que não prestava). Qual será o discurso dos dois partidos da actual maioria sobre o Rendimento Mínimo, grande bandeira do PP nas últimas eleições? Aguardemos...- MVS
 
Vantagens comparativas
Serve o post anterior para lembrar a muito boa gente que não vale a pena vir agora dizer que Durão, Ferreira Leite e amigos (nos quais se incluiam os Arnauts, os Morais Sarmentos, as Cardonas, os Bagões, os Theias, entre outras grandes figuras que eventualmente esqueço) eram "sérios", "competentes", cheios de qualidades. E que tudo desabou, por inesperada infelicidade, nos últimos quatro meses. Não é verdade.
Não cumpriram o que prometeram, fizeram mesmo o contrário do que prometeram; degradaram a confiança das pessoas na economia e, talvez ainda mais grave, nos políticos; agravaram significativamente o défice público com uma criatividade orçamental que faria corar aqueles que tanto criticavam no passado; desinvestiram de forma escandalosa na ciência, na educação, na cultura em detrimento de grandes desígnios nacionais como o orçamento da defesa; lançaram um ataque preconceituoso e inexplicável aos ganhos de protecção social conseguidos nos últimos anos em nome de uma agenda liberal na economia e no emprego, e revanchista-conservadora face aos direitos de cidadania dos mais desfavorecidos; entre muitas outras tropelias.
Acima de tudo, foram quase sempre um mau governo - às vezes, muito mau. Claro que eram melhores, ou menos maus, que Santana. Mas quando esse é o termo de comparação está tudo dito. - MC

 
Os ilusionistas
Manuela Ferreira Leite apostava tudo nas "exportações". Durão Barroso andava há um ano e meio a anunciar a retoma, muito antes de trocar Portugal e o compromisso assumido com os eleitores pelas suas ambições internacionais. Mas a realidade, como já se sabia, é outra, bem menos fantasiosa. - MC

 
E estará inscrito em algum sindicato?
"Uma coisa são os banqueiros, outra é o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, que é um bancário".
José Luís Arnaut ao Expresso, sobre João Salgueiro. - MC

 
Missão impossível
Santana Lopes: Eu não sou daqueles que mudam de opinião todos os meses.
Constança Cunha e Sá (TVI): Pois não, até há quem diga que muda de opinião todos os dias. - FN
domingo, dezembro 19
 
Artista convidado para jantar do PS



Aguenta-te, Filipe. - FN
 
Extinção
São incontáveis as espécies animais extintas ao longo das últimas décadas, boa parte pela acção directa do homem, outras com a sua discreta complacência ou indiferença.
Um exemplo famoso dos primeiros, directamenre dos exóticos antípodas e tão distantes de nós, é o Tigre da Tasmânia - cujo último exemplar vivo foi capturado em 1937 no extremo ocidental da ilha e sobreviveu durante quatro penosos dias numa pequena jaula do jardim zoológico de Hobart. É um caso famoso talvez porque há umas breves imagens filmadas, corroídas pelo tempo, desse último animal orgulhosamente enjaulado. Nas décadas anteriores, este marsupial de média dimensão tinha sido sujeito à perseguição, envenenamento e abate sistemático pelos criadores de gado e pelo governo australiano.
Outro exemplo famoso, e bem próximo de nós, é o do famigerado lince da malcata, objecto de grande comoção pública mas, é a realidade que insiste em dizê-lo, fatalmente extinto - ou, numa linguagem mais optimista e piedosa, pré-extinto, como alguns continuam a dizer. Há, de facto, quem acredite que o lince ainda sobrevive, de noite, em locais ermos e escondido dos olhares humanos, mas não nos enganemos: há paralelos a esta crença em muitos sítios do mundo acerca de espécies desaparecidas. Aliás, ainda há quem acredite que o tigre da tasmânia, sessenta e tal anos depois, sobrevive nos locais mais inacessíveis e protegidos da Tasmânia. A esperança é a última a morrer, e as mitologias nacionais fazem o resto.
Num Público dos últimos dias, leio que a sobrevivência do primata que mais se assemelha à espécie humana, o chimpazé pigmeu ou bonobo está em risco de extinção ainda mais sério que a outra espécie de chimpazé conhecida. De tal modo que não foi avistado, num estudo recente, nenhum exemplar vivo e apenas foram detectados vestígios nalgumas áreas do Parque Nacional de Salonga, no Congo - criado em 1970 para efeitos de protecção destes chimpanzés na única região do mundo onde existem. Causa principal da situação: a caça.
Comoções desnecessárias à parte, ninguém me convence de que não há algo de profundamente errado em tudo isto: não somos apenas espectadores desatentos e desinteressados da extinção da forma de vida mais parecida com a nossa, somos parte activa, consciente e decisiva dessa morte. Se isto não é trágico, e um péssimo sinal, então o que é? - MC

sábado, dezembro 18
 
Perguntar ofende (3)
Em 19 de Novembro havia escrito o seguinte a propósito da pergunta do referendo sobre a constituição europeia, tal como aprovado pelo parlamento:

A pergunta para o referendo sobre a Constitutição europeia foi, ontem, aprovada pelo Parlamento. Os parlamentares portugueses, em matéria de referendos sobre a integração europeia, movem-se por uma irresistível pulsão para a atrapalhação, complicação e confusão. Em 1997, andaram às voltas com um projecto de referendo sobre o Tratado de Amsterdão e saiu isto: "Concorda com a continuação da participação de Portugal na construção da União Europeia no quadro do Tratado de Amsterdão?". "A participação na construção", um conceito muito cristalino e rigoroso, como qualquer um pode perceber. Não surpreendeu, por isso, que os juízes do Constitucional a tenham atirado para o lixo da história parlamentar, alegando falta de clareza e objectividade. Agora, os nossos deputados reincidiram na coisa e saíu-lhes esta fórmula: "Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?". A carta, a regra e o quadro. Simples, não é? Não percebeu? Os direitos, as votações e as instituições. Viu, muito claro! Não percebeu ainda? Olhe, não se aflija. Pense antes se quer continuar a participar na construção. Verá como se fará luz!

Ontem, o Tribunal Constitucional "chumbou" a pergunta por não respeitar "os requisitos de clareza e de formulação da pergunta para respostas de sim ou não" tal como previstos na Constituição. A decisão dos juízes do Constitucional apenas pode surpreender os espíritos incautos dos parlamentares que aprovaram a pergunta. Independentemente das dificuldades que o texto do artigo 115.º da Constituição coloque à feitura de um referendo sobre a constituição europeia, exige-se dos parlamentares que deixem de ver em cada novo tratado europeu o pretexto para exercícios cabalísticos que apenas prejudicam a discussão da integração europeia em Portugal.

Se a vontade é realmente a de fazer referendar cada nova fase da integração, então que se seja consequente com essa opção e se passe a permitir o referendo sobre tratados internacionais - o que exige nova revisão constitucional. É uma opção que me parece altamente discutível, tendo em conta os numerosos tratados e acordos internacionais de que Portugal é signatário e que são de relevante interesse nacional, para usar a expressão da nossa Constituição. Não consta, por exemplo, que haja grande preocupação no nosso país com as decisões da Organização Mundial do Comércio, nem que tivesse havido a preocupação de referendar os acordos que levaram à sua criação - e, no entanto, as suas decisões têm um impacto directo sobre empresas e cidadãos, ainda que pouca gente disso tenha percepção. Ou tão-pouco se ouviram vozes a reclamar um referendo sobre o recente tratado de adesão à União Europeia dos países de leste - sendo que as consequências que daí advêm para Portugal, sobretudo as financeiras, não são propriamente despiciendas.

