<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
quinta-feira, setembro 30
 
Alívio
Primeira página do público de ontem sobre a publicação das listas de professores, ao melhor estilo 24 horas: um monumental "Uf!". Também fiquei aliviado. Da próxima vez que tropeçar num dos múltiplos editoriais ou artigos de opinião do público, diário de referência, a repetir verdades feitas sobre os perigos que corre a língua portuguesa e sobre o estado da educação, já sei que, felizmente, não é para levar a sério. Uf? Sit, Ubu, sit. Good dog! - MC
 
Com amigos destes...
Sócrates é apresentado pelo El Pais como "pragmático, frontal e con algo de mala leche (segun sus amigos)". Leram bem: "algo de mala leche (segun sus amigos)". Nao sei o que é que isto quer dizer exactamente. Será "copinho de leite", "maus fígados?". Seja como for, nao deve ser nada de bom. Com "amigos" destes... - FN

quarta-feira, setembro 29
 
O eterno mito do centro
De forma mais ou menos mitigada, saber se o Partido Socialista ia virar ou não ao centro foi uma discussão omnipresente na campanha interna para Secretário-Geral. Independentemente das profissões de fé de esquerdismo que, com maior ou menor intensidade, os três candidatos foram fazendo, a verdade é que uma das razões apontadas como responsável pelo potencial ganhador de José Sócrates foi o seu apelo ao centro. Os comentadores foram ajudando à festa, sublinhando reiteradamente esta ideia. Acontece que o tema do centro político é, muito provavelmente, dos mais geradores de equívocos na discussão política. Não apenas porque o centro existe quase exclusivamente na cabeça dos políticos, dos jornalistas e dos comentadores (se bem que em doses diferentes), mas, também, porque a sua invocação serve para iludir os aspectos que são relevantes para a construção de uma alternativa política. continue a ler aqui. - PAS

terça-feira, setembro 28
 
Elogio da democracia (para que ninguém confunda as árvores com a floresta)
Estou à vontade para escrever este post porque apoiei publicamente a candidatura do Manuel Alegre. A eleição do secretário-geral do Partido Socialista foi um exemplo para a democracia portuguesa e devia ser seguido, quanto antes, por todas as forças partidárias: um amplo debate interno, público e mediático (que poderia ainda ter sido maior, mas em todo o caso aquele que existiu não tem precedentes), voto directo dos militantes, participação massiva de cerca de 35.000 votantes - metade do total de inscritos do PS e, creio, uma elevadíssima percentagem daqueles que têm as quotas em dia.
Houve incidentes processuais? Talvez, mas muito localizados, sendo que os há em todas as eleições e em todos os actos públicos. O fundamental é que se esclareçam todas as dúvidas. a subsisitirem, e que se utilizem os instrumentos disponíveis para corrigir eventuais irregularidades.
Há suspeitas de fenómenos de caciquismo local e de pressões várias para condicionar votos, que aliás não são novos? Então, urge denunciar esses casos e aprofundar os mecanismos estatutários que efectivamente garantam que eles são não a regra mas a excepção, censurada e punida.
Mas não nos enganemos. Certo, e importante, é que pela primeira vez na história da democracia em Portugal um líder partidário passa pelo crivo de um debate, vivo, disputado e aprofundado, que se prolongou durante meses, em sessões por todo o país e nos media. A participação massiva de dezenas de milhares de pessoas na votação e a expressão eleitoral, aliás inequívoca, que os resultados traduzem são indicadores claros de que eventuais incidentes processuais e outros vícios existentes não põem em causa a legitimidade, e muito menos o valor intrínseco para a democracia e a importância para o próprio PS, de todo este processo. Insistir no contrário, neste momento, é falhar o essencial.- MC
 
Cada país tem o Bagão que merece
O senhor Aznar nao podia ter começado melhor a sua cátedra na Georgetown. De acordo com Andrés Ortega, colunista do El Pais, na sua primeira aula o ex-primeiro-ministro afirmou que "O problema da Espanha com a Al Qaeda vem do século VIII" e que "a Espanha recusou perder a sua identidade e ser mais um território do mundo islâmico quando foi conquistada pelos mouros". Franco nao diria diferente. No fundo, para Aznar, a presença muçulmana em Espanha - que durou séculos - nao passou de imigração ilegal. - FN

 
Sinais preocupantes
Depois de durante a campanha ter perorado diversas vezes contra o aparelho, eis que Manuel Alegre se prepara, a crer no Público, para apresentar uma moção ao congresso do PS para que o valor das quotas seja reduzido, porque o seu elevado montante (dois euros mensais) inibe os militantes mais pobres de votar, colocando-os à mercê de dirigentes locais ou concelhios, que trocam quotas por votos. Esta proposta, para além de esquecer que há uma quota de solidariedade, precisamente para os militantes que não podem pagar a totalidade da quota, esquece, acima de tudo, que é o facto das quotas serem hoje mais elevadas que dificulta que, quem quer que seja, pague as quotas dos militantes para vencer eleições. Por irónico que possa parecer, sai hoje mais caro "ao aparelho" ganhar uma concelhia. Em todo o caso, não deixa de ser sintomático a perturbação interna que o regime de quotização aprovado há dois anos tem gerado internamente no PS. Quando se introduz transparência e verdade na vida interna de um partido, as reacções são sempre mais que muitas, o que não se esperava era que elas viessem agora de quem fez do "medo interno" um tema central da campanha. Mas os sinais preocupantes do que aí possa vir não se ficam por aqui. A crer no JN, José Lamego pode voltar às relações internacionais do PS. Tendo em conta o seu posicionamento face à questão internacional por excelência dos últimos quinze anos, a guerra no Iraque, o PS não só estaria a dar um sinal completamente errado ao eleitorado, como José Sócrates estaria a contradizer, não apenas o seu posicionamento pessoal sobre a intervenção norte-americana, como também, o que está escrito na sua moção, apenas aprovada. - PAS

segunda-feira, setembro 27
 
Serviço de abastecimento de poesia ao país
Chamem-me romântico, ingénuo, crédulo, o que quiserem, mas eu achei que, num momento em que tanto se discute o financiamento dos partidos, o caciquismo, e o diabo a sete, a ideia de Manuel Alegre de colocar a poesia a financiar a sua campanha foi bonita. Ainda se pode achar uma coisa bonita, só assim, sem que se nos riam na cara?- RB

sexta-feira, setembro 24
 
Tudo ao contrário
O Pedro Adão e Silva chamou aqui a atenção para o facto extraordinário de termos um primeiro-ministro que faz oposição ao seu próprio governo. Para isto ficar perfeito, só falta mesmo um líder da oposição convencido de que ainda está no governo.
PS: Vou para Madrid. Seguindo as recomendações do eng. Sócrates, no "Diga Lá Excelência", a partir de segunda-feira calo-me e passo a escrever sobre política espanhola. - FN
quarta-feira, setembro 22
 
Amigos socráticos
O Fernando Rocha Andrade chegou, finalmente, à blogosfera. O blogue chama-se Contra Santana , mas pelo que li nos arquivos de Julho podia chamar-se Contra Ferro. Ainda assim, gostei - gostei especialmente daquele post sobre a primeira reunião do conselho de ministros, ilustrado com uma fotografia dos Reservoir Dogs. Um abraço também para o Nuno Garcia que, como bom membro da «ala direita», não se esqueceu do aniversário do Clube de Futebol Os Belenenses (a propósito: quando é que o Sporting faz anos?) - FN
 
Central de Vendas
No meio da continuidade que o Dr. Sampaio exigiu fosse assegurada, o Governo dos Drs. Santana e Portas tem, ao longo de dois meses, dado alguns sinais importantes de descontinuidade. À cabeça, a forma como a informação e a mensagem passaram a ser geridas. Sintomático disso mesmo foi a forma despudorada como o próprio executivo criou uma central de comunicação, presume-se com o objectivo de dissimular a inacção em que lançou Portugal. É que onde o anterior governo juntava a inépcia política de alguns ministros, com a vontade quase sádica de fazer sofrer o país de outros, o actual combina o combate interno entre os ministros do PP e os do PSD, com uma gestão a conta-gotas das notícias, que parecem sempre prometer mundos e fundos, ainda que acabem por esconder uma outra realidade.
Tem sido assim desde o início. Primeiro o Governo, através das «fontes próximas» que hoje quase monopolizam a informação em Portugal, lança uns factos que vão de encontro ao senso comum, generosamente instalado na sociedade portuguesa. O método é simples e recorrente. Antes de mais, é dada uma ideia positiva do que vai ser feito para que, depois, quando se conhece a outra face da moeda, o trabalho de desconstrução da notícia seja mais difícil, na medida em que há que contrariar uma impressão que já se instalou. Este é um dos sinais de que essa autêntica central de vendas está já em actividade. continue a ler aqui - PAS

 
José Sócrates
«Eu prezo muito a autonomia estratégica do Partido Socialista», disse José Sócrates, no debate da SIC. Eu também prezo muito a autonomia estratégica do PS. O problema é que essa autonomia não deve funcionar só num sentido: é face à esquerda, mas também face à direita. - FN
 
João Soares
Se João Soares tivesse estado tão bem contra Santana como esteve hoje contra Sócrates e Alegre, como estaria agora a vida política portuguesa? - FN
 
Maçã podre
O Sr. Apfel (Maçã) apresentou-se como cabeça de lista pelo NPD nas eleições regionais da Saxónia. No passado domingo, o partido do Sr. Apfel conquistou 9,5 por cento dos votos; o SPD obteve 9,8 por cento dos sufrágios. Depois de domingo, voltará a um parlamento alemão, pela mão de quem se sente excluído do presente e sem esperança no futuro, quem relativiza o passado mais recente da Alemanha. A dimensão do resultado da extrema-direita alemã não é ainda o toque de finados da democracia alemã do pós-guerra, mas soa a alarme. Sobretudo, num país onde o ressentimento, de ambos os lados, se vai agravando. Que leva as empresas alemãs a correr aos mercados que se abrem a leste, investindo aí generosamente, mas a saltar essa parte que há pouco mais de uma década estava fisicamente separada? Que leva os trabalhadores da BMW a leste abandonarem, ao fim de um mês de greve, as reivindicações decretadas pela cúpula do maior sindicato alemão? Para quem viu de perto o declínio alemão nos últimos três anos, como é o meu caso, apenas o posso explicar pela desconfiança profunda entre as duas partes que se agudiza de ano para ano. Que uma geração crescida e formada na Alemanha de leste tenha de ser subsidiada pelas gerações do lado ocidental, aceita-se por um elementar princípio de solidariedade. Que uma geração crescida na parte oriental da Alemanha reunificada tenha de continuar a ser subsidiada, não é percebido nem por quem recebe, nem por quem paga. O resultado do sr. Apfel é, provavelmente, o produto da transformação da desconfiança em ressentimento. E esse resultado é tanto mais inquietante quanto expõe, cada vez mais, o falhanço da reunificação alemã. - PM

terça-feira, setembro 21
 
Os gajos de LESI

São os gajos de sistemas ou, para ser mais exacta, são os estudantes da licenciatura em engenharia de sistemas e informática. Desaparecem durante os primeiros dias de aulas (?) e surgem zippados a meio da semana, de disquete ao peito, num corpo homogéneo e organizado que deambula pelo campus com dois ou mais (quiçá refugiados de um Carnaval de Veneza fora de prazo) "engenheiros" a liderá-los e a incentivá-los. Com coreografia ensaiada, mantêm-se no seu rectângulo humano dando voz a um coro forte, imponente e impressionante que alterna com silêncios ou com uma ou outra voz solitária. Não se pode dizer que andem perdidos ou desamparados já que este rectângulo humano da mesma forma que é conduzido sem aparente destino pelo campus universitário, também é conduzido à cantina, à biblioteca ou às sessões de apresentação do curso ou do corpo docente, promovidas pela sua escola, dando a conhecer cada canto da sua nova casa, muitas vezes por tempo indeterminado... São olhados com surpresa por uns, admiração por outros. Prescindem, temporariamente, da sua individualidade ganhando duradouras afinidades com os colegas de curso, de tormento e diversão. A minha colega não é de LESI mas, licenciada nesta instituição, afirma radiante que o seu grupo de amigas da faculdade vem desde a praxe. Para bom entendedor... - SS


 
O bairro dos ricos
Sugestão de leitura: o Nicolau Santos assina um excelente artigo , provocatório q.b., no expresso online. Talvez alguns blogues de esquerda que tanto aplaudiram os anúncios de intenções do dr. Bagão Félix devessem dar uma vista de olhos. - MC
 
O horror mesmo ali fora
Todos os anos, o começo do ano lectivo nas universidades está associado a um bizarro acontecimento a que se convencionou chamar "praxes académicas". Trata-se, em poucas palavras, de um conjunto heterogéneo de cerimoniais, em muitos casos boçais e altamente organizados, que têm como denominador comum o facto de os estudantes mais velhos (auto-intitulados "veteranos") se arrogarem o direito de humilhar e ridicularizar publicamente os novos estudantes (vulgo "caloiros"). Tudo sob o singelo pretexto de "promover a integração" dos recém-chegados e o seu "espírito académico".
Ocorre dizer que pobre da academia que tem semelhante espírito; e que a humilhação pública não é seguramente a melhor maneira de promover a integração. Ocorre dizer que tudo isto é lamentável, e que é uma tristeza que, sob a complacência dos poderes académicos, esta verdadeira praga progrida nas universidades até à naturalização como "tradição" inofensiva e pitoresca. Que não é, note-se: nem tradição, nem inofensiva.
A palavra asco não é completamente desadequada para descrever o que sinto em relação a este assunto. Asco, e muita preocupação com o significado da impune expansão deste tipo de práticas (até para os liceus) e com o significado dos silêncios (alheados, indiferentes, ou envergonhados) que as rodeiam. - MC
segunda-feira, setembro 20
 
Meia rua sem carros, e à volta o inferno de sempre
A Câmara de Lisboa decidiu participar no Dia Europeu sem Carros deste ano. Como? Cortando ao trânsito "um troço da Rua Rosa Araújo". Patético, e é o mínimo que se pode dizer.
Santana já tinha dito, ainda como presidente da câmara, que o dia sem carros era "uma maçada para muita gente" e que não resolvia nenhum problema estrutural. A última ideia é uma evidência; mas também não consta que alguém tenha a pretensão de, por esta via, resolver problema algum. O que se pretende é, durante um mísero dia, tematizar e tornar premente a questão da mobilidade urbana, sensibilizando as pessoas para pensar em transportes alternativos. Sem excluir, antes pelo contrário, que se tomem medidas mais estruturais.
É dramático que o presidente de câmara mais importante do país (que agora é outro, mas que ao que parece pensa o mesmo, ou pior) fale de uma campanha de sensibilização destas como uma "maçada para muita gente". Ao fazê-lo está a mascarar propositadamente as coisas e a pôr os poderes públicos do lado do mais lamentável comodismo e conservadorismo. É triste que se use este tipo de argumentos para para não participar numa iniciativa, qualquer que ela seja, sobre estas questões; ou, pior, para fingir que participa, cobardemente, fechando...meia rua ao trânsito. Meia rua. Tudo para não tornar isto "uma grande maçada".
Entendamo-nos: a verdadeira "maçada para muita gente" é que, 365 dias por ano, milhões de pessoas moram longe dos locais de trabalho, dentro ou fora de Lisboa, sem que disponham de uma rede de transportes públicos em condições mínimas (nem em quantidade, nem em qualidade, nem em diversidade de alternativas, nem em coordenação de horários) para promover a mobilidade, diminuir a poluição e os gastos de energia e aliviar o trânsito no centro da cidade e à volta.
Bastará circular em redor do pequeno troço da Rua Rosa Araújo que vai ser encerrado, mesmo no centro da capital, para se perceber como a ridícula pequenez desta iniciativa é uma bela metáfora para a cobardia e para terrível indiferença face à maçada - a verdadeira - de centenas e centenas de milhares de pessoas. Ali, bem no epicentro de um inferno. Diário, permanente, inescapável. - MC
 
Há 70 anos, Deus esteve atento ao que fazia

- PAS
domingo, setembro 19
 
Misto de Zandinga e Gabriel Alves


«Nos congressos do PSD houve debates vivos, mas nunca se chegou ao insulto pessoal.»
Marcelo Rebelo de Sousa sobre as eleições no PS, hoje, na TVI - FN
 
Curvas e contracurvas
Houve um tempo, não muito distante, em que por tudo e por nada se falava dos supostos "ziguezagues" do governo e do primeiro-ministro. Hoje o país tem uma coligação que garante maioria absoluta no parlamento e deixou de se ouvir falar nessa praga da política nacional. Como que por magia, extinta.
Entretanto, o primeiro-ministro Santana Lopes vai fazendo o seu caminho. Garantiu que os aumentos de salários reais seriam uma realidade já no próximo ano, e uns dias depois corrigiu o tiro dizendo que é preciso fazer umas contas. Disse que ia haver ministérios descentralizados e acabou por desterrar um punhado de secretários de Estado e respectivos assessores, secretárias e motoristas. Agora dá orientações "no sentido de" (sic) encerrar uma refinaria em Leça da Palmeira, mas "garante que o assunto ainda está em aberto" (sic).
Houve um tempo em que os ziguezagues eram fruto de condições políticas desfavoráveis e da ausência de uma estratégia para lidar com elas no longo prazo. Hoje não temos ziguezagues; temos sucessivas curvas e contracurvas cada vez mais apertadas, fruto da impreparação, da ligeireza e do populismo. E um enorme, espesso silêncio sobre tanta trapalhada. Durará até quando? - MC
 
Brisas raras
Um destes dias, sonhei que estava a ouvir uma música no rádio. Coisa rara, lembrar-me do sonho. Coisa mais rara ainda (sobretudo tendo em conta o objecto em causa), o momento concretizou-se na mesma manhã. Aconteceu na Radar. Onde mais?





Dear diary

I saw that girl again today
Reading silly magazines
I saw that girl again today
Singing songs of bubblegum

I had my eyes peeled wide
Up and down the dirty side
I had my eyes peeled wide
I think about her all the time

And then you blew my mind
Always on my mind

You made an educated guess
You are an educated girl
It was a palace on wheels
And I was just a drunken fool

I had my eyes peeled wide
Up and down the dirty side
I got a head just like a beehive
I think about her all the time

And then you blew my mind
Always on my mind

Why must you be
A mystery to me?

Luna, The days of our nights (1999) - MC

sexta-feira, setembro 17
 
Justiça social ou moralismo social?
A santanice da semana sobre as taxas moderadoras é um exemplo de uma das estratégias preferidas dos Governos da coligação de direita: a confusão entre justiça social e moralismo social.
A justiça social é um horizonte de igualdade entre cidadãos; diremos que há maior (ou menor) justiça social no acesso a um serviço ou no exercício de um direito consoante a qualidade desse serviço ou a capacidade real de exercício desse direito por cada cidadão seja menos (ou mais) determinada por factores como a classe social, o nível de rendimentos, o local de residência, a etnia, etc. A incorporação deste horizonte na concepção e funcionamento de instituições e de políticas públicas é uma das frentes mais activas e antigas do debate político: será fundamental para um socialista como eu, irrelevante para um conservador, contraproducente para um liberal. Mas o que interessa aqui é que a justiça social assim concebida é ao mesmo tempo um fim e um padrão de avaliação global.
O moralismo social, pelo contrário, transforma este fim num meio ou, na melhor das hipóteses, num padrão parcial. É uma perversão da justiça social, porque dá a ilusão de concretizá-la num qualquer aspecto imediato mas secundário enquanto obscurece o seu peso no quadro geral; o extravagante "princípio do utilizador-pagador", que de repente transforma instrumentos de políticas públicas (e.g. portagens, taxas, incentivos) em relações de tipo contratual supostamente individuais e livres, é um exemplo clássico disto. O moralismo, se bem intencionado, é um desperdício de energia e tempo; se mal intencionado, é a cortina de fumo perfeita.
No caso da santanice da diferenciação das taxas moderadoras, confundir justiça social com moralismo é achar que faz todo o sentido encher o peito e dizer que "quem ganha mais deve pagar mais" e perder tempo a discutir se é "justo" ou "injusto" usar as declarações de IRS enquanto se ignora o pesadelo burocrático que daí surgiria e, acima de tudo, se foge à chatice de ter de responder à pergunta mais importante de todas: mas afinal isso põe-nos mais longe ou mais perto do nosso objectivo de fazer com que a classe social, o nível de rendimentos, o local de residência, etc. não determinem a qualidade dos cuidados de saúde recebidos por cada cidadão? - PE
quinta-feira, setembro 16
 
Mentiras repetidas muitas vezes
Einhart Jácome da Paz, o marketeiro do PSD, disse ao Expresso que «O cara que melhor utilizou o marketing foi Cristo». Provavelmente, tem razão. Mas o cara que vem logo a seguir a Cristo é seguramente Santana Lopes. Ao contrário do que disse o Professor Marcelo no domingo, eu acho a estratégia de lançar as notícias a conta gotas absolutamente genial. Tudo começou com a formação do governo ? que, diga-se de passagem, é mais «político» e, por isso, mais eficaz que o anterior. Santana anunciou primeiro os nomes mais «fortes». Nessa noite, nas televisões, eu vi vários comentadores ficarem rendidos. Na manhã seguinte, quando entrou em cena «o aparelho» (os ministros políticos), já era tarde para recuarem. Agora, com a nova lei do arrendamento, o governo segue a mesma estratégia do conta gotas. Ou não fosse o ministro em questão José Luís Arnaut, que nestas coisas do marketing é dos mais zelosos. Se repararem bem, Arnaut começa as suas intervenções sempre da mesma maneira: «por determinação do senhor primeiro-ministro, as pessoas mais carenciadas terão uma atenção especial». Foi assim com os fogos, está a ser assim com a lei do arrendamento. O PS que se cuide. Mentiras repetidas muitas vezes... - FN
quarta-feira, setembro 15
 
Isto lembra o quê?
Enquanto o João Pinto e Castro chama e bem a atenção para um argumento essencial para estarmos de pré-aviso face ao Dr. Bagão, a Focus publica um excerto de um discurso daquele que era Ministro das Finanças em Junho de 1928: "advoguei sempre uma política tão clara e simples como a que pode fazer qualquer boa dona de casa; política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos." Continuamos bem tramados. - PAS
 
Um sabor amargo a Saigão
A história oficial, recorde-se, reza assim: os americanos invadiram o Iraque para "combater o terrorismo internacional" e para, em nome da liberdade, "instaurar no país um regime democrático". Quem quiser, é livre de acreditar.
O problema é que, derrubado Saddam (o sanguinário ditador que durante anos e anos foi um precioso aliado dos auto-proclamados melhores amigos da democracia) e após uma prolongada ocupação americana, as coisas são um pouco mais complicadas. Os últimos dias, marcados por um quadro de violência generalizada no Iraque, são mais uma vívida ilustração do rastilho que os americanos deixam bem aceso na sua debandada.
Os Estados Unidos mantiveram o Iraque sob ocupação militar durante meses a fio, envolvendo de caminho a ONU para legitimar o processo. Mas, apesar da massiva força militar empregue, nunca conseguiram controlar a resistência armada que, em crescendo, contra eles se foi levantando de todos os quadrantes (religiosos, étnicos e sociais) do Iraque. Quando a situação já era incontrolável, perceberam finalmente que tinham de sair rápido do buraco onde se tinham metido - sendo que a pressão eleitoral interna sobre Bush não terá sido alheia a essa descoberta, tal como não tinha sido alheia, desde logo, à invasão. Foi, então, definido um prazo (o mais curto possível) para devolver o país aos iraquianos. Nem isso acalmou o clima de violência crescente, insurreição e guerra civil que se tinha instalado. Tal era a percepção da gravidade da situação e o medo instalado que, chegada a altura da transição para o novo governo provisório iraquiano, a data foi subitamente antecipada em dois dias e a cerimónia de passagem do testemunho feita em privado, sem aviso prévio e no maior dos segredos.
Nos últimos meses, as coisas só têm piorado. Para os americanos e para os outros ocidentais no Iraque e, acima de tudo, para os iraquianos. O país que a América deixa atrás de si é um país em chamas, à beira da guerra civil e entregue à incontrolável voracidade da violência étnica, religiosa e política. Só não há boat people como há 30 anos no Vietname porque, provavelmente, as lógicas do terrorismo são diferentes da guerra convencional e porque não há uma lógica territorial estritamente bipartida em que uma parte do país escapa, em colunas, a um exército inimigo que se aproxima - até porque aqui os americanos nunca gozaram propriamente do estatuto de amigos.
O Vietname, e em particular as imagens dos últimos dias de Saigão, ficaram na história como metáfora da derrota do império americano. Em todo o seu esplendor. Hoje, o que resta do Iraque repete esse sabor amargo; e actualiza-o, multiplicando os seus significados e as suas consequências, globais, por todo o Ocidente.
Não parece, mas foi há pouco mais de um ano que tudo começou. E, tão pouco tempo depois, já ninguém se lembra do optimismo exacerbado com que boa parte da direita, nos blogues e fora deles, defendeu a invasão do Iraque. Ou lembra? - MC

 
O fim aos 25 anos ou o princípio do doente-pagador
Faz hoje 25 anos que foi aprovada a lei do Serviço Nacional de Saúde. Hoje, quando em cima da mesa da mesa está o seu fim. O doente-pagador, novo princípio inventado pelo Primeiro-Ministro-Indigitado-Pelo-Presidente-da-República, institui o fim de uma visão de protecção solidária no campo da saúde. Mas também o fim da ideia de que ao Estado cabe definir regras, garantir a qualidade e a universalidade nos cuidados de saúde. E de que ao Estado cabe garantir que TODOS, em qualquer idade, qualquer que seja a sua condição económica têm acesso aos MESMOS cuidados a preços tendencialmente nulos.

Se o desenvolvimento do Sistema de Saúde muito assente na lógica privada faria antever um sistema de saúde a duas velocidades, este novo princípio do doente-pagador garante pelo menos três tipos de cuidados: os cuidados de qualidade para os que podem pagar seguros e consultas no sector privado, os cuidados sem qualidade mas pagos pelos trabalhadores por conta de outrem que, por pagarem impostos. Pagam também pelos cuidados de saúde de que necessitam, e os cuidados de saúde de reduzida qualidade e tendencialmente gratuitos que ninguém quer. 25 anos depois, o SNS prepara-se para o seu fim sem sequer merecer um debate sério porque, neste como noutros temas, o Primeiro-Ministro-Indigitado-Pelo-Presidente-da-República lançou a novidade para os jornais para que se discutisse sobre o vazio. - MVS
 
O inefável Dr. Bagão


Foi uma herança pesada aquela deixada pelo Dr. Bagão Félix em dois anos e pouco nas áreas da Segurança Social e do Trabalho. O desemprego, que está perto de atingir meio milhão de portugueses, sem que se tenha assistido a um esboçar de reacção a este flagelo; uma ofensiva neo-liberal na legislação laboral, mais preocupada em enfrentar moinhos de vento do que os verdadeiros factores de imobilismo que persistem no mercado de trabalho; uma vontade obstinada de diminuir os direitos dos mais fracos, de que são exemplos as alterações ao subsídio de doença e o ataque ideológico, seguido de paralisia administrativa, ao rendimento mínimo garantido; a incapacidade de fazer aprovar uma lei orgânica do Ministério que, mesmo depois de contratações externas, só veria a luz do Diário da República com mais de dois anos de atraso e ironicamente no dia em que o novo/velho governo tomava posse. A tudo isto há que somar uma relação particularmente difícil com a Constituição da República. Será, porventura, por força desta herança que, dois meses depois, do Dr. Negrão só temos escutado um silêncio sepulcral.
Mesmo assim, e por incrível que possa parecer, o traço mais característico da passagem do Dr. Bagão pelo Trabalho e Segurança Social não foi nem a insensibilidade social da sua acção, nem a tentativa de desmantelamento do edifício social que tem sido construído, de forma cumulativa, nos últimos trinta anos. O que tornou o Dr. Bagão um caso à parte foi a forma como, em todos os momentos, recorreu a um discurso ultramontano, conservador e anacrónico para justificar as suas políticas. continue a ler aqui
- PAS
terça-feira, setembro 14
 
Inventem-se novos títulos
O Público hoje fez uma surpreendente manchete, a partir do que disse ontem às famílias o dr. Félix: "crescimento económico passa a prioridade da política económica". Espantoso. Quem sabe se amanhã a manchete não será, "protecção aos mais carenciados passa a ser prioridade da política social" ou "marcar golos passa a ser a prioridade dos avançados centro" ou até mesmo "vender lâminas de barbear passa a ser prioridade da Gillette". Mas, no meio de tudo isto, o mais grave é que o crescimento económico não tem sido a prioridade do governo. - PAS
 
48 primaveras

A aquecer para o concerto de comemoração dos 25 anos dos Xutos, o aniversário do guitarrista mais carismático do país, Zé Pedro. Amado pelos fãs da crueza e do ritmo dos Xutos e odiado pelos virtuosos e pelos puristas da guitarra. Quase foi expulso nos primórdios do grupo por não saber tocar mais do que dois ou três acordes básicos. De vez em quando, ousa (é a expressão exacta!, dada a voz em causa) "cantar" em músicas como o emblemático "submissão". Contas feitas, já lá vai mais de metade de uma vida a arranhar uma Fender em muitas centenas de palcos. Em todo o lado. Essa é que é essa. - MC


 
O politiquês no seu melhor
No longo bocejo que é a entrevista de Morais Sarmento, mostrando bem as diferenças entre a vacuidade sem e com media instinct (Santana e Portas, por exemplo), o leitor depara-se com uma pérola do politiquês que merecia figurar em qualquer dicionário do dialecto:

"Público - Então não é verdade que recusou um primeiro convite para integrar o Governo? "

Morais Sarmento - Não recusei nenhum convite. Foi-me feito um único convite e não houve nenhuma negociação de lugares ou condições. Houve sim uma conversa, duas aliás, com o primeiro-ministro, para ficar claro entre nós aquilo que ele esperava e aquilo que eu entendia que lhe podia dar."

Reparem: não houve "nenhuma negociação", só "uma conversa, duas aliás" para ficar claro aquilo que um "esperava" e aquilo que o outro "entendia que lhe podia dar". Negociação é que não. Nenhuma. Que palavra tão feia. - MC

 
Melhor actor secundário (numa coligação a três)
Em entrevista ao público de ontem, Nuno Morais Sarmento recusou ao dr. Sampaio outro papel que não o de, pasme-se, "parceiro" (sic) da coligação. Na sua ingenuidade (?), o ministro de estado não fez mais do que colocar o dr. Sampaio no exacto papel que este escolheu para si um belo dia, sem nunca ter tido coragem de o assumir. E pior: escolheu ser um parceiro que, como é evidente, não decide nem nunca decidiria nada; apenas vai produzindo em catadupa umas intervenções cuja caixa de ressonância é cada vez menor, e caucionando as opções que outros tomam - com toda a legitimidade, porque por ele legitimados na altura própria. Tudo isto ao mesmo tempo que, infantilmente (para si próprio?), alimenta a amarga fantasia de que tem margem de manobra para condicionar as opções do Governo ou mesmo para as recusar, no escasso tempo útil de mandato que tem pela frente. É triste acabar um mandato, e uma carreira política, assim. Como "parceiro", mero apêndice de uma "coligação" em fase descendente e profundamente lesiva para o país. - MC

 
Inalei, mas não fumei


Uma biógrafa de George W. Bush acusa-o de ter consumido cocaína em Camp David, no tempo em que o pai era presidente dos EUA.
- FN
 
Conversas em família - Director's Cut
Bagão Félix não se pode queixar. Quinze minutos de Telejornal, em directo, sem perguntas, comentários ou outras interrupções são um luxo asiático para os dias que correm. Tom professoral, câmara fixa - enfim, uma mistura de tempo de antena da Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas com um vídeo da Telescola. E nada de novo. Nada de novo porque a intenção de Bagão é fazer crer que o desastre social e económico destes últimos dois anos e meio nunca existiu. É como um curto-circuito no tempo. Voltámos a Março de 2002; encontramos outra vez a analogia abusiva entre Orçamento de Estado e orçamento doméstico, a confusão entre produtividade e "trabalhar mais" (o conceito é viciado à partida, mas mesmo assim...), a metáfora da doença para falar de dívida pública, as generalizações perigosas como "temos de diminuir a administração", as falácias individualistas como "o princípio do utilizador-pagador" ou a tentativa de mascarar uma agenda política como suposta inevitabilidade técnica. Tudo encaixa tão bem; para quê falar de consequências e estragar tudo? - PE
 
"reinvent yourself"


Madonna não é particularmente boa cantora, não dança particularmente bem, nem é particularmente bonita. Ainda assim, é um fenómeno e uma pop-star fantástica. Provavelmente A pop-star. Não sendo a melhor em nada, Madonna é um caso à parte, também por causa disso, mas essencialmente por outras razões.
Antes de mais, porque entre as estrelas pop nenhuma teve sempre o controlo sobre a sua carreira como o fez Madonna. Por exemplo, Prince, que é claramente um génio, quando procurou controlar a sua carreira, foi banido do mapa mainstream. Madonna, sabendo sempre deixar-se ajudar pelos melhores, foi-se reinventando a si mesma com assinalável autonomia e permaneceu à tona.
Depois, porque revelou um controlo inédito sobre a sua sexualidade e sobre o seu corpo. Quantos ícones sexuais existiram antes de Madonna que tivessem sido simultaneamente quem mais lucrou com a exibição e comercialização do seu próprio corpo? Se a isso juntarmos uma sexualidade completamente emancipada, fica explicado, entre outras coisas, o fascínio que Madonna desperta, por exemplo, entre a comunidade gay (no Pavilhão Atlãntico isso era vísivel).
Num mundo pop em que as grandes estrelas são, na maior parte dos casos, joguetes manietados e artificiais. Madonna é o contraponto. Pense-se no espectáculo patético há meses de Britney Spears e pense-se no espectáculo de Madonna. Num caso, não havia nada. Não havia voz, não havia músicas, nada. Com Madonna há isso tudo e uma agenda liberal e progressista, que, com variações, é a mesma há duas décadas. A religiosidade e a heresia, a guerra, a paz e o terrorismo e até citações de street culture (há um momento no concerto em que aparece um half-pipe com um Skater). E, claro, o sexo por todo o lado, como aspecto central e emancipador.
É verdade que Madonna pega por vezes na guitarra e arrisca uns acordes. Mas o concerto já não é um concerto. É outra coisa, mais próximo de outros espectáculos, mas, também, uma agenda para o mundo se reinventar a si próprio. E, claro, tudo isto feito por uma loira que canta, dança e é bonita e que, sempre com ironia, se reinventa a si própria. "Tonight, I'm a material girl". Como que para nos lembrar que os ingénuos somos nós.
- PAS
 
O Estado da Nação
o dr. Bagão tem uma conversa com as famílias e, logo depois, as famílias aproveitam para vaiar o dr. Lopes no Pavilhão Atlântico. - PAS
segunda-feira, setembro 13
 
Socratês
Há quem diga que Sócrates é «demasiado à direita». Há quem diga que Sócrates é «o candidato do aparelho». Isso, a mim, não me interessa nada. Sócrates seria já o meu candidato, se deixasse de dizer coisas que foram, há muito, banidas pela Bomba Inteligente, como: «Eu peço meças»; «O PS sempre teve o melhor que há no mundo das ideias»; «os portugueses queriam uma alternativa mais fresca»; «Gosto de um debate elegante»; «o Casa Nostra é um restaurante sofisticado: com a idade, gosto de um certo requinte». Etc., etc.- FN
sábado, setembro 11
 
O Diabo em Nova Iorque


«Uma tarde em Nova Iorque vi o Diabo. Estava entre as duas Torres Gémeas do World Trade Center, de rosto ao alto na direcção do centésimo andar de um dos edifícios e proclamava: "Lá em cima! Lá em cima!»
José Cardoso Pires, «O Diabo em Nova Iorque», in A Cavalo no Diabo, Crónicas, 1994 - FN
sexta-feira, setembro 10
 
Haja respeito
Ao contrário do que dizem as más línguas, afinal ainda há quem respeite o senhor Presidente da República. O jornal A Capital noticia hoje que as profissionais da prostituição deixaram de trabalhar à porta da residência do dr. Jorge Sampaio e foram pregar para outra freguesia- FN
 
Memória Olímpica
Uma das minhas memórias mais antigas (e que não se prende directamente com acontecimentos familiares) é a vitória de Carlos Lopes na Maratona dos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angels.
Os meus pais foram acordar-me para ver o fim da maratona e eu fui aos tropeções de sono pelo corredor, que me parecia enorme, para ver Carlos Lopes cortar a meta em primeiro lugar. Lembrei-me disto durante estas férias porque essa noite foi também a primeira vez que me apercebi dessa coisa (ainda semi-misteriosa) que são os fusos horários. Foi há vinte anos, na casa antiga, o meu irmão ainda dormia no berço e nem a minha mãe tinha cabelos brancos (quanto mais eu...).- MVS
 
& Me

Esta imagem esteve durante anos na parede do meu quarto, muito depois de ter retirado todos os outros posters. Comprei-o numa FNAC (Sevilha?) quando ainda não havia FNAC por cá numa altura em que os REM não tinham dado concertos em Portugal. Depois de desmarcada a tournée do Monster e do (mauzinho) concerto no Pavilhão Atlântico, e enquanto espero por um concerto numa sala pequena qualquer, lá estarei no próximo Janeiro. Até lá, trauteio baixinho para enganar o trabalho. - MVS

quinta-feira, setembro 9
 
Manuel Alegre
Se calhar por excesso de comparação política, sempre desconfiei da conversa nostálgica sobre a progressiva falta de qualidade do pessoal político. Segundo esta teoria, a nova geração de políticos, ao contrário da antiga, seria exclusivamente composta por «robots» ou «gente de plástico». Em todas as democracias, caminhamos para a democratização e profissionalização no recrutamento do pessoal político. É certo que o grau de qualificação dos políticos portugueses podia ser bastante melhor, mas não é menos justo constatar que várias «personalidades independentes» se têm dado mal no exercício de cargos políticos.
Foi, por isso, com alguma perplexidade que recebi a notícia da escolha do professor Sousa Franco para cabeça de lista do PS às eleições europeias. Mas Sousa Franco provou que quem sabe nunca esquece, estabelecendo um necessário contraste com a língua de trapos e o tipo de gente que, neste momento, dominam o país político. Com a candidatura de Manuel Alegre está a acontecer um pouco a mesma coisa. Ontem, na SIC notícias, voltou a surpreender os mais cépticos. Sem papéis à frente e com uma grande calma, falou de política orçamental, de «inovação» e dos custos das operações no serviço nacional de saúde. Como ele próprio diria há uns meses, até parecia um «tecnocrata». - FN
 
Relatórios
Narciso Miranda disse às televisões que quer «ler de forma muito rigorosa e profunda» o relatório da comissão de inquérito à explosão no Porto de Leixões. Eu também quero ler, «de forma muito atenta e profunda», o relatório da comissão de inquérito à «explosão» na Lota de Matosinhos. - FN
 
Para que serviu o PRD ou da inserção completa no Baixo Alentejo
Um leitor atento chamou-nos a atenção para este despacho. Mão amiga fez-nos chegar o mesmo. Entre outras pérolas curriculares (convém ler até ao fim!), o mesmo serve para demonstrar para que serviu realmente esse OPNI que deu pelo nome de PRD, bem como a importância da inserção completa no Baixo Alentejo, tanto do ponto de vista profissional, tanto como professora como advogada, como do ponto de vista recreativo e cultural e social. PR

Despacho n.º 17 256/2004 (2.ª série). - O Instituto Português da Juventude (IPJ) tem uma nova comissão executiva desde o transacto mês de Fevereiro, tendo a mesma sido nomeada para revitalizar a gestão daquele Instituto de forma a implementar e dinamizar as política de juventude.
Nesta fase de mudanças no IPJ e até à publicação do novo diploma orgânico, torna-se necessário proceder ao preenchimento do cargo de delegado regional de Beja do IPJ, que se encontra vago.
Assim, ouvida a presidente da comissão executiva do IPJ, ao abrigo do disposto no artigo 27.º, conjugado com o disposto no artigo 20.º, n.º 1, ambos da Lei n.º 2/2004, de 15 de Janeiro, nomeio para o exercício daquele cargo, em regime de substituição, a licenciada Maria Filomena Lindeza Afonso Alvaredo, do quadro de pessoal docente do Ministério da Educação.
A nomeação fundamenta-se nos conhecimentos e na experiência profissional da ora nomeada, que se evidenciam na respectiva nota curricular, publicada em anexo ao presente despacho.
Este despacho produz efeitos desde a data da sua assinatura.
20 de Abril de 2004. - O Secretário de Estado da Juventude e Desportos, Hermínio José Loureiro Gonçalves.

