<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
segunda-feira, março 31
 
Tardio, mas em todo o caso cá vai. Fui um dos 400 leitores do Duplo Império do infame PM, e 400 livros vendidos, que eu saiba de um primeiro livro, de poesia, e ainda por cima de uma edição de autor, devem ter feito deste livro um bestseller da poesia contemporânea portuguesa. Pela minha parte, e esta só percebe quem tiver lido o livro ou quem tiver a sorte de o encontrar por aí nas livrarias, sou fã das nuvens, do céu e dos olhos que desenham as figuras que fazem as Três Teorias. Que aliás escolhi para epígrafe da única tese que tive de escrever até hoje (muito antes dos blogs serem sequer um projecto e de confirmar que o PM era um perigoso direitista). Se o sucessor, Eliot e Outras Observações , que hoje foi lançado na fnac, for tão bom como o anterior, estamos conversados.

MC
 
GIRLS ON BLOG

Desta Lisboa à beira mar plantada, solidarizo-me com o blogger florentino RB. A televisão italiana é mesmo do piorio, pelo menos a julgar pelas amostras recolhidas in loco e pelo que a tvcabo nos vai impingindo. A RAI é, todos os dias, pior que uma TVI de baixo orçamento num dia particularmente mau. E lembram-se daquele canal italiano de música que durante escassos meses ocupava o último dos canais do cabo? O dia em que acabaram com essa inolvidável pérola, cujo nome infelizmente não recordo de momento, foi muito mais triste que o fim da xfm. A única coisa boa em Itália é mesmo o fabuloso calciostream: futebol nonstop, 24 horas por dia de segunda a domingo, campeonatos de todo o mundo. Sei o risco que estou a correr e o dano que posso estar a causar à produtividade do país, mas espero que já não falte muito para nos juntarmos ao pelotão da frente nesta matéria tão importante: para quando um canal destes em Portugal?
Mas serve este prelúdio para dar conta de um fenómeno estranho q.b.: nas várias reacções da concorrência ao país relativo, mais do que uma tem por inflamado mote o pequeno contingente de bloggers no feminino por estes lados. Há sempre a hipótese de tudo se resumir a uma questão de pura inveja, claro. Mas não acredito que infames e marretas só nos últimos tempos tenham descoberto as vantagens de haver dois sexos...
Não deixa, por isso, de ser espantoso que, aparentemente, ninguém se tivesse lembrado disto – até agora – e que a tímida blogofeminização do país relativo mereça tanto falatório. É como se, como tantas vezes acontece, o facto (a quota masculina de quase 100%) se tivesse transformado em regra não escrita.
Mais espantoso ainda é que, como sempre, lá veio a conversa estafada das quotas para as mulheres, convenientemente acompanhada de um sorriso malandro de orelha a orelha. É uma espécie de equação viciada à partida. Será que é assim tão difícil perceber que pode mesmo haver mulheres a participar nas coisas sem que isso tenha sido imposto por decreto?
É por este tipo de lógica, e porque no fundo as microsaias da TV italiana estão longe de ser o elo mais fraco, que há quem as defenda (às quotas). É que às vezes mais vale uma má solução do que um problema ainda pior.

MC

 
Transgender delgado: Isto dos blogs tem muito que se lhe diga. A Raquel - que é a minha namorada que casou comigo - já me disse que eu só sei dizer mal e ainda por cima que o Pedro Mexia tem muito mais graça do que eu. Eu remeti-a para o mail da Rita Dias, a tal que diz que que o Pedro Mexia é "feio para caraças", que é o tipo de coisas a que as mulheres são sensíveis (a comentários negativos das outras mulheres, entenda-se, porque tipos feios com namoradas giras há muitos. Olhem o Pedro Lombo, por exemplo). Mas a verdade é que não preciso disto e portanto a partir de agora só vou dizer bem de quase toda a gente. Como despedida dos meus curtos tempos de maldicência, deixo a seguinte reflexão para a semana. Já repararam que o inefável Delgado, desde que foi pointed out como agente de propaganda Barrosista e de comissário político na Lusa, num exercício do mais espantoso transgendarismo, adoptou um estilo distante, abstracto e totalmente inóquo nas suas crónicas, agora ainda mais inanes? Terá sido um avisado conselho, ainda que irremediavelmente tardio, do bodybordista Marques Mendes? MK

 
Coming out: ok. Apanharam-me. Eu Marcos Carrapato me confesso. Já não vale a pena continuar a fazer jogo duplo. Que se lixem os 10 quids que o MI5 me deposita na conta todos os meses. E o simpático postal que a Rainha Mãe me costuma mandar pelo Natal (ainda este Natal me mandou um com o David Beckam em sunga de cabedal). A verdade é que vivo algures entre a Coina e a Arrentela e apoio subida de Amora a concelho. Este coming out é um alívio. Estava farto de fish n'chips e yorkshire puddings. De não poder cuspir para o chão, nem nas elegias do João Carlos Espada. De não poder usar bigode e de fingir que percebo a lógica do cricket. De ter sempre que repetir o meu nome três vezes e no fim de tudo ainda me chamarem kirkly, kiki, ou me confundirem com um familiar do capitão Kirk, como fez o António Mexia - perdão, o irmão, o Pedro Mexia, o outro é o que patrocina a Superliga do Major Valentão. MK
 