No entanto, a malaise de uma minoria com a integração europeia, e sobretudo com a constituição europeia, tratada como uma golpada de uma perigosa seita federalista, levou a que o referendo tenha sido visto como panaceia para as dores dos soberanistas. Uma oportunidade para um amplo debate. Um momento de participação dos cidadãos na construção europeia. Mas a nobreza dos motivos não chega para esconder que o essencial do debate esteja, hoje, a ser consumido pelo acessório de uma pergunta. - PM

sexta-feira, dezembro 17
 
e contradizem-se e contradizem-se
ministro Daniel Sanches demarca-se das acusações do secretário de Estado
- PAS
quinta-feira, dezembro 16
 
Já cá cantam


O carteiro deixou um presente e os bilhetes já estão na minha gaveta. O único mal desta antecedência que a compra virtual permite é o tempo que tenho que passar em contagem decrescente. - MVS
 
Troca de intimidades

Bookcrossing
n. the practice of leaving a book in a public place to be picked up and read by others, who then do likewise

(acrescentado ao Concise Oxford English Dictionary em Agosto de 2004)

Ontem vi no público que havia algures um encontro de bookcrossers - gente simpática que, anonimamente e com um desapego corajoso, troca livros entre si por mecanismos tão simples quanto misteriosos. Há, é certo, uma vertigem quase compulsiva em tudo o que implique manusear livros, e em fazê-lo de todas as formas possíveis. Porque não abandoná-los com carinho em recantos previamente combinados, à espera de alguém que os queira? Porque não usufruir dos livros que outros abandonaram também por entre os seus dias? Porque não imaginar o outro que lê ou leu o que lemos, nas mesmas páginas, nas mesmas exactas folhas de papel? Mas depois este fascínio dá lugar ao terrível medo da perda. É que, por mais objectificado que o invólucro físico dos livros possa ser, e por mais sacralizado que seja o lugar que o capitalismo deu à propriedade das coisas gigantes da vida, poucas coisas são tão profundamente nossas como as palavras que lemos. E como os livros a que chamamos nossos. - MC

 
O envergonhado
Bem sabemos que a própria maioria tem a nítida percepção que isto é o fim de festa, mas talvez fosse bom não perder completamente a noção do ridículo. Como aquele em que incorre um membro do governo que diz publicamente ter vergonha de um serviço por si tutelado directamente e sobre o qual tem total responsabilidade política. Ora, o referido secretário de estado: não é desmentido; não é demitido; não se desmente a si próprio; não se demite; ninguém do governo se pronuncia sobre o assunto. Tudo perfeitamente normal. - MC
 
Consolidação orçamental
Cada um tem a que pode. Ou a que pensa poder. - MC
 
ainda a promiscuidade jornalistas/assessores
sobre a "questão" David Dinis que tem ocupado boa parte da blogsfera, o Martim escreveu um post totalmente acertado. Como ele diz, e bem, "é jornalista quem quer e quem pode. Sai do jornalismo quem quer e quem pode. Mas não pode voltar ao jornalismo quem quer. Apenas quem pode."
- PAS
P.S.
com este post, ao mesmo tempo, que linko um bom blog, ajudo a que, cada vez que aqui se chega, já não seja preciso enfrentar o sorriso cavaquista.
 
Para que o homem não se fique a rir

Durante os primeiros anos da democracia a instabilidade política foi a regra. O debate sobre a reforma do sistema eleitoral começou assim dominado pelo tema da «ingovernabilidade». Com as maiorias do senhor da fotografia, entrou-se numa nova fase e a preocupação com a governabilidade foi substituída pela questão da «qualidade da representação». Havia que personalizar os mandatos parlamentares sem pôr em causa a proporcionalidade. A partir de 1999, e nomeadamente nos últimos quatro meses, voltou a falar-se de instabilidade. Era inevitável que também ressurgisse a defesa do sistema maioritário. A propósito das ambições presidencialistas de Cavaco Silva, Luciano Amaral relançou as hostilidades: «Só há uma maneira de evitar esta perversão institucional: uma maioria clara no próximo parlamento. De direita? De esquerda? Já pouco me importa. E de uma vez por todas, uma maioria que se decida a fazer aquilo que há muito tempo já deveria ter sido feito: a criação de um sistema eleitoral maioritário que garanta vitórias claras e decisivas
A verdade é que os sistemas maioritários, garantindo «vitórias claras e decisivas», também têm grandes desvantagens, especialmente para uma democracia com a qualidade da portuguesa: geram maiorias artificiais e excluem «minorias» - que às vezes não são nada minoritárias. Os liberais democratas britânicos chegaram a ter 25 por cento dos votos e apenas 5 por cento dos mandatos! Não será por acaso que a abstenção é maior nestes sistemas. (Mesmo a ideia de que o sistema maioritário garante «moderação» política é falsa: veja-se o que foi a moderação da agenda de Margaret Thatcher e Michael Foot nos anos 80). Se já temos níveis baixos de participação cívica e política, imagine-se o que seria com um sistema maioritário à inglesa. Por vezes, a importação de modelos dá asneira.
É evidente que há um problema de governabilidade à esquerda, que deixa perplexo, por exemplo, o Filipe Moura. Claro que era bom para o sistema político que tivéssemos entrado numa nova fase marcada por coligações eleitorais à esquerda e à direita. Mas para isso acontecer com um mínimo de estabilidade dava jeito que o CDS e especialmente o Bloco crescessem um bocado mais (e já agora que moderassem algumas posições). E provavelmente o Bloco até crescerá mais facilmente em oposição a um governo de maioria absoluta do PS do que agora. Para que essa maioria absoluta exista - e sem coligação só o PS a pode ter - não é necessária uma maioria de dois terços para tornar o sistema eleitoral maioritário. Basta que haja a percepção dessa necessidade, como aconteceu em 87 e 91. Se em Fevereiro o eleitorado do PS for, digamos, do Filipe Moura ao Luciano Amaral, é possível. - FN
quarta-feira, dezembro 15
 
Estava a pedi-las
Ontem, em Canas de Senhorim, houve um cidadão que comparou a sua «luta» à resistência do povo timorense. Só por isso já merecia a carga policial. - FN
 
um mundo de aventuras
Um extraterrestre com sólida formação em ciência política e em relações internacionais que aterrasse por acidente em Portugal teria dificuldade em perceber o que por cá se tem passado. Se calhasse chegar na passada sexta-feira e ficasse até ontem, deixar-nos-ia certamente perplexo. É verdade que a nossa realidade há muito que é, de si, desafiadora da racionalidade. Desde Julho, contudo, a tendência intensificou-se. Olhar para a política portuguesa e conseguir encontrar nela uma réstia de lógica na acção passou a ser um exercício de enorme dificuldade. E o mais estranho é que, no essencial, a culpa não tem sido nem das circunstâncias, nem da estrutura. A culpa deve ser assacada, quase em exclusivo, aos agentes. Continue a ler aqui.
- PAS
 
Os sem vergonha
Isto do dr. Lopes está a atingir todos os limites. Há coisa de duas semanas acusou, num jeito que faz lembrar não Sá Carneiro, mas, cada vez mais, Vasco Gonçalves, o PS de realizar um encontro das Novas Fronteiras num "hotel de luxo". Não faço a mínima ideia qual era o hotel, nem isso importa, mas a acusação por si só, demonstra a inépcia do homem para o cargo que deteve durante quatro longos meses. Ontem, para que conste, aquela encenação do estertor final da coligação, realizou-se no hotel Ritz (também conhecido por Four Seasons). Um conhecido hotel económico. Esta gente não tem um pingo de vergonha na cara. O que é uma coisa muito feia e diz muito do seu carácter. - PAS
 
Ficção política - parte II
Santana e Portas sentiram necessidade de avisar que "nenhum dos partidos" está disponível para "viabilizar" uma "solução governativa" encabeçada por outro partido. Como é óbvio, o enunciado só se aplica ao CDS - e a uma solução encabeçada pelo PS. Aqui já estamos, como é óbvio, no domínio do fantástico. E percebemos o quanto Santana, avisadamente aliás, confia em Portas.
Mas pode ficar descansado. O dr. Portas não deita a mão a mais nenhuma "solução governativa" que não a que agora finda. - MC
 
A justiça possível


Santana foi bem claro: "Contra a injustiça que foi feita, os portugueses vão fazer justiça", até porque "irresponsáveis são os que fogem" e "incompetentes são os que fugindo deixam o país à beira do pântano". Não estou certo de que interpretemos estas frases no mesmo sentido, mas aplicam-se muito bem à primeira decisão de Sampaio, ao papel de Durão Barroso e a ele próprio. Neste contexto, concordo em absoluto com tudo. No fundo, Santana sabe bem o que o espera. E o que merece. - MC
 