Nota curricular
Maria Filomena Lindeza Afonso Alvaredo, natural e radicada em Beja, onde nasceu em 11 de Julho de 1951.
Frequentou o então Liceu Nacional de Beja, onde concluiu os estudos secundários.
Concluiu o curso do Magistério Primário, que frequentou no Magistério Primário de Beja, em Julho de 1971, com óptimo aproveitamento.
Leccionou durante três anos em escolas do ensino básico.
Em 1974 foi nomeada técnica de serviço social para o Estabelecimento Prisional de Beja, lugar que não chegou a desempenhar.
Leccionou na Escola Preparatória Fialho de Almeida entre os anos 1974 e 1979.
Durante os anos de 1977 a 1979 pertenceu ao conselho directivo daquele estabelecimento de ensino.
Em Outubro de 1979 foi nomeada para a Escola Preparatória Mário Beirão, onde exerceu funções docentes até 1985.
Concluiu a licenciatura em Direito, na opção de Ciências Jurídicas, da Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, em 21 de Julho de 1984.
Em Beja fez o estágio de advocacia, tendo-se inscrito na Ordem dos Advogados em 20 de Julho de 1986.
Em Setembro de 1986 foi nomeada docente provisória do 7.º grupo do ensino secundário da Escola Secundária n.º 1 de Beja, o antigo Liceu Nacional de Beja e actualmente Escola Secundária Diogo de Gouveia, onde leccionou a disciplina de Introdução ao Direito.
Em 1987 leccionou na Escola C+S de Aljustrel e em 1988 na Escola n.º 2 de Beja.
No ano de 1989 foi nomeada professora do quadro de nomeação definitiva da Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja.
Em Setembro de 2000 foi destacada como assessora jurídica da direcção da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Beja.
Exerceu advocacia, estando inscrita pela comarca de Beja, durante 20 anos.
Desempenhou o cargo de presidente da Delegação de Beja da Ordem dos Advogados, para o que foi eleita em três mandatos sucessivos.
Está completamente inserida no Baixo Alentejo, não só porque aqui nasceu, como do ponto de vista profissional, tanto como professora como advogada, como do ponto de vista recreativo e cultural e social.
É sócia do Centro Cultural de Beja e de outras associações e agremiações de interesse cultural.
Foi militante do PRD de 1984 a 1991.
Candidata a deputada pelo círculo eleitoral de Beja em 1987.
É militante do PSD desde 2000.
Candidata como cabeça de lista às eleições autárquicas de Dezembro de 2001 pelo concelho de Cuba.
Membro da Comissão Política Distrital de Beja do PSD, eleita em 15 de Junho de 2002.
Membro do conselho de jurisdição distrital de Beja do PSD, eleita no início de 2004.

Tomou posse do cargo de delegada regional de Beja do Instituto Português da Juventude em 27 de Janeiro de 2003, cargo que continua a desempenhar presentemente.

quarta-feira, setembro 8
 
E não há ninguém que ajude o Presidente a terminar o mandato com dignidade?
Perguntava eu no outro dia, sem saber que sim, que . - RB

 
A incompetência em acção
Quando frequentei o ensino secundário público, na segunda metade dos anos oitenta, a normalidade era que nunca se soubesse quando é que as aulas começavam. Por uma razão ou por outra, em Outubro, as semanas iam-se sucedendo, e aulas... nem vê-las. Naturalmente este facto deixava-me a mim e aos meus colegas com um contentamento que era inversamente proporcional ao dos nossos pais, que viam as nossas férias prolongarem-se sem que fosse possível prever com exactidão o seu fim. Espantosamente, numa daquelas reformas, que como muitas das que são importantes passa despercebida, a partir da segunda metade dos anos noventa, foi possível fixar uma semana em Setembro na qual as aulas se iniciavam. Mas eis senão quando, em apenas dois anos, o actual governo, sozinho e sem qualquer factor externo que a isso o obrigasse, conseguiu fazer recuar o sistema educativo para um passado de desorganização que há quase dez anos havia sido afastado. O caos que tem sido gerado em torno das colocações dos professores do secundário é, talvez, o mais acabado dos sintomas da desorganização em curso. A consequência é que, tudo indica, em 2004, as aulas não se vão iniciar com normalidade nas datas previstas. continue a ler aqui.
- PAS
terça-feira, setembro 7
 
Um Corto Maltese vale mais do que mil imagens


ou, eu sei que a lei vai mudar, só não sei exactamente quando.
- PAS
 
A verdade da gorjeta
"(...) Los republicanos se han ido, y en la ciudad queda, tras la prisa del viernes, la ancha calma del fin de semana que va a prolongarse hasta el lunes, que es aquí Día del Trabajo. Después de lo que el New York Times ha llamado la tormenta de banderas viene una breve tregua de sosiego que terminará en cuanto arrefiece definitivamente la campaña electoral. Entre la gente de inclinaciones demócratas con la que uno suele encontrarse en Nueva York hay un cierto abatimiento, inducido por las encuestas, y quizás también por la eficaz agresividad con que la maquinaria publicitaria del Partido Republicano está machacando un solo flanco de John Kerry, su presunta falta de determinación y de coraje, la volubilidad que le atribuyen con una contumacia que no excluye la calumina. Y el personal de los hoteles echas cuentas después de casi una semana de idas y venidas y concluye que en materia de propinas el balance de la convención ha sido miserable. Según una encuesta del New York Post entre porteros y camareros de hoteles, los delegados republicanos tenían una resistencia correosa a dar propinas, en una ciudad donde la obligación de repartirlas roza el chantaje. Propinas no dejaban, pero, eso sí, dice un portero, nunca se olvidaban de decir "Dios te bendiga"."

[Antonio Muñoz Molina, "Tras la tormenta de banderas" in El País, 05.08.2004, p. 8] - PM

 
A esquerda enganou-se
Primeiro Fátima Bonifácio, depois Clara Ferreira Alves, agora António Barreto. Vários comentadores têm escrito sobre os falhanços da esquerda em matéria de política educativa. Eu concordo com eles. Hoje, na cidade universitária, li o seguinte cartaz assinado pelos «Estudantes do Ensino Superior»: «25 de Novembro, dia de luta nacional». - FN
segunda-feira, setembro 6
 
A verdade da mentira
Muñoz Molina deixou, na edição de ontem do El País, as suas impressões sobre a convenção republicana que decorreu nos últimos dias em Nova Iorque. Um retrato vindo de quem passou a residir muito recentemente nos EUA (Muñoz Molina é, desde o início deste mês, director do Instituto Cervantes de Nova Iorque).

"(...) Después de muchas horas de retórica y de aturdimiento, y después de observar el temple frío de Dick (perdón) Cheney y el populismo sentimental y arrogante de Bush, hay que hacer un esfuerzo para no olvidar que casi todas las cosas son exactamente al revés de lo que se ha estado diciendo tan machaconamente: Bush y Cheney acusan a John Kerry de falta de coraje, pero fue él quien estuve en Vietnam mientras ellos dos se escaqueaban del Ejército; Bush se presenta como un tipo campechano y común, cercano a la gente emprendedora y humilde, pero en realidad viene de una familia privilegiada de Nueva Inglaterra, y su política económica ha favorecido con descaro los más ricos; Bush acusa a los demócratas de despilfarradores del dinero público, pero ha sido durante las presidencias republicanas cuando el déficit se ha disparado, y fue Bill Clinto quién dejó el tesoro público a rebosar; y el mundo es probablemente ahora todavía mas inseguro que cuando comenzó la que Bush llama tantas veces "guerra contra el terror", comparándola con la guerra contra la Alemania nazi, aludiendo a la épica del desembarco en Normandia y la recuperación de Europa para equipararlas con el desastre inmanejable de Irak. (...)".

[Antonio Muñoz Molina, "Tras la tormenta de banderas" in El País, 05.08.2004, p. 8] - PM

domingo, setembro 5
 
Vago, pomposo, palavroso, ridículo. Não haverá ninguém que ajude o Presidente a terminar o mandato com dignidade?
A entrevista de Jorge Sampaio à edição de ontem do Expresso é uma peça de antologia, de antologia da vacuidade. É ler; contudo, para quem não aprecie financiar o Expresso, fica aqui uma amostra.
O jornalista pergunta, à abrir, e muito naturalmente, se o facto de antes de ser Presidente da República ter sido Presidente da Câmara Municipal de Lisboa fez de Sampaio uma pessoa mais atenta à questão do urbanismo ou se essa atenção vinha de antes. «Gosto muito de arquitectura e sempre convivi com arquitectos, fazendo passeios pelas cidades com eles - e recordo o Nuno Teotónio Pereira, o Nuno Portas, o Manuel Salgado e o Manuel Magalhães, que são também meus amigos». Claro que ser presidente da CML foi, também, «altamente motivador». Ao dr. Sampaio não lembra que arquitectura não é o mesmo que urbanismo; que «conviver» e «passear» com arquitectos não é o mesmo que entender de arquitectura, muito menos perceber de urbanismo.
Insiste o jornalista. O que se pode esperar de um chefe de estado no domínio do urbanismo, «em concreto?» «Uma vigilância muito aturada e uma mobilização muito forte para os grandes temas que estão a afectar as pessoas e que têm a ver com o seu quotidiano (...) Há que fazer a pedagogia daquilo que, neste momento, eu considero as palavras-chave, sem o que o desenvolvimento regional e local não é possível: em primeiro lugar 'solidariedade', em segundo 'concertação'» E o jornalista teve o cuidado de dizer «em concreto»... Nada. O jornalista insiste ainda uma outra vez: «pode precisar». Claro: «Portanto, o espaço é global, e para podermos avançar temos de ter uma dimensão de solidariedade e também de concertação». Aaarrghhhh.
Depois de Sampaio explicar que passeia muito a pé por Lisboa, com muito mais frequência do que possamos imaginar, o jornalista pergunta-lhe por aquilo que mais o incomoda em Lisboa. Pois bem, o que mais incomoda Jorge Sampaio em Lisboa é os seus «utilizadores» não terem «sentido de pertença». Em Lisboa falta o «chamado patriotismo de cidade». Como no Porto, suponho. O jornalista ainda insiste: «É isso que o incomoda mais?» Resposta: «Incomoda-me isso e também o pouco gosto que temos na organização dos espaço e no cuidado dele». Espantoso.
Mas o melhor é:
Expresso: Consegue ver-se a viver fora da cidade?
Jorge Sampaio: Sim. Completamente.
Expresso: Mas considera-se uma pessoa urbana?
Jorge Sampaio: Considero. Mas com um grande pendor para uma dimensão rural. Isso é uma característica que as pessoas pouco conhecem mas que sei que é minha.
Expresso: Tem raízes na província?
Jorge Sampaio: Os meus pais viviam em Sintra, para onde eu fui aos três dias de idade. Lá vivi, apesar de ter feito o liceu e a faculdade me Lisboa. Mas Sintra é uma referência muito importante, com tudo o que nessa altura isso significava - desde o campo, à caça, aos passeis, etc. Eu tenho uma dimensão de desenvolvimento rural que muito gostaria de ver seguida no país. Mas isso não tem nada a ver com o crescimento urbano». Pois não, dr. Sampaio. - RB
sexta-feira, setembro 3
 
Um espelho pouco ingénuo
Pacheco Pereira ontem no público: "[O caso women on waves] revela uma realidade que qualquer estudioso académico do PP de Paulo Portas (e não necessariamente do CDS) considerará evidente: a lógica política do grupo é radical, tende a agir de forma conflitual e a desejar a conflitualidade com grupos que à extrema-esquerda actuam do mesmo modo. É esse o modo como afirma a sua identidade. (...) O Bloco de Esquerda já percebeu que isso favorece a sua política de implantação, num contexto de apatia dos socialistas, e provoca sistematicamente o PP. O PP, que em matéria de uso da provocação é de uma enorme ingenuidade face aos velhos leninistas do Bloco, responde à letra. O problema é que o PP está no Governo e envolver o Governo de Portugal num conflito de grupúsculos radicais é comprometer o equilíbrio do Estado e ameaçar direitos fundamentais que ele deve garantir".
Como muitas vezes, Pacheco Pereira (para além da inevitável bicada ao PS) ronda a ferida mas não é capaz de, ou não quer, referir o essencial. E o essencial é que o PP de Paulo Portas não é nada ingénuo em nada do que faz. Pretender o contrário é brincar com o entendimento das pessoas e, mais grave, brincar com a própria democracia.
Além do mais, apesar de tantos early morning blogs, Pacheco Pereira parece acordar tarde. O PP é mesmo o equivalente funcional de direita dos tais "grupúsculos radicais" à esquerda, e já o é há muito tempo. Este contínuo alimentar de um populismo desenfreado já vem do tempo das feiras, romarias e lavoura e da denúncia dos "ciganos do rendimento mínimo" e foi com este exacto partido de direita radical, e com este Portas como seu líder, que o PSD escolheu coligar-se. O PS, o tal partido apático, já o diz há quase dois anos - sob uma chuva de críticas.
A verdade é que o PP é um espelho cristalino do que se passa com os seus parceiros sempre ditos da extrema esquerda: o mesmo radicalismo no discurso e a mesma postura anti-sistema, como se dele não fizessem parte (característica só moderada pela entrada para o governo); a mesma condição não orgânica, sem implantação nacional significativa; a mesma dependência face a lideranças carismáticas; a mesma dependência face a figuras mediáticas, quase sempre as mesmas, e face a números mediáticos sucessivos para garantir visibilidade; a mesma política dita de bandeiras, essencialmente simbólicas, num estilo não raras vezes populista; a mesma estratégia dirigida a nichos eleitorais muito precisos.
Se pensarmos bem, até sensivelmente o mesmo peso eleitoral à direita que a dita "extrema esquerda" consegue do outro lado do espectro. Tendo em conta a maior fragmentação de mini-partidos (MRPP, POUS, outros tantos) que aí existe e a capacidade que Ferro foi sempre tendo de colher simpatias junto da tal "esquerda", minimizando o seu crescimento (factor que num futuro próximo poderá não existir), é fazer as contas.
Pesados bem os pratos, as equivalências são muitas; e provavelmente, apesar de estarem na oposição, os tais grupos ditos e reditos de extrema esquerda (e quase sempre não nomeados) são bem menos radicais que o PP de Portas, mesmo estando este confortavelmente instalado no Governo.
As diferenças são poucas, mas não são de somenos: o PP consegue a herança da legitimidade histórica do CDS moderado e conservador (será por acaso que Portas, o ingénuo, recuperou a sigla que ele próprio, spin doctor como poucos, tinha morto e enterrado?); beneficia também da falta de pudor do PSD que comprou um governo de maioria à custa de uma ameaça permanente à democracia; e usufrui ainda do beneplácito de uma imprensa e de opinion-makers que são rápidos a rotular alguns grupos de "extrema esquerda" mas coraram de vergonha e indignação quando Ferro Rodrigues disse, há quase dois anos, que a direita radical tinha entrado para o governo. Ingenuamente. - MC


 
A "colocação" dos professores (parte III, ou conclusão interrogativa)
De "colocação" em "colocação", e por entre múltiplas outras fragilidades, que escolas resultam desta complexa nebulosa de lógicas sistémicas? Que vida têm estes (não) lugares de educação? Que profissionais serão estes, e que cultura profissional será a que resulta de anos e anos desta perversa mercadorização do ensino? O que significa estruturalmente para um sistema educativo ser alimentado e depender cada vez mais de um contingente sempre engrossado de precários, prontos a utilizar e deitar fora, coleccionando pontos e migalhas aqui e ali até à miragem de uma integração mais estável? Qual é o resultado de tudo isto no longo prazo?
É difícil, ou talvez não, antever as respostas. Mas é impossível não ficar com a ideia de que talvez não exista sequer um médio prazo em todo este imenso caos, mas apenas a gestão cruzada de vários "dossiers" urgentes, incontornáveis, estanques. E a repetição mecânica, e sempre auto-reforçada e auto-legitimada, de infindáveis lógicas burocráticas e contabilísticas. No longo prazo estaremos todos mortos; a educação não se sabe. - MC

 
A "colocação" dos professores (parte II)
Mais mudança menos mudança, mais eficácia menos eficácia, por pior que este dossier tenha sido gerido há em tudo isto algo de muito perturbador mas que, estranhamente, já se entranhou na própria lógica das coisas: a existência, por si só, de um dossier relativo à "colocação" de professores com esta dimensão, com estes contornos, inscrito na normalidade do sistema. É que a naturalização da ideia da "colocação" de muitos milhares de professores ano após ano é pouco menos que aterradora. E deve causar uma preocupação apenas suplantada pela repulsa face à objectificação implicada na própria palavra "colocação".
Aterradora, desde logo, para quem está directamente envolvido no processo. Milhares e milhares de pessoas até à última sem saber o que vão leccionar, onde, quando, com que horário, com que salário. Anos sem fim sem escola fixa e sem ter sequer a certeza de que haverá uma escola para exercer a profissão para a qual, na maioria dos casos, se recebeu treino especializado durante anos. Anos sem fim sem poder assumir compromissos, de médio prazo ou muitas vezes de qualquer espécie.
Por onde se vê que, sobretudo entre as gerações mais jovens, a precaridade (vulgo flexibilidade dos vínculos contratuais) é cada vez menos um exclusivo de um vasto e crescente sector de mcjobs pouco qualificados, e mais uma lógica de mercadorização que se expande até domínios supostamente menos permeáveis a este tipo de dinâmicas: o emprego público, ou a educação, por exemplo. Não o esqueçamos: estamos a falar, em muitos casos, das pessoas mais qualificadas da geração mais qualificada que o país tem, independentemente do que sobre isto não se cansam de reverberar as Filomenas Mónicas deste mundo.
Mas tudo isto é também aterrador pelo que significa para a educação em Portugal. Escolas sem corpos docentes minimamente estabilizados, e que são aliás estimuladas a isso. Milhares de professores pouco valorizados pelas escolas onde laboram como trabalhadores temporários e por seu turno sem poder desenvolver apego, motivação e dedicação pelos liceus por onde vão passando, sem deixar rasto - porque no ano seguinte sabem que o mais certo é estar noutro sítio qualquer (ou não estar em lugar nenhum) e só por masoquismo uns poucos se empenharão pessoalmente em locais de trabalho onde são assumidamente precários, mal pagos e muitas vezes destratados. Milhares de professores que andam literalmente atrás dos restos (de horários, de disciplinas, de escolas) que mais ninguém quer. E, sempre, regras cada vez mais apertadas para a efectividade dos vínculos, concursos mais burocratizados, mais concorrência para cada vez menos lugares, resultado de uma evolução demográfica pouco famosa e de apertos orçamentais que se vão justificando uns após outros, como um dominó que se vai desmoronando. - MC

 
A "colocação" dos professores (parte I)
Anda tudo muito atarefado a zurzir o ministério da educação pela forma incompetente como está a ser gerido o processo de "colocação" de professores no início deste ano lectivo. Muito bem. Provavelmente, tudo aquilo que se possa dizer é justo, e ao mesmo tempo pouco para descrever o que se está a passar, tal a monstruosidade, e a gravidade, da trapalhada que conseguiram criar. Desde mudanças mal preparadas e desatempadas na organização de todo o processo; a atrasos sucessivos na sua condução; a erros indesculpáveis na própria "colocação" dos professores; aos quinze dias ou menos para preparar tudo (alojamento, aulas, vida pessoal); ao autismo autoritário de quem recusa liminarmente queixas (fundadas ou não, ver-se-á) em nome apenas de uma eficácia burocrática que não pode nunca sobrepôr-se à correcção dos procedimentos e à situação das pessoas envolvidas. É mesmo difícil pensar o que poderia ter corrido pior, e como.
As aulas por esse país fora poderão até começar ou não na data prevista. Mas como não estamos a falar de um contra-relógio, uma coisa, e apenas essa, é certa: o ano lectivo estará globalmente muito, muito longe de começar nas condições desejáveis ou sequer aceitáveis. Seria importante, aliás indispensável, que se fizesse uma avaliação séria e independente (não como a da contabilidade das listas de espera ou das vítimas do calor à moda do ministério da saúde, por exemplo) de todo este processo. Para que por uma vez se percebesse de quem eram quais responsabilidades. E acima de tudo para que a coisa não se repetisse - MC

quinta-feira, setembro 2
 
Uma equação portuguesa
De acordo com Sexa o Ministro do Mar, a questão do Borndiep e assumo a do aborto era, anteontem, um assunto encerrado. Mas ontem, à saída de Belém, onde terá explicado ao Comandante Supremo das Forças Armadas porque é que as fragatas da Marinha se ocupavam a manter holandeses à distância ao largo da Figueira, o dr. Santana, num daqueles arrazoados de palavras que o caracterizam e que, naturalmente, não se traduzirá em nada, afirmou "nem as sociedade são estáticas, nem as leis são estáticas, nem os referendos são estáticos". Tudo muito certinho e adequado para agradar aos espíritos incautos. Já hoje o dr. Domingos Jerónimo, que juntamente com umas dezenas de colegas forma o governo, afirmou que este (o Governo?) está disponível para o debate de ideias, que como é sabido é uma coisa muito enriquecedora e óptima quando não se sabe o que fazer, mas que mudar a lei, está quieto. No meio de tudo isto, o que nos vale é que, como sempre, o dr. Sampaio, desde a varanda de Belém, está atento. - PAS
 
Mais um tiro na água
O dr. Santana Lopes veio dizer que ele próprio, o partido e o país estavam disponíveis para "debater" - mas só para debater, não se sabendo nem como nem onde nem para quê - a questão do aborto com "essas senhoras" (sic) que estão a bordo do borndiep.
Só duas ressalvas. No barco com nome misterioso ao largo da Figueira da Foz, ao que parece, também estão homens (estarão, aliás, ao que julgo saber, tantas mulheres quanto homens). E a questão do aborto não se debate com "essas senhoras" que vêm do "estrangeiro" para fazer "perigar" a "soberania nacional" e a nossa "segurança", nem a propósito deste incidente; deve debater-se, tão urgentemente quanto possível, com todas as pessoas preocupadas com as liberdades e a cidadania em Portugal, homens e mulheres.
Com estas declarações infelizes, o primeiro-ministro caucionou a decisão de Paulo Portas e fica irremediavelmente associado a esta trapalhada que só nos envergonha a todos. Mais um tiro na água. - MC

 
Os vândalos do Caldas
A sede do PP foi, alegadamente, e segundo a direcção do partido, "vandalizada" de forma a que o partido "não estava habituado desde 1975". Para que se perceba exactamente o que está em causa, sublinhe-se que estamos a falar de umas quantas frases, mais ou menos radicais, pintadas a spray nuns tapumes provisórios de obras que a CML está a fazer compulsivamente no edifício e na porta (de vidro, parece) de entrada no dito.
Num certo sentido, é muito bom sinal que este tipo de "vandalismo" motive tamanha reacção, e que, segundo a própria direcção do partido, não haja memória de nada de semelhante há 30 anos. Afinal, estamos a falar de umas pinturas que, mais ou menos adequadas, mais ou menos elegantes, são pouco relevantes fora deste momento mais aceso e desta jogada política. Serão, sem esforço de maior, apagadas dos tapumes e, se houver vontade, razoabilidade e bom senso, da memória, porque não representam minimamente o que quer que seja. Aliás, a última grande (enfim...) manifestação de que me lembro à porta da sede de um partido foi promovida pela própria direcção do PP no largo do Caldas, e não foi bem no verão quente de 1975.
Posto isto, é lamentável qualquer acto de "vandalismo", de qualquer tipo, contra qualquer sede partidária. Mais: retomando o que o Pedro aqui escreveu ontem, este tipo de campanha radical e inconsequente só prejudica a defesa da despenalização do aborto, a ser verdade que quem pintou aquelas frases foram de facto militantes da causa.
Mas para quem se afirma um partido "aberto, plural" e que "respeita a liberdade de pensamento", pela voz do autorizado Mota Soares, ao mesmo tempo que acaba de pôr dois navios de guerra no encalço de um barco com seis pessoas a bordo, não está mal a condenação desta "violência" desproporcionada. A vitimização não tem limites, e o ridículo também não.
- MC

quarta-feira, setembro 1
 
As ondas que o barco fez
Quando se discute a questão do aborto, não é apenas esta que está em causa, mas todo um mundo para a qual remete. Entre nós, foi assim no passado, nomeadamente quando com António Guterres o PS se envolveu num jogo de equívocos que, em larga medida, levou a que, num cenário de retumbante derrota da direita nas legislativas de 1999, não tenha conseguido alcançar a maioria absoluta, e é-o agora, novamente, com a chegada do barco da organização Women on Waves.
Por estranho que possa parecer, há uma semana, a vinda do barco tinha como consequência previsível a divisão no campo dos defensores da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. O tom e a forma como este movimento procura introduzir a questão implicam uma radicalização das posições, extremando-as e afastando o debate da moderação. Contudo, e isso é já sabido, debate moderado em torno do aborto é uma contradição em termos, pelo que melhor é travá-lo do modo que vai sendo possível. Ainda assim, naturalmente que, também em Portugal, o resultado da acção de propaganda da organização holandesa seria provocar cisões entre todos os que consideram a legislação portuguesa violentadora do direito de optar. Espantosamente, e por força da posição absurda do Governo português, a vinda do barco acabou por produzir dois efeitos inesperados. Por um lado, alcançou uma publicidade que era, à partida, impensável, e, por outro, conseguiu, ao mesmo tempo, unir os defensores da despenalização e provocar abalos na coesão dos que são favoráveis à criminalização das mulheres que interrompem a gravidez.
continue a ler aqui. - PAS
 
Sede de protagonismo
Quem tiver ouvido, ao longo do dia, as declarações da meretíssima Filipa Macedo não deve ter ficado com muitas dúvidas sobre a senhora em causa. Mas logo de manhã, o Público já revelava parte do despacho da senhora, tudo ao melhor estilo Diácono Remédios. Leia-se a prosa, ela fala por si e pelo estado a que o sistema judicial chegou: "os adolescentes vivem uma liberdade desmedida, passando os dias sozinhos e saindo à noite até altas horas da madrugada. Podem ser considerados muito 'apelativos' nas suas indumentárias, pela descontracção com que actuam, pelo bronze e penteados que exibem, por indivíduos viciosos e podem ser considerados presas fáceis porque normalmente têm posses insuficientes para as solicitações da sociedade de consumo em que se integram e que os seduz". Olhem, bardamerda para isto tudo!- PAS


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