Lilli Gruber

A cobertura da guerra infame na televisão italiana não destoa do panorama deprimente da restante tv transalpina. Como se sabe, Berlusconi controla seis canais e meio dos sete disponíveis. Mas não era sobre isso que queria falar. A verdade é que dos jornalistas enviados especiais ao “teatro de operações”, apenas uma, a bela Lilli Gruber da RAI 1, é mulher. Ora, sete canais, pelo menos cinco cidades (NY, Koweit City, Doha, Bagdad e Basorá), dá 35 jornalistas. Apenas uma é mulher. Mas mesmo a Lilli, óptima jornalista (apresenta de costume o telejornal na Uno), não se safa de ser italiana. Ainda ontem, por exemplo, ofereceu à nação de Vieri o scoop de entrevistar, com o chauvinismo típico aqui do burgo, o núncio apostólico em Bagdad. Enquanto o fazia, a guerra acontecia lá fora. Porque era italiano, e falava italiano e porque a Igreja Católica desfruta em Itália de uma preponderância absolutamente inaceitável no espaço informativo. Por algum motivo, Massimo D’Alemma se sentou na primeira fila da canonização de Monsenhor Escrivá de Balaguer. Só falta mesmo os jornais trazerem aquelas pequenas notas informativas, como em Portugal antes de 1910, do tipo: Sua Senhoria o Papa passa sem mais novidade na Sua Importante saúde.

Voltando à vaca fria. As mulheres em Itália não temem tanto o cancro da mama como o efeito da passagem do tempo sobre os seus rostos, seios e glúteos. Em especial, as que dependem da boa forma e estado de conservação das referidas partes para se manterem à tona no encapelado mar televisivo. Poder-se-á talvez observar que as restantes senhoras italianas estão ocupadas a tiranizar os seus filhos varões ou, as mais bem nutridas, a insinuar pernas em programas desportivos dominicais. A verdade é que o meio televisivo italiano é absolutamente sexista e talibânico. A mulher não fala, basta-lhe estar presente, desde que sempre bonita e de mini-saia, e, lá está, cruzando e descruzando as pernas. Poucas conduzem programas, menos ainda os realizam, quase nenhuma os dirige. No jornalismo e programação televisivos italianos, a presença de mulheres em funções que requerem uma competência diferente da habilidade para a maquilhagem ou simples literacia e numeracia, como a de repórter de guerra, é quase inexistente. A importante excepção a esta continuada catástrofe foi a recente nomeação de Lucia Annunziata para directora da RAI. Pode ser que alguma coisa mude, mas duvido. RB
opaisrelativo@hotmail.com
 
Mas tu acreditas nos media? A guerra e a urgência em avançar com “a notícia” , está a deixar as televisões e os jornalistas um bocadinho desorientados. Os jornalistas, parecem não dormir desde que partiram para o “local”, sendo constantemente solicitados nos serviços noticiosos especiais que chegam a decorrer de hora a hora (pelo menos em Itália). Isto para, pela enésima vez, nos dizerem que se ouvem os alarmes em Bagdade, com um clarão alaranjado a servir-lhes de pano de fundo. O conteúdo, normalmente, não nos adianta muito, ou pouco. Quando nos adianta, nunca sabemos até que ponto é verdade e quanto da verdade. Por algum motivo 60% dos italianos desconhece a posição do seu Governo relativamente à guerra.

O cúmulo é quando, o cansaço acumulado, a inocência (ou não) ou simplesmente a ignorância, levam jornalistas, como aconteceu esta semana que passou em Itália, em diferentes serviços noticiosos de diferentes canais (resumidos no programa Stricia la Notizia. Grazie, ragazzi!), a fazer repetidas menções às “forças aliadas anglo-britânicas” (que devem ser, suponho, tropas inglesas aliadas a tropas de Inglaterra, Escócia e País de Gales). A cereja no topo do bolo (porque bolos há muitos, e cerejas também) são as “forças anglo-francesas em acção em pleno território iraquiano” (sem comentários). Quiçá já tomado pelas forças aliadas. Designaçãozinha difícil de digerir, não? SS

 
Cheiro a enxofre: diz-nos António Ribeiro Ferreira, no DN, que “o Papa João Paulo II (...) tem sido uma das referências mais importantes dos que se opõem à libertação do Iraque.” Tem razão Ribeiro Ferreira. Esse grande malandro travestido de bom velhinho que não percebe que os Iraquianos estão mortinhos por serem libertados. Nem sequer percebe que eles nem se importam de serem mortinhos e de verem as suas famílias serem mortinhas para serem libertados. O Senhor Papa não tem visto a alegria com que os Iraquianos têm recebido os seus libertadores. Que o diga o Senhor Pachachi – não, não é primo do famoso Três Beiços que fazia as delícias das bifas nos Algarves – que com os seus 80 anos bem conservados se prepara para vir de repelão dos Emirados Árabes Unidos para ajudar à libertação. MK

 
Já não se pode trabalhar!
Capa do Expresso: Bagão faz a vontade a Sampaio”. Não sei o que isto diz de quem vendeu assim a história, nem de quem faz dela capa com tão fantástico título, mas ficámos a saber que o Expresso aderiu oficialmente à amargurada tese do Dr. Bagão: “É muito difícil fazer reformas neste país”. E que ‘reformas’!

Parece que pelos lados de Belém, à falta de melhor para se entreter nas longas horas do segundo mandato, anda alguém preocupado com umas miudezas, vagamente relacionadas com a garantia de níveis mínimos de protecção social para os jovens. Parece ainda que, por causa disso – pasme-se! – terá tido a ousadia de vetar pela segunda vez um diploma de governo. Há coisas que não se fazem ao Dr. Bagão. É que, como todo o bom católico ele só quer o bem dis pobres. E começou a estudar estas coisas da Segurança Social muito antes de trabalhar para as seguradoras, quando ainda todos andávamos de calções...
MC
opaisrelativo@hotmail.com
domingo, março 30
 
Tragam as meninas, por favor... é assim que termina o simpático post de boas vindas ao pais relativo que o PM nos endereçou. Já o Pedro Lomba, depois de aprovar as meninas do País Relativo sem nos conhecer, dizia “Rapazes, sejam muito bem vindos”. Aos dois Pedros – já não preciso que me ‘levem’ para ir beber uns copos mais ou menos desde os 14 anos.
MVS
Ps – É por estas e (especialmente) por outras que, apesar do nome, meu caro Pedro Mexia, não, nunca poderia escrever na Coluna.

 
Confissões: Gostámos de ler as confissões do blog-de-esquerda. Citando Philip Roth e o seu «Bring Back Monica Lewinsky» confessam volta Clinton, do mal o menos. Meus caros bloguistas, então mas isto não é tudo igual? (TUDO menos o BE, claro). O Bush e o Gore não era tudo a mesma coisa? E o Chirac e o Jospin? E mesmo o Durão e o Ferro? Coitados. Qualquer dia estão para aí a gritar ‘Voltem socialistas, estão perdoados’. Mais vale tarde que nunca, e é sempre de saudar o reconhecimento das diferenças... Pelo menos no PC é assumido, quanto pior, melhor... MVS
 

E por falar em Prospect: Tenhamos ou não ilusões (nós não temos) de que uma das razões da intervenção anglo-americana no Iraque terá sido a de democratizar o Médio Oriente, a discussão sobre a viabilidade da democracia naquela região é incontornável, face a uma mais que provável – e desejável – derrota do regime ditatorial de Saddam. A edição de Abril da revista inglesa publica quatro interessantes ensaios sobre o tema, dividindo-se as opiniões relativamente à possibilidade de sucesso do modelo democrático na região. Do lado dos cépticos, refere-se a inexistência nas sociedades árabes de uma cultura política que, no curto espaço de tempo de uma ou duas gerações, permita o surgimento da democracia. No campo dos optimistas invoca-se, entre outros argumentos, o precedente do Japão e da “reabilitação” (1945-52) que se seguiu à II Guerra, que muitos consideravam impossível. Aqui.TT.
 
Em nosso nome não. Mas certamente no deles: Nas últimas semanas, têm vindo a lume os nomes das empresas a quem foram, ou a quem muito provavelmente virão a ser, entregues os lucrativos negócios da reconstrução do Iraque pós-Saddam. Como era previsível, as empresas dos EUA são, até agora, as únicas beneficiadas. Também não se estranhou que a maioria das felizes contempladas tivessem estreitas ligações à Administração Bush (o caso mais flagrante é a adjudicação à Kellogg Brown & Root, uma subsidiária da Halliburton, a sociedade anteriormente liderada pelo actual vice-presidente, Dick Cheney, de um contrato milionário para o apagamento dos poços de petróleo em chamas no Iraque e reparação das infra-estruturas petrolíferas do país). A mais recente e muito comentada novidade nesta matéria é a possibilidade da Administração republicana optar por construir no Iraque um sistema de rede de telemóvel CDMA. Ao que tudo indica, o lógico seria utilizar um sistema GSM, actualmente usado em todos os países do Médio Oriente. No entanto, conforme alertou, com visível preocupação, um importante congressista republicano citado pela Salon.com, a escolha do GSM iria beneficiar as empresas “francesas e europeias”, que têm o mesmo sistema. Pelo que o ideal, explicou o congressista, seria implementar o sistema CDMA, desenvolvido pela empresa norte-americana Qualcomm, por sinal uma importante financiadora do congressista californiano.
É, de facto, enternecedor ver o afã com que os americanos se empenham na libertação do povo iraquiano. TT

 
A hora não é, para já, de resposta ao há muito anunciado bombardeamento infame. Já se sabe que isto da blogosfera é uma actividade a tempo inteiro (incluindo a febre de sábado à noite) mas tem de haver vida para além dos blogs.
Por estes dias, e em especial por estas noites, o país (relativo e não só) está absolutamente rendido à Madragoa. Ou melhor, às Madres de Goa, ali numa transversal da D. Carlos com um nome muito burguês (Rua dos Industriais).
Parece que as Madres são vagamente equidistantes do Rato e da S. Caetano à Lapa, e que têm ainda por vizinho o ministro Portas. Felizmente, estas ligações perigosas só existem mesmo no mapa da capital, porque por lá, como no resto da nação, não consta que o Bloco Central reúna muitos adeptos.
Mais uma prova de bom gosto, que aliás abunda nas Madres. O país relativo recomenda.
MC
opaisrelativo@hotmail.com
 
Estivemos a ver os DVD d' O Padrinho... Ai não, foi a entrevista do Luís Filipe Vieira...
Apenas uma citação... mas vale a pena ler tudo na revista do Expresso: Sou capaz de responder que a grande serenidade que tenho na minha vida são os pactos que tenho com esses meus ex-sócios. Sei que se um dia me acontecer algo, a minha família está protegida. E isso é recíproco" LFV

MVS
opaisrelativo@hotmail.com
 
Mais uma não-notícia - A Bola de ontem (sábado) tinha um especial de 8 (sim, leram bem, oito) páginas sobre os 31 anos do Rui Costa. Cito o Miguel quando citava o Adolfo Luxúria Canibal: 'Mas o que é que isso interessa?' E respondo: NADA.
MVS

PS - De referir desde já que sou a única sportinguista (dizem que vagamente doente pelo Sporting, mas eu não confirmo) deste Blog. Estarei, por isso, quase sempre em desacordo com os meus colegas quando se falar de futebol no país relativo.
 
Blogar desde Frankfurt

Desta Frankfurt verdadeiramente primaveril (é verdade, o efeito de estufa já começa a dar resultados aqui por esta cidade atravessada pelo Meno), o primeiro depoimento só pode ser futebolístico: finalmente, uma vitória lusa sobre os canarinhos! Mas há quanto tempo é que uma coisa destas não acontecia? Terá sido desde que o saudoso Vicente (perdoem-me a costela belenense) neutralizou o Pélé? Enfim, o que importa é lá quebrámos o enguiço, ainda que não tenha gostado particularmente do rendimento do Simão, do Maniche (continuo a achar que o Costinha joga melhor sem um outro trinco a ladeá-lo) e daquelas saídas dos postes do Ricardo.

O historiador Branco propõe, como é seu apanágio, umas frases provocatórias sobre Florença para desmistificar o mito. Tendo mais vivido do que trabalhado em Florença durante três anos, não posso deixar-me de rever nos traços naturalistas e caricaturais do "storico Biancho", sobretudo quando rematados pela frase assassina do Ruben A. de um dos volumes do Diário. No entanto, agora que trabalho mais do que vivo nesta cidade que outrora (durante a nossa infância) acolheu a saudosa Heidi, ainda que sob a batuta rigorosa e implacável da Fraulein Rothenmeyer, não posso deixar de preferir o centro mal cheiroso, o bulício dos "motorini" e "apis" que pululam e infestam os "viale" florentinos e até as grutas artificiais do Boboli a estes ambientes pretensiosamente assépticos da Europa central e falsamente amparados no mito da eficiência e a da funcionalidade extrema (tudo uma grande treta!). Falarei de Frankfurt e do que é a Alemanha hoje noutra oportunidade e de como se trata de um falso mito, em vias de converter numa espécie de Japão da Europa (ainda que parcialmente por outras razões). Quanto a ti,meu caro historiador métrico (qualidades métricas, aliás, devidamente reflectidas na rigorosa comparação entre o aeroporto Vespucci e a estação rodoviária de Grândola), lamenta-te menos e disfruta mais do Arno geneticamente modificado e das grutas artificiais antes de entrares (ou regressares à) na idade maior.

Quanto à guerra, abstraiam-se de momento desses infames governantes norte-americanos, e olhem para os danos coletarais que a guerra começa a provocar nessa imbecil direita espanhola que parece perpetuar-se no poder. Para esta direita, qualquer tipo de contestação é sempre reconduzido à dimensão de "problemazillo": primeiro, foi o "Prestige", inicialmente menosprezado quer como problema ambiental quer como problema social, que deu no que deu; agora, segue-se a crescente contestação ao apoio espanhol à guerra, inicialmente também tido como um problemazito e agora a adensar-se diariamente (não sei se repararam na subtil ida da Palacios à Turquia para oficializar uma ajuda financeira; terá sido esta uma contrapartida negociada nos Açores?). Não se trata, obviamente de fazer a apologia da guerra para resolver problemas eleitorais na Europa; trata-se tão-só de ver como esta reiterada atitude de desprezar as opiniões públicas e os protestos sociais acaba por ser contraproducente. Estará o mesmo em vias de acontecer em Portugal?

Para finalizar, que isto já vai longo, duas inquietações: 1) porque é que o Ministro da Informação iraquiano não ostenta uma bigodaça semelhante à dos demais compatriotas e, em especial, ao seu chefe? 2) porque é que os treinadores da selecção portuguesa, pelo contrário, são possuidores, em geral, de farfalhudos bigodes? Será contra-informação iraquiana?

PM

P.S. Agradeço ao também belenense Filipe Nunes a ressalva feita quanto à utilização da abreviatura PM, que não deve ser entendida, em caso algum, como uma referência ao outro PM de S. Bento
sábado, março 29
 
Há um futuro para as Forças Armadas em Portugal - a SIC Notícias. Desde o 25 de Abril que não víamos tantos militares na TV. Mas nessa altura tinham barbas, cabelos compridos e camisas desfraldadas. Sentimos a falta de um Duran Clemente, de um Otelo, de um Jaime Neves... Chega de medalhas lustradas, camisas engomadas e cabelos acabados de pentear na Marina Cruz!
FN/MVS
 
Blogar ao Sol II

Há anos que queríamos fazer uma Prospect à portuguesa. O Pedro Lomba, por incrível que pareça, é testemunha. Achámos sempre que, um dia, iríamos ser salvos por um burguês esclarecido (afinal uma contradição de termos). Pura ilusão. Mas o que a «nova economia» nos tirou com uma mão, deu-nos com a outra. Cá está, portanto, opaisrelativo.blogspot.

Coube-me, inicialmente, a tarefa ingrata de dar o pontapé de saída (logo eu, que jogo tão bem à bola como o Belenenses no tempo do Vítor Manuel). Fui fazendo a coisa ao ritmo de um funcionário público infoexcluído. Calmamente, entre um ofício e uma circular normativa, tirava uns apontamentos e imprimia, a 4 euros cada, uns posts no internet point mais próximo. Mas eis que uma fuga de informação do nosso infame PM precipita tudo (atenção: não confundir o PM com o Durão, embora ele não se importe; e muito menos com o belenense Machado). Quando regresso ao internet point, já havia dezenas emails, posts e visitas.

Ainda assim, vale a pena voltar ao Blogar ao Sol. Nos primeiros dias, nunca é demais declarar princípios e interesses.

Estamos fartos da direita portuguesa, que é hoje o que sempre foi: beata, antiliberal e salazarista (o prof. Freitas sabe do que fala). Acreditamos que não estamos condenados às prosas lineares do arquitecto Saraiva e aos pensamentos profundos do Comissário Delgado. Mas também não nos confundimos com uma certa esquerda que, por tudo e por nada, se põe a descer a avenida, indignada, ao som das cantigas «de intervenção». Este país relativamente relativo merece mais. Seremos uns Estados Gerais para uma imensa maioria, que junta militantes oriundos das cavernas partidárias com sofisticados independentes exilados em Florença e Frankfurt. Seremos uma esquerda liberal e socialista, porque, sem igualdade, a liberdade é só para alguns. Uma esquerda que gosta da Europa e dos Estados Unidos, mas que, definitivamente, não gosta de Bush: um homem que se deita com as galinhas e troca o whisky pela Bíblia só pode ser um gajo sinistro. Como no 24horas, teremos tudo aquilo a que o bloguista tem direito: futebol, política, bares, discotecas, Hollywood, surf e culinária. E também, semanalmente, as frases, os menos e os mais que houver. Fica prometido.

PS: Com umas iniciais destas, ainda acabo na Coluna Infame…Mas reparem que a situação da Sílvia Sousa não é muito melhor!
FN
 
remediar os estragos
Ao senhor Rumsfeld deu agora para falar da Convenção de Genebra, esquecendo-se claro que desde o Afeganistão os EUA já violaram 15 artigos da mesma. E não venham com a conversa maníqueista da ditadura vs democracia. É que é mesmo com as democracias que devemos ser mais exigentes. E o problema é que a democracia americana está entregue a uma maltosa do piorio - que além do mais tem uma lógica obsessiva que lhes tolda a razão, se nada mais! E no meio de tudo isto, lá continuam a 80 kms de Bagdad. Estranho, mas pensava que o comissário Delgado tinha previsto para a última quarta-feira uma entrada apoteótica na cidade. Não há emenda e nós pouco poderemos fazer para além de remediar os estragos. É que vai ser disso que se vai, brevemente, começar a tratar. Depois da destruição massiva! PAS
sexta-feira, março 28
 
O Mundo ficou perigoso
Já não há volta a dar, o mundo ficou perigoso e está para durar e, no entretanto, Portugal está sempre mais estranho. O muito belicista Público, para compensar concerteza os serenos editorais, oferece hoje um cd com os "sons de paz". Não dá para acreditar! Em que é que ficamos? Eu, por exemplo, quando ouço a Isabel Silvestre no cdzinho penso logo em guerra. Mas a verdade é que tanto pluralismo editorial começa a ser suspeito. Convém aliás não esquecer que a hegemonia se esconde sempre por detrás de um q.b. de pluralismo. PAS

 
Quarto com vista sobre Florença

Agora que o Pedro Lomba revelou a minha costeleta florentina, pareceu-me por bem fazer uma pausa na guerra infame. Trata-se de dizer mal de Florença. Passo a explicar porquê.

Imaginemos que chegam de avião, seguramente um daqueles pequenos, a hélice semi-a-jacto. O aeroporto é de curta pista, agachada por trás de uma praça de táxis. Não se manda parar um táxi na rua. Não, tem que se telefonar. Ainda bem que o aeroporto tem uma praça cheia deles. A estação da Rodoviária de Grândola era escandalosamente maior. Do hotel para o centro, per favore.

A verdade é que o centro da cidade cheira mal. A cidade fica numa cova, ainda rodeada de pântanos estava o D’Anunzio em Fiume. O rio, de um castanho esverdeado de natureza morta, é habitat de uma mutação genética perturbante, entre rato e castor. A ponte Vecchio, vista de perto, está velha a cair. Os turistas atafulham-se no centro, destruindo com o simples andar a cidade que os rodeia. Eles mandam tudo o que é afresco para o restauro, ao que parece pelo simples facto de respirarem. Mas o que é o centro? O centro é a região delimitada precisamente por um anel de Internet Cafés e lavandarias para americanos (de duvidosa utilidade, portanto). Para lá do centro ficam os famosos viales, a única segunda circular da cidade.

Arte rima com Florença, não é? Florença é um museu imenso. Sim, a cidade está cheia de Davides, mas nenhum deles o original. O original está a ser restaurado as we speak. Florença tem piazzas como a região oeste tem rotundas. A cidade vive em estado de sítio de palácios, miradouros e igrejas. Uma orgia de interesting sites. Atravesse o rio, para o outro lado, Oltrarno. Aí existe, espetado no coração da mais bela zona de Florença, um imenso latifúndio de jardins, chamado Jardins Boboli, onde se podem apreciar, entre outras guloseimas para espíritos contemplativos, grutas artificiais.

E depois, a quem é que interessa tanto a arte do Renascimento? Se quiser ver uma escultura mais nova que o Papa terá de se dirigir ao centro de arte contemporânea mais próximo, na suburbana Prato, essa Brandoa-upon-Coventry. Ora, Florença é ao pé de Prato e isto é um defeito. Ou seja: a arte contemporânea em Florença está longe do centro como os hipermercados em Lisboa estão longe da Baixa. E na verdade, em Prato, ao pé do centro de arte, está o único hipermercado dos arredores. Florença é o infeliz paraíso do comércio tradicional. E arquitectura moderna? Vá a Marco de Canavezes ver. Até porque os arquitectos italianos só não constroem em Itália.

Depois das onze da noite, digamos, não se vê vivalma per strada. Andar de pescoço no ar todo o dia cansa. Todo o dia o turista faz tudo sempre igual, acorda às seis horas da manhã e sorri um sorriso pontual. Todo o dia ele só pensa em poder parar; ao meio-dia, já só pensa em dizer não. Até porque amanhã há mais, muitos mais. À noite, pode sempre ir a um dos bares irlandeses cheios de americanos it’s like, you know. E concertos, aparte os de música clássica? Vá a Roma ou Milão. Cinema, só dobrado.

Como se isto tudo não bastasse, a Fiorentina conseguiu, depois de grosso escândalo, descer, se não me engano, para a série C1, os regionais. No próximo domingo, poderá, caro turista encalhado, assistir ao Fiorentina x Borgo San Lorenzo. Como dizia o Ruben A., Florença ao Domingo é como Gondomar com estátuas.

RB
 
Independent day: dia de “O Independente”, sempre um frenesim. De entre a trupe de alguns reaças sem graça e sem talento que ali residem – o que, convenhamos, não é o caso dos amigos do meu amigo Pedro Lomba (ou Pedro “Lombo” como por vezes é referenciado por algum friendly fire), o que torna tudo muito mais perigoso – pontifica uma luminária que dá pelo nome de Vasco Rato. Atente-se no seguinte primor: “...o direito internacional carece de interpretação. Pessoalmente, julgo que a guerra é legal. Outros julgarão de outra forma. Todavia, nunca haverá consenso quanto a esta questão e, portanto, penso que é intelectualmente desonesto afirmar que o direito internacional foi violado.” Não acham giro constatar que em Portugal é possível escrever coisas tão tontas e continuar-se a ter direito a uma página inteira de opinião semanal num semanário de média distribuição? MK

 
Primavera de Destroços. O problema é que não é só a TSF. Depois da histeria dos nitrofuranos, dos pedófilos, e da interminável sucessão de escândalos que faz a espuma dos dias nos media, agora o Iraque é o que está a dar.
Ficámos a conhecer a planta de Bagdad, os ministérios e os palácios, os recônditos aeródromos no oeste do Iraque, os avanços Km a Km por um deserto sempre igual. Dá vontade de perguntar, como fez Adolfo Luxúria Canibal num apropriado ‘”Primavera de Destroços”: ‘Mas o que é que isso interessa?’

É sempre emocionante ver o Nuno Rogeiro jogar ao Risco em directo durante horas com as suas inenarráveis miniaturas (serão da Playmobil?). Mas a paciência tem de ter limites.Transformaram esta guerra numa interminável telenovela, como fazem com tudo. O melhor é mesmo desligar a televisão (incluindo a Sic Notícias) e esperar pacientemente que este pesadelo (leia-se, a histeria dos media) acabe. Não há-de faltar muito para que este sabonete deixe de vender e aceitam-se apostas sobre qual será a next big thing.
Enquanto isso, o verdadeiro pesadelo (sacrilégio nunca, caro JPC) esse está para durar: uma guerra que sabemos como começou mas não saberemos tão cedo nem como, nem quando, nem onde, nem se vai acabar.MC

 
Meio-dia em Portugal, sete da manhã em Nova Iorque, três da tarde em Bagdad.....Confesso que sou viciada na TSF. Que trauteio os jingles, sei a programação de cor, e até consigo (só às vezes) aturar o ‘Freud e Maquievel’. A verdade é que a guerra vai conseguir o que nem o Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu – a partir de hoje, e até ao fim da guerra, a TSF acabou para mim. Por estes dias desde psiquiatras a falar de stress de guerra, a biólogos a falar da vegetação rasteira do deserto até à inenarrável entrevista às cabeleireiras do Koweit a TSF massacra-nos com não-notícias sobre a guerra no Iraque. Luís Montez – Mudei-me definitivamente para a RADAR.... MVS
quinta-feira, março 27
 
Se há coisa que não admito é que se diga mal dos B'52's. Tudo tem limites, é uma questão de princípios. Houve até um tempo em que a Kim Basinger cantava com eles. Era também o tempo da Kim Basinger, o que já não é hoje o caso - infelizmente para nós!!!. O "my own private idaho" era, é absolutamente genial. A mim não me apanham, também por isso, em anti-americanismos. Mas esta guerra, safa, safa, é completamente infame! PAS
 
PERGUNTA: Será que o Pedro Mexia não gritaria censura! censura! se o seu livro Duplo Império (sim, lemos E gostámos) fosse banido das livrarias por claras alusões a questões que mais ou menos vagamente pudessem fazer lembrar a guerra? Posso lembrar-me de 1000 razões para não ouvir os B'52's, mas não ouvir porque é um nome de um qualquer armamento é ridículo demais. MVS
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Mundo Cão: a este propósito valeu mesmo a pena prestar atenção à recente entrevista de João Pereira Coutinho à TSF. O Pereira Coutinho é um rapaz com um ar asseado que assina uma coluna canídea no “O Independente” e que dinamiza o Blog “A Coluna Infame” (diz-me o Tiago Tibúrcio que "é costume da bloggosfera pôr o link sempre que te referes a outros blogs", mas a verdade é que eu ainda não sei fazer isso. Portanto peço aos blogonautas - é assim que se diz? - que façam como no vírus alentejano. Onde lerem "Coluna Infame" digitem www.colunainfame.blogspot.com).

Explicando as razões da guerra, Pereira Coutinho invocava os "nossos" valores civilizacionais que “eles” ameaçam. Que os países “civilizados” – expressão que o próprio Pereira Coutinho antecipou que chocasse os ouvintes – tinham que tomar uma atitude decisiva em defesa do mundo e dos valores ocidentais que estão a ser atingidos pelo terrorismo internacional. Como é que esta ameaça difusa proveniente dos tais países não civilizados justificava esta guerra em concreto, contra este país em particular, a Pereira Coutinho não ocorreu explicar.

Ficou claro o que está em causa para esta gente. É uma visão do mundo, uma espécie de cruzada contra os infiéis que roça perigosamente a xenofobia e o racismo. O que aquece o sangue desta nova direita é, não tenhamos dúvidas, um propósito civilizador. O problema é que dizer “a paz não se constrói à bomba”, ou, numa fórmula mais feliz, “bombing for peace is like fucking for virginity” não é de um pacifismo inconsequente, é um dado empírico. MK

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Nestas coisas acho que o melhor é ir directo ao assunto e abrir logo as hostilidades. O maniqueísmo reaça dos nossos colegas (?) da Coluna Infame e a sua doutrina da guerra civilizadora - assumida, de resto, com toda a galhardia, na TSF, por João Pereira Coutinho - está a fazer escola na direita portuguesa. Já não se limita a deslumbrar o José Manuel Fernandes, rendido às delícias do mais benigno dos Impérios - a este propósito talvez lhe fizesse bem ler a carta do Mia Couto ao benigno imperador Bush II - e constitui agora a base do argumentário oficial do Governo no confronto com a oposição. Quem é que a esquerda quer que ganhe a guerra? Lamentamos mais os mortos americanos, britânicos ou iraquianos? O cinismo não tem limites. A nova direita - pois, está bem, o Blair é trabalhista - mete-nos numa guerra ilegal, desnecessária e injusta e depois pergunta quem é que nós queremos que a ganhe. Para mim, o paralelismo a fazer é mais ou menos este: vai um tipo muito estúpido, mas mesmo muito estúpido, a guiar alarvemente no IPI, pondo em risco a segurança e a vida dos outros condutores. Faz-me uma razia a 200 à hora e atira-me para a berma. Uns kms à frente encontro-o espetado contra uma árvore com a cabeça rachada. Fico contente? Acho que não. MK
 
Blogar ao Sol

O país está em estado de blog e a política não é excepção. De repente, há blogs de todas as proveniências e para todos os gostos, desde aqueles que estão (orgulhosamente!) à direita do pensável até aos que estão à esquerda do razoável.
Este é, também por isso, o blog da outravisão, moderna, aberta, sem pudores revisionistas.
Assumidamente, e isto é para nós inegociável, à esquerda do centro. Mas, sem quaisquer complexos, da esquerda ao centro.
Conjugamos o verbo blogar na primeira pessoa, do plural. A blogosfera portuguesa, pese embora a juventude, sofre já de um buraco do ozono e ameaça fazer efeito de estufa. Ele são as noites sem sono que o Pedro Mexia tem metido na Coluna, prejudicando em muito a sua, ele é o atrito causado pelo labor incessante do omnipresente José Mário.
A blogosfera portuguesa agita-se. Serão dores de crescimento. Eis que ganha visibilidade, eis que se faz tribuna. Nós queremos liberalizar e aumentar as opções disponíveis ao blogonauta. É que nós também queremos ser objecto de referências de JPP. Mas de desabono. Certamente que não faremos de Etelvina de quarto de Pacheco Pereira, a quem o patrão dá uma boa referência e talvez um beliscão no rabiosque. Quem viu Sílvio Berlusconi assinar na televisão, em directo, um “contrato” de legislatura com a nação italiana percebeu logo que é preciso cuidado com as promessas assinadas em papel molhado. Isto vale sempre, também e sobretudo.

O O’Neill escrevia sobre um Portugal soturno, medíocre, receoso e beato, felizmente em vias de extinção. Pegou na crítica e na ironia e com elas fez uns papelinhos poemas que meteu dentro de umas garrafas que ficaram a boiar nas águas estagnadas de então. Portugal era um enorme mar da palha. Os papelinhos ainda estão connosco. Hoje, quando os abrimos, e os lemos, e olhamos em volta, surpreende-nos ainda a sua trespassante lucidez e actualidade. O Portugalinho de O’Neill ainda subsiste, em espasmos fantasmagóricos. Seremos o seu ghost-buster. Gostaríamos de guardar o faro apurado, a rebeldia, o gosto pela vida, pelas letras e músicas, pelas mulheres e pelos homens, pelo futebol e pelo andebol. De tudo isto e de como fazer goulash se falará mais para a frente.

Filipe Nunes
Mariana Vieira da Silva
Mark Kirkby
Miguel Cabrita
Pedro Adão e Silva
Pedro Machado
Rui Branco
Sílvia Sousa


domingo, março 23
 
O País Relativo

País por conhecer, por escrever, por ler...
*
País purista a prosear bonito,
a versajar tão chique e tão púdico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.
*
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes
*
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano
*
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
Mas quem é que bàsquetica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?
*
Entreicheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.
*
País do cibinho mastigado
devagarinho.
*
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.
*
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.
*
Moroso país da surda cólera,
do repente que quer ser feliz.
*
Já sabemos, país, que és um homenzinho...
*
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.
*
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.
*
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?
*
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E há ainda quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!
*
Corre, boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.
*
País desconfiado a reolhar por cima
dum ombro que, com razão, duvida.
*
Este país que viaja a meu lado,
vai transido, mas transitorisado.
*
Nhurro país que nunca se desdiz.
*
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge
*
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.
*
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parede comprida!
*
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.
*
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.
*
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!
*
País de troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.
*
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...
*
Embezerra país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.
*
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!
*
Um país maluco de andorinhas
resourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda vida
em que entrássemos de corpo e alegria!
*
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...
*
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrária e o jeito alvar.

Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvaste pra mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!
Alexandre O'Neill

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