Ficção política
A última versão de uma das maiores trapalhadas dos últimos tempos (e têm sido muitas) é: o PSD e o CDS vão separados às eleições, mas prometem uma coligação para depois; agora não serão parceiros, nem aliados, mas também não serão adversários porque há um pacto de não agressão (note-se, entre dois partidos que concorrem pela divisão do eleitorado de direita); dizem que o projecto que tinham em conjunto fazia sentido e que faz sentido continuá-lo, mas concorrem cada um por si; assumem, aliás, que esta opçção é meramente ditada por imperativos tácticos, quando o que faria sentido seria a opção por uma coligação: e, concorrendo sozinhos, assinam deste já, e publicamente, um acordo pós-eleitoral. Em suma: estes senhores não existem. Mesmo. - MC
 
Afinal ainda há quem tenha sentido de humor
Mas não muito, nem sempre, muitas vezes pouco apurado e quase nunca sobre si próprio. Nesta fase difícil e um pouco desnorteada, então, nem se fala.
O João Vacas ficou muito aborrecido com este post que escrevi sobre a reacção do CDS à decisão de Sampaio. É legítimo, embora o texto me pareça basicamente inofensivo. Não gostou, em particular, da "paródia" e do tom "galhofeiro" do texto, sobretudo porque na sua opinião se brinca com o símbolo do CDS. E a verdade é que há coisas sagradas, com as quais não se brinca, mas a esquerda hoje em dia parece já não ter respeito por nada. Vai daí, o João, visivelmente indignado, decidiu por sua vez arriscar fazer umas piadolas de elevado quilate sobre o tempo que demorou a rir-se com o texto e ainda outra sobre o Carnaval. E revelou-se: a verdade é que não se sai nada mal no papel que escolheu para si próprio.
Quero, no entanto, descansar o João e outros potenciais lesados, afiançando que nunca pretendi ofender quem quer que fosse; e muito menos brincar com o símbolo histórico do CDS. É que, afinal, se calhar até é das coisas mais respeitáveis que o partido tem hoje em dia. - MC
terça-feira, dezembro 14
 
Já é oficial
«Eles hoje selaram a derrota»
Luís Delgado sobre a conferência de imprensa de Santana Lopes e Paulo Portas, hoje na SIC-Notícias - FN
 
93 horas depois


"primeiro vou ouvir o Presidente. No minuto seguinte falo."
Paulo Portas, algures na semana passada.
- PAS
 
A modernização incompleta da democracia
Em parte fruto de uma longa tradição antipartidária e anti-democrática que odeia a dissensão e não consegue conviver com a política das democracias liberais, criou-se em Portugal um mito tão original quanto nefasto e persistente: o mito dos "independentes". Normalmente, trata-se de pessoas que têm alguma projecção técnica na sua área profissional, ou simplesmente um capital mediático pronto a utilizar, e que na melhor linhagem do messianismo sebastiânico aparecem como mentes iluminadas "acima dos partidos" e dos políticos, prontos a resolver todos os males "estruturais" da nação, através das famosas "reformas". Esta tradição tem tanta força que mesmo quem reconhecidamente andou décadas a chafurdar nos meandros dos partidos (como o professor Cavaco) não resiste a usar em proveito próprio o mito do economista e universitário acima de tudo competente do ponto de vista técnico e distanciado dos jogos da política. Como se tem visto. Alimentando, aliás, o mais que falacioso pressuposto de que a política é "má" e "suja" e o resto do mundo (em particular o mundo empresarial) é "limpo", "empreendedor", "dinâmico", "competente". Como se tem visto, também.
Um corolário triste desta lógica é a moda recente dos "independentes organizados", como no caso limite do "compromisso portugal". Formado por gente das empresas, esse mundo de excelência (!), sem experiência, nem sensibilidade, nem qualidades políticas conhecidas, que pensa que a política é mais ou menos como gerir uma emprea chamada país. E organizado num movimento "apolítico" (Botton dixit, coisa notável!) para mandar umas bocas sobre "assuntos de longo prazo" - que os de curto não interessam, outra afirmação notável, desta vez na boca dessa nebulosa que é Carrapatoso.
Seja como for, o compromisso destes estranhos personagens, dizem-nos, é com Portugal e não com os partidos - mais uma afirmação misteriosa -, sendo que este "compromisso portugal" nunca vai manifestar preferência por um partido mas sim "por ideias" (quais é que nunca se chega bem a perceber, tirando a já gasta cartilha do liberalismo económico a todo o custo, menos quando toca a receber apoios ou a protecção do estado). No entanto, e curiosamente, lá andam sempre a rondar os mesmos, o psd e o cds. Tirando, claro, alguns oportunistas de ocasião, como convém no mercado quando a coisa vira de agulha.
Mas o mais grave é que toda esta fantochada (à falta de melhor palavra) continua a passar incólume depois de tantos anos de democracia consolidada - ou talvez não tanto. E uma coisa é certa: enquanto esta visão messiânica e deturpada da política não acabar, a sustentabilidade cultural e a legitimidade simbólica da democracia em Portugal será sempre diminuta e terá sempre a guilhotina numa esquina próxima. Manipulada, quase sempre, pelos mesmos. - MC
 
O delírio febril do desespero
O terramoto de ontem deve mesmo ter sido forte. Agora até temos de ouvir o presidente do CDS-PP (!) dizer que a culpa da queda do governo mais à direita em Portugal é do "sector financeiro" e das suas pressões a propósito de um orçamento de estado em que as piedosas intenções do dr. Bagão, a serem verdadeiras, já estavam cobardemente quase todas na gaveta.
Talvez fosse mais útil perguntar porque é que se deu esse facto inédito de praticamente todas as associações empresariais tomarem posições públicas de partilha de uma avaliação extremamente negativa da coligação da direita no seu novo formato santana-portas, da sua (des)orientação, da sua (in)competência, da sua instabilidade. - MC
 
It's The Economist, Stupid!
.
Hoje no Público: A Unidade de Investigação Económica (EIU) do grupo "Economist" considerou numa análise à situação económica e política em Portugal que o primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, "não conseguiu estabelecer uma autoridade política e falta orientação ao seu governo".
Portugal deverá ficar em 2005 entre os 20 países do mundo com menor crescimento, com um aumento de 2,1 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as previsões daquele instituto de investigação do grupo da revista "Economist".

- FN
 
a luz ao fundo do cinema


- PAS
segunda-feira, dezembro 13
 
Ferro tinha razão
Após a fuga de Barroso, em Julho, Ferro Rodrigues defendeu publicamente a realização de eleições antecipadas. O presidente da República teve outro entendimento. Em consequência, Ferro demitiu-se. Na altura, esta decisão foi mal recebida por muita gente, desde logo por quem apoiava a sua liderança. Hoje é claro que a decisão «emocional» do antigo secretário-geral do PS foi, afinal, absolutamente «racional». É impossível a um líder da oposição manter-se contra a vontade de um presidente da República do mesmo partido, como se viu com Constâncio e, em parte, com o próprio Sampaio. No Público de ontem, Vasco Pulido Valente dá sentido ao gesto de Ferro: «Em Julho, o Presidente da República não dissolveu a Assembleia por uma única razão: tinha medo de um governo Ferro. Um governo Ferro podia sublevar o país contra ele e ele naturalmente queria acabar o seu mandato em paz de espírito. A Constituição serve para tudo. Serviu nessa altura para substituir Barroso por Santana e tentar manter as coisas como estavam, mesmo quando estavam manifestamente mal. Ferro percebeu o que a decisão significava: uma absoluta desconfiança nele. Só lhe restava sair e, de facto, saiu
PS: O artigo não está online, mas o Pulga fez mais uma vez serviço público.
- FN
 
Estava tudo a correr tão bem
O número dois do governo, Álvaro Barreto, foi ontem entrevistado por Maria João Avillez, que o apresentou como um «excelente gestor». Não se percebe muito bem o elogio - deve ser do «bom ar» que o senhor ostenta. Ao longo de uma hora, este simpático cavalheiro fez questão de exibir a desorientação política que caracterizou a curta noite santanista. Segundo Álvaro Barreto, haver ou não coligação é uma questão «aritmética» (de mercearia, portanto); uma questão secundária, uma vez que se o PSD ganhar as eleições «a seguir fazemos uma coligação pós-eleitoral» com o CDS. O dr. Portas agradece a atenção. Em seguida, Barreto mostra-se surpeendido com a dissolução da Assembleia. Parece que, lá no gabinete, «os colaboradores» não compreenderam a decisão do presidente. Estava tudo a correr tão bem em tantas áreas da governação, e aquele doido do Sampaio fez-nos isto. Esta é outra ideia peregrina que agora se ouve muito. Como se fosse possível aplicar políticas sem um módico de coordenação política. Como se nos últimos quatro meses a economia não estivesse de novo a decrescer. - FN
 
