<$BlogRSDURL$> O País Relativo
O País Relativo
«País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano» - A. O'Neill
sábado, janeiro 31
 
Marinheiro de água doce


Caro Vasco Lobo Xavier,
Nos Estados Unidos - e presumo que em Inglaterra -, esse utensílio de cozinha que o meu amigo pensa ser exclusivo de Portugal, PALOP's, Brasil, Timor e Macau, é conhecido como spatula-scraper. E tal como no mundo Lusófono, também serve para rapar o fundo das taças onde se preparam os bolos. - JHJ
sexta-feira, janeiro 30
 
Consensos
Numa época em que o que está a dar é falar de consensos vale a pena pensar no que falamos quando falamos de consensos ou, mais exactamente, vale a pena pensar que nem todos falam da mesma coisa quando falam de consensos. Há quem entenda que consenso é algo a que se chega com o debate e com a discussão e, muitas vezes, com cedências de parte a parte. Depois há aqueles que, por se acharem donos da verdade e da razão, acham que consenso é todos concordarem com a sua opinião. Mas há ainda um terceiro tipo que facilmente encontramos nos discursos do Primeiro-ministro: consenso para o Primeiro-ministro e para a maioria é quando todos concordam com o que a maioria já decidiu. E isto para eles é, obviamente, consensual. - MVS
 
Contra-revolução
A expressão é forte. Mas passados dois anos de governo da coligação de direita, que tem revelado um PSD à direita do seu próprio centro e um PP que fez sem pudor o seu coming out reaccionário, parece cada vez mais claro que está a fazer o seu caminho um verdadeira contra-revolução social, que deita por terra muitos dos adquiridos de Abril. Abril, depurado dos seus contornos mais datados, afirmou, para além da democracia partidária e das liberdades políticas e cívicas fundamentais, dois princípios incontornáveis da democracia social: a igualdade de oportunidades e a protecção social pública. O primeiro preconiza uma meritocracia, mas uma meritocracia a sério e não a meritocracia conservadora viciada que os partidos da direita se gabam de defender, e que se estrutura por cima do erro propositado de tratar de forma igual, aquilo que à partida é desigual, agravando, como é evidente e esperado, as desigualdades de partida entre as pessoas. O segundo assenta na estruturação de um sistema público de protecção social, na velhice, na doença, no desemprego, na pobreza. E neste aspecto a constituição é progressista e programática. O que existe deve ser aprofundado, na medida das possibilidades do Estado. Como explica o Professor Gomes Canotilho, a Constituição consagra um princípio de proibição de retrocesso revolucionário, ou de evolução reaccionária, que é como quem diz, o Estado pode não avançar muito no campo dos direitos sociais, mas não pode é voltar para trás.
Ora, tudo isto cai por terra com este governo e, meus caros, cai por terra não por razões conjunturais ligadas ao orçamento, mas porque se está a tentar fazer passar um ajustamento estrutural ideologicamente orientado, que muda efectivamente o Portugal em que vivemos. Julgo que os portugueses não elegeram o actual governo com este tirocínio. Ao nível da igualdade de oportunidades, o desinvestimento patente no ensino, sobretudo no ensino superior, bem como nas áreas da qualificação e da formação profissional, deixa clara qual é a ideia. E quanto ao aprofundamento do Estado Social temos um retrocesso em várias frentes. Já nem está em causa o ataque a avanços recentes na protecção social, como o rendimento mínimo. Mas a eliminação de direitos há muito consolidados que constituem aspectos essenciais do modelo de Estado em vigor até aqui. Que dizer do retrocesso no subsídio de doença para pessoas que descontaram para isso mesmo? Que dizer do sub-financiamento/plafonamento da segurança social? Que dizer da mudança abrupta das regras das reformas na função pública, gorando de um dia para o outro as expectativas legítimas de milhares de pessoas que, trabalhando há mais de trinta anos se julgavam à beira da reforma? Que dizer da privatização do serviço nacional de saúde, dando origem a hospitais que privilegiam doentes provenientes de seguradoras em detrimento dos doentes do sistema público? E, agora, que dizer dos cortes nas comparticipações do ADSE, que em alguns casos atinge os 66% de redução? Que dizer de um Estado que retém transferências obrigatórias dos seus trabalhadores para os sistemas de protecção social, deixando-os, nesse período, sem protecção alguma? Que dizer quando os salários da função pública estão congelados pelo terceiro ano consecutivo, ou seja, a descer em termos reais há três anos, pondo em causa o princípio da não diminuição da retribuição? Dizer não. - MK
 
Politiquês
Em Portugal, a produção do discurso político obedece a mecanismos muito peculiares. Aos sábados na SIC, o Dr. Pacheco acusa o Dr. Portas de «populismo». Aos domingos na TVI, o Prof. Marcelo diz que o Prof. Cavaco é o «candidato natural» do PSD à presidência. A partir daí as expressões ganham vida própria, e durante semanas a fio, toda a classe política as utiliza –a torto e a direito. Num dia, é o líder da JSD (não me lembro agora do nome) que, questionado sobre se Pedro Duarte (porta-voz do PSD) era um bom nome para as europeias, diz que «ele é um candidato natural a qualquer eleição». A sério: «candidato natural a qualquer eleição», excluindo talvez as presidenciais, mas apenas porque o rapaz ainda não fez 35 anos. No dia seguinte, é o primeiro-ministro a dizer que «aumentar salários seria populista». Extraordinário. No tempo do Dr. Salazar e do senhor José Maria Tudela, tudo era «kanimambo». Agora, tudo é «populismo». Se a moda pega, teremos uma autêntica revolução nas relações laborais. O empregado lembra ao patrão que tem salários em atraso. O patrão responde: «Pagar salários? Isso é populismo, meu amigo!». - FN
 
Wishful thinking
Os meus amigos Relativos acham o meu silêncio sobre as primárias do New Hampshire comprometedor. Alguns, chegam a levantar a suspeita que a ausência de palavra escrita tem a ver com um post que escrevi há umas semanas, onde afirmei que Howard Dean não só venceria as primárias, como poderia vencer as eleições presidenciais de Novembro caso Ralph Nader não avançasse como independente.
Puro wishful thinking no momento, assumo. Hoje, não sei se escreveria o mesmo, mas não por Howard Dean não ter ganho em New Hampshire. De facto, não só este Estado não parece ser muito bom a escolher candidatos vencedores (George W perdeu aí há quatro anos as primárias do partido Republicano para John McCain), como Howard Dean é actualmente o candidato com mais delegados eleitos (este nonsense resulta da complexidade das dezenas de sistemas eleitorais Estaduais. Os resultados das primárias podem ser consultados aqui).
Só que o ex-Governador do Vermont poderá ter dado ontem uma machadada final no que era tido como uma campanha diferente, original e potencialmente vencedora em Estados mais a Sul e Oeste. Estados onde a multi-diversidade cultural, étnica e económica está mais próxima de representar a actual demografia norte-americana, do que Iowa ou New Hampshire.
Ao contratar Roy Neel - assessor de longa data de Al Gore - como novo director de campanha, Howard Dean colocou em cheque o seu anterior braço direito, o qual não cedeu um centímetro no momento em que pediu a demissão de todos os cargos que ocupava. E o facto é que isso parece não ter sido pacificamente aceite pelas bases de apoio, já que Joe Trippi era considerado por muitos não só o inventor do fenómeno Dean - há pouco mais de um ano este não era mais do que um obscuro médico que tinha sido governador do Vermont -, como também o elo mais forte de um grupo de apoio profundamente diversificado - the largest grassroots movement of the modern era.
A demografia da próxima terça-feira será mais séria, e só então será possível avaliar de que forma esta mudança na máquina de campanha não porá em causa tudo aquilo que Joe Trippi foi capaz de construir ao longo do último ano. Ou seja, se se manterá como pertinente a citação que utilizou no Blog for America, quando anunciou que nunca um pré-candidato Democrata tinha angariado tanto dinheiro numa campanha para as primárias: You can blow out a candle, but you can't blow out a fire. Once the flames begin to catch, the wind will blow it higher. - JHJ
quinta-feira, janeiro 29
 
My generation
(Acerca dos últimos posts do Rui aqui no país relativo)
À infindável temática das tardes a jogar spectrum ou respectivos concorrentes em casa, com ou sem muitos amigos, voltarei um dia. O tempo para isso não se esgotará, suponho. Mas o último desses posts tirou-me um peso de cima. A sério. Ainda no outro dia estava a tentar lembrar-me do nome dos tipos que cantavam a música preciosa do picapau no espaço, animada por uns efeitos sonoros que, francamente!, só mesmo no início dos anos 80. E a verdade é que, por mais que tentasse, não me conseguia lembrar.
Agora sei que, por (in)feliz (?) coincidência geracional, alguém não apenas sabe como tem mesmo em casa o vinil de uma preciosidade que eu ouvia, há vinte anos, numa cassete de alguém que conhecia. Na próxima vez que os relativos se juntarem para uma carbonara, por mim prescindo da banda sonora do último jantar, que me abstenho aqui de revelar, e alinho no paraíso heterotópico dos video kids. Remisturado ou não. - MC
 
Conspiração Cósmica
Estou cansado dos mimos do meu carro. Devido à neve e ao gelo, esteve três dias sob a mesma sombra. Não que fosse impossível tirá-lo de lá. De todo. Pelo menos, os carros da vizinhança ultrapassaram com aceitável dignidade e em tempo útil as condições adversas. Mas do alto da sua senioridade, o meu fez birra e ali ficou, atravessado na diagonal, a mostrar ao mundo que o seu dono era um incapaz; um azelha que o máximo que conseguiu foi deslocá-lo meio metro para a frente e dois para o lado.
É verdade que o meu carro tem 13 anos. E que já andou o equivalente a cinco voltas ao mundo. Ou nove voltas ao planeta Marte. Também é verdade que em Portugal só estive quatro ou cinco vezes sujeito a temperaturas negativas. E que o meu outro carro era uma 4L. Mas tudo isso não deveria ter cosmicamente conspirado para que o meu tivesse sido o único carro na cidade inteira que não saiu do mesmo sítio. - JHJ
 
O meu primeiro computador


Ao olhar com atenção para a capa do vinil dos Video Kids até me veio um arrepio. Reparem no canto inferior direito. Vê-se um computador. Não é um computador qualquer, é um MSX Basic e foi o meu primeiro computador. Ora, isto requer uma explicação. O MSX Basic era muito melhor que o ZX Spectrum. Tinha uma entrada para dois cartridges e não sei quê mais. A linguagem MSX Basic tinha sobre a linguagem Basic a vantagem incalculável de ser MSX. Este computador era até bastante mais caro que o Spectrum. Mas o Spectrum era o computador que os outros miúdos tinham – e que eu pedia incessantemente aos meus pais. Qual quê! O MSX era muito melhor – diziam-me – porque é que eu não percebia e que teimoso que eu era. E era melhor. O problema é que ninguém o tinha. Eu não podia comprar os mesmo jogos do Spectrum porque os jogos eram diferentes por causa do tal MSX da linguagem. Eu ia à Triudus do Fonte Nova e olhava invejosamente para as prateleiras e prateleiras de jogos para o Spectrum e depois lá ia comprar um dos dois ou três disponíveis para o MSX. O senhor da Triudus bem olhava com ar condoído para o puto que lhe aparecia com as semanadas bem contadinhas para comprar jogos que ele não tinha para vender pela boa e simples razão de que não havia mercado que o justificasse. O mercado dos jogos para o MSX era, aparentemente, eu. Entre a mão bem visível do capitalismo e o fraco poder das minhas semanadas venceu, sem surpresa, o capitalismo. Mas não foi por isso que passei ao lado de experiências formadoras do carácter como ter jogado horas a fio “Chuckie Egg” ou “Manic Miner” (o «Match Day» não havia para MSX). Isso sim teria sido verdadeiramente trágico.- RB
 
O meu primeiro vinil

Video Kids, Woodpeckers from Space (7’’, 1984)
A propósito do saboroso e certeiro post do Nuno de outro dia, evocando uma crónica de MEC no Blitz, lembrei-me do primeiro vinil que tive, e que aliás me foi oferecido. Tratava-se do single de lançamento dos Video Kids que prenunciava o memorável «The Invasion of the Spacepeckers» de 1985, no qual os Kids mostraram à crítica especializada quem, de facto, tinha feito o melhor disco do ano (e não por exemplo aqueles senhores, Os Silvas, com «Meat is Murder»). Tinha onze anos e gostei imenso do disco. Há hoje, como para tudo agora, uma remistura nova: aqui. - RB
quarta-feira, janeiro 28
 
Lá como cá


Não queremos um primeiro-ministro com uma cara nova. O que queremos é um governo completamente novo. - RB
 
Uma explosão simples da desesperança
[a propósito de um post do PAS]

Ninguém vira morrer o rei; [...] e se, no primeiro momento, o terror do cataclismo fizera esquecer as circunstâncias da morte oculta, logo as maiores desgraças posteriores acordaram na alma do povo a suspeita de que D. Sebastião vivia. A sua fisionomia simpática, os seus próprios erros, que eram virtudes, por fim a sua história trágica, fundavam os alicerces de uma beatificação que se ia formando. O povo cristalizava os seus ideais, transfigurando o homem num símbolo das suas esperanças e desejos.
Um fugitivo, mascarado, batera depois da batalha às portas de Arzila, e para que lhes abrissem dissera-se D. Sebastião. De nada valeu o depoimento do capitão de Arzila, nem do próprio autor da mentira. [...]
Os profetas, o Bandarra, e Simão Gomes, o sapateiro-santo, inspirados, cantavam a epopeia do herói, e as condições em que viria a aparecer para redimir o seu povo: como na Judeia, também, o Cristo fora um salvador na nação, antes de ser redentor das almas. [...]
Em 1584-5 aparece o Messias, encarnando sucessivamente em dois homens, que também tiveram a sua paixão, a sua cruz. O primeiro, o rei de Penamacor, era um oleiro; o segundo, o rei da Ericeira, era um padeiro. Um aparecia nas fraldas da serra da Estrela, junto à fronteira; o outro nas raízes da serra de Sintra, junto ao mar: ambos no coração do país, sobre o seu dorso, junto da medula espinal, onde vibram as emoções centrais do organismo: nessa cordilheira onde moram os puro-portugueses. [...]
Não são os dois reis da plebe impostores, nem charlatães: ou também Jesus foi uma e outra coisa. Não são, como o prior do Crato, pseudomessias, políticos e cheios de manhas e atrevidas artes: são homens simples, como é simples o povo que os aclama e segue. Por um mistério, vedado à razão, encarnou em ambos a alma colectiva e são verdadeiros cristos nacionais. [...] Só o povo sagra os verdadeiros cristos, e mal dos que, sem a sagração popular, usurpam essa dignidade. [...]
O Sebastianismo era pois uma explosão simples da desesperança, uma manifestação do génio natural íntimo da raça, e uma abdicação da história. Portugal renegava, por um mito, a realidade; morria para a história, desfeito num sonho; envolvia-se, para entrar no sepulcro, na mortalha de uma esperança messiânica.

[Joaquim Pedro de Oliveira Martins, História de Portugal, 20ª. Ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1991 (1ª. ed. 1879), pp. 283-287]. - RB
 
Ora aí está
O DN dá-nos conta que o Ministro Amílcar Theias, ao falar ontem no quadro da presidência aberta sobre o ambiente que o Presidente da República está a desenvolver, "criticou a insistência em questões como o défice, por contraponto ao silêncio em torno das matérias ambientais." Perplexo, concordo em absoluto. Só não percebo se a crítica é dirigida à ministra das finanças por falar demais, ou ao ministro do ambiente por falar de menos.- MK
 
A decência
O que se tem seguido à morte de Feher dava um tratado de sociologia sobre a sociedade portuguesa, mas, também, sobre o sentimento que perpassa pelos portugueses nos dias de hoje. No ambiente de comoção generalizada que se sentia nas caras das pessoas que, debaixo da chuva, se amontoavam para olhar para a urna cruzavam-se, num conjunto indistinto, a emoção da morte em directo, com traços fortes do carácter português (por ex. o misticismo e o culto da dor), com o pessimismo e o clima de depressão colectiva que se vive hoje. De repente, um jogador do Benfica morre, nas circunstâncias impressionantes em que isso acontece e na sua morte juntam-se o país sebastianista do século XVI e XVII, com o Portugal triste e cinzento do século XX, com a depressão de 2003/4. Se a isto juntarmos as televisões abutres, que estimulam diariamente esta combinação explosiva que prende o país ao passado, temos na morte de Feher um pouco da fotografia de quem somos hoje.
No entanto, no meio de tudo isto, vemos que há pessoas com decência. É isso que nos conta hoje o DN, ao reportar a história do realizador da Sport TV que, face ao horror do que se passava, deu a seguinte ordem aos câmaras: “quero toda a gente fora da cara”. Afastar as câmaras da cara do Feher foi um acto de decência e um sinal claro e simples de que há passos pequenos que nos podem afastar do descontente sítio onde agora vivemos. Mas, não deixa de ser sintomático que várias televisões tenham tentado comprar à Sport TV as imagens não transmitidas, o que esta, num acto incomum, recusou. “Fico pelo menos com essa satisfação, a ‘prova’ de que este clima de concorrência desenfreada não precisa de ser alimentado com a exploração gratuita da dor das pessoas”. Ricardo Espírito Santo, é este o nome do realizador da Sport TV, e estas palavras, as palavras de um homem decente, são suas. Nos tempos que correm não é pouco.- PAS
 
Título
Um título que vale mais que mil notícias. - MVS
 
Tough on crime. Tough on the causes of crime
Foram vários os comentários ao meu post «O pior cego é aquele que não quer ver»: aqui, mas também aqui, ali e acolá. Nem sei bem por onde começar. Talvez pelo estilo do famigerado cartaz («socorro, estou a ser assaltada!»). É evidente que eu preferia mais uma coisa do género «duros contra o crime e contra as causas do crime», o slogan de Blair em 1997. Lamentavelmente, o gabinete de comunicação da concelhia de Lisboa do PS ainda não deve ter conseguido contratar o senhor Peter Mandelson. Aliás, a avaliar pela exigência do Pedro Caeiro, por exemplo, nem mesmo o mestre do «sound byte» seria suficiente. Em vez da habitual fórmula slogan+fotografia, o cartaz devia era exibir um projecto lei do grupo parlamentar do PS com o seu preâmbulo, os seus artigos e as suas alíneas. Menos que isso, seria sempre conversa de direita.
A questão fundamental é que há um sentimento de insegurança nas pessoas. O pior que podia acontecer à esquerda era - agora a pretexto de respeitáveis angústias estéticas - continuar a assobiar para o lado. E, de facto, não é isso que o Daniel Oliveira faz: «Concordo que a esquerda tem um problema no debate sobre a segurança. Tem um problema de se limitar às causas (questão central) e achar pouco importante as consequências». Nem mais. Também não me parece suficiente chegar a alguém que foi assaltado e dizer: «Ó amigo, desculpe lá, mas agora a gente está a atacar as causas do crime para que daqui a vinte anos já não volte a ser assaltado». Como dizia o outro, a longo prazo estamos todos mortos. É tão importante atacar as causas (talvez com políticas redistributivas, emprego e educação) como as consequências (talvez aumentando o policiamento e o respeito pelos direitos dos cidadãos entre as forças de segurança). É fundamental a liberdade de votar, de protestar ou de dizer aqui uns disparates, mas também é importante a liberdade de voltar a pé para casa às quatro da manhã. Se calhar, o Ivan Nunes queria mais que isto; queria conhecer um programa de governo. Não sei se consigo. Talvez o Daniel possa ajudar a fazer esse «programa comum»; pelo menos já ameaçou: «Lá irei, com tempo, brevemente».
Esta polémica à volta da insegurança, ao mesmo tempo, não deixa de ser divertida. É impressionante ver como na área do Partido Socialista há tantos treinadores de bancada, sempre prontos a esquecer que o PS não representa quatro mas sim quarenta por cento dos portugueses. E agora não estou a pensar nas respostas do Daniel ou do Ivan, mas no tom de alguns comentários que recebi aqui no País Relativo. Por vontade deles, o PS só falava de «temas fracturantes» ou, como dizem os politólogos, de «temas do pós-materialismo de esquerda»: as identidades sexuais, as ecologias, o multiculturalismo, as medicinas alternativas, etc. São sem dúvida coisas importantes para uma parte crescente (e influente) da população, e que merecem representação política. Esse tem sido, e bem, o papel do Bloco de Esquerda. Isto não significa que o centro-esquerda não deva também «dialogar» com esses novos movimentos. O que o centro-esquerda não pode é fazer disso a sua estratégia: nas preferências dos portugueses, estes temas não representam mais do que os cinco por cento que estão dispostos a votar Bloco de Esquerda. Infelizmente, Portugal não é a Suécia, e ainda tem muitas necessidades «materiais» a satisfazer. «Digo-o com pesar», parafraseando o Daniel. (E não se trata aqui, caro JV, de alguma «consideração político-sociológica» que me passou agora pela cabeça, mas de dados que pode encontrar, por exemplo, neste livrinho.)
No entanto, confesso que o que mais me atormenta nisto tudo acaba por ser a reacção do Ivan. Em primeiro lugar, porque ele é o meu blogger preferido. Em segundo lugar, porque quando ele diz, na sequência do meu post, «sinto-me disposto a pegar numa pedra com tanta despreocupação como - digamos - num copo de água», eu sei, por experiência própria, que ele não está a brincar.
PS: Fui assaltado duas vezes na Lisboa de Abecassis (Jardim do Alto de Santo Amaro, 1988; Jardim da Estrela, 1989) e agora mais uma vez já na Lisboa de Santana. Por acaso, com Sampaio e Soares nunca aconteceu tal coisa. Hoje, o escritório ao lado do meu foi também assaltado. O Rui Branco é testemunha. - FN
terça-feira, janeiro 27
 
My way?
O rito é essencial na religiosidade (ou mesmo o essencial da religiosidade) e eu recuperei um velho rito, que faz toda a diferença numa obsessão quase religiosa que tenho. Comprei um gira-discos e, de repente, pude mergulhar, de novo, nos velhos vinis das tardes de adolescência, que andaram perdidos e encaixotados durante um número excessivo de anos. Mas, o mergulhar significou não só voltar a ouvir os discos, mas, também, lembrar-me, com uma precisão assustadora, onde os comprei, quando, com que dinheiro e os lugares em que primeiro os ouvi. Cada disco, como muitas outras coisas que nos ficam do passado, tem um sub-texto nosso, que para os outros não existe. Voltar a pegar nas capas – que são sempre fabulosamente mais bonitas do que as dos cds (a propósito, alguém conhece capas melhores que as do Peter Saville ou do Vaughan Oliver?) – tirar o disco, e, com a mão entre o centro e a margem, colocá-lo a rodar, para depois ouvir o crepitar e aquele som, que é também antigo, é um rito e é essencial no regresso. Não sei porquê exactamente, se sinal dos dias ou dos tempos, a música que primeiro ouvi, que primeiro ouvi de novo, foi o mesmo My Way que o Ivan cita. Mas cantado (será adequado dizer cantado?) pelo Sid Vicious. - PAS
 
Dá-lhe, Zé Alberto!
Já no final do Telejornal de ontem à noite, José Alberto Carvalho aproveitou para falar nas séries emitidas pela RTP que foram premiadas nos Globos de Ouro.
Eu confesso que embirro solenemente com a autopromoção das televisões nos serviços noticiosos; é um bocado demais, por exemplo, ter de suportar o descaramento de um director de um canal qualquer a congratular-se com o seu "esforço de promoção da ficção portuguesa" - um eufemismo singular para telenovelas más em que modelos-actores se vêem aflitos para dar a volta a um argumento directamente importado da Cidade do México ou pior ainda, escrito pelo Tozé Martinho.
Mas desta vez JAC está desculpado; se o canal de televisão onde eu trabalhasse passasse séries tão boas como "Sete Palmos de Terra", "24" (para quando a segunda época?) ou "The Office", também ficaria orgulhoso. E nem precisava de me desculpar com um prémio qualquer para o dizer.- PE
 
O impulso de um convertido
Companheiro, e se uma católica (de esquerda), de repente, oferecer flores? Isso é amor? Ou gravidez?. - PM
 
Digam lá os nomezinhos
A Direcção Geral do Ensino Superior achou por bem pedir aos institutos politécnicos os nomes e as categorias dos professores que participaram na greve geral da passada sexta-feira. À directora-geral não lhe bastava saber quantos aderiram à greve, sentiu uma imperiosa necessidade de saber os seus nomes. Palavras para quê? É o que se chama um "impulso ideológico".- MK
 
Estou há três dias ...
... à espera que o Pedro Lomba dê continuidade ao seu post "De Acordo". Temo que se tenha tornado um Radical de Esquerda. Sem aviso prévio. - JHJ
 
Um L, se faz favor
Recebi o meu primeiro L quando tinha 14 anos. Sob o pretexto oficial de facilitar a minha deslocação de Campolide até à piscina da Penha de França, para cumprir a pena de um ano de trabalhos natatórios forçados decretada por um ortopedista especializado em sadismo, os meus pais entregaram-me a mais poderosa arma de libertação que alguma vez me passou pelas mãos.
É verdade. Quebrada a rigidez dos módulos da Carris que até então me deixava pouca margem para imaginar itinerários, estava pronto para partir à aventura - e a evasão do campo de concentração aquático da Penha de França foi apenas o princípio.
O L fez muito por mim. Sustentou, por exemplo, o meu Verão de imersão na cultura alemã. De manhã para Instituto Alemão para aulas com um professor meio louco que se divertia a pôr-nos a cantar "Grandola, die Stadt der Freiheit" e a rir-se daquilo que chamava a minha pronúncia austríaca; à noite, de volta a casa para ver Matthäus, Brehme, Klinsmann et al. espalharem classe nos relvados italianos; e algures pelo meio - sem que eu me lembre como ou porque carga de água - acompanhando-me na minha primeira visita à Buchholz sozinho.
Ponderado, o L não se esqueceu de alimentar também alguns vícios, dos quais levar-me à Alvares Cabral ou ao Calvário para me fazer perder tardes inteiras a jogar "Tetris", "Itália '90 Football" e snooker não foi certamente o pior. Mau, realmente mau, foi ter-me financiado verdadeiras parvoíces de adolescência, como fazer três ou quatro vezes seguidas o percurso Graça-Prazeres-Graça para ler "A Espuma dos Dias" ou achar que conhecer Lisboa era saber metade das ruas da cidade pelo nome - algo que ainda hoje me vale ser gozado pelos meus amigos por ser um taxista em potência.
Mas o L ensina, meus caros. Mostrou-me que o verdadeiro sentido da vida é o sentido Olivais - Campo Grande em dias de jogo, de preferência para ver o Balakov levar 13 segundos a explicar ao Silvino como se faz uma tese em ciências futebolísticas. E, no regresso da Barata Salgueiro ou da Frei Miguel Contreras, que a maior injustiça do mundo não a a apropriação privada dos produtos do trabalho social mas que acordar e ver ao lado a Ingrid Bergman ou a Irene Jacob tenha sido um privilégio reservado a um punhado de eleitos.
Como um canivete suíço, o L é um hino à polivalência; tão bom a manter forma do seu titular - se não acreditam, tentem fazer a Rua do Alecrim em quatro minutos para apanhar uma carreira nocturna - como a ajudar a manter as suas boas amizades - de Santo Amaro a Moscavide, passando por Campo de Ourique. E ainda funciona como um despertador de consciência, oferecendo-me diariamente breves vislumbres de vidas muito diferentes da minha.
Ao longo dos anos, afeiçoei-me ao meu L - afinal, não há assim tantos direitos sociais que caibam num pequeno autocolante de 10 cm2. Mas com os transportes a terem cada vez menos de públicos e um Governo que parece ter como ponto de honra convencer-nos que a mobilidade das pessoas é um luxo e não uma condição básica de cidadania, temo o pior. Para já, respiro de alívio; se a única referência ao L é ao seu aumento, mesmo que excessivo, quer dizer que sobreviveu - pelo menos por mais um ano. Já não é mau. - PE
 
Lost in translation


Seus netos vão te perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam oceanos
Que eles viram em velhos livros ou nos filmes dos arquivos
Dos programas vespertinos de televisão
O gosto amargo do silêncio em sua boca
Vai te levar de volta ao mar e a fúria louca
De uma cauda exposta aos ventos em seus últimos momentos
Relembrada num troféu em forma de arpão

Erasmo Carlos e Roberto Carlos, As Baleias (1981) - FN/PAS/RB
 
Outras Conversas
Anda por aí um grande pessimismo acerca do futuro da pátria. Dos Mellos ao Aníbal do Big Brother, todos clamam pela União Ibérica: o iberismo tornou-se, subitamente, um movimento interclassista. No Domingo, o programa de Maria João Avillez andou um pouco à volta disto. Será que a democracia portuguesa está mesmo consolidada? E qual é o papel de Portugal na União Europeia? Sem querer contrariar o optimismo comparativista dos Pedros (Lomba e Magalhães, convidados do programa), e muito menos subscrever os delírios pessimistas do arquitecto Saraiva (que apresentava como grande argumento os seus cabelos brancos), confesso que não me consigo posicionar claramente no debate do momento.
Lendo os dados do último eurobarómetro, por exemplo, nota-se que a nossa adesão ao sistema democrático e ao projecto europeu assenta numa base mais económica do que cultural; mais instrumental do que afectiva. Ou seja: numa base aparentemente mais conjuntural do que estrutural. Apesar dos esforços das elites políticas, poucos são os portugueses que se vêem como europeus; e poucos são os que confiam nas instituições democráticas. A comparação com outros países europeus ajuda a relativizar as coisas, mas não relativiza tudo. Como lembrava o Pedro Magalhães no domingo, ao contrário do que sucede noutras democracias, entre nós, a desconfiança nas instituições políticas não é acompanhada por uma forte cultura cívica.
Em 1890, Eça de Queiroz, a propósito da sobrevivência das instituições monárquicas ao Ultimatum, perguntava: «Existe essa maioria entre nós, uma maioria amando tanto as Instituições que esteja pronta, e com alacridade, a dar por elas o dinheiro dos seus cofres e o sangue das suas veias?» A resposta foi bastante pessimista (e, neste caso, realista): «Infelizmente, por mais que lhe contemos e recontemos os elementos, não nos parece que exista.» Agora importa saber como resistirá o «europeísmo democrático» dos portugueses à redução dos fundos estruturais e a eventuais crises económicas e sociais. Os pessimistas respondem à Eça. Os optimistas dirão que União Europeia, democracia e crescimento económico são eternamente indissociáveis. Gostava de saber quem tem razão. - FN
 
Caro Doutor Pacheco Pereira,
Eu sei que o senhor Doutor tem uma vida muito ocupada em Bruxelas e que mal tem tempo para os seus dois blogues, a coluna no jornal e o programa em que é entrevistado por aqueles três senhores da SIC Notícias. Foi certamente por isso que em todos estes meses jamais nos distinguiu com um link, um poema ou mesmo um early morning post. E fez muito bem! Havia agora de estar a dar gás à presunção balofa de certos sujeitos que queriam apenas, e preguiçosamente, beneficiar do fluxo maravilhoso do seu site meter. Mas agora tudo é diferente. Repare: trago-lhe um caso pessoal, delicado. Como calcula, isto para mim também não é fácil, mas é que eu recebi este mail e não percebo nada do que lá está escrito. E lembrei-me do senhor Doutor. É que pode ser importante, quem sabe até se para os seus estudos. Tomei por isso a liberdade de o incomodar para a tradução do seguinte:

Комедия «Оскар» в Театре Эстрады
28 и 29 января в Театре Эстрады выйдут на сцену герои русской версии знаменитой комедии Клода Манье «Оскар». Известный режиссер Петр ШТЕЙН собрал в этом спектакле звездный состав исполнителей, где наряду с Игорем УГОЛЬНИКОВЫМ и Натальей ВАРЛЕЙ представлены Владимир ЕРЕМИН, Алена БОНДАРЧУКЛюбовь ТОЛКАЛИНА, Екатерина КЛИМОВА, Татьяна ЛЮТАЕВА, Александр НОСИК и Сергей ТАЛАНОВ. Литературная адаптация и диалоги принадлежат перу популярного сатирика Аркадия АРКАНОВА, декорации созданы авангардным художником Игорем ШИРОКОВЫМ, а костюмы выполнены знаменитым кутюрье Александром ШЕШУНОВЫМ.
Лучше, чем сам Аркадий Михайлович АРКАНОВ о спектакле не скажешь:
«Если Ваша дочь оказалась не Вашей дочерью, а чужой девушкой. Эта чужая девушка на самом деле Ваша дочь. Ваша горничная оказалась матерью Вашей дочери, которую Вы считали чужой девушкой. Разобраться во всем этом кошмаре можно только, посмотрев знаменитую французскую комедию…»
По отзывам прессы спектакль «Оскар» стал знаменательным событием на московской сцене, «первой ласточкой» в деле возрождения традиций настоящей русской антрепризы.
Получить справки и заказать билеты Вы можете, позвонив по тел. 517 2340
Театр Эстрады расположен по адресу: Москва, Берсеневская набережная д. 20/2. Проезд: ст.м. «Боровицкая», «Полянка», «Октябрьская». Тел. 959 0456.

Subscrevo-me atentamente, - RB
segunda-feira, janeiro 26
 
O pior cego é aquele que não quer ver
Os cartazes do PS de Lisboa começaram por indignar a direita . Olhando para o cartaz «Socorro, estou a ser assaltado», admito que aquilo possa recordar uma música do Pedro Abrunhosa; mas acima de tudo lembra-me a última vez que me levaram a carteira e o telemóvel. E quem nunca foi assaltado na Lisboa de Santana que atire a primeira pedra. Santana Lopes, naquela solidariedade institucional própria de um chefe de Estado, já veio sublinhar que a insegurança e o trânsito não são competência sua, mas sim do Dr. Durão Barroso. Terá havido alguma redução de competências camarárias desde que, em Dezembro de 2002, me prometeu mais segurança e menos trânsito? E as piscinas? Ainda estou à espera da minha. (Acho mal que não tenham feito cartazes sobre isto.)
Mas à esquerda também já se nota alguma perplexidade. A questão é que enquanto o discurso da segurança for monopólio da direita, a esquerda dificilmente volta a ganhar. As últimas derrotas da esquerda europeia deveram-se mais a erros de gestão política do que às políticas económicas. À esquerda falta claramente um discurso/programa articulado sobre famílias, imigração, identidade nacional, e, claro, insegurança. É verdade que, numa escala esquerda-direita, a maioria dos portugueses posiciona-se à esquerda. Só que depois, quando vamos ver as suas prioridades políticas, não encontramos os temas do Bloco, mas sim estes temas que nos habituámos (erradamente) a associar ao Dr. Portas. Os temas (e o «povo») não são necessariamente de direita; as abordagens é que podem ser. Bem mais idiota do que qualquer cartaz é não querer perceber isto. - FN
 
“Rage against the dying of the light”


Com raiva silenciosa, é assim que a morte deve ser vivida. - PAS
 
Quatrocentos e oitenta mil
Segundo a Direcção-Geral da Administração Pública, a greve nacional da Função Pública não terá tido uma adesão superior a 25%. As duas centrais sindicais dizem que não. Que 90% é que é a percentagem correcta. Entre uma e a outra realidade há 480 mil funcionários de diferença. Quatrocentos e oitenta mil. Cinco por cento da população de Portugal. Perdida. Not accounted for. - JHJ
 
Reminder
Não voltar a tentar entrar em Lisboa pelas Amoreiras, mesmo que seja Sábado ou Domingo. Não voltar a tentar entrar em Lisboa pelas Amoreiras, mesmo que seja Sábado ou Domingo. Não voltar a tentar entrar em Lisboa pelas Amoreiras, mesmo que seja Sábado ou Domingo. Não voltar a tentar entrar em Lisboa pelas Amoreiras, mesmo que seja Sábado ou Domingo. - MVS
 
Colegas
Com muita pena minha não vi a entrevista que Mourinho deu à RTP esta semana. Com menos pena não vi a intervenção semanal de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Por coincidência, em ambos os casos, passei por uma televisão sem som enquanto as ditas intervenções televisivas decorriam e fiquei com uma certeza: Mourinho e Marcelo frequentaram as mesmas aulas de postura e expressão corporal. Não há dúvida, eles foram colegas! - MVS
domingo, janeiro 25
 
Radiação letal
"Damos por nós a pensar que perante um tal filme todos os critérios de apreciação se tornam irrelevantes, e que a própria apreciação (o "gostar" ou "não gostar") é infinitamente menos importante do que o facto de se ter passado pelo filme, de se ter sido exposto a ele."
Luís Miguel Oliveira, no suplemento Y do Público da última sexta-feira, sobre "Pai e Filho" de Alexander Sokurov. - PE
 
Sabedoria popular


«O melhor era a gente juntar-se aos espanhóis e deixar o Aznar mandar nisto tudo.»
Aníbal, ex-concorrente do Big-Brother, citado na última "Visão". - FN
 
Lá fora estão ...
... dez graus negativos. E neva. Se fosse musicalmente letrado como um dos outros Relativos, estaria a ouvir Durutti Column. Como não sou, ouço o mesmo de sempre. Sérgio Godinho. Não sei se do frio, se por ouvir o mesmo que estes tipos, dei por mim a sonhar com o dia em que a Assembleia da República interpelará séria e inequivocamente o governo de coligação PSD-PP sobre o acto mais falhado de sempre nas longas histórias da diplomacia e da inteligencia - ou falta dela - portuguesas. - JHJ
 
The end of the world as we know it
Ontem, na bolsa de valores do Público, Amílcar Theias e Ferro Rodrigues estavam em alta; Jorge Sampaio e Durão Barroso em queda. - FN
 
Missing boy
Ontem, do Vini Reilly sobre o Ian Curtis. Hoje, dos que estiveram no Santiago Alquimista sobre o Vini Reilly.

There was a boy
I almost knew him
A glance exchanged
Made me feel good
Leaving some signs
Now a legend
The dream was wrought
Where thoughts were heard
Where love is reserved
From previous times


The Durutti Column, LC - PAS
 
Conto calhado
Ele e ela eram colegas de turma desde o primeiro dia do ciclo. Sabem, daqueles que por terem números um a seguir ao outro partilham a carteira durante anos. Para além dos números, não sabiam bem o que os aproximava. Aproximava-os o desconforto de sentirem vontade de estar juntos. Um desassossego pequenino e pueril que em anos se tornou em algo mais físico e compulsivo. Gostava dela, era o que ele sabia. Só depois se tornou claro que gostava dela porque sim, porque assim o tinha decidido: ela seria o seu grande amor de liceu.
Eles falavam e eram amigos. Mas não muito, porque o tal desconforto do desejo não o permitia. Os amigos dele e as amigas dela disseram-lhe durante anos: ela gosta de ti, vai falar-lhe. Ele não ia. Preferia, como n’As Virgens Suicidas, tocar-lhe músicas ao telefone pondo certos vinis que supunha adequados. De dia, na escola, ambos faziam de conta que não sabiam destes telefonemas nocturnos feitos só de música. Mas sabiam, mal cruzavam olhares. Isto durou uma eternidade de anos. E ele não ia. Fazia de conta que não acreditava no que lhe diziam pois não ousava quebrar o encantamento daquela sedução sugerida mas nunca concretizada. Namorar com ela? Era melhor desejar namorá-la sem nunca chegar de facto a ter de fazê-lo.
Ainda hoje ele não sabe bem o que aconteceu de diferente um certo dia. Nesse dia, beijaram-se e disseram-se gosto de ti, sempre gostei de ti, quero namorar contigo. Deram as mãos com sofreguidão e aboliram aqueles cinco centímetros no mínimo que sempre tinham separado os seus corpos. O encaixe foi perfeito. Ela era loura, tinha sardas e era ligeiramente estrábica. O desconforto tinha, por fim, acabado e sido substituído por um insinuante temor de perder uma coisa boa. Esse tal dia era o último dia de aulas do período, antes das férias da Páscoa. O que queria dizer que se separariam por duas semanas – mas isso era nada, era nada se medido em anos de espera.
Quinze dias depois, findas as férias, reencontraram-se à hora do costume na rua da escola. Ela vinha bronzeada do sol da Figueira, mais loura se possível, mais bonita que nunca. Vinha, pressentiu ele, possuída por uma mudança qualquer que a tornava muito decidida e brusca nos gestos. Não se beijaram. Disse-lhe ela, de chofre: «nas férias conheci um rapaz e agora ando com ele». O grande amor de liceu, o tal, acabou ali. Em vez de longo, foi curto. Durou um dia. Ele nunca mais gostou muito de louras e durante anos não ligou muito a música. - RB
sábado, janeiro 24
 
Dream on
As your bony fingers close around me
Long and spindly
Death becomes me
Heaven can you see what i see

Hey you pale and sickly child
You're death and living reconciled
Been walking home a crooked mile

Paying debt to karma
You party for a living
What you take won't kill you
But careful what you're giving

There's no time for hesitating
Pain is ready, pain is waiting
Primed to do it's educating

Unwanted, uninvited kin
It creeps beneath your crawling skin
It lives without it lives within you

Feel the fever coming
You're shaking and twitching
You can scratch all over
But that won't stop you itching

Can you feel a little love
Can you feel a little love

Dream on dream on

Blame it on your karmic curse
Oh shame upon the universe
It knows its lines
It's well rehearsed

It sucked you in, it dragged you down
To where there is no hallowed ground
Where holiness is never found

Paying debt to karma
You party for a living
What you take won't kill you
But careful what you're giving

Can you feel a little love
Can you feel a little love

Dream on dream on

Depeche Mode, Exciter (2001) - MC
 
Dedicatória
A todos os que, como Seara, apostam na fuga de Santana para Belém (ultrapassando pela direita o tutelar prof. Cavaco) e se apressam a tomar posição para a corrida à câmara de Lisboa, assim de repente lembro-me de uma música que é a dedicatória perfeita. Ou a música adequada para os comentários do professor Marcelo sobre o assunto. Como bem cantam os Depeche Mode: dream on, dream on... - MC
 
Bush, Panthers, Patriots e MoveOn.org
De amanhã a uma semana é dia de SuperBowl. E como tem sido habitual, é a CBS que detém os direitos sobre a transmissão televisiva do evento desportivo mais importante por terras do Tio Sam. Mas ao contrário do que os mais distraídos possam pensar, o momento televisivo da noite não será quando o Presidente dos Panthers ou dos Patriots levantar a Taça, no fim do jogo. Não. O momento mais alto será entre o segundo e o terceiro quarto, quando o jogo for interrompido para os jogadores descansarem e - mais importante - para que a CBS dê início a um autêntico festival de anúncios publicitários, muitos deles os mais caros alguma vez produzidos.


Este ano, a atracção poderia vir a ser o anúncio vencedor do concurso Bush in 30 seconds, promovido pelo movimento MoveOn.org - Democracy in Action. Poderia, mas não vai ser. Tudo, porque a CBS decidiu não o transmitir. É demasiado controverso, dizem. Os ânimos estão quentes. Os desportivos e os políticos. - JHJ
 
(in)disponibilidades
Segundo o expresso de hoje, Seara "não descarta" (sic) a hipótese de se candidatar a Lisboa num cenário pós-santanista. Está, como agora é moda dizer-se, "disponível". Sendo certo que esta diponibilidade até pode ser meritória, ocorre no entanto lembrar ao dr. Seara que talvez fosse mais importante estar, por pouco que seja, mais disponível para a câmara de Sintra. É que as coisas não estão a correr nada, mas mesmo nada, bem.
É verdade que foi tudo um monumental equívoco de um triste dia de Dezembro de 2001, como o próprio e os seus munícipes rapidamente preceberam, e é notório que se o arrependimento matasse teríamos todos razões para temer pela saúde do simpático autarca. Mas antes de pensar nas eleições de 2005, que ainda vêm longe, não era mal pensado pensar por enquanto nas de 2001. Por uma razão simples: a inevitável inconsequência da disponibilidade agora anunciada é um pouco menos inconsequente que a evidente falta dela para Sintra. - MC
 
Achados (ou o cúmulo da improbabilidade)
Ao mesmo tempo que nos chega a notícia de que foi encontrada água em Marte, chegam notícias que nos dizem que não foram encontradas armas de destruição massiva no Iraque. - MVS
 
Banda sonora para um poema

Bonnie "Prince" Billy, Ease down the road (2001)

Consolo na praia
Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te - de vez - nas águas.
Estás nu na areia, no vento ...
Dorme, meu filho.

Consolo na praia, Carlos Drummond de Andrade - RB
sexta-feira, janeiro 23
 
A vergonha em remakes sucessivos
O que aconteceu hoje em Leixões pode ser notícia, mas não é novidade. E vai-se repetir, como se repete todos os dias. Mesmo que não apareça das notícias, a sórdida realidade da imigração em condições desumanas tem implicações demasiado vastas e está demasiado perto de nós para que seja legítimo assobiar para o lado. Ou, pior, brincar com o assunto.
Temo que acontecimentos como encontrar dezenas de imigrantes despejados em porões de navios ou, como noutras ocasiões, mortos em camiões vá deixando, pelo efeito de repetição, de ser um acontecimento noticiável. Mas é por isso que é incrível que ainda haja gente com responsabilidade que, a coberto das democracias-cristãs e outros rótulos de ocasião, permita que o preconceito ideológico e xenófobo se continue a sobrepôr à realidade. Ou a sentimentos básicos como a vergonha. - MC
ps. A este respeito, o Paulo Machado escreveu um excelente texto. Aqui fica:
 
Em que ficamos?
De uma sondagem de opinião recentemente realizada pela Universidade Católica para o Público e RTP, foi possível à Lusa (em take de 15-12-2003 ) extrair os seguintes resultados:
- Três em cada quatro portugueses opõem-se à entrada de mais estrangeiros em Portugal para trabalhar;
- A maioria (62%) defende que os imigrantes ilegais devem ser expulsos.
Sabendo, por dever de ofício, que a opinião sondada é, em muitos casos, uma opinião induzida pela forma com são questionados os inquiridos, estes (e outros) dados sobre a imigração exigem séria reflexão e apurado sentido político.
Numa sociedade aberta e plural, de pendor europeísta e com uma matriz humanista, até com forte inspiração cristã, estas tendências são, a meu ver, inaceitáveis. Quem defende um modelo de sociedade mais solidária, mais justa e mais coesa não pode deixar de ficar indiferente à intoxicação ideológica de uma direita populista e sem escrúpulos, que insidiosamente (ou mesmo explicitamente) declara que Portugal é para os Portugueses, e que os Outros por cá poderão estar se (e quando) forem necessários. É uma formulação a que Paulo Portas não há muito recorreu, e que exacerba, como se de uma declinação indecorosa se tratasse, o conceito de imigração económica.
Entretanto, Paulo Portas faz parte de um Governo que encomendou um estudo, do qual se conclui que o nosso País precisa (e continuará a precisar) de muitas dezenas de milhar de imigrantes, nomeadamente por motivos económicos. Aparentemente, a mais recente legislação sobre imigração, que com pompa e circunstância o Governo propagandeou, facilita o reagrupamento familiar, sob certas condições, legaliza os ilegais, sob certas condições, e prioriza a entrada a quem tenha contactos com a língua portuguesa. Emaranhado difuso, entre ideologia restritiva e preconceituosa face aos imigrantes e à imigração, despudor ao invocar o lado humanista do legislador (só por ironia tal adjectivação se aplica a “estes” legisladores”), e atrapalhação evidente entre a tentação assimilista (genética na Direita) e o modelo integracionista (politicamente correcto para uns; evidentemente necessário para outros) que por essa Europa se defende.
Por cá, exige-se uma resposta programática de inequívoca rejeição ao acicate nacionalista (com alguns contornos de discriminação étnico-rácica), por forma a que todos nós possamos praticar e beneficiar de uma pedagogia e acção políticas para combater este tipo de “tendências”, e se possível erradicá-la dos arcos de governabilidade que temos
. - Paulo Machado
 
A teoria da estruturação
Hoje de manhã, escolhi a TSF para despertador. Mal acordo, apanho com um senhor, cujo nome não fixei, a debitar uma teoria muito radiofónica. Os portugueses são maus em matemática. Isto não é, recorda-nos, novidade. O que é novidade, e verdadeiramente preocupante, é que estão cada vez pior em português. E cita os "ministros", os "políticos", os "jornalistas" que não sabem falar, ao mesmo tempo que demonstra um virtuosismo gramatical só reservado às grandes estrelas da língua. A crónica termina com a sua explicação para este fénómeno: o português dos portugueses piora porque, por não saberem matemática, não têm as mentes estruturadas.
Pouco depois, saí de casa a ver o mundo com outros olhos. Afinal, não sei se já perceberam, mas pode estar aqui o salto paradigmático de que necessitávamos há muito tempo. Depois de anos e anos a levar com a xaropada da "mudança de mentalidades", afinal o que temos de fazer é "estruturá-las". - MC
 
Ainda a propósito do nome da banda


Foi e não foi Bonaventura Durruti, o líder da célebre coluna anarquista na guerra civil espanhola. Porque o nome foi roubado a uma das montagens de banda desenhada – “The Return of the Durutti Column” – que, numa noite de 1966, Guy Debord e os seus companheiros afixaram pela cidade de Estrasburgo, em que dois cowboys, montados a cavalo, travam o seguinte diálogo:
- de que é que te ocupas exactamente?
- da reificação
- percebo, é um trabalho muito sério, com livros muito grossos e muitos papéis sobre uma grande mesa
- não, eu passeio-me. Principalmente, passeio-me. - PAS
 
Mais um exclusivo País Relativo


O PR teve acesso em primeira-mão a uma fotografia de Silvio Berlusconi tirada já depois do lifting facial a que se submeteu e que o tem mantido afastado das lides políticas no último mês e meio. - RB
quinta-feira, janeiro 22
 
Filipe, meu caro ...
... ainda bem que por aqui passaste. Lembrei-me de te ir visitar e deparei com um dos melhores posts alguma vez escritos na PT-Blogo-FractaLândia. - JHJ
 
Democracia cá e lá (corrigido)
O André Belo escreveu um post sobre o caucus do Iowa - a que chamou, inadevertidamente, "Democracia na América" - e a caixa de comentários do Barnabé transformou-se num autêntico blogue autónomo. Aquilo foi de tal ordem, que houve quem sentisse necessidade de puxar pelos galões académicos para defender o seu ponto de vista sobre o local de nascimento da democracia: Atenas, Paris ou Philadelphia. E como não podia deixar de ser, lá se fez referência ao que aconteceu nas últimas eleições presidenciais, nos EUA.
E quando isso acontece, tenho necessidade de intervir (é para isso que serve um blogue, acho eu). Ao contrário de muita gente - principalmente gente de esquerda -, não me parece que o que se passou nos EUA, em Novembro de 2000, seja assim tão extraordinário. