Segunda-feira, Outubro 13
Histórias mínimas Um imenso Alentejo austral, em versão fria, ainda mais desolada e vagamente exótica, quase mágica. A mesma ausência de recursos, a mesma ultra-periferia que nos devolve ao centro de uma beleza despojada. As horas passam numa cadência preguiçosa mas implacável, que nos envelhece por dentro, à beira de estradas longas e poeirentas ou na reclusão eremita de pequenos amontoados de casas dispersas pelo semi-deserto. Velhas estações de comboio, há muito desactivadas e desprovidas de vida, são ocupadas pelos mais pobres dos mais pobres, ou simplesmente pelos que não têm mais para onde ir. A imensidão do espaço afunila a mobilidade e fecha o mundo de cada aldeola ao horizonte sempre igual, a perder de vista. O King passa por estes dias um ciclo de cinema argentino contemporâneo que, a julgar para amostra (rezam as críticas que não representativa) é importante não perder. As "histórias mínimas" de quem vive na Patagónia são um excelente começo. E que outras histórias haveria para contar num universo assim? MC
A idade não perdoa: Não, não vou voltar à polémica do dente do siso. Até porque, infelizmente, problemas de saúde não me faltam. Há uns meses decidi comprar casa. Tive que realizar uma série de exames médicos (entre os quais o da sida) numa clínica que o Banco me recomendou. Nunca mais me lembrei do assunto. Passadas umas semanas, acordo com a seguinte mensagem no telemóvel: «Sotor, há um problema com o seu exame, ligue para o Banco logo que possa». Acho que nunca me levantei tão depressa. Afinal, «o problema» era que os exames tinham desaparecido. Apesar de eu ser «doutor», os resultados estavam na gaveta «dos não doutores». Não ganhei para o susto.
Há duas semanas, começo a sentir dores de cebeça, dores musculares, febre, tosse seca, e outras coisas socialmente estigmatizantes. Com o avançar da idade deixei de beneficiar das ADSE, dos SAMS e doutras maravilhas do Estado Providência. Para poupar, decidi fazer o meu próprio diagnóstico na internet. Pensei no pior, e pesquisei «sintomas de pneumonia» no google. Ao ler o primeiro site fiquei na dúvida: a sintomatologia tanto podia significar gripe como bronquite ou até pneumonia atípica. Razão têm aqueles que dizem que «há informação a mais nos dias de hoje». Só descansei quando li o boletim da Câmara de Oeiras para a Terceira Idade. FN
Domingo, Outubro 12
O amor em vez da caridade: um poema de que gosto muito e que é useiro ser lido em casamentos, numa tradução horrível, que troca o amor pela caridade (o que sempre achei que queria dizer bastante sobre a Igreja portuguesa), está nos intrusos, pelas teclas de José Tolentino Mendonça, numa tradução que devia ser a oficial. PAS
12 de Outubro: Foi há um ano que Bali ficou com o seu trágico "Ground Zero". O Sari Club, a mais concorrida das discotecas de Kuta, foi alvo de um cobarde acto de terrorismo, levado a cabo por uma célula local da Al-Qaeda, onde morreram mais de duzentas pessoas, entre elas um português. Para os balineses, cuja economia depende quase integralmente do turismo, o atentado representou um rombo enorme, diminuindo muito a procura turística. Mas para os balineses, profundamente religiosos e maioritariamente híndus, num país de maioria muçulmana, o atentado significou também uma violentação da sua liberdade religiosa e um desafio à tolerância religiosa. Mas doze meses depois, os balineses foram reconstruindo as suas vidas, voltando à normalidade – ainda que esta esteja marcada pelo buraco enorme que ficou a meio da Legian Street – e revelando um espírito de tolerância religiosa que dá lições. Como me disse um balinês, com a simpatia e a simplicidade que os caracteriza, "os bombistas eram homens maus, mas homens maus há em todas as religiões. Por isso, nós não perseguimos ninguém e não houve problemas com os muçulmanos que vivem em Bali". Uma lição de tolerância vinda de quem sofreu e sofre muito com o terrorismo é também um sinal de clarividência e sabedoria. Entre nós, poucos dias passam sem que tenhamos de gramar com as sofisticações intelectuais do nosso primeiro, sempre disposto aos mais redutores maniqueísmos sempre que fala do Iraque. Esta semana, mais uma vez o ouvimos derramando os mesmos lugares comuns, num simplismo que é insultuoso para todos aqueles que estando sempre do lado da democracia e contra o terrorismo, denunciam o absurdo do caminho para o qual o Presidente Bush tem empurrado o mundo. De cada vez que ouço o dr. Durão, imitando o senhor Bush, a insinuar que aqueles que não estão a favor da intervenção norte-americana no Iraque é porque não condenavam o regime de Saddam e são condescendentes com Bin Laden, lembro-me ainda mais da tolerância dos balineses e logo me lembro que há marcas de juventude que ficam para sempre. Uma vez maniqueísta, maniqueísta para sempre. PAS
Sábado, Outubro 11
It’s laid out in a line
that curves and breaks with time
and underscores the fragile nation
but I guess it’s right
to love the girls who fight
off our manly acts of desperation
Kurt Wagner (Lambchop), The Daily Growl
PAS
The David Lodge Situation Regressei agora de passar três dias num colóquio académico. Quarenta e duas comunicações de quinze minutos cada. Cinquenta e cinco participantes, todos eles académicos incluindo, ao que parece e me foi dado a entender, eu. Horas e horas de sessões que as refeições não chegam plenamente a interromper. Sempre juntos e sempre a falar uns com os outros. Sempre, sempre a falar. E em francês, por uma razão qualquer que não me foi possível apurar. Alvorada pelas sete e meia. Ao pequeno-almoço, troco já ideias sobre um tema pertinente. Às nove, já possuo uma «perspectiva» sobre a questão. Fim do dia doze horas disto depois. Cama cedo. Pois bem, de que é que esta gente toda fala durante os intervalos para café, de bolinho de manteiga numa mão e cigarro na outra? Só se fala de David Lodge e de como tudo aquilo é uma «David Lodge situation».
Comentário: «In Morris Zapp’s view, the root of all critical error was a naive confusion of literature with life. Life was transparent, literature opaque. Life was open, literature a closed system. Life was composed of things, literature of words. Life was what it appeared to be about [...] Literature was never about what it appeared to be about.» (David Lodge, Changing Places). RB
Sexta-feira, Outubro 10
O Pipi tinha razão: Estive ontem na festa do Desejo Casar. A performance dos DJs foi boa, o problema esteve mesmo nos bloggers. Estavam mais interessados em trocar ideias do que em concretizar o desejo de casar. Qual fazes-me um blog, qual quê. Como diria o Pipi: quem muito posta, pouco dança.FN
Um governo de recordes: No meio da vergonha da "palavra de honra", a que como de costume se seguiram os elogios à dignidade e com a libertação do Paulo, ficaram escondidos os números do desemprego de Setembro. Há agora 440.670 desempregados, o que é um novo recorde desde que este governo tomou posse. São só mais 19.779 desempregados em relação ao mês anterior e mais 105.856 desde que o pior governo de todos está em funções - o que dá qualquer coisa como 208 desempregados por dia. Tudo isto é absolutamente trágico e o silêncio e a inacção do Primeiro-Ministro começam a ser, como lembram bem os intrusos a propósito de outra questão não menos grave, já não um problema intelectual, mas glandular. PAS
Quinta-feira, Outubro 9
Este é o primeiro dia... Depois de uma pré-hibernação prolongada, por causa de uma gripe inoportuna e de uma inundação laboral vivida por pontos dispersos do país profundo (no decurso da qual descobri, com grande espanto e pesar, que na Pedrulha, Arcozelo e arredores de Beja não há maneira de aceder facilmente à net), tenho adiado sistematicamente o regresso às lides. Hoje não posso adiar mais.
Será seguramente do momento, mas começo a ficar um pouco preocupado. Já há uns dias, deu-me para comprar e devorar o último livro do Coetzee (Youth) no mesmo dia em que foi anunciado o nobel. Era escusado. Hoje, e no meio de tantos posts que tenho em atraso, o único que me apetece mesmo escrever é este, e é o mais óbvio de todos: "e vem-me à memória uma frase batida...este é o primeiro dia...". Por enquanto, (ainda) não consigo escrever mais. MC
Copy/Paste: Não sabemos se existe o conceito de plágio na blogosfera, mas o post que o Ivan escreveu é o que nós queríamos ter escrito. Ele perdoa-nos certamente que tenhamos substituído o costumeiro link pelo post por inteiro. Não é só porque para nós a amizade nunca se suspende, é também porque acreditamos na defesa do Estado de Direito onde ele não existe e na defesa instransigente do Estado de Direito onde ele existe. PR
Pedroso e o PS fizeram bem
A ida de Paulo Pedroso directamente do EPL para o Parlamento não é, a meu ver, uma fraqueza humana que se deva criticar-lhe ou que se deva sequer desculpar-lhe. Para mim, é chocante que muitas pessoas que deviam ter como preocupação principal o funcionamento do Estado de Direito (afinal, isso é o princípio mais fundamental - ou não?) se entretenham agora com censuras morais a Pedroso, como foi chocante, na altura da sua prisão e dos episódios subsequentes, que se tivessem concentrado nas críticas ao Partido Socialista e não à prisão preventiva que toda a gente - repito, toda a gente - sabia que tinha fundamentos risíveis. (E é ainda mais chocante que se procure justificar o comportamento dos ministros recém-demitidos com fraquezas humanas ao mesmo tempo que se moraliza sobre um homem que esteve 140 dias sob uma prisão injusta).
Mas talvez o essencial não esteja aqui. O dano maior que procuraram causar a Pedroso nem sequer foi terem-no submetido a 140 dias de cativeiro com fundamentos ilegais. O dano maior é a tentativa de diminuição da sua dignidade, da sua capacidade para dar a cara, ser credível e defender aquilo em que acredita - em suma, para andar de cabeça direita, enquanto político e enquanto pessoa. Se Paulo Pedroso sabe que está inocente, a sua luta maior é esta: não apenas garantir que é absolvido, mas não recuar um milímetro, não ceder - não se envergonhar.
Ou seja: voltar a ser exactamente quem era. E ele era um deputado e um político. Acho que foi por isso que ele voltou ao lugar donde saíu em Maio para depor no TIC. Ele quer recuperar-se a si próprio, e a obrigação de cada um de nós como cidadãos (e sobretudo do Estado) é, enquanto não se provar nada do que é alegado contra ele e após a absolvição que ele venha eventualmente a conhecer, contribuir activamente para que ele recupere. A sua eventual morte política num processo em que é arguido mas não condenado seria inaceitável.
Por isso é que me parece que, tendo ou não uma consciência muito clara do que estavam a fazer, os dirigentes do Partido Socialista que o abraçaram ontem fizeram exactamente o que politicamente deviam fazer. (E que, por isso também, era o que eu gostaria de ter feito).
O blogo existo, um blog com pouca notoriedade mas de que eu gosto muito, fez um post certeiro e corajoso sobre o assunto.
Ivan
Se eu hoje conseguisse postar era sobre os 25 anos da morte do Jacques Brel que escrevia. Nunca ter visto os Joy Division ao vivo, nunca ter visto o Brel ao vivo e perder agora o que seria, provavelmente, a última oportunidade de ver o João Gilberto ao vivo são coisas com as quais conviverei sempre mal. PAS
GRANDE FESTA “DESEJO CASAR”
Dia 9 de Outubro/5ª feira - no Madres de Goa, Lisboa (primeira à direita depois da Casa México, quem vem da Assembleia da República – junto do ISEG)
Depois do destaque que os blogs mereceram no “Público”, “SIC-Notícias”, “RTP”, “NTV”, “Antena 1”, “Visão”, “Focus”, “DNa”, “Boletim Paroquiano de Salvaterra”, “Borda D’Água - edição adultos”, magazine “Le Nouvel Bloggeur” e no fanzine da “Liga Sado-Maso Portuguesa” chega, finalmente…
A primeira festa de um weblog português!
Venha dançar, beber e conviver com os bloggers portugueses, os homens e mulheres – sobre a face da Terra – que mais vezes ouviram a frase:
“Ó filho, não foi p’ra isto que te paguei os estudos!”