Parabéns, Porto


- PR
domingo, dezembro 12
 
Belenenses 4 - Benfica 1

Esperemos que o DVD do jogo chegue a tempo do Natal.
- FN
 
Temas que me irrita desconhecer
A primeira ocupação de uma herdade no Alentejo ocorreu há 30 anos e dois dias. Os dois dias não querem dizer que eu seja um "anorak" ou que tenha uma cronologia do PREC colada na parede - o Público é que ainda não tinha tido espaço para publicar a sua reportagem com a excitação das últimas semanas.
Num tempo em que a agricultura é socialmente invisível - fora o ocasional food scare - a Reforma Agrária aparece como um objecto tão exótico como a falua ou a disquete de 5"1/4.
E no entanto foi um sobressalto na rígida estrutura social e económica do Sul, um dos terrenos de luta política mais importantes do imediato pós-25 de Abril e uma experiência marcante na vida de milhares de pessoas. Constituiu durante bastante tempo um valioso recurso identitário à esquerda e à direita: mito da idade de ouro, livro do apocalipse, anedota exemplar - risque o que não interessar. Não me orgulho nada de saber tão pouco sobre ela. - PE
 
Famílias "desestruturadas"
Afinal PSD e CDS já vão outra vez sozinhos às eleições. Coliga, descoliga, se calhar sim, se calhar não, vamos conversar, coliga e descoliga mais uma vez, depois talvez, vamos dar um tempo para pensar, agora quero eu mas tu não e daqui por uns dias invertem-se os papéis, o ideal é negociar uma "plataforma" mais alargada, não, o melhor é cada um ir à sua vida.
O dr. Bagão e os seus numerosos amigos é que talvez tenham razão: vai para aí uma "crise" na "família" que talvez já não tenha remédio. Uma verdadeira chaga social. Felizmente neste caso não há filhos, porque eles é que sofrem sempre. Mas por maior que fosse esta terrível "crise" da "família", não chegaria para fazer sombra ao estado em que estes senhores deixam o país, e o governo - como este lamentável desnorte bem demonstra. - MC
 
Uma enorme tragédia nunca vem só
Domingos Abrantes em discurso directo, ao Expresso, Dezembro de 2004:

"Desabou sobre o mundo uma enorme tragédia que foi o desaparecimento da União Soviética"

"EXP - Considera que os renovadores ainda são comunistas?
DA - Não de modo nenhum." - MC
 
Tudo está bem quando acaba bem


Ou quando acaba, pelo menos, e afinal parece que sempre haverá coligação. Ora, acabar (só se duvida é que bem) parece a expressão exacta para descrever o mais que merecido destino da coligação governamental. - MC

 
Tudo bons amigos
Quando começa a cheirar a fim de festa, já se sabe, começam as facadinhas letais cheias de sorrisos e de circunstância. Dias Loureiro deu o mote, revelando oportunamente uma conversa privada que teve com Santana, "de quem é amigo", poucos dias antes da deflagração da bomba atómica. Diz o amigo Loureiro que terá dito ao amigo Lopes em jeito de conselho que o melhor era demitir-se, por causa de "uns demónios" não identificados. O amigo Santana, o mesmo que depois diria não compreender e não concordar com a decisão do presidente, terá então concordado com o amigo Loureiro, que agora amigavelmente revela este pequeno diálogo.
O espantoso é que este violento puxar de tapete, embora seja mais um pequeno passo para acabar de vez com a nula credibilidade de Santana, tem apesar de tudo um lado positivo: o condão de devolver um toque de inteligência e bom senso ao até agora primeiro ministro. É que muita gente já estava quase a ver no pobre homem da pulseira uma espécie de extraterrestre que não percebia mesmo o que (lhe) foi acontecendo nos últimos dias. - MC

sábado, dezembro 11
 
Os pesos pesados, parte II

Ângelo Correia diz que o barrosismo é composto por gente «sem qualidade nenhuma». Nuno Morais Sarmento, expoente máximo desta corrente, veio esta semana confirmar a tese. A pedido do Dr. Lopes chamou «caudilho» ao presidente da República. Não contente com isto, ainda se veio «explicar». Pior a emenda que o soneto. Enquadrou historicamente a expressão com alusões ao tempo das reconquistas cristãs, quando caudilho significava «chefe de bando». Isto passou em todas as televisões. Admito que bater no Dr. Sampaio possa ser tentador, mas é certamente das coisas mais inúteis e contra-producentes. Os portugueses desconfiam dos governos, dos deputados e dos partidos, mas, coisa estranha, gostam do presidente, quase tanto como dos militares e dos jornalistas (!). Ontem o presidente falou e, ao contrário do que avisaram, não foi nada «complexo». Quando lembrou o apoio popular à dissolução, deu provavelmente a estocada final no governo. Adeus, Santana.- FN
 
Os pesos pesados


Os governos de Durão (agora até nas televisões portuguesas referido como José Barroso) e de Santana ficam tristemente na história como os dois governos mais trapalhões da democracia portuguesa - sendo que o de Santana tem ainda como peculiaridade o facto de o próprio primeiro ministro ser um dos epicentros principais dessa condição.
Mas há uma coisa que ambos partilham: o facto de os supostos núcleos políticos de decisão, os ministros mais próximos do primeiro-ministro e responsáveis pela coordenação política do governo, serem provavelmente os mais fracos de sempre e focos sistemáticos de problemas e trapalhadas.
Durão tinha à sua volta o inenarravelmente inábil Arnaut e o inenarravelmente desastrado Nuno Morais Sarmento - promovido a grande figura do governo e garante da "experiência" e da "qualidade" do governo que se seguiu. Tornados incontornáveis, o que diz bem do que foram os governos PPD-CDS destes últimos dois anos e meio, Santana manteve-os, embora mais à distância e permanentemente à beira da demissão (como todo o governo?). De caminho, substituiu-os pelos muito mais eficazes Henrique Chaves e Rui Gomes da Silva, que continuaram o trabalho com os excelentes resultados que se conhecem.
Ainda assim, Morais Sarmento parece fazer questão de sair pela porta grande, o que se compreende. Na lógica desastrada de sempre, e enquanto Dias Loureiro afiançava que Sampaio não era adversário do PSD, Sarmento produzia umas declarações espantosas dizendo, entre outras coisas, que o presidente tinha decidido como um "caudilho" e de forma "marcadamente unipessoal". Depois, lá balbuciou umas coisas sobre "consultar uma enciclopédia", onde se perceberia que a expressão caudilho vem das cruzadas e remete para decisões de chefes militares, pelo que não sei quê não sei que mais isto e aquilo ouçam lá blá blá blá e, no fundo, no fundo, tudo isto até tinha sido uma tomada de posição muito normal.
Pois é, normalíssima, e é justamente por isso que os pesos pesados do PPD-PSD só o foram no sentido mais literal. Isto é, que acabaram por ser dos maiores lastros que estes governos tiveram de carregar, penosamente. Pior seria mesmo impossível, e já se percebeu que o registo do absoluto desnorte vai durar até ao último dia. - MC

sexta-feira, dezembro 10
 
Alguém dá uma ajuda?
.

Todos os portugueses já perceberam que havia e há, objectivamente, muitas e boas razões para dissolver a assembleia da república, e cada vez menos para deixar o país continuar a andar alegremente à deriva. Todos? Não. Uma pequena aldeia resiste ainda e sempre à implacável evidência da razão.
O dr. António Pires de Lima, à frente de uma delegação do CDS que apesar de tudo não incluia o deputado João Almeida, saiu da audiência com Jorge Sampaio ainda "sem perceber porque é que o presidente da república dissolveu o parlamento", apesar de lhes ter sido apresentado um "conjunto de razões que não conseguimos descodificar".
Talvez um pequeno esquema, ou desenho, pudesse ajudar a operar esse pequeno milagre de compreender o óbvio. Mas, depois, olhamos para o símbolo histórico do CDS, que o PP de Monteiro e Portas preferiu não abolir, e é óbvio logo ali, no ponto negro em que desembocam setas de sentidos inversos, que com tamanhos problemas de linearidade no raciocínio nunca se perceberá grande coisa. - MC

quinta-feira, dezembro 9
 
E o PS?
A estratégia da direita é clara. Acho que passa basicamente pelo que escrevi no Voto Útil II. E o PS? Parece-me que é difícil crescer mais à custa do PCP e do BE. Vários estudos de opinião indicam que os eleitores do PCP e do BE, ao contrário do que se passa com os do CDS em relação ao PSD, têm divergências profundas com o PS e os seus líderes. Se PCP e BE não crescerem, já será muito bom. Para isso, como escreveu o Pedro Adão e Silva ontem, é preciso não dar o flanco. No fundo, garantir que os eleitores continuam a identificar o PS com determinadas prioridades políticas: defesa dos serviços públicos, combate ao desemprego, justiça fiscal, respeito pelo direito internacional, etc. (Por razões de substância e de táctica.) A existência de uma coligação à direita fará o resto. A partir de agora, o PS vai ter que ir ganhar o chamado «centro». Nota-se, não só na opinião publicada como também na opinião pública, uma exigência de rigor e seriedade. O PS deve ir ao encontro dessa expectativa. É por isso que Pacheco Pereira tem razão quando diz que o eng. Sócrates se deve afastar da discussão sobre o presidente e o dr. Santana, quem mentiu e quem falou verdade. Esse é o terreno favorável ao populismo do Dr. Lopes (por estes dias, a leitura do abrupto devia ser obrigatória no Largo do Rato). Pelo contrário, o PS deve estar preocupado em discutir os assuntos que interessam e apresentar a tal alternativa contrastante. Para isso, as Novas Fronteiras e a apresentação da equipa económica podem ser decisivas. Ao contrário do que por vezes se pensa, o mítico «centro» não se ganha pela estratégia da imitação da direita populista, mas pelo contraste que com ela se estabelece - como demonstraram Ferro e Sousa Franco nas europeias. Até porque com coligação à direita, o PS já não vai poder reduzir a sua campanha à ideia do «só nós podemos chegar à maioria!»: à partida, a direita coligada também lá pode chegar. No fim, a questão terá de ser muito simplesmente: que maioria querem os portugueses? A da direita incompetente ou a da alternativa tranquila representada pelo PS?- FN
 
As aulas de história do dr. Portas
Depois do caso Maggiolo, o dr. Portas insistiu, ontem, em mais um dos seus despudorados exercícios de demagogia sobre a guerra colonial. Para o dr. Portas, a memória dessa guerra é apenas o pretexto para mais uma pincelada de nacionalismo bacoco arrancada da sua paleta populista sempre que a agenda política aconselha a um compasso de espera. Só que a espera, no caso do dr. Portas, preenche-se não com o silêncio mas com folclore e alarido, como demonstra o excerto abaixo transcrito. E revela como o respeito que o dr. Portas nutre pelas famílias afectadas pela guerra colonial é inversamente proporcional ao muito ruído que produz quando se reencontra com a história.

Ontem, em Leiria, onde Portas inaugurou um "Monumento à Mulher", o presidente da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA), Cândido Patuleia, pediu ao ministro da a alteração da Lei 9/2000 e a reabertura dos prazos para permitir às viúvas dos antigos combatentes no Ultramar aceder aos complementos de pensão dos maridos.
"Era bom que tivessem direito também àquilo que os maridos teriam se a guerra não os tivesse levado mais cedo", afirmou Cândido Patuleia, que defende que o valor mínimo das pensões devia ser de 150 euros. Durante o seu discurso, Paulo Portas não fez qualquer referência ao assunto. Optou antes por centrar a sua intervenção no simbolismo das esculturas. "A guerra é sempre uma separação da pátria, da cultura, da família. E há muito poucos elos nessa separação. Há algumas instituições que conseguem ultrapassar as linhas de fogo, há um vínculo que é a nossa bandeira e há as famílias. A mãe ou a mulher talvez seja quem mais intensamente vive o dilema entre o drama pessoal e o sentido do dever", disse.
O ministro salientou, por outro lado, a "coesão nacional" expressa na forma como o monumento é apresentado e referiu que não se deve ter vergonha do passado. "Quem faz confusão entre o regime e um soldado não tem a mais completa noção do que é a história", justificou.
Mentor da ideia de criar um "Monumento à mulher", o presidente da ADFA justificou a escolha de Leiria com a existência de diversas figuras femininas que estão ligadas à sua história, de que são exemplo a Rainha Santa Isabel e a padeira de Aljubarrota. A proximidade de Fátima também pesou na decisão, por ser um local associado à esperança e à fé dos familiares de que os combatentes regressariam após o cumprimento de um desígnio nacional.
A escolha de 8 de Dezembro para inaugurar o monumento deve-se, segundo a presidente da Câmara de Leiria social-democrata, Isabel Damasceno, ao facto de ser o Dia da Imaculada Conceição, data em que comemorava, no passado, o Dia da Mãe. Nesse sentido, foram convidadas a assistir à cerimónia todas as deputadas do Parlamento, todas as presidentes de autarquias e familiares dos deficientes do Ultramar. "Não há nada mais importante na História do que o amor à família e à pátria", disse. A autarca sublinhou ainda o papel fundamental das mulheres não só na sustentação do núcleo familiar durante a ausência dos homens como ainda no apoio psicológico que lhes deram quando regressaram da guerra.
- PM

quarta-feira, dezembro 8
 
Em busca de estabilidade
Os sistemas políticos, por vezes, têm uma inusitada propensão para o abismo. Trinta anos depois do 25 de Abril, pode ser esta a situação da democracia portuguesa. Com as instituições e a classe política descredibilizadas aos olhos dos cidadãos; uma sociedade civil inexistente ou, quando não o é, quase totalmente dependente do Estado; com a economia e a sociedade bloqueadas e as esferas de intermediação (designadamente a comunicação social) quase sem mecanismos de auto-regulação e rendidas à concorrência desenfreada, é para o abismo que podemos estar a caminhar. Acontece que também há momentos em que os sistemas políticos se revelam e procuram contrariar as tendências fortes em que se vão enredando, até porque os eleitores têm pânico do vazio.
De forma mais ou menos consciente, quando em Fevereiro os portugueses forem chamados a votar terão isso em mente, e é neste contexto que poucas palavras passaram a ter um valor político tão fundamental como a estabilidade. De um extremo do espectro partidário ao outro, todos os partidos partirão para as eleições prometendo ser um «referencial e um factor de estabilidade». É verdade que desde que o desvario santanista se instalou no país a necessidade se tornou mais premente, mas há muito que o sistema político o requeria. Contudo, dá-se o caso da estabilidade não ser algo que se proclama ou que assenta em declarações de fé. Pelo contrário, constrói-se.
continue a ler aqui.
- PAS
terça-feira, dezembro 7
 
Não só no futebol II
Quando o Sporting ganhou o campeonato depois de 18 anos descobri imensos sportinguistas. Apareceram de todo o lado com cachecóis, bandeiras e cartões de sócio com as quotas em dia. Encheram o Estádio e fizeram barulho. Mas continuam a ser os primeiros a faltar quando a coisa não está boa.- MVS
 
Não só no futebol I
O Presidente da República, com a sua última decisão, fez-me lembrar aquelas crianças que, no futebol, depois da bola estar há longos segundos dentro da baliza se levantam (enquanto os outros se sentam) e, como tendo descoberto algo novo, gritam: goooolo! - MVS
 
Santana solta o taxista que há em si
.
Santana fez ontem um discurso orientado para a sua base social: «O guterrismo voltou com novo riquismo realizando reuniões em hóteis dos mais caros para anunciar ao país um site na Internet». Mas acho que já nem no mundo do fascismo social conta com qualquer espécie de apoio. Nem de propósito, à noite, depois do discurso de Santana, apanhei um taxista especialmente indignado: «Estas ruas estão cheias de buracos, foi a linda obra do senhor primeiro-ministro». O homem continuava, cada vez mais irado: «Sabe, se eu o enganar a si é uma coisa que fica entre nós [!]; agora enganar um povo inteiro... Era meter-lhes um colar de pedras e lançá-los da ponte abaixo!».- FN
 
o desvario


Todos nos lembramos da ideia santanista de deslocalizar uns quantos ministérios. Depois, a coisa evoluiu e acabaram por ser apenas algumas secretarias de estado (o que aliás não existe, pois o que há são gabinetes de secretários de estado). Entretanto, quando começávamos a estar convencidos que o desvario santanista estava para acabar, eis que surge o último fôlego. Marco António Costa, o secretário de estado da segurança social que acumula o cargo com presidente da distrital do PSD/Porto, nomeado há pouco mais de uma semana (e que dá-se o caso de ser o 4 secretário de estado da área em pouco mais de 2 anos), deslocalizou-se para o Porto. Espantoso. Mas o novel secretário de estado não se deslocalizou na totalidade. Tem um gabinete em Lisboa e um segundo no Porto, onde terá dois adjuntos. A justificação dada ao Comércio do Porto é singela: "A existência de um gabinete no Porto, permitirá ao secretário de Estado estar mais próximo dos empresários da região, podendo desta forma contribuir para a resolução mais rápida e eficaz de problemas ligados ao sector."
Nem mais. Acontece que todos os dirigentes da segurança social estão em Lisboa, o arquivo do gabinete está também em Lisboa (que é relevante para quem quer mesmo governar!). E, não menos importante, o secretário de estado não é um delegado regional, vocacionado para resolver os problemas ligados ao sector. Aliás, fica a dúvida sobre quais são esses problemas. Por exemplo, pressionar as empresas com dívidas à segurança social para ressarcirem mais rapidamente o Estado? Demonstrar particular sensibilidade no uso do fundo de socorro social com as IPSS do distrito do Porto?
Uma coisa é certa, a campanha eleitoral já começou e ainda a procissão vai no adro. A dois meses das eleições ter um secretário de estado, que por acaso é da segurança social, a instalar-se no Porto, onde preside à distrital do partido, é uma total falta de vergonha e mais um sinal do desvario em curso. Um sinal muito grave e de grande promiscuidade entre Estado e partido. Espera-se que seja um dos últimos. O canto do cisne!
- PAS
 
80 anos

«Parabéns, Mário Soares! Todos, sempre, lhe deveremos tudo. Mesmo os que não sabem
João Bénard da Costa, Público, 3 de Dezembro
- PR
segunda-feira, dezembro 6
 
Voto útil II
O meu amigo Zé deixou-me o seguinte comentário ao post anterior: «Achas mesmo que "Com [ou sem] a mobilização do «povo de direita», e tendo em conta o sistema eleitoral, a esquerda só pode votar PS"? no círculo eleitoral que existe em Lisboa ou em Vila Real? Não me parece uma expressão muito dignificadora do voto em democracia
Neste momento, ainda não sabemos se PSD e CDS vão coligados. Tudo indica que sim. O Dr. Santana já percebeu que a coligação é a única saída possível. E Dr. Portas também já deve ter percebido que depois da experiência governamental, e tendo em conta os dados das sondagens, corre o sério risco de ver o seu eleitorado virar-se para Santana. Tem 5 por cento. Se desses 5 por cento das sondagens resultarem dez, doze deputados já é muito bom: garante a continuidade institucional do partido.
Santana, que vê tudo nas estrelas, quer colocar-se na posição de Sá Carneiro (volta a falar-se de Camarate...) e está a conseguir colocar Sampaio no papel de Eanes. Por isso, não lhe convém oposição à direita. É um estratégia de vitimização e mobilização da direita que também tem algo de "bushista": não será por acaso que nos últimos dias se deixou filmar por duas vezes à porta de igrejas. E é aqui que entra a história do voto útil. É que com o actual sistema eleitoral é possível que a uma maioria eleitoral de esquerda não corresponda uma maioria parlamentar. O método d'Hondt favorece as coligações: em coligação não há votos perdidos. A primeira AD não precisou dos 50 por cento de Cavaco para chegar à maioria absoluta. Somando os 35 por cento do PSD (nas sondagens) mais os 5 de Portas a coligação fica já com 40 por cento. Só precisa de mais uns 3 ou 4 por cento. Não sei se as expressões «voto útil» ou «votos perdidos» serão as mais felizes e «dignificadoras». É evidente que não é igual votar BE no distrito de Lisboa ou no de Vila Real (farão os eleitores de esquerda a distinção estratégica?). Mas como diria o outro engenheiro, «é fazer as contas». Santana já as fez. Ou há uma maioria absoluta do PS ou corremos o risco de ter uma maioria parlamentar de direita. Os argumentos que foram válidos para «votar» Kerry não serão agora válidos para votar Sócrates? - FN
 
Voto útil
1. «Há momentos na vida de um homem em que até os cães nos mijam em cima». O desabafo é da autoria de Manuel Monteiro, mas aplica-se bem à situação difícil em que se colocou Santana Lopes. Depois do presidente Sampaio, foi a vez de Paulo Portas lhe dar 48 horas. Portas já reuniu os dirigentes partidários e o «Conselho Económico e Social». Hoje prepara-se para «auscultar» personalidades da vida empresarial. Amanhã «decidirá» se dissolve ou não a coligação. Uma encenação brilhante para melhor negociar os lugares do CDS nas listas. Portas sabe perfeitamente que os eleitores do seu partido são os mais críticos da decisão de Sampaio e aqueles que mais consideram Santana o melhor candidato do PSD. Os riscos do voto útil são evidentes. Basta ler as sondagens.
2. O Bloco tem razão: se houver coligação, é melhor para a esquerda. Mas o que é melhor para a esquerda não é necessariamente melhor para o Bloco. Com a mobilização do «povo de direita», e tendo em conta o sistema eleitoral, a esquerda só pode votar PS. - FN
domingo, dezembro 5
 
Santana não quer concorrência
O PSD não quer que a campanha eleitoral coincida com o Carnaval. "Na marcação da data para a realização das próximas eleições legislativas deverá ser garantido, para a defesa da dignidade das instituições e da própria consulta eleitoral, a absoluta separação entre a semana que marca as festividades de Carnaval e o período eleitoral", diz o comunicado do conselho nacional. - FN
 
Golpe, diz ele
Foi ainda durante o processo de transição para a democracia, quando importava, acima de tudo, consolidar o sistema de partidos, que os constituintes adoptaram o actual sistema de governo autárquico, no qual todos os executivos concelhios são eleitos directa e proporcionalmente. Em mais nenhuma democracia da União Europeia isto acontece. Pelo menos desde 1999, PS e PSD defendem nos seus programas eleitorais a revisão deste sistema no sentido de assegurar mais transparência e governabilidade nas autarquias locais, através do reforço das competências da assembleias municipais e da criação de executivos homogéneos (o PSD prefere «executivos maioritários», mas será constitucional?).
Os restantes partidos sempre se opuseram a esta reforma. Alegadamente, porque gerava «bipartidarismo» e acabava com o «pluralismo consociativo» a nível local. Duas ideias feitas. Em primeiro lugar, o bipartidarismo já existe há muitos anos, e por vontade dos eleitores. Por exemplo, nas eleições autárquicas de 1997, estando em vigor o sistema que PCP, CDS e BE defendem, PS e PSD, juntos, elegeram 1672 vereadores num total de 2021 (isto excluindo os mandatos que estes partidos obtiveram em coligações com o PCP e o CDS). Por outro lado, os partidos mais pequenos não seriam necessariamente os mais prejudicados com o fim da participação nos executivos camarários: desde logo porque têm cada vez menos vereadores, mas também porque se fazem eleger muito mais facilmente nas assembleias municipais - órgãos que, com a nova lei, passariam a ter melhores condições de controlo democrático. O fim da suspeição sobre as relações entre presidentes da câmara e «oposições» com pelouro (uma contradição de termos) seria, julgo, bom para toda a gente. Esta ideia foi duas vezes sufragada por 80 por cento dos portugueses. A sua aprovação estava finalmente agendada para dia 17 de Dezembro, por forma a entrar em vigor antes das próximas eleições autárquicas. Aprovar isto, agora, antes da dissolução, é para o Daniel Oliveira «um golpe». Uma lei aprovada por uma maioria de dois terços é «um golpe» - precisamente a expressão usada pelos adversários da proposta quando esta se discutiu pela primeira vez (sem dissolução do parlamento à vista). Será sempre «um golpe». Ontem, agora, quando for discutida outra vez. Estranha concepção de democracia.
PS: O PS ainda equacionou votar a lei no próximo dia 9, mas, face à reacção dos outros partidos de esquerda, aceitou adiar mais uma vez a aprovação do projecto. Fez mal.- FN
sábado, dezembro 4
 
Passa a outro e não ao mesmo



Mais tarde do que cedo, Sampaio reconheceu o seu erro e tomou a decisão que devia ter tomado há uns meses - depois de, mais cedo do que tarde, ter sido confrontado com as assustadoras consequências da primeira opção. Mas para Santana, e para o PSD, que procuram a todo o custo manter-se à tona e encontrar um bode expiatório para as suas próprias insuficiências, parece que a culpa afinal é de Sampaio, e que é ele o irresponsável responsável pelo estado a que o Governo chegou. - MC

 
Dragão, Hipopótamo, é tudo a mesma coisa
No âmbito do processo «apito dourado», a juíza Ana Cláudia Nogueira proibiu o empresário António Araújo de «frequentar o "Estádio do Dragão ou qualquer casa de alterne onde se pratique prostituição"» - FN
sexta-feira, dezembro 3
 
Kremlin


A personagem à esquerda na fotografia chama-se Bernard Kerik e no dia 11 de Setembro de 2001 era o comissário do departamento de polícia de Nova Iorque. Hoje, foi empossado pelo presidente George W. como novo director do departamento de segurança interna dos Estados Unidos, substituindo o demissionário Tom Ridge. Se entrar neste país era cada vez mais difícil, a partir de hoje passa a ser quase impossível. Com uma cara daquelas, só cá entra quem conhecer o porteiro. A sorte é que o do «Jamaica», no Cais de Sodré, é mais bacano. - JHJ
 
O desafio da afectividade
"De acordo com fonte do gabinete do primeiro-ministro, a reunião decorreu num clima "muito afectivo" e Santana Lopes ficou emocionado com a forma como foi recebido pelos deputados do PSD e do CDS e com os sinais que recebeu sobre a sua "disponibilidade para a luta". in Público on-line.
Definitivamente o homem não aprende. Depois do que se tem passado, continua a conversa mole da afectividade e dos choros e etc e tal. No meio disto tudo, o dr. Portas lá se vai safando e bem, com assinaláveis bicadas no ex-parceiro. veja-se, por exemplo, o que se passa aqui.
- PAS
 
Novas Fronteiras III
O Pula Pulga (se nós somos «excelentes», o que dizer dele?) respondeu a um post meu na segunda feira de manhã. Muita coisa aconteceu entretanto, mas vale a pena discutirmos mais umas ideias sobre o assunto.
1. Escreve o Pulga: «Verifica-se que o PS está sossegado à espera que o Governo se desfaça: Deixa-me cá estar sossegado, pensará Sócrates, porque este governo é tão mau que cai de podre sem ninguém lhe tocar.» É possível que isto seja suficiente para levar Sócrates ao poder. Mas será bom para os que se dispõem a votar no PS?» Sou o primeiro a reconhecer que não basta ganhar as eleições. É fundamental que o PS ganhe com maioria absoluta e com a mobilização dos chamados «sectores dinâmicos» da sociedade, que provavelmente revelam as mesmas angústias que o Pulga. Só assim a mudança eleitoral se fará no sentido de uma alternativa de esquerda reformista. Daí a importância das Novas Fronteiras, cujos calendários terão de ser agora acelerados. Ainda assim, continuo a achar que o Pulga sobrevaloriza a influência eleitoral da comunicação social, especialmente da escrita. Já no anterior post perguntava: «Sócrates está convencido que o poder lhe cai no colo sem mais nem menos, sobretudo quando a dupla Santana-Portas está a calar, um a um, todos os órgãos de comunicação social?». Aliás, o PS não deve achar que isto são favas contadas, deixando-se deslumbrar por um clima anti-Santana que pode ser muito mais intenso nos média do que no conjunto da sociedade.
2. Há muitas coisas que o Pulga diz que eu subscrevo, nomeadamente no Novas Fronteiras II. Mas há uma ideia com a qual discordo totalmente. Escreve o Pulga: «Hoje em dia, existem muitas maneiras, mesmo para um partido que está na oposição, de poder exprimir-se. Veja-se a este título que, em certa medida, têm sido os blogs, nomeadamente o Abrupto, o causa nossa e o Bloguítica, que têm conduzido a luta contra o Governo deste «pobre país», levantando questões e suscitando temas que depois saltam para os jornais.» Aqui está um erro de avaliação que vejo frequentemente repetido. Desde logo por pessoas do PS. Admito que um partido como o Bloco possa basear a sua agenda política a partir da lógica imediatista dos blogues (e em parte fá-lo, com inegável eficácia). Um partido de governo, como o PS, não pode. Ao contrário do que diz o Pulga, tomar posição sobre os assuntos custa dinheiro. Tomar posição séria sobre os assuntos custa dinheiro. O problema dos partidos de governo, uma vez na oposição, é precisamente esse: falta de profissionalização dos gabinetes de estudos; recursos humanos limitados no apoio à actividade parlamentar. Daí a dificuldade de encontrarem soluções políticas diferentes daquelas que haviam sido preparadas no período em que estavam no governo. Foi por isso que falei da questão da reforma do estatuto da oposição, que espero que o PS, mesmo no governo, não deixe de defender. FN


 
Negócios da Semana
O programa semanal da SIC notícias contava ontem com a presença de Mira Amaral, António Carrapotoso e Augusto Mateus. Discutia-se os efeitos da crise política na economia. Mira espumava ressabiamento (a Caixa, a Caixa...) e Carrapatoso, esse génio da gestão privada, não se distinguia do aluno da Faculdade de Economia que quer fazer boa figura. O moderador, de apelido neorealista e supostamente conhecedor da matéria, limitava-se a repetir as barbaridades do momento: «precisamos de um pacto de regime entre PS e PSD», de «nomes sonantes para o governo», de «boa moeda». Augusto Mateus lá lhe explicou que no mundo há sociedades desenvolvidas que também têm eleições e que, em política, as coisas não funcionam como na economia, sendo, por isso, absurda a teoria do professor Cavaco. Mas não havia argumento que o convencesse. Até porque, logo de seguida, aparecia uma notícia bombástica. O Professor António Borges está «disponível» para salvar o PSD e, por arrasto, a pátria. Parece que Borges já não acredita em Santana e considera Sócrates «uma incógnita». Espantoso. Sócrates foi deputado, secretário de Estado, ministro e dirigente nacional do PS. Com todos os defeitos e qualidades, tem um registo político que é conhecido. Borges, de quem apenas se sabe (via prof. Marcelo) que escapou por um triz ao acidente da TWA, pelo contrário, é «uma certeza» para o país. Parafraseando o grande Fábio Rochemback, é caso para perguntar: «e se fossem todos tomar no cu?». - FN
 
Um casamento e um funeral


A descoordenação era total, mas parecia que a coligação, num assomo de bom senso que o poder dita, lá se ia aguentando apesar das ameaças do papão laranja. Pura ilusão. Nem na mínima gestão da aliança com o amigo Portas o dr. Santana Lopes se salva.
O desnorte na São Caetano à Lapa chegou a tal ponto que, depois de meses em que o PPD andou a ameaçar sistematicamente a separação dos partidos da coligação nas próximas legislativas e de um congresso em que essa separação praticamente ficou anunciada, afinal parece que é o CDS que deixa o PPD pendurado no altar. Minutos depois de Paulo Portas ter anunciado aos telejornais que o CDS ia "preparar" listas autónomas, Rui Rio anunciou que o PPD ainda ia reflectir. Continua a reflectir, e há-de chegar o dia em que tomará uma decisão. E, no entanto, o noivo já saiu para comprar cigarros há algum tempo... Talvez ainda volte, se o PPD pedir muito. - MC

quinta-feira, dezembro 2
 
Em sentido contrário
Primeiro um carro, depois outro e, uns segundos depois, ainda um terceiro. A imagem passou várias vezes ontem na SIC notícias. A peça era sobre o encontro "de meia hora" entre Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, isso era o que dizia a voz-off. O que se via nas imagens era outra coisa: os carros que saíam da residência oficial do primeiro-ministro, ali na R. da Imprensa à Estrela. Os carros que saíam e viravam à esquerda, para apanhar a Calçada da Estrela. Faziam-no em sentido contrário. Andavam uns 40 metros em sentido proibido. É o fim da festa, mas o que fica é também isso. Um governo de gente sempre em sentido contrário. Ao contrário de todos, os outros, que têm de respeitar as regras do trânsito, que passam pela chatice de dar umas voltas um pouco maiores. Um governo que viveu sempre no maior dos autismos, que desde o início (e não é este início, porque no essencial há dois anos e meio as coisas já eram assim) nunca percebeu nada, absolutamente nada do que se passava fora do governo. No dia-a-dia das pessoas normais. As pessoas normais que fazem coisas normais como serem normais apesar de terem pequenos poderes. Os pequenos poderes que resultam de ser governo.
Esta gente merece a sorte que lhe calhou. Os próximos espero que saibam, entre outras coisas, ser normais. Que saibam, por exemplo, andar no sentido justo. Só isso faz muita diferença.
- PAS
 
Uma questão de estilos


Convém sublinhar que nos últimos cinco meses a circunstância que mais exigia a dissolução da Assembleia da República foi a demissão/fuga do dr. Durão Barroso para Bruxelas. Tudo o que se seguiu, desde as trapalhadas com a comunicação social até às recentes zangas de comadres, não passa de um estilo de fazer política. Um estilo palerma, é certo, mas um estilo antecipado por muitos e conhecido por todos, inclusivé pelo dr. Jorge Sampaio que na ânsia de não querer fulanizar a decisão o parece ter feito relativamente ao líder da oposição da altura.
O resultado efectivo de cinco dos meses mais tristes da história recente de Portugal -- que culminaram com a analogia anormalóide entre governos e bebés, provando que o uso excessivo de gel pode bloquear as sinapses -- é que os portugueses serão agora obrigados a escolher entre o líder de um partido que ainda não teve tempo de construir oposição e um ainda-não-líder de outro partido que parece não saber muito bem para onde se virar. Se o dr. Jorge Sampaio quis fugir à instabilidade não convocando eleições antecipadas há quatro ou cinco meses, pior cenário não poderia ter constuído com a decisão que tomou há dias, a qual -- por muito me custe reconhecer -- o dr. Paulo Portas fez muito bem em exigir que seja fundamentada. - JHJ
 
O vencedor

Houve um português que beneficiou com quatro meses de Governo Santana. Chama-se Francisco Pinto Balsemão. A partir de agora, nunca mais ninguém vai poder dizer que foi o pior primeiro-ministro da democracia. - FN
 
Um santanista

A entrevista que Luís Filipe Menezes concedeu ao último Expresso pode ter perdido alguma actualidade política, mas constitui um bom retrato do que (ainda) é «o santanismo». Por isso, aqui vai um post que tinha preparado antes da decisão do Dr. Sampaio:
Decididamente, os congressos do PSD estão a tornar-se um bocadinho previsíveis: há um líder com mais de dois terços, há um crítico a apostar no futuro e, no fim, o Dr. Luís Filipe Menezes acaba sem lugares na direcção. Apesar disto, em entrevista ao último Expresso, Menezes considera-se vitorioso: «reconciliei-me com as bases». Deve ter sido naquela parte em que insultou um jornalista do Expresso ? é uma coisa sempre reconciliadora. Com as «elites» é que não foi desta que se reconciliou. «Disseram-me que me telefonariam depois das duas da manhã para discutir o meu lugar (...) Continuo com o telemóvel ligado». O melhor é desligar para não gastar bateria. Até porque «ao mais alto nível do partido e do Estado» (Pedro Pinto, Marco António?), confirmaram-lhe que Rui Rio terá vetado a sua entrada nos órgãos dirigentes do partido. Mas não é por isso que Menezes vai agora passar a dizer mal do governo. Até porque com Santana, «as coisas mudaram substancialmente na forma». Sem dúvida. E formalmente na substância, também.
Luís Filipe Menezes anda é preocupado com as autárquicas. Especialmente com Lisboa: «Carmona Rodrigues é uma excelente pessoa, e um bom técnico, mas não ganhará nem a sua junta de freguesia». Talvez ganhe na sua mesa de voto. E quanto ao Porto, avisa já que não contem com ele, não fosse alguém lembrar-se disso. Para essa tarefa, a sua motivação não pode ser menor: «Tenho mais motivação para ajudar Rui Rio do que para ser candidato no Porto». É sabido que Menezes tem dito que a limitação de mandatos autárquicos devia ter efeitos retroactivos. Isto não o impede, no entanto, de vir agora defender o contrário: «Em termos políticos, faz sentido que me candidate a mais um mandato. Isso é o mais sensato». No entanto, a sensatez nunca foi o seu forte. Por agora, Menezes ainda não é recandidato. Para que isso aconteça, «Basta que me façam sentir da família nacional do PSD (...) Chegámos a uma situação caricata em que o presidente da Câmara de Gaia está fora da empresa do Metro do Porto. Ou ser marginalizado na Junta Metropolitana do Porto». É isto que mais admiro em Menezes: a sinceridade. O homem é mais transparente que o presidente do Dragões Sandinenses. É um homem fácil. Sempre que o PSD o quiser basta fazer um sinal.- FN
quarta-feira, dezembro 1
 
Homenagem
Se o PS ganhar com maioria absoluta, passam a ler-nos em henriquechaves.blogspot.com - FN
 
Provavelmente o melhor comentador do país
É habitual dizer-se que os fóruns da SIC andam dominados por maluquinhos. Pois bem, logo na segunda-feira foi precisamente um desses «maluquinhos» a primeira pessoa que eu ouvi identificar a gota que faria transbordar o copo. Disse ele, perante a concordância de Inês Serra Lopes, que «muito mais graves do que a carta de Henrique Chaves eram as declarações do primeiro-ministro sobre a incubadora». Sampaio achou o mesmo. Alguém se lembra do seu nome? - FN
 
Já estávamos a chegar à Madeira
O «peso pesado» do PSD que iria ocupar a pasta da «Reabilitação» (?) era um tal de Miguel de Sousa. Não, não se trata do famoso astrólogo, mas sim do Vice-Presidente da Assembleia Regional da Madeira - FN
 
políticos e competentes
este texto foi escrito antes da "bomba" de ontem ao fim-da-tarde. No entanto, designadamente face a apelos como este, mantém a sua actualidade.

No meio da desagregação que o Governo tem demonstrado, o Prof. Cavaco resolveu publicar no Expresso um artigo onde se revela em todo o seu esplendor. Sinal dos tempos, a confusão política é tal que, da esquerda à direita, diversas vozes vieram aplaudir as suas palavras. Enquanto o faziam, ficava esquecido, por um lado, o propósito eminentemente táctico do texto em causa e, por outro, de que este, acima de tudo, evidencia que o Cavaco de hoje é o mesmo político de há vinte anos.
continue a ler aqui.
- PAS
 
Nascimentos e ressurreições
A quadra é mais propícia para o festejo de nascimentos. Mas há quem prefira as ressurreições. - PM

 
Equívocos e ressurreições
Comentadores e jornalistas, antes de opinar ou informar, poderiam ao menos passar os olhos pelo texto constitucional. Evitariam, assim, dizer disparates como o "Presidente demitiu o Governo" ou, "a partir de hoje, está tudo congelado, incluindo a aprovação do orçamento". Desde logo, o Presidente não demitiu o Governo, mas comunicou ao Primeiro-Ministro que irá ouvir os partidos representados no parlamento e o Conselho de Estado com vista à dissolução da Assembleia da República. Donde o exercício do poder de dissolução pelo Presidente aponta, assim parece, para um juízo negativo sobre o apoio da actual maioria parlamentar ao Governo. Dito de outro modo, poderia o Presidente ter demitido o Governo invocando que tal se tornaria necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições. Optou, em vez disso, pela dissolução do parlamento, o que encerra uma avaliação política distinta. Depois, a Assembleia continua em plenitude de funções até à adopção do decreto de dissolução. Logo, como o orçamento irá ser discutido no início da próxima semana, não se assistirá à ressurreição de Ferreira Leite, como ontem dizia Sérgio Figuereido, muito pomposamente, no canal público. Mas bem pode acontecer que Ferreira Leite ressuscite - só que não como ministra das finanças. - PM



Powered by Blogger Weblog Commenting by HaloScan.com Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons License. Weblog 2004 O País Relativo