A festa DESEJO CASAR inclui SHOTS com nomes de blogs nacionais, imagens VJ com blogs portugueses, um padre para casar pessoas no local e os DJ’s:
DJ Bórgia (LFB – Desejo Casar)
DJ Casado (NCS – Desejo Casar)
e os convidados:
DJ PASCP (Pedro Adão e Silva – País Relativo)
DJ Menino (João “Menino” – que, valha-o Deus, não tem um blog!)
VENHA DIVERTIR-SE COM OS TIPOS QUE IRRITARAM PEDRO ROLO DUARTE, MEDEIROS FERREIRA, LÚCIA GUIMARÃES, EDUARDO PRADO COELHO, OS PATRÕES E A PRÓPRIA FAMÍLIA. DISCUTA O TAMANHO DO SEU SITE METER COM O BLOGGER DO LADO E TENTE O ENGATE A UMA MULHER DE CARNE E OSSO COM O JÁ CLÁSSICO:
“FAZES-ME UM BLOG?”
Quarta-feira, Outubro 8
Estamos contigo!
O PP diz não à sua inclusão nas listas conjuntas com o PP.
Parece-me bem, há que ser coerente. DF
Tardou mas não falhou
Por decisão do Tribunal da Relação de Lisboa,
Paulo Pedroso vai ser libertado hoje!
DF
O Exterminador e o Cherne - Uma História de pouco Actos
Quando hoje se confirmou que Schwarzenegger será o novo governador da Califórnia, compreendi finalmente o "I'll be back" proferido há já alguns anos pelo tio Arnold. Lendo o Público não pude deixar de pensar que o mundo está entregue à bicharada e que, depois dos anos "quentes e frios" da administração Reagan, esse grande cowboy saudoso, temos hoje, num dos mais importantes estados norte-americanos, barómetro das presidenciais, um cyborg republicano no poder. E nem vou começar com o Conan... Mas por muito que tudo isto seja irónico, kitsch ou, simplesmente, a pós-modernidade, nada se compara com o nosso Portugal. Afinal, temos um Cherne por comandante, também ele já foi um Comando Revolucionário - ah! velhos tempos dos saneamentos "hasta la vista baby" - que se coliga com a Direita Populista, não demite ministros (eles, simpaticamente saem por vontade própria), propõe senados regionais (acho que tenho para aqui um livrito sobre neo-corporativismo...) e lá vai levando o país, por entre eleições e referendos europeus, que se propõem coincidentes. Vai ser muita Europa ao mesmo tempo... não sei se os portugueses estão preparados...é que nós estamos mais virados para a América. Ponham os olhos no Schwarzie. DF
A abertura dos telejornais Foi curioso acompanhar ontem a abertura dos telejornais. Naturalmente, a primeira e única notícia durante longos minutos foi a da demissão do ministro Martins da Cruz. Logo na maneira de dar a notícia se começou a perceber a coisa: «na sequência do que a SIC/TVI noticiaram em primeira-mão, Martins da Cruz...». A abrir, vemos a declaração do ministro, a seguir faz-se o directo com a sede do PS e depois algo de estranho. A estranheza pela forma como a SIC e a TVI reivindicaram ambas a demissão do ministro como obra sua. Pareciam caçadores numa montaria a ministros, ufanos das suas presas. Então a SIC, tinha demitido dois em cinco dias. A RTP, coitada, não conseguiu demitir ninguém. E se o ministro se demite porque foi apontado a dedo pelas televisões, então...está tudo bem? Quer dizer: ponto final e basta? Não me parece. A demissão de ministros não pode ocorrer como uma espécie de sacrifício ritual para apaziguar a ira dos deuses. A demissão repara de imediato uma violação da ética republicana e democrática – e isto é em si mesmo importante e justifica plenamente a demissão. Mas a democracia vive e precisa de algo mais, no local próprio e com as pessoas responsáveis. No parlamento, com o primeiro-ministro e os deputados. Porque tudo isto está mal contado, muitas perguntas precisam ainda de resposta. A primeira poderá ser: e Durão, aos costumes diz nada? É que o governo não responde perante as televisões, nem perante os comentadores em estúdio, mas perante o parlamento. Não se trata aqui obviamente de menosprezar o papel dos media no escrutínio democrático da acção dos órgãos de soberania, magistraturas, presidente, governo e oposições. Trata-se apenas de relembrar quem é eleito por quem e para quê, quem deve explicações em primeiro lugar a quem, e onde tudo isto deve ter lugar por excelência. Em democracia, dar explicações e apurar responsabilidades não são verbos de encher, são a própria democracia. RB
Terça-feira, Outubro 7
Fim de semana alucinante ou o Governo e o mito da decisão: Pedro Lynce não se arrepende do que fez e afirma que não fez nada de ilegal ou eticamente incorrecto. Martins da Cruz diz que nunca pressionou ninguém nem pediu que a sua filha fosse beneficiada. Dá a sua palavra de honra. Durão não fala. Pedro Lynce demite-se, mas continua a dizer que não houve pressão e que se alguém errou foi ele. Diana já não vai para Medicina na UNL, vai para o estrangeiro e a culpa é nossa. Durão elogia Lynce e mantém a confiança no MNE. Partem para Roma. Maria da Graça Carvalho é noticiada como nova Ministra Ciência e do Ensino Superior. Telefonam-lhe e ela diz que não é, que nunca foi convidada. Maria da Graça Carvalho é anunciada no mesmo dia como nova MCES. Toma posse. Durão mantém confiança em Martins da Cruz. A comunicação social noticia reuniões entre membros do gabinete de ambos os ministros e tentativas de alterar o regime de acesso especial. Martins da Cruz afirma que não se demite porque não faz nada que o justifique. Poucas horas depois, o MNE passa a ser ex-MNE, para defender a família (porque não fez nada de eticamente incorrecto). A culpa do envolvimento da filha de Martins da Cruz é, claro, nossa. Durão fala nos próximos capítulos?? MVS
A remodelação continuada: como era evidente para todos menos para ele próprio - que ainda hoje de manhã emitiu um comunicado a dizer que não se demitia - Martins da Cruz demitiu-se. Podia ter-se demitido à primeira e assim poupar a si mesmo, ao governo e, mais grave, à própria imagem da classe política e da democracia, o enxovalho de ser obrigado a demitir-se depois de ter penhorado a sua palavra de honra numa versão dos factos que se veio a desmentir. Diz muito de si próprio e da cultura de abuso de poder da actual maioria. E com este são quatro ministros - Isaltino, Valente de Oliveira, Pedro Lynce e Martins da Cruz - que são afastados sob a pressão das suas enormes trapalhadas. Quando ao fim de pouco mais de um ano de Governo, cerca de 25% dos Ministros já foram substituídos - e sempre por nomes ainda mais apagados do que os originais titulares do cargo -, bem pode Durão Barroso insistir que não remodela: a remodelação faz-se a si própria e quem perde é o país. MK
Ainda o peso excessivo do CDS/PP: depois das trapalhadas com o sobrinho taxista do dr. Isaltino e com a candidatura a medicina da filha do dr. Martins da Cruz está provado que o CDS/PP tem um peso excessivo neste governo, nomeadamente através da acção do dr. Bagão. A obsessão com o apoio à família começa a fazer escola, pelo menos entre os seus pares. PAS
Sem Prós, só Contras: Eu já estava suficientemente desagradada com a prestação de Fernando Santos - nunca mexe na equipa, quando mexe fá-lo mal e já conseguiu esse feito inédito de decidir 4 jogos depois dos 90. Ontem, a sua 'prestação' no programa Prós e Contras do canal 1 deixou-me aterrada. Ferroadas dos crucifixos que lhe indicam o caminho do bem e do mal?? Obviamente, não está em causa a fé de cada um, mas para quê fazer discursos sobre as ferroadas que os crucifixos que traz sempre com ele lhe dão? Para quê partilhar uma coisa desse tipo? Para além disto, claro, há a dimensão mais clubista da coisa - como pode uma equipa acreditar num treinador que faz aquele tipo de discursos em público? Ferroadas dos crucifixos?? Please... MVS
O Rei vai nu: O conflito entre liberais e miguelistas regressou com a intensidade de 1832. De acordo com o Correio da Manhã (CM) de 5 de Outubro (curiosa data), Nuno da Câmara Pereira (NCP) afirmou que D. Duarte de Bragança não é o legítimo herdeiro do trono português. O fadista belenense baseia-se numa lei de 1838 que retirava direitos a D. Miguel e todos os seus descendentes (entre os quais está D. Duarte). Salazar revogou essa lei, mas para NCP «não há lei nenhuma que tenha regenerado os netos do despótico D. Miguel.» NCP é um grande democrata: «O Rei, por não ser eleito, representa e defende intrinsecamente as liberdades individuais».
Se a decisão de Salazar já tivesse sido revogada, D. Duarte - que é um impostor (afinal «não tem licença para pilotar helicópetros») - provavelmente já tinha sido considerado inimputável, dando naturalmente lugar a D. Pedro de Mendoça Folque, por acaso primo do mesmo NCP. No entanto, é de admitir que isto não seja pacífico no interior da família Câmara Pereira: Frei Hermano, Mico (também canta mal, mas anda com a Bárbara Elias) e o próprio Cavalo Russo (chamado Gingão) têm certamente as suas legítimas pretensões. Apesar destas movimentações, segundo a voz autorizada de José Hermano Saraiva, membro da Academia Portuguesa de História e vencedor do Globo de Ouro da SIC, não há razões para D. Duarte ficar preocupado: «D. Miguel foi aclamado rei de Portugal em côrtes e não é por ter sido apeado por uma revolução que os seus descendentes perdem legitimidade», disse ao CM. Aliás, Marcelo Caetano foi aplaudido de pé no estádio de Alvalade, e não é por ter sido apeado que os seus descendentes perderam legitimidade política. Para o conhecido historiador, o problema de Câmara Pereira é que ele não passa de um bastardo: «É filho de uma descendente de uma filha de D. João VI, mas que nunca foi reconhecida. Essa história é um mito que se criou sem pés nem cabeça».
De resto, parece que a Monarquia até está de boa saúde. Diz o CM que «de acordo com D. Duarte de Bragança, mais de 20% dos portugueses preferia ter um rei». Infelizmente, não foi possível confrontar outros centros de sondagens com estes os dados do Instituto D. Duarte de Bragança. Para D. Duarte, a ideia é simples: «dar um Rei à República». Pelo contrário, como diria Lili Caneças, a proposta dos republicanos é oferecer um Presidente da República à Monarquia. Na entrevista ao CM, D. Duarte deu ainda a entender que, se o regime não mudar entretanto, o seu candidato presidencial é o general Ramalho Eanes (com quem privou de perto no mítico Lusitânia Expresso): «Só um chefe de Estado independente da clientela político-partidária poderá ter uma posição de verdadeira equidistância em relação aos interesses em debate.» Estranhamente, antes de nos dar estas fantásticas informações, o CM começa por dizer que «A disputa a propósito dos legítimos herdeiros do trono português lançou a discussão sobre a hipótese de voltarmos a ter um regime monárquico em Portugal.» E eu a pensar que isto era suficiente para encerrar de vez a questão. Enfim. Uma coisa é certa: como eleitor de Gonçalo Ribeiro Teles para a Câmara de Lisboa em 1993 (votei no Arquitecto porque também não acredito em pós-comunistas), penso que tenho o direito de saber a opinião dos amigos do Quinto Império sobre isto tudo. FN
Segunda-feira, Outubro 6
E ainda falavam das remodelações do outro... Diz o telejornal da tarde da SIC que "MARIA GRAÇA CARVALHO É MESMO A NOVA MINISTRA DA CIÊNCIA E DO ENSINO SUPERIOR. ESTA NOTÍCIA FOI CONFIRMADA HÁ MINUTOS PELO GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO, POIS MARIA GRAÇA CARVALHO DESMENTIU A NOTÍCIA DURANTE ESTA MANHÃ." Vamos lá ver se percebemos o que isto quer dizer: hipótese 1 - a senhora não queria ser ministra e esteve até à última em síndroma de negação até tomar consciência de que não havia nada a fazer e que teria mesmo de partilhar semanalmente a sala do Conselho de Ministros com José Arnaut e Bagão Felix; 2 - a senhora queria ser ministra mas efectivamente ninguém se tinha ainda lembrado de a convidar, apesar de o assunto já ter sido decidido pelo PM e soprado para a imprensa. Donde, da frase da nova ministra deve ler-se: "a mim ninguém me convidou, mas gostava muito de ser, se o xenhor primeiro ministro me quiser agraciar com tamanha prova de confiança; 3 - a ideia não passava por convidar esta senhora, mas já que já estava ventilada na comunicação social e não havia mais ninguém a querer o lugar, pronto, fica resolvido o assunto e não se fala mais nisso. A conclusão é sempre a mesma: quem é esta ingénua senhora que vai ter que lidar com os dirigentes estudantis enfurecidos com as propinas? MK
Parem lá com isso: Noronha do Nascimento, vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura, discorre em entrevista ao DN sobre os problemas da justiça. Ficámos a saber que o problema fundamental da justiça portuguesa reside no facto de as nossas juízas terem uma tendência extraordinária para ... engravidar. Noronha do Nascimento afirma-o repetidamente. "Em Junho, tínhamos 41 juízas grávidas" (...). No ano passado tivemos, ao longo do ano, 78 juízas grávidas - quatro meses cada uma (sic) - (...). Há tribunais no Porto, sem ninguém porque os juizes são quase só mulheres e estão TODAS grávidas." Um frenesim que está a dar cabo da justiça portuguesa. MK
Domingo, Outubro 5
Like an American Movie: Não tenho ido muito ao cinema. Mas, apesar disso, o cinema parece rodear-me. Deve ser desta minha impressão de que a vida, ela própria, está demasiado cinematográfica. MVS
Janela arrombada: A Rita escreve-nos para nos dizer que alguém, com propósitos que a razão desconhece, resolveu saltar pelo parapeito, arrombar a janela e apagar os textos que desde Julho a Rita partilhava conosco. O mail da Rita entristece-me e avisa-nos. Os textos do País Relativo estão agora guardados e tenho pena de não ter guardado os dela. Esperamos (ansiosamente) pelo teu regresso à blogosfera. Até já! MVS
O Nuno, da Janela para o Rio, mandou-nos um email a perguntar «a nossa» opinião quanto à reforma do sistema eleitoral. Isto dos sistemas eleitorais é um bocado como as convocatórias da selecção: cada um faz a sua. Por isso, não me admirava nada que o País Relativo fosse um Blog com vários sistemas. Mas, por mim, recuperava a Proposta de Lei nº 169/VII, debatida pela Assembleia da República em Abril de 1998.
O conteúdo essencial do sistema então proposto era o seguinte:
O apuramento do número de mandatos por partidos sofria pequenas modificações em relação ao sistema vigente: mantinha-se o número de deputados e o apuramento proporcional (pelo método de Hondt) em círculos de base distrital. As alterações consistiam na criação de um círculo nacional de apuramento (de 35 mandatos) e na agregação dos círculos que tivessem menos de 4 mandatos, para reforçar a proporcionalidade.
Como ficou amplamente demonstrado pelas simulações então efectuadas, este sistema praticamente não produzia alterações na distribuição de mandatos por partidos, mantendo portanto o actual equilíbrio entre governabilidade e proporcionalidade.
As novidades eram então a criação de 99 círculos uninominais de candidatura e a introdução do duplo voto. Com um dos votos o eleitor votava nas listas partidárias concorrentes aos círculos distritais e nacional. Com o outro votava num dos candidatos concorrentes ao seu círculo uninominal.
A introdução dos círculos uninominais não introduzia, note-se, qualquer alteração à distribuição proporcional dos mandatos. O candidato que obtivesse mais votos num círculo uninominal era eleito, mas o seu mandato era imputado na quota proporcional que o seu partido tivesse obtido no correspondente círculo distrital. Ou seja, em termos práticos, por cada deputado eleito num círculo uninominal, o partido elege menos um da lista distrital, mantendo-se inalterado o número global de mandatos por partido.
O objectivo da reforma era, portanto, essencialmente a personalização do mandato, que era conseguida na medida em que o eleitor dispunha de um voto a atribuir a candidatos individuais, e cada círculo uninominal ficava com um representante identificado na Assembleia da República.
Infelizmente, a discussão parlamentar acabou por se centrar num ponto completamente lateral, o número de deputados, que, aliás, se situa perfeitamente na média europeia. E, por causa da divergência em torno do número de deputados, foram rejeitados tanto a proposta do Governo PS como o projecto do PSD que (embora em moldes diferentes) introduzia também um sistema de apuramento proporcional combinado com círculos uninominais. VIVA A REPÚBLICA! FN
Sábado, Outubro 4
Virginia Astley: A blogsfera está sempre a relembrar-me paixões esquecidas. Desta feita foi o Aviz com a Virginia Astley. A Virginia Astley desaparecida, de que a última vez que ouvi a voz foi, já lá vai um par de anos, num disco dos Silent Poets; A Virginia Astley escondida em edições japonesas e difíceis de encontrar. Pois o Aviz encontrou-a no Jo-Jo's (um excelente site, aliás) e logo encomendou dois exemplares. Eu também lá fui, hesitei e acabei por não comprar. Há qualquer coisa de muito estranho nesse meu comportamento. O cd mais caro que alguma vez comprei, já lá vai mais de meia dúzia de anos, foi precisamente o Hope in a Darkened Heart – em velhos escudos, uns seis contos – numa edição japonesa, daquelas de lombada imperceptível. Descobri-o numa loja e não controlei a excitação do momento. Mas, agora, que encontro outros álbuns que só tenho em vinil, e a preços decentes, hesito e não fico com eles. Eu sei porque é que foi. Nas lojas eu vejo os cds, pego-lhes, junto-os debaixo da mão e compro-os sem fazer contas e num despesismo que irritará o dr. Constâncio. Mas, mesmo eu, comprador compulsivo de cds, quando os vejo numa pequena quadrícula em fotografia na internet, esmoreço os ânimos e nem a ideia da voz loura da Virginia Astley nas tardes da minha adolescência me faz agir como seria normal em mim. Os cds compram-se nas discotecas e os livros nas livrarias. De vez em quando sou um conservador. PAS
Candidatem-me, senão fico agarrado A política de Santana Lopes de oferta de habitação para jovens sócios do Benfica, no âmbito da negociata do estádio e dos terrenos, não ficará sem resposta por parte da câmara de Sintra. Fernando Seara, conhecido afectuosamente como “o careca do Benfica”, deixará a edilidade sintrense a troco de um lugar na lista de Filipe Vieira. A Câmara de Sintra espera assim poder atrair ao concelho grandes quantidades de jovens simpatizantes do clube da águia seduzidos pela ausência de Seara. RB
Madaleno faz Filipe Vieira parecer bom Guerra Madaleno tem 15 milhões de contos para investir no Benfica e já tem garantida a contratação de cinco jogadores de nível mundial. Ouvido pelo País Relativo, LFV disse apenas «Obrigado, ò...han...Madaleno». É que, por comparação, a débil credibilidade de Filipe Vieira parece sólida. RB
Sexta-feira, Outubro 3
Maria Elisa: Há algumas semanas atrás escrevi aqui um post a propósito do caso Maria Elisa. A evolução do mesmo obriga-me a voltar ao assunto, essencialmente para dizer que me enganei.
Disse no post (e continuo a achá-lo) que não me parece legítimo que se critique uma pessoa por, face a uma determinada doença, assumir querer deixar de desempenhar qualquer função, tal como não acho criticável que a mesma pessoa queira regressar ao seu lugar de origem ao invés de ficar de baixa. Ou seja, não me parecia legítimo que se criticasse Maria Elisa por deixar a Assembleia da República e regressar à RTP.
O meu post, há algumas semanas, terminava dizendo que todos os argumentos só eram válidos se Maria Elisa estivesse a ser verdadeira, e o que pensava e continuo a pensar é que ninguém está em posição de poder questionar a verdade de uma doença sem conhecer o caso. Não me parecia verosímil que alguém invocasse uma doença como aquela sem que isso correspondesse à verdadeira razão pelo abandono da AR. Enganei-me. Maria Elisa utilizou uma doença para abandonar a AR. Foi um péssimo serviço ao parlamento e à democracia.E foi um péssimo serviço a quem sofre da mesma doença que ela e à associação de que faz parte. MVS
Lotaria: Durão Barroso conseguiu que um mau ministro saísse do Governo sem sequer ter que assumir que ele era um mau ministro. Em apenas uma hora resolveu um grande problema sem sequer ter que falar. E por pouco não resolvia dois. MVS
Fascinada pelos três. M. sempre afirmou que não renunciaria aos três. O assunto mexeu com o país. M. escudava-se num pacto. Um pacto que teimava em cumprir. Mesmo quando outras, consideradas mais fortes, já haviam sucumbido. Mas M., alheia a toda e qualquer pressão, não cedeu. A questão tomou dimensões inimagináveis. Já não era só M. que estava em jogo: era a credibilidade de um país e a estabilidade de um continente. No centro de um país a arder, os três de M. mantiveram-se intocáveis. Nem o fantasma do desemprego a abalou. Ainda ontem, quando interpelada, respondeu exasperada: “Os Srs. não compreendem que se trata de uma questão interna?”. Interna, íntima ou eterna, parece que o défice vai mesmo utrapassar os três por cento. SS
Quinta-feira, Outubro 2
Lapsus Blogger: Estou tão obcecado com a blogosfera que no outro dia aproximei-me do balcão de um bar e dei por mim a pedir: "olhe, era um Belford Henriques tónico, com muito gelo e uma rodelinha de limão, se faz favor". FN
Comunicado País Relativo: O comissão de controle e quadros do PR, reunida à hora de almoço, decidiu solidarizar-se pessoal e politicamente com o relativo FN, quando este afirma que viu Lukamba Gato no Congresso do PP. Se FN viu Lukamba Gato é porque ele evidentemente esteve lá e se os delegados do PP não o viram o problema é, objectivamente, deles. PR
Ainda a doçura: Há anos que não sei nada dessa banda amarga que são os The Fall. Tirando um dueto com os Inspiral Carpets e uma aparição do Mark E. Smith numa fila para entrar na Hacienda no 24 Hour Party People, nada mais. Mas, há três dias os The Fall tocaram em Lisboa, os relatos escasseiam e de certeza que houve bloggers presentes. O Público, em lugar de dizer como é que os The Fall estão e como foi o concerto, opta muito mais por descrever como é que a banda de Mark E. Smith é. Dão-se ‘alvíssaras’ a quem contar mais. PAS
Os bárbaros mais doces: Para os que resistem ao cinismo, há um lado entusiasmante em ouver um Ministro da Cultura que canta Bob Marley e que empunha uma guitarra eléctrica. Há nisso uma réstia do passado de quem "organizou um movimento", mas foi quase só isso que restou hoje à noite no Coliseu, quando tocaram os doces bárbaros - que estão mais doces, excessivamente doces. Isso não seria, contudo, um problema. Aliás, com a Maria Bethânia isso nunca foi um problema. Mas, mesmo quando se lembrou a doçura passada, por exemplo a do "Sem Fantasia", houve sempre a sensação de que se estava refém do passado absoluto, no caso com o Chico, e que a voz de Gilberto Gil, que hoje se perde, não servia de resgate. Foi tudo muito certinho, muito agradável, a Maria Bethânia continua a cantar fantasticamente num romantismo lamechas e irresistível - e até há menos coisas para lhe perdoar - mas faltou a perversidade que existia por detrás da doçura e, claro, a vontade do novo que, por exemplo, está nas "Noites do Norte ao Vivo" do cara-metade Caetano. O concerto foi como o seu início: uma citação dos "Mais Doces Bárbaros" que depois nunca chega a ser tocado. Ainda assim, foi o bastante para ter sido muito bom. PAS
Quarta-feira, Outubro 1
A vida sem blogs: todos os dias encontro novas razões para não conceber a vida sem blogs. Os intrusos são a minha razão de hoje e uma razão que vai ficar. Entre o Rufus Wainright, o Benfica e as fantásticas fotos do Nanni Moretti, está também José Tolentino Mendonça, um dos meus poetas portugueses preferidos. Mas, para além do mais, quase todos os posts servem para eu ficar ainda mais com saudades de Itália. Porque é que só hoje descobri este blog? PAS
Cigarettes and chocolate milk
These are just a couple of my cravings
Everything it seems I like's a little bit stronger
A little bit thicker, a little bit harmful for me
If I should buy jellybeans
Have to eat them all in just one sitting
Everything it seems I like's a little bit sweeter
A little bit fatter, a little bit harmful for me
And then there's those other things
Which for several reasons we won't mention
Everything about 'em is a little bit stranger, a little bit
harder
A little bit deadly
It isn't very smart
Tends to make one part
So brokenhearted
Sitting here remembering me
Always been a shoe made for the city
Go ahead accuse me of just singing about places
With scrappy boys faces have general run of the town
Playing with prodigal sons
Takes a lot of sentimental valiums
Can't expect the world to be your Raggedy Andy
While running on empty you little old doll with a frown
You got to keep in the game
Retaining mystique while facing forward
I suggest a reading of a Lesson in Tightropes
Or surfing Your High Hopes or adios Kansas
It isn't very smart
Tends to make one part
So brokenhearted
Still there's not a show on my back
Holes or a friendly intervention
I'm just a little bit heiress, a little bit Irish
A little bit Tower of Pisa
Whenever I see ya
So please be kind if I'm a mess
Cigarettes and chocolate milk
Cigarettes and chocolate milk
Rufus Wainwright
PAS
Prenda minha Lembrei-me que só pode haver uma explicação para aqueles casais, fiquemo-nos pelos casais, que afirmam orgulhosos que decidiram não gastar muito dinheiro em presentes um com o outro, porque é um disparate, que com esse dinheiro se compram umas belas cortinas, e assim por diante. Só pode ser por falta de dinheiro. Não é que eu não esteja solidário com essa situação, nem que não aprecie umas belas cortinas. Mas é que não há outra hipótese. Se assim for, parece-me mais um exemplo da extrema actualidade do marxismo teórico. A superestrutura, neste caso as noções culturais sobre a oferta de prendas, é sobredeterminada pela infraestrutura, no caso a falta de guito. Aquilo a que Marx chamaria ideologia.
A verdade é que ninguém gosta de oferecer só um cdzito pelos anos do outro de quem se gosta. Ou no Natal um livrito ou certos peluches que fazem de almofada. Soa sempre a postiço e a pouca coisa. É medíocre, sobretudo se embrulhado na conversa de que não gastamos mais em prendas para depois poder comprar os tais cortinados ou aquele aspirador lá para casa. Enfim, é que sempre são coisas que ficam. É o mesmo tipo de alienação que leva a dizer que comprei uma casa em Agualva porque afinal o tempo de ir e vir é o que se gasta no trânsito dentro de Lisboa.
Os casais a que ouvi dizer isto fazem-no sempre com uma pontinha de orgulho sobranceiro de quem atingiu um estádio mais elevado de compreensão. E depois, as mais das vezes, põem um ar funcionário e burocrata. O colocar limites ao que se dá rouba o prazer de dar – e de receber. Nem que um tipo se empenhe até aos cabelos para comprar aquele casaco de cabedal da Max Mara giríssimo que vi hoje à hora de almoço. É que o Natal aproxima-se e pareceu-me um bom momento para lutar contra esta forma particular de falsa consciência. Eu sou pelos presentes bons e caros. RB
Violeta: Fugiu hoje de manhã, junto à Alameda das Linhas de Torres (perto do Estádio de Alvalade), uma cadela Serra da Estrela com 4 anos, de pêlo comprido, amarela e de focinho preto. Se por acaso alguém tiver visto a Violeta, pode enviar um mail para o país relativo ou telefonar para o 96-6940658. PR
Terça-feira, Setembro 30
Super Vergonha: A capa do DN de hoje é absolutamente vergonhosa e é um dos piores ataques que se pode fazer à justiça. O Pedro achará que esta sua “amiga socialista” diz isto por achar que Rui Teixeira ao invés de um herói é um vilão. Mas não é. Acho a fotomontagem do super juiz tão negativa como acharia se fosse um qualquer advogado (de defesa ou de acusação) ou uma qualquer testemunha. Este regresso à ideia do justiceiro e à ideia de que a justiça está dependente de uma pessoa é o pior que podia acontecer à imagem e ao funcionamento da justiça em Portugal. Seja essa pessoa o juíz de instrução, o procurador, a testemunha ou o advogado. E quanto a heróis e vilões, estamos conversados. Todas as pessoas que trabalham no sistema judicial são pessoas como as outras: trabalham, acertam, erram, omitem, tomam boas e más decisões. Não há, nem nunca houve, heróis.MVS
Segunda-feira, Setembro 29
EXCLUSIVO PAÍS RELATIVO: O País Relativo teve acesso a uma carta enviada ontem à noite pelo Ministro da Caridade Social, Cristão Feliz, a Sua Santidade o Papa João Paulo II. Nessa missiva, que aqui publicamos na íntegra, Cristão Feliz denuncia, junto da Santa Sé, certas práticas menos católicas que presenciou no Congresso do CDS este fim de semana, pondo o seu lugar à disposição do Santo Padre.
«Excelentíssimo Senhor Sumo Pontífice,
Foi com grande alegria que recebi mais um número da revista «Jesus», dos nossos irmãos padres Paulistas. Nesse número, que o exército do politicamente correcto zombou, registei, com humildade cristã, os 37 actos que passam a ser interditos nas celebrações litúrgicas, nomeadamente «bater palmas», «dançar» e «ter raparigas como acólitas». Ainda de acordo com a «Jesus», «Qualquer católico, padre, diácono ou fiel leigo tem o direito de denunciar os abusos litúrgicos».
Em Abril de 2003 tomei posse como Ministro da Caridade Social de Portugal, indicado pelo CDS. Aceitei porque o CDS é um partido que se afirma como representante da «democracia cristã» e da «doutrina social da Igreja». Julgo que Sua Santidade estará perfeitamente a par disto, uma vez que o presidente do partido, o Dr. Paulo Portas, tem o privilégio Único de ter uma fotografia conSigo». Ora, sendo o CDS uma partido «democrata-cristão», orientado pela doutrina social da Igreja (e falo aqui em «social» no sentido Paula Bobone do termo), julgo que deveria ter o cuidado de organizar os seus congressos como se de uma celebração litúrgica se tratasse. Infelizmente, não foi isso que sucedeu este fim de semana. É, pois, com o coração em sangue e enquanto fiel leigo, que venho por este meio exercer o dever de denunciar quatro interditos a que assisti este domingo em Matosinhos.
Em primeiro lugar, chocou-me o tipo de gente convidada. Gostava de ter lá visto outros partidos democratas cristãos. Por exemplo, a DC dessa referência moral que foi Giulio Andreotti. Em vez disso, vi o senhor Lukamba Gato da UNITA, partido que se dedica à prática do voodoo no Huambo, e vi o senhor Gianfranco Fini, assumidamente «pós-fascista». Toda a gente sabe que não há pós-fascistas, tal como não há pós-anões. Um fascista é sempre um fascista e, portanto, um perigoso pagão, e alguém profundamente empenhado na perniciosa industrialização. Em segundo lugar, reparei que sempre que algum congressista acabava de falar lá vinha sistematicamente o estranho (e censurável) hábito de bater palmas. Como se isto tudo não bastasse, o líder do partido também não resistiu a nomear para cargos executivos algumas raparigas acólitas, mesmo sem ter nenhuma razão pastoral para o fazer. A revista Jesus é bem clara neste ponto: «os padres nunca se devem sentir obrigados a procurar raparigas para esta função». A mim, por exemplo, já me arranjou uma secretária de Estado. Estava à espera de uma Madre Teresa de Calcutá e saiu-me uma Princesa do Povo. Em quarto lugar, finalmente, identificaria o interdito da dança. Não posso deixar de O informar que o Congresso acabou com toda a gente a dançar uma música licenciosa da Dina, uma artista portuguesa de «sexualidade alternativa», como agora se diz.
Por tudo isto, sinto-me na obrigação de pôr o meu lugar à Sua disposição. Estou certo que enquanto Primeiro Ministro de Deus saberá as consequências que eu, humilde Ministro dos Homens, devo retirar disto tudo.
Com Respeitosa Fé,
Cristão Feliz» FN
As Índias: cito o Afonso por inteiro porque o que ele escreve é o que sinto agora que deixei as ilhas do sul para voltar à minha aldeia: “Vou. Vou sempre. Não quero é ficar aqui. Ficar aqui dói-me. «Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo», escreveu o Bernardo Soares que sabia do Ganges como ninguém, tinha em si o desassossego de viajar por dentro e sonhava com ilhas do sul e Índias impossíveis. É disso que tenho medo: de endoidecer de aqui mesmo. E que haja, em algum lugar, uma Índia impossível. Continuarei a ir. E a escrever de febre como se viajasse. Hei-de ir tanto, tanto, que não será mais possível voltar.” Era isto que eu queria ter escrito quando soube que, antes de partir, podia olhar para trás.PAS
Domingo, Setembro 28
Posts de Domingo
«Uma mulher para usar gravata tem de ser uma Marlene Dietrich. Sei que não é o meu caso, mas por vezes sinto-me camaleónica.»
Rita Caneças, a usar uma gravata com a inscrição «young, poor and angry»
«Muitas pessoas se sentem mal com o estado económico do país e estamos todos um pouco zangados com os políticos, estamos fartos de hipocrisia.»
idem
«Acho que todos somos um bocadinho loucos por amor e, a partir daí, construímos os nossos próprios recursos numa realidade que, não sendo a nossa, passa a sê-lo.»
Catarina Furtado
«Apesar de ser adoptado, o Renato é o filho mais parecido comigo.»
Maria Rodyner, decoradora
«Os Tallon sempre foram pessoas muito liberais, possivelmente economicamente situados no centro-direita e socialmente situados claramente no centro-esquerda enquanto detentores de ideias progressistas.»
José Maria Tallon
«Continuo a acreditar que cada vez que me apaixono é para sempre. Agora estou encantada com a pronúncia do norte...»
Cristina Homem de Melo
«Ser fiel enquanto marido não quer dizer não poder olhar para outra mulher. Isso é disparate.»
Sting
Fonte: Caras
Selecção: FN
Linha de Sombra: Não se deve olhar para trás, mas já no aeroporto ainda vi uma última vez aquele sol imenso, que é diferente de todos os outros que havia visto, e que pelas seis da tarde entra invariavelmente, com toda a energia do mundo, pelo mar adentro. A maré estava completamente vazia e pouca água restava para tapar o coral das airport lefts. A primeira onda que vi quando aterrei foi também a última que vi antes de partir, mesmo da janela da porta de embarque. Mas agora que parto, sei também que posso, sem receio, olhar para trás. Os dias lentos e vagarosos, mas que passaram demasiadamente depressa, deixaram-me a certeza que ficou aqui uma sombra que me vai obrigar a regressar. PAS
Sexta-feira, Setembro 26
4 Meses: Se Portugal fosse o Estado de direito que eu pensava que era até há quatro meses; se não existissem umas quantas mentes tortuosamente paranóicas, eu agora, quando chegasse a Portugal, ia jantar com o Paulo e beber um copo e o resto dos dias eram todos normais. Mas o que vale é que há sempre uma raiva que nos ajuda e que é, naturalmente, muito mais forte do que a esperança. PAS
Quinta-feira, Setembro 25
PP: Ainda a propósito da atoarda da imigração
Sabemos que os populismos germinam normalmente à sombra de climas de agitação social, de insegurança, de medos colectivos explorados de forma cínica e oportunista. O objectivo é agregar franjas descontentes em torno de um discurso simples, construído de modo a catalisar frustrações, a permitir a desresponsabilização colectiva e a expiar raivas e receios, em que os “maus” são identificados sem margem para ambiguidades, sejam eles políticos, estrangeiros, pessoas de determinada raça, ou os muito na moda “ricos e poderosos”.
Paulo Portas e o seu PP são peritos nisto. Portas ganha sempre com a confusão, com o empolar dos descontentamentos, com a erosão das instituições. Lembramo-nos das campanhas infernais que o PP desenvolveu em torno da questão da insegurança pública nos tempos dos Governo do PS, contribuindo em muito para criar no país a sensação de que vivemos numa sociedade muito mais violenta do que todos os indicadores objectivos demonstram. O que é que o país ganhou com isso, para além de meses de amargura? Absolutamente nada. Surpreendentemente Portas deixou, nos tempos que correm, de falar no assunto. Lembramo-nos dos discursos demagógicos do Paulinho das Feiras em torno dos idosos e das pensões. Prometendo a todos aumentos irrealistas que, como é evidente, estão por concretizar ainda que Portas esteja agora no Governo. Lembramo-nos no discurso de enxovalho constante à classe política, como se Portas estivesse fora dela, quando, afinal, é dos políticos com maior protagonismo ao nível de trapalhadas pouco claras que apenas adensam o mau nome da política. Chegou a convocar a Nossa Senhora para resolver o problema do Prestige.
Não tenhamos dúvidas: um país com Portas na política, será sempre um país em ebulição. É que a estabilidade e a paz social não servem nenhum dos seus objectivos. MK
Os meus cadernos. O NCS tocou num assunto ao qual sou sensível: cadernos, blocos e afins. Não consigo resistir-lhes. Grandes, pequenos, pautados, lisos, cosidos, com argolas ou com agrafos, pretos, coloridos, com marcas, sem marcas... sou uma consumidora compulsiva de artigos do género (já para não falar dos que eu própria me dava ao trabalho de fazer - outros tempos!). Ultimamente, tento refrear-me pensando no que não tenho para escrever neles. Inútil. Apenas adio a decisão do seu propósito. Agora já os compro a pensar a quem é que os poderei oferecer. Admito já ter adquirido, em tempos, um caderno Moleskine. Na verdade, foram dois para não haver brigas cá em casa. Mais um à espera de conteúdo, de destino.
Isto para dizer que se até simpatizo com a defesa do bloco Castelo, o bloco Castelo a mim não serve. Um bloco Castelo, simplesmente, não resiste às intempéries da minha mala. E é por isso, que por muitos cadernos que namore, toque, folheie e compre, acabo sempre por usar aqueles de almaço, que só encontro na Papelaria Fernandes, A5, pautados, 100 páginas. SS
Nuno, tens a certeza que o sr. Joaquim não faz as contas em papel manteiga, onde depois embrulha a linguiça e o chourição?
Rude Golpe: Já tinha um primo com um blog, dois dos meus melhores amigos já tinham também os seus blogs, mas agora aconteceu o que já há uns meses temia que acabasse por acontecer: o meu pai tem um blog. Bem sei que é um blog conjunto, com mais dois primos e um amigo. No entanto, até agora o que vejo é, por escrito, o pai que me habituei a ouvir desde que me lembro. O entusiasmo com que, há uns meses, me falava de blogs e o que já lá está escrito, fazem-me ter a certeza que o meu pai era um blogger à espera da blogosfera há muito tempo. O que só confirma a estupidez que foi todo este tempo em que não houve blogosfera e, já agora, escusado será dizer que o Rude Golpe é o meu blog preferido. PAS
O amor é fodido II Com a Tatiana num quarto e o par Carla/Ricardo noutro, os restantes concorrentes do Big Brother 4 andavam pela sala a tentar analisar a «volta de 150 graus» que o programa tinha dado. O Fernando, um homem do século XXI, defendeu a «coragem» da Carla e do Ricardo: «Há pessoas aqui que julgam que ainda estão nos anos 70, no século XX ou XXI ou lá o que é ?!». E já com as emoções ao rubro desatou a chorar: «não consigo olhar para aquele sapinho: alembra-me sempre da Zélia». A Zélia foi a primeira concorrente a ser expulsa. O Fernando estava com tantas saudades que veio fazer-lhe companhia cá para fora. Quem, entretanto, também saiu foi a Alzira, a jovem dos Açores. Julgo que ela foi vítima das suas próprias declarações no «confessionário». Em vez de saudar todo o país, limitou-se a «mandar beijinhos» para «a minha freguesia» (que quase não deve ter eleitores) e para «Ayamonte» (que não vota). Em todo o caso valeu a pena. É que antes de entrar para a casa a Alzira vivia atormentada por sonhar todas as noites «com touros e touradas». Deve ser neste sentido que disse à Teresa Guilherme que o BB4 «foi a concretização de um sonho».
Para esta terça feira, para além dos suspeitos do costume, parece que estavam nomeados dois novos concorrentes. Um deles deve ter sido «o Alentejano». Involuntariamente veio a saber-se que entre os responsáveis pela nomeação estava a Tatiana. À jovem transmontana não ocorreu que ao dizer quem não tinha nomeado estava a indicar os que queria ver pela porta fora. «O Alentejano» é alentejano, mas não é burro e devolveu-lhe um grunhido de revolta: «Dahh, dahh?! Se não são eles, sou eu!». Outra das nomeações para expulsão recaiu sobre a Raquel, uma jovem roliça, que ruboriza com a presença do madeirense Joel. Ainda assim, o Joel nomeou a pobre rapariga. Toda a gente pensou que ele estava a dizer «Ricardo» e não «Raquel», na medida em que não se percebe nada da pronúncia da Camacha. Mas não: era mesmo a Raquel. «Não gostei da tua atitude ontem à noite, Raquel», disse o madeirense. A Raquel rebentou de raiva: «BINGATIBO!»; «Eu só le (sic) chamei cretino. E disse que era demasiado sincero. Estaba bêbeda!». Nisto, outro concorrente pergunta-lhe: «Ainda estás apaixonada por ele?». Resposta da Raquel: «Estou». Nova pergunta: «É fodido, não é?». Nova resposta: «Então não é ?! Mas a partir de agora ele nunca mais vai receber a mesma atenção». À noite acabaram juntos na «cama do líder», e como é óbvio o Joel teve direito a todas as atenções. «Essa cabecinha é muito complicada, Joel» (palavras da Raquel). O amor é fodido. FN
Quarta-feira, Setembro 24
Caro Pedro,
Temos lido com preocupação crescente os teus postais de Bali. Tememos que as férias não te estejam a correr bem. É pelo seguinte. É com alguma tristeza que vemos que abandonaste o sistema métrico, implantado em Portugal desde 1862. Quem, como nós, vem criticando o ministro Bagão Felix pelo seu patente pré-liberalismo, não pode deixar de reprovar as sucessivas referências a «pés» e o uso de expressões exóticas como «inside» e «crowd». Como se não bastasse, falas agora em massagens a quatro mãos pela módica quantia de três euros (meia hora), cometendo a indelicadeza de esqueceres outras, a seis mãos e de borla (taxímetro desligado), ainda por cima qualificadas pelas melhores academias do país. Mas tudo isto é de somenos. Verdadeiramente preocupante é a fecunda produção de posts que receamos te esteja a afastar dos prazeres veraneantes. A verdade é que assim crias-nos dificuldades em justificar por que diabo não escrevemos nós mais posts, uma vez que não estamos de férias. Desejamos que as ondas de Bali te sejam propícias e um resto de férias de continuar a fazer inveja a todo o País Relativo. PR
Mundo Pequeno: Seguindo um conselho avisado de voz amiga, ainda em Lisboa, fui ontem jantar a um restaurante italiano heterodoxo, em Seminiak, mesmo na praia, em que tudo era espantosamente bom e de uma sofisticação irresistível. Para meu espanto, enquanto esperava pela mesa, a música que tocava era do Nicola Conte (que quase ninguém em Itália conhece). Há uns dias, o Pedro ficou estarrecido com o facto de me ter enviado um SMS e eu lhe ter respondido de imediato, a esta distância. É verdade que há um mundo que está a ficar mais pequeno, mas há também, ao mesmo tempo, um mundo que em todo o lado nos aproxima. O mundo da boa cozinha e claro da boa música. E, nesse mundo, a tecnologia conta para pouco. PAS
Comunicado do País Relativo:Primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Agora, Santana Lopes na SIC. O País Relativo vem por este meio apelar à Alta Autoridade para a Comunicação Social e à Comissão Nacional de Eleições para que, ao abrigo do disposto no Decreto-Lei 319-A/76, actuem junto da direcção de informação da RTP no sentido desta convidar imediatamente o Professor Cavaco Silva para comentador residente. Caso contrário, pensamos que pode estar em causa o princípio constitucional da igualdade de oportunidades entre (pré-)candidaturas presidenciais e, como tal, o próprio Estado de Direito Democrático. PR
A dona Estefânia Era uma vez um príncipe encantado, um nadinha feio. O príncipe tinha um grande brinquedo chamado Mónaco, mas não tinha com quem brincar, nem filhos a quem o deixar. Suspeitou que para isso precisava de mulher. O príncipe punha um ar vagamente antigo, e andava sempre com uma espada. Por estas razões, parecia aos americanos um perfeito europeu. O príncipe vagueava triste pelos salões da alta sociedade ianque à procura de esposa. Andava, andava e já desesperava, pois a espada lhe pesava e da prometida consorte – nada. No emaranhado de croquetes e corpetes em que cirandava, eis que avista uma mulher lindíssima com ar de princesa. Grace de sua graça. Casaram num fósforo, e ela viveu infeliz para sempre.
Do casamento nasceram duas meninas e um menino. As meninas são muito lindas. O menino é, hoje, careca. As meninas chamam-se Carolina e Estefânia e dão-se e não se dão bem. O pai delas não deixava a mãe fazer aquilo que ela mais gostava, que era representar. Por isso, Grace viu-se obrigada a fazer aquilo que mais gostava a seguir a representar, que era beber umas flautas e chupar uns burriés. O Mónaco é muito alto e tem estradas muito íngremes. Por isso, ou porque ia a guiar a Estefânia quando ainda era lolita ou porque mãe ébria e filha discutiam, o automóvel descontrolou-se e matou Grace, mas a sua filha não.
Estefânia cresceu e tornou-se uma adolescente problemática. A irmã irradiava uma heterodoxia ligeiramente mais aceitável, por isso casou com um senhor italiano que pilotava barcos e que depois morreu e que se chamava Casiraghi. Estefânia não havia meio de ser igual à irmã, empinou o cabelo e teve uma banda rock. A sua rebeldia sem causa tornou-se uma espécie de dor-de-cabeça oficial do pai. O pai, entretanto destroçado, ia gerindo o brinquedo o melhor que sabia. Mas como o Mónaco é o único casino com hino, Fórmula Um, bilhete de identidade e família real própria, e porque a casa ganha sempre, foi enriquecendo cada vez mais. Deixou de usar espada, passou a usar evasão fiscal. O carácter ligeiramente escandaloso do seu brinquedo atormenta de vez em quando as cabecinhas jacobinas dos gauleses, mas o pior é que o Alberto não casa.
Ao invés, a mana mais nova casou agora com Adam Lopes Perez. Jornais e revistas da especialidade rejubilaram justamente com o feito do português de gema Adam Perez. Uma verdadeira lança no Mónaco é o que é. De resto, foi assim e bem, través de corajosas alianças matrimoniais, que chegámos a ter um rei sobrinho do marido da rainha Vitória. Já há uns anos que levamos docemente com a dona Estefânia. É que não somos poupados a nada. Senão, veja-se. A princesa rebelde. A princesa cantora. A princesa que embirra com a irmã. A princesa que casa, sucessivamente, com o guarda-costas, o dono do circo e o trapezista. Estefânia vive numa roulotte – ai, Jesus – com o pessoal do circo – ai, meu Deus – mas é uma roulotte maior que as casas de todos os relativos juntos. A verdade é que já não há paciência para a Estefânia e para a sua encenada e subsidiada rebeldia. RB
Terça-feira, Setembro 23
Uma questão de confiança: Há, normalmente, a expectativa de que lugares como Bali sejam inseguros. E a verdade, é que a pobreza, as ruas sujas e a falta de luz à noite criam, a início, uma sensação de insegurança. Mas, rapidamente, ela se esvai. Pode confiar-se nos balineses. Logo no primeiro dia, deixei a minha prancha a arranjar num sítio de que não tinha referências e cujo ar era atípico para um ocidental acabado de aterrar. Por momentos, passou-me pela cabeça que no dia seguinte facilmente podiam dizer que nunca lá tinha ido entregar prancha nenhuma. Na praia, ao contrário da maior parte de todos os outros sítios que giram em torno do surf, pode deixar-se tudo que voltamos e está tudo igual (diz quem surfou na Costa Rica, no México ou no Brasil que não costuma ser assim). Mas, para além da confiança, os Balineses são gente cheia de outras qualidades. Uma simpatia contagiante e um enorme sentido de humor (que é também sinal de inteligência) e uma capacidade de agradar, que nunca, em momento algum, cai no servilismo. Bali significa oferecer e a religiosidade local - que é muito forte e muito visível, num hinduísmo idiossincrático - é toda centrada nessa ideia. Os Balineses, do mesmo modo que pela manhã oferecem sempre alguma coisa aos seus deuses, oferecem a ilha com a alegria de quem dá. Eu não quero renegar de uma penada o marxismo light de outras polémicas, mas o despojamento dos templos e a felicidade no oferecer, faz com que os balineses ajudem a fazer de Bali um sítio ainda mais fantástico e faz com que eu me torne um pouco mais weberiano. PAS
Weather Report: Todos temos os nossos Rosebuds e cada um chega ao seu de um modo particular. Eu cheguei ao verdadeiro Rosebud por vias travessas. Não sei bem há quantos anos, mas, sempre que dava o Colombo na televisão, com o magnífico Peter Falk, eu fazia um enorme esforço para me manter acordado. Nessa altura dormia bem, muito bem, e a série começava demasiado tarde. Por vezes ou ficava acordado ou acordava, mas, lembro-me muito bem de um episódio em que havia uns dobermans que atacavam ao som da palavra Rosebud. Na altura o meu pai explicou-me o que era o Rosebud. Claro que ele já não se lembrará. Mas, eu tenho a certeza que foi assim e que isso passou-se no tempo em que dormia muito bem. Aqui em Bali, encontrei um novo Rosebud. Uma tranquilidade absoluta, um conforto e as ondas que não param de vir (hoje o mar esteve com uns 9 pés!). Também por isso, tenho dormido muito bem, o que faz toda a diferença do mundo, e não me "doem os olhos". Durmo muito cedo e acordo ainda mais cedo. Durante o dia, no mini-disc, ouço insistentemente a versão dos Everything But the Girl do "Only Living Boy in NY" do Simon and Garfunkel, "I get all the news I need on the weather report". É mais ou menos como na música. É que não estar em Portugal e por uns tempos não saber o que se passa por aí infelizmente ajuda a dormir bem. PAS
O amor é fodido I Perante as primeiras imagens do Big Brother 4, o nosso RB disse que aquilo parecia um filme pornográfico sem sexo, ao estilo das telenovelas mexicanas. A verdade é que a coisa rapidamente descambou para pornografia «com sexo», o que levou a Tv Cabo a codificar não só o canal 18 como também o 43.
Tudo começou com o jogo da verdade ou consequência. A questão era saber o que é que cada um dos concorrentes mais valorizava numa pessoa. Indiferente às trocas de insultos que a mãe e a tia («a mãe dele é uma prostituta») trocavam na TV Guia (outrora uma publicação de referência como o Expresso), Ricardo («M»). foi directo ao assunto: «não gosto delas (sic) nem muito altas nem muito baixas. As mamas não são importantes: para mim o fundamental é um rabinho bem torneado». Como convém, esta descrição foi acompanhada por uma gestualidade bastante expressiva. A mãe, convicta de que o estava a ajudar, disse à Teresa Guilherme que «ele é lá dentro o que é cá fora».
Depois de ter deixado claro ao que vinha, Ricardo começou por aplicar uma «massagem exótica» à Tatiana. Note-se que a Tatiana é uma jovem transmontana, possuidora não só de «uma Nossa Senhora de dois metros» como também de um certificado de virgindade (que foi, aliás, exibido pela sua médica em directo). Enquanto era «massajada», a jovem Tatiana deixou-nos importantes informações: «Foi Nossa Senhora que curou o pai do Roberto Leal, sabias?». O Ricardo também é católico, mas não vai à missa e a Nossa Senhora dele é mais pequena. Farto da conversa fiada da Tatiana, e depois de mais um jantar afrodisíaco bem regado, orientou as suas atenções para a Carla, uma jovem urbana desinibida, proprietária de uma sex-shop no Porto ? no fundo, a «anti-virgem» da casa. É neste ponto de viragem que a candidata favorita do nosso amigo LFB, a Alzira, uma açoreana da Terceira que estuda (Física Quântica?) no Politécnico de Portalegre, observa que aquilo «deu uma volta de 150 graus». 150 graus depois, a Tatiana estava a chorar no quarto e a Carla e o Ricardo no duche e na «cama do líder». A mãe da Carla já tinha prometido que a filha ia «fazer muito sexo na casa», e não se pode dizer que a Carla não esteja a cumprir. A Teresa Guilherme chegou mesmo a ouvir «gemidos». Ricardo é que não se ficou: «Mas ouviu gemidos meus ou dela?!». A Tatiana ficou triste com o desenrolar dos acontecimentos, mas rapidamente resolveu o assunto parafraseando a avó: «Cada vez percebo menos estes homens de hoje em dia». Como diria o Prof. Espada, faz falta «uma educação para a gentlemanship». FN
Segunda-feira, Setembro 22
Notes from a small island (2)
A propósito de um casamento na Cornualha
Sou fã do humor britânico. Não há povo que explore com tanto sucesso e classe os seus próprios defeitos, medos ou azares. Por exemplo, a nós portugueses, não passa pela cabeça fazer piadas sobre bebedeiras de gin da nossa avó a meio da manhã... Ora um comum britânico, não só o faz, como consegue fazê-lo sem ofender – já o testemunhei (inicialmente com algum desconforto, admito).
Este humor refinado, sarcástico e inteligente está presente nas mais diversas ocasiões, nomeadamente, na boda de casamento. Mais precisamente, é a expressão de um costume que muito aprecio: o discursar nos casamentos. Mas desengane-se quem pensa que se trata de um punhado de palavras cosidas a audácia (ou álcool), proferidas pelos alvos do ruído de talheres a bater em copos. Não. Estes, são discursos em que tradicionalmente os homens (o pai da noiva, o padrinho do noivo, o noivo...), hoje também as mulheres (a madrinha da noiva, a noiva... ), se empenham combinando erudição, humor e carinho. Discursos pensados por pessoas amigas para pessoas que lhes são muito queridas. Discursos que lembram ocasiões em que nem sempre se concordou, momentos por vezes embaraçosos, situações de que os próprios que as viveram já não têm memória. Pessoalmente, teria abdicado do creme de espargos, do prato de peixe, do leitão e dos camarões por discursos assim no meu casamento! SS
Domingo, Setembro 21
Posts de Domingo
«A minha mulher escolheu-me a partir de um livro de estrelas de futebol, eu escolhi-a depois de a ver num teledisco.»
David Beckham
«Ele (Ferguson) preferia que eu encontrasse uma mulher que ficasse fechada em casa, a fazer limpezas, a mudar fraldas...Mas não se pode escolher a pessoa por quem nos apaixonamos.»
idem
«Seria incapaz de usar o meu corpo só para ser famosa.»
Fabiana Alvarez, actriz e capa da Playboy
«Sinto-me tentada a pôr silicone no peito.»
idem
«Se for rapaz é Asterix.»
Herman sobre a propósito da gravidez de Maria Rueff
«O português ainda não está habituado a gastar 20 contos num jantar.»
Olivier, proprietário de um restaurante na Escócia
«Sou uma pessoa que vai pouco a festas, por isso, quando venho, procuro vir bem.»
Fátima Lopes, apresentadora, numa festa
«Vou pouco a festas.»
José Alberto Carvalho, numa festa
«Inspirei-me no misticismo da serra de Sintra, em fadas e em conceitos como o Romantismo.»
Pedro Ramos e Ramos, numa festa na Casa do Castelo
«A festa da Betty e do José Castelo Branco está fantástica. Está cá Portugal inteiro.»
Lili Caneças
Selecção: FN; Fontes: Caras e Lux
ADEUS LENIN! Fui ontem ver um filme que vale bem a pena. Chama-se Good Bye Lenin, do realizador alemão Wolfgang Becker. O género é o melodrama, com comédia e drama em doses bem equilibradas. Narra a história de uma funcionária do Partido, divorciada, com um casal de filhos, na Berlim leste. Poucos dias antes da queda do muro, ela entra em coma e só recupera passados oito meses, quando os trabants tinham já entrado no museu do comunismo. Sucede que a mãe não pode apanhar qualquer susto, e por isso a família tem que reconstruir a velha RDA já defunta no velho quarto do apartamento. Tudo o que ela vê, come ou ouve tem que confirmar a continuada existência de um mundo inexistente. Saem os móveis do Ikea entretanto comprados, voltam as velharias de aglomerado de madeira e por aí fora. No quarto, ela deve repousar e convalescer. Lá fora, o mundo gira a muitas rotações por minuto. Temos a sorte de ver Berlim em todo o seu esplendor soviet-chic, nada da xaropada romântica de Wim Wenders. Aliás, a iconografia kitsch soviético explode nas roupas, nos edifícios, nas cores, nas cores dos trabant, nos utensílios de cozinha, nas marcas de enlatados. Voltando à mãe. O problema é que a nova realidade do capitalismo se infiltra por todos os poros, por todos os escombros do antigo regime, da antiga cidade e da própria família que entretanto se alarga pelos amores dos filhos. Todas as coisas têm uma racha, que é por onde entra a luz. Pois bem, a racha que começa a fender a RDA-de-quarto é um gigantesco placard da coca-cola que, por puro azar, é pendurado no prédio em frente da janela do quarto.
Um filme feito com inteligência, mas sobretudo com ternura. Actores em estado de graça, ilustres meus deconhecidos todos eles. Um filme que nos dá a ver uma transição e o que estava antes, não para fazer um arraial ideológico ou um comício - o contrário disso. O comunismo e a transição são mostrados através das histórias das pessoas que os viveram, e não dos académicos que os estudaram ou dos políticos que por eles em vão rezaram. Isso permite recuperar aquilo que de bom havia no mau, sem cair na demagogia ou ingenuidade. E só quem nunca foi puto e não passou tardes a brincar a fazer papagaios de papel nos pioneiros do PC não sabe o que eu quero dizer com isto. É, por isso, um filme que Domingos Abrantes e Vítor Dias poderiam ver com agravo. RB
Sexta-feira, Setembro 19
3 dias: Uma procuradora sueca pediu o prolongamento da prisão preventiva do suspeito de ter assassinado a Ministra dos Negócios Estrangeiros Anna Lindh. O suspeito está preso há três dias, esgotando-se hoje o prazo máximo da prisão preventiva permitida na Suécia. Por aguardarem os resultados dos testes de ADN do suspeito, as autoridades suecas solicitaram o prolongamento especial da prisão preventiva que, em todo o caso, não poderá ultrapassar as duas semanas. Repito: são três dias, no máximo duas semanas. MVS
Um post(al) de Bali: Houve um tempo em que os amigos quando iam de férias mandavam postais. Agora mandam posts, o que torna tudo mais difícil para quem ficou em Lisboa. Boas férias, Pedro. MVS
Dreamland: As ondas perfeitas que apanhei em Balangan e hoje em Dreamland (a praia chama-se apropriadamente assim) não interessam a muitos, mas o depois do surf - e não é o cigarro - é irresistível para quase todos. Imaginem uma praia de água quente, com pouca gente, cadeiras de madeira e chapéus, atrás uns bares onde tudo custa quase nada (uns fantásticos batidos umas 6000 rupias, 60 cêntimos). Depois, quando já não aguentarem o sol e estiverem fartos dos banhos, entreguem-se às massagistas. Por 3 euros podem ter meia-hora de massagem por 4 mãos, ali mesmo na praia. 5 horas de surf e depois meia-hora de massagem. Isto recorda-me uma frase que li há uns tempos num blog: "a vida pode ser perfeita, as pessoas é que a complicam". PAS
Quinta-feira, Setembro 18
É a qualificação, estúpidos! André Freire escreveu, no público de terça-feira, um artigo que quem ainda não leu, deve ler rapidamente. Porque para além das questões que levanta em torno da situação preocupante do ensino superior público em Portugal, que tem de uma vez por todas de ser assumido como um vector estratégico da modernização do país e não como um fardo para o Estado, responde por antecipação a parte significativa das preocupações de que o Público de ontem dava conta, em torno das questões da produtividade.
Estas preocupações são como se sabe, antigas. E cíclicas. Pela enésima vez, estão em cima da mesa, e é meritório que este governo demonstre agora alguma vontade de agir sobre elas. O que é menos meritório é que se permita omitir quase por completo algo que é um adquirido consensual nos diagnósticos sobre este problema: a questão do défice de qualificação dos portugueses.
Nos termos em que a questão está a ser colocada, fala-se de tudo, mas não se fala do mais importante. Sem combater o défice de qualificação, escolar e profissional, o défice de produtividade não vai ser vencido.
Não chega aumentar a exigência e a avaliação da qualidade da educação. É uma preocupação importante, mas que é um passo que não dispensa um outro, e anterior, a imperiosa necessidade de formar mais pessoas, mais rapidamente, com mais qualificações, e ao longo da vida. Podem-se inventar leis laborais mais flexíveis a pretexto da produtividade. Como se a segurança fosse inimiga da produtividade. Pode-se emagrecer o Estado e privatizar as suas funções, também sob este pretexto. Como se o Estado fosse o problema, ou fosse sequer menos “produtivo” do que boa parte do tecido empresarial. Pode-se, em suma, agir sobre um conjunto de domínios, mais ou menos importantes, mais ou menos espúrios.
Mas é espantoso como se consegue falhar de maneira tão gritante uma das frentes centrais e incontornáveis para a melhoria da produtividade: a educação e qualificação dos portugueses.
E é inaceitável como mais uma vez estamos perante uma mistificação grosseira que Durão Barroso tenta vender. Este “esquecimento” da educação quando se fala da produtividade mostra bem qual a prioridade que é, na verdade, atribuida à qualificação no quadro da agenda política do governo, quando o próprio primeiro-ministro dissera exactamente o contrário, há ainda bem poucas semanas. MC
Objectos em vias de extinção: TSF Não me refiro aqui à telefonia sem fios (que também já conheceu melhores dias), mas sim à «rádio em directo». Nos anos 90 houve três coisas que mudaram o jornalismo: o Independente, a TSF e a SIC. Dois destes três projectos foram liderados por Emídio Rangel, curiosamente o autor de um relatório que visa acabar com a TSF tal como a conhecíamos. Percebe-se a reacção que isto provocou na blogosfera, mas algum crédito terá Rangel. Pela minha parte, confesso que a TSF foi como o Indy ou o Terça à Noite – uma boa escola de política que gerava em mim alguns comportamentos anti-sociais. Lembro-me de uns walkman Sony amarelos à prova de água, também eles em vias de extinção. O meu tinha rádio e cassetes, mas eu raramente usava as cassetes. A TSF era estranhamente viciante e muito bem feita: conseguia fazer com que o cavaquismo, o período político mais cinzento desde que há democracia, parecesse uma coisa excitante. Com o nascimento da SIC, os melhores jornalistas emigraram e a lógica dos grupos de comunicação afastou definitivamente os dois projectos. É por essa altura que surgem programas inenarráveis, como o «Fórum da TSF» ou a «Bancada Central». Em nome desse simulacro de democracia que dá pelo nome de «interactividade», a TSF abriu a sua antena a maluquinhos e ressabiados (um pouco como nós fazemos aqui nos comments do País Relativo: não estou obviamente a pensar no Real).
O programa que eu mais gostava era o Flashback. Se não me engano, quando comecei a ouvir aquilo Vasco Pulido Valente (VPV) estava próximo do PS, Pacheco Pereira acabado de entrar no PSD e José Magalhães em vias de sair do PC. Lamentavelmente, o programa evoluiu para um prolongamento dos debates parlamentares - precisamente o contrário do que se pretendia inicialmente. Naturalmente, VPV acabou por ser substituído por um senhor simpático que está agora na Cruz Vermelha e que, por sua vez, deu lugar a Lobo Xavier, que se limita a repetir o que diz Pacheco (menos quando o tema é Paulo Portas). A única vantagem que aquilo tinha ultimamente era que repetia às 3 da manhã, funcionando, sem receita médica, como um medicamento genérico para adormecer nessa noite complicada que é a noite de domingo. Este domingo senti a falta. FN
Osama don't surf: A frase de Robert Duvall no Apocalipse Now, depois feita música pelos Clash no Sandinista, está aqui, em t-shirts, por todo o lado. Agora o Charlie, inimigo de outros tempos, é, também aqui, Osama. Pouco menos de um ano depois do atentado que matou mais de duzentas pessoas a ilha está diferente. O terrível ground zero de Kuta, antiga discoteca e, por isso, local de "perversão" dos turistas, está aí para nos ligar à terra, mas as ruas desertas, os restaurantes vazios e lojas desesperadamente em busca de clientes são hoje as faces visíveis do terrorismo. O Primeiro-Ministro Australiano aconselhou, aliás, os seus concidadãos a evitarem a Indonésia nas férias. O resultado é trágico para os balineses. Mas, para meu espanto, as expectativas de que a pouca gente tivesse correspondência no surf não se confirmaram. Os surfistas parecem ser uma raça à parte e raciocinam todos de modo igual. Há menos turistas, logo vamos para lá. Bali está vazio, mas o crowd no surf continua. Ao segundo dia fomos a Ulu Watu. Como se diz nestas coisas, um visual alucinante: uma enorme baía, ladeada por um templo Hindu do século XI e três picos diferentes, todos eles com uns cem metros de onda. O acesso é pelo meio de uma caverna, que faz com que as saídas com a maré cheia sejam difíceis. As ondas absolutamente fantásticas: num dia mau, àgua quente, 4-5 pés com força e ondas tão compridas que no fim são as pernas que ficam a doer! Mas, o pior é o crowd e o pior do crowd são os australianos. Não menos de 80 dentro de água e em três horas de surf não fiz mais de 15 ondas. Por muito que isso custe ao meu surf, a verdade é que são também os surfistas australianos, ao continuarem a vir a Bali, que contrariam a estupidez do seu governo, que parece querer mesmo que Osama surf. PAS
Política XXI Foi anunciado o fim da Política XXI. Até ao momento, foi a única organização a retirar corajosamente as consequências políticas do fracasso da flash-mob de dia 15. FN/RB
Beleza assassinada Ao que já foi dito sobre o hediondo assassínio de Anna Lindh, falta talvez dizer o óbvio. Anna Lindh era uma mulher bonita. Não por acaso, quando Sérgio Vieira de Mello morreu vítima de ataque não menos bárbaro, lembro-me de comentar para o lado, e muitas outras pessoas também o fizeram, que era um homem bonito. A beleza assassinada tem qualquer coisa de triste, de imoral. RB
Quarta-feira, Setembro 17
Bartleby & Companhia Bartleby é um manga-de-alpaca que nunca foi visto a ler, nem sequer um jornal. Ele fica em pé durante longas horas olhando fixamente para nada, através da janela do seu escritório de Wall Street. Bartleby nunca bebe cerveja, chá ou café como os outros. Como vive no escritório, nunca foi a parte alguma; nunca disse a ninguém quem é, nem de onde vem, nem se tem familiares neste mundo. Quando se lhe pergunta onde nasceu, ou se lhe distribui uma tarefa, ou se lhe pede que faça ou diga qualquer coisa, responde invariavelmente: «Prefiro não o fazer».
O livro de Enrique Vila-Matas é um ensaio ficcionado através do qual o narrador apresenta umas “notas sem texto”. Estas notas conduzem o leitor numa viagem ao síndroma de Bartleby, esse “mal endémico da literatura contemporânea”. Como um etiologista que identifica espécies, o narrador desfila casos de atracção literária pela renúncia à escrita, pelo nada, que faz com que certos criadores, ainda que possuindo uma consciência literária muito exigente (ou se calhar por causa disso mesmo), acabem por nada escrever, ou escrevem uma ou duas obras e depois emudeçam. Eis alguns dos autores abordados: Robert Walser, Melville, Juan Rulfo, Pere Gimferrer, Pynchon, Hofmansthal, Stefan Zweig, entre muitos outros.
Por esta altura, poderá estar a perguntar-se para que serve este post. Não é mal perguntado. A verdade é que me pagaram para isto. Só falta mais esta coisa que estava no contrato: presente do singular, modo imperativo, aqui vai: leiam o livro, se for mesmo preciso, comprem-no. RB
Movimento social dá sinais de inexistência Três pessoas participaram na primeira flash-mob tuga, ontem em frente à Assembleia da República. Estavam lá mais repórteres que flash-mobbers e mais polícias que repórteres. Moral da história: se não é o PCP a organizar, não se faz nada em condições. RB
Mais um sobre o Dr. Portas: nunca é demais falar de tão fascinante personagem e de tão lamentável discurso. Em primeiro lugar a forma. Há ali traços de “personalidade autoritária”: o dedo apontado, a expressão facial zangada, todo o aparato que o rodeia. Para aquilo ter um efeito melhor, só faltou uma realização ao nível de Leni Riefenstahl.
Depois o conteúdo. Os valores da «Nação», da «Autoridade», do «Trabalho». Claro que os imigrantes são «seres humanos como nós» (Portas concede-lhes isto generosamente), mas quando há desemprego deve ser dada «prioridade aos portugueses». É sem dúvida a vulgata de Le Pen, como bem observou Pacheco Pereira. (Relativamente ao Abrupto, a única coisa que não se percebe é o facto de não ser tão exigente com Bush, Berlusconi ou Haider como tem sido com o Dr. Portas.)
Finalmente, ainda veio com a história da revisão constitucional. É pura demagogia, na linha de Maggiolo, dos antigos combatentes e das farras do PSD/Madeira. Portas quer «uma Constituição neutra» sem referências ao «socialismo». Tão neutra como a Constituição Europeia, que, no seu entender, devia fazer referência à «civilização cristã». Como é óbvio, uma Constituição é sempre o resultado de um processo de transição de regime. E quem promoveu a resistência à ditadura e a transição para a democracia foram a esquerda e os capitães de Abril (por muitas asneiras que tenham cometido a seguir). Não foi o Dr. Portas, que andava de calções, nem os fundadores do seu partido - esses estavam, como sempre, «do lado certo da História», isto é, do lado do poder (autoritário). Por outro lado, Portas diz-nos ainda que «não é o país que serve a Constituição, mas a Constituição que serve o país». É outro argumento perigoso, a fazer lembrar as «forças do bloqueio» do Prof. Cavaco. Numa democracia liberal, acima da vontade das maiorias do momento, vigora o chamado «governo das leis». E a Constituição é a Lei Fundamental. Enfim, foi você que pediu uma direita radical? FN
Terça-feira, Setembro 16
A "governação humanista" ou a direita radical com pele de cordeiro Já era suficientemente suspeito que o rótulo “governação humanista”, termo ao mesmo tempo suave e piedoso, e ao que se diz da lavra do ministro Bagão Félix, tivesse sido inventado para fazer oposição à “governação progressista”. Como se pode ser humanista por oposição ao progressismo? Aliás, desde quando é que o progressismo não é humanista?
Mas, se dúvidas tivessem chegado a existir sobre o espírito e a real thing do que está em causa, elas estão à partida desfeitas. Bagão Félix há muito que deu todas as provas de ser um humanista radical, ao aprovar um código do trabalho que escancara as portas à assimetria e à desumanização do trabalho e das relações laborais. Já antes disso, tentara a todo o custo perverter o rendimento mínimo, tornando-o numa arma de arremesso e de julgamentos morais contra os mais pobres. E a sua atitude esfíngica, de continuada negligência, sobre o flagelo do desemprego lembra-nos mais uma vez a sua faceta "humanista".
Mas, enquanto Bagão se entretém com os seus aforismos e brinca, no recato do seu lar, aos rótulos prontos-a-colar, Portas respondeu "pela positiva", sem medos, à questão ideológica que tem assolado os jornais e a blogosfera nos últimos tempos. Direita radical, nós? Ao destilar (cada vez mais sem subterfúgios) um ódio mal contido contra os imigrantes, deixando bem claro que “os portugueses estão primeiro” e que as quotas de imigrantes têm de ser mínimas ou zero, Portas assumiu sem tibiezas a bandeira por excelência da extrema direita xenófoba – talvez com medo da Nova Democracia e do que poderá vir do seu flanco direito, se o deixar a descoberto.
Ainda assim, há quem diga, e continue a dizer, e repita, e insista, que este governo é “de direita”. Assim, suavemente. Querem convencer-se a si próprios; nada mais legítimo. Mas noto que eram os mesmos que há um ano diziam que o governo era de "centro-direita". Agora já é de "direita". Estão no rumo certo. Um destes dias, chegam à resposta certa. MC
Fusos horarios: Adormeci muito cedo e acordei ainda mais cedo, vou a praia, quando ainda nao ha ninguem para alem dos balineses. A temperatura e' a mesma do dia de ontem e sempre constante. A mare completamente vazia deixa ver o recife todo. Passeio na praia e, pela primeira vez, nao sou abordado por ninguem. Os balineses ainda nao comecaram a oferecer insistentemente as mais diversas coisas. 'Transport, marijuana, tatoo, massage, woman!'. Nada. A pobreza, que esta por todo o lado, e o desenrascanco, que e' a unica resposta que existe para aquela, esperam ate mais tarde. PAS
Noticias do paraiso: Mais de 24 horas depois cheguei a Bali. A pista de aterragem comeca na agua e acaba em terra. Ainda no ar reparo nas Airport Lefts com 4 pes perfeitos e nao mais de 6 surfistas no pico. Num apice, o cansaco da viagem mal dormida e os outros cansacos de Lx evaporam-se. Depois de 50 ofertas de taxi, chego finalmente ao hotel, onde ja estao os meus amigos. Mesmo em frente, Kuta Reef. Negociamos rapidamente o preco do barco para o pico - e por isso perdemos, concerteza. 3 euros pela viagem de ida e volta! Um dia mau para Bali. 3 pes perfeitos, agua quente e 10 surfistas no pico. Mas, cada onda tem 50 metros de parede e sempre com forca. No entanto, a vontade de fazer tudo no primeiro dia tem destas coisas. Surfamos ate a mare completamente vazia e na ultima onda, para aproveitar tudo, vou demasiadamente ate ao inside. O meu braco direito, do ombro ate as maos, fica ja com as marcas do coral. Depois de perder uma quilha e de me terem partido o nose da prancha no aviao era o que faltava. Contudo, nem uma ponta de aborrecimento. Amanha ha mais ondas e mais pranchas e o braco ha de ir ao sitio. PAS
Kuala Lumpur: quatro horas no aeroporto durante a noite, a principio quase vazio. La fora, entrevejo a cidade que aponta o futuro de toda esta regiao. Do aeroporto parte um comboio de dentro de uma especie de aquario, tudo mesmo no meio do free-shop. O aeroporto, apesar de ter mais internet points, mais luzes, hospedeiras diferentemente bonitas, mais televisoes que transmitem jogos da F.A. Premiership, e' no essencial igual aos que estao mais perto de nos. As mesmas lojas, com os mesmos perfumes, charutos, livros (os posters a anunciar o novo Harry Potter, a mesma fotografia da Hillary Clinton que estava em Amesterdao, de mao no queixo a olhar para a pre-candidatura). Ainda assim ha qualquer coisa de diferente. Nao consigo perceber o que, mas aqui passei a linha tenue que separa o Ocidente. Entretanto, o passar das horas e o amanhecer tras um rebulico inusitado. A diferenca tambem esta ai. O capitalismo efeverscente que se sente por todo o lado. Ha poucas coisas com tanta energia e tanta criatividade e, por estranho que isso pareca, no Ocidente isso comeca a faltar. PAS
As listas conjuntas Pelo que se lê nos jornais o CDS/PP quer ir a votos já nas europeias em listas conjuntas com o PSD. O CDS parece ávido de passar pelo registo civil para oficializar aquilo que até aqui tem sido uma união de facto. Porventura, Portas considera que as listas conjuntas (a AD pré- e não apenas pós-eleitoral) acrescentam solidez à coligação e, quem sabe, a prazo, abrem caminho para a fusão entre os dois partidos. O PSD, naturalmente, resiste a esta ideia. Era como a Guiness sucumbir a uma OPA hostil da Cristal preta. Assumamos que, para se manter estável a prazo, a coligação deve respeitar os bons princípios definidos em tempos por Sá Carneiro: o peso dos dois partidos deve ser bastante desproporcionado, tendo o PSD um peso claramente superior ao CDS. O CDS não pode ameaçar eleitoralmente o PSD, deverá manter-se numa posição subordinada. Ora, o CDS encontra-se no limiar do peso eleitoral aceitável para o PSD (se com 8% já existem dúvidas sobre quem manda no governo, imagine-se com 15%). Assim sendo, o CDS deveria estar interessado em ir a votos sozinho, em especial nas eleições europeias em que se não vota para o governo e poderia assim capitalizar o voto eurocéptico e o “issue-voting” anti-constituição europeia. O PSD deveria aceitar as listas conjuntas sem relutância, para não correr o risco de ver o CDS crescer eleitoralmente a partir do governo. O mesmo raciocínio se aplica por maioria de razão às autárquicas, mas aí fia mais fino e os efeitos do crescimento eleitoral do CDS poderão ser mais graves por violarem a regra da desproporção entre os dois partidos coligados. RB
Dedos amarelos, afinados em dó maior Os UHF fizeram vinte e cinco anos, assim, por extenso como nos cheques. Os UHF nunca foram a minha banda de rock preferida, se calhar nunca chegaram a ser muito bons. E isto apesar de algumas canções marcantes na definição do som do rock português de meados dos anos oitenta. Canções como «Jorge morreu», «Rua do Carmo» ou «Cavalos de corrida». Os UHF foram a melhor banda saída da Costa da Caparica em 1977. Hoje, são uma merda. Mas a verdade é que, pelo menos fugazmente, ainda que por uma só noite, incarnaram na perfeição o espírito da banda rock. Ficou gravado, acho que se chama «Ao vivo na Incrível Almadense» e é um grande disco. Ou pelo menos parecia-me, naquela idade em que andamos «de olhar fixo, à procura do profeta da rebeldia». RB
Segunda-feira, Setembro 15
Passo a passo: O discurso de Paulo Portas na rentrée do CDS/PP deu, discretamente, mais um passo no discurso xenófobo do Ministro de Estado e da Defesa e do líder do PP. Segundo o próprio, o desemprego está infelizmente a subir (assim, por obra do acaso…) e por isso temos que garantir que primeiro está o trabalho para os portugueses. Sim, porque no tempo dos socialistas era uma vergonha - entrava cá quem queria. Duas questões: (1) a confusão entre o argumento do Portugal aos portugueses e o do melhor acolhimento aos imigrantes é um insulto à inteligência de quem o ouve. O que ali está em causa é um discurso contra os imigrantes e um incentivo ao pensamento de que o desemprego cresce porque existem em Portugal demasiados imigrantes (2) acha mesmo o Dr. Portas que proibir a imigração fará, de facto, com que a imigração pare? Ninguém explicou ao Dr. Portas que haverá sempre imigração enquanto houver oferta de trabalho e que proibir a entrada de estrangeiros significa apenas que estes entram ilegalmente? E que as entradas ilegais só deterioram as condições de vida dos imigrantes, que o dr. Portas afirma defender?
Depois dos ciganos do rendimento mínimo e deste Portugal aos Portugueses o que se segue no discurso xenófobo do Dr. Portas? Diz ele que é humanista. Se isto é humanismo, vou ali e já venho… E apesar disto, claro, continua a falar-se de exagero quando alguém diz que no PP (e no governo) existe demasiado peso da Direita-Radical… MVS
Mau Humor: Algo está profundamente errado quando o melhor do programa do Herman é a presença do Fernando Rocha... Mas quem quer saber o que tem dizer o tal Castelo Branco (o meu optimismo faz-me continuar a ter dúvidas sobre a sua real existência). O que justifica entrevistar o Cláudio Ramos? O que é que ele pode ter a dizer sobre o excesso ou falta de legislação em Portugal? Depois apareceu um jovem a fazer uma figura rídicula (que me abstenho de descrever) perante o ar de gozo do Herman José. E eu mudei de canal. O que o antigo Herman não diria desta decadência...MVS
Notes from a small island (1). Substituto imperfeito das divertidas crónicas de Bill Bryson sobre terras de Sua Majestade.
Tate modern: "Please do not touch. Even clean hands leave marks and damage surface".
A ordem disfarçada de pedido (ou não estivéssemos em Inglaterra) repete-se de sala em sala. É, portanto, com alguma surpresa que me apercebo que um guia incentiva uma visitante a tocar uma esculptura. Observo curiosa. Ambos calçam luvas brancas. Compreendo então que a senhora é cega. Detenho-me por uns longos instantes a ouvir as indicações do guia e a olhar fascinada a reacção da senhora. O rosto expectante abre-se num sorriso à medida que as mãos deslizam sobre a pedra e a escultura ganha forma. Pergunto-me o que será que ela vê? Se calhar devia ter disfarçado, mas na altura não pensei nisso. Só pensava que são estas pequenas grandes coisas que distinguem os países desenvolvidos. SS
É preciso arder Monsanto?
O burlesco atingiu o seu auge na Tapada de Mafra. Um governo e um ministro que juraram ter tirado lições da primeira vaga de incêndios foram impotentes para impedir que ardessem 90% de uma das mais emblemáticas matas nacionais. Que lições? Que reforço de meios quando uma mata nacional nos arredores de Lisboa, que faz parte do património de recordações de infância da generalidade dos lisboetas e de muitos portugueses, deixou praticamente de existir? MK
Depois da tragédia, a farsa. É inacreditável o que se tem passado com esta «segunda vaga» de incêndios. Nos mesmos locais ou noutros, com as mesmas razões ou outras – a tragédia dos incêndios continua, para desespero de todos. O facto de tudo continuar a acontecer enquanto o ministro Figueiredo Lopes estava em Roma a participar num congresso sobre fogos acrescenta o toque infeliz de farsa burlesca. Mas quem, no Sábado, andou por Lisboa ou foi à praia, quem atravessou a ponte sobre o Tejo e não viu Lisboa, quem tinha cinzas na cama e na garganta, sentiu uma espécie de medo íntimo, como se calhar até aí não tinha sucedido. Horas e horas de directos de telejornais criam uma espécie de calo, de embrutecimento. Este sábado à tarde, tudo se tornou, de repente, presente. Este sábado à tarde, o ministro Figueiredo Lopes deixou de o ser. Que Durão o avise e poupem-nos a isto. RB
Domingo, Setembro 14
Porque hoje é domingo... Best of Summer 2003
«O Spicy é uma discoteca para gente mais "off-shore".»
Relações Públicas do Spicy
«Como bom português que sou, estou a tentar internacionalizar ao máximo o meu país.»
José Castel-Branco
«Tem surgido um tipo de gente que chega a ser assustadora.»
idem
«Lembro-me de estar a viajar para Tete num avião que levantava assim para cima.»
idem
«Não me considero escritora, mas sim filósofa.»
Paula Bobone
«Sou um cachorrinho nas minhas relações afectivas.»
Teresa Guilherme
«Somos uma família muito Indiana Jones.»
Sílvia Monjardim Garcia
«O que mais me surpreendeu em São Tomé foi o facto das pessoas serem todas muito simples e prestáveis.»
Bárbara Elias
«Isto está a dar uma volta de 150 graus.»
Concorrente do Big Brother
«Afinal, o que querem as mulheres? É a pergunta que fica por solucionar.»
Gianni Bulgari, criador italiano
Fontes: Caras, VIP, Herman SIC, Tal e Qual e Big Brother
Selecção: FN
O País de Portas: que Paulo Portas não faz bem ao país, muito pelo contrário, era já sobejamente evidente. A agenda Portas é a agenda do que interessa ao senhor Paulo Portas, ainda que o país não ganhe nada com isso. Ontem tivemos mais um exemplo flagrante. O país vive os seus problemas, bem graves a vários títulos, e Paulo Portas fala - cria - de problemas que não têm nada a ver com as dificuldades que os portugueses atravessam e que apenas introduzem ruído na vida política. Trazer à baila neste momento as referências históricas e desprovidas de qualquer efeito prático que a Constituição faz ao socialismo é muito mais do que um maneirismo de direita radical, é, sim, a confrangedora confirmação de uma enorme pobreza intelectual. MK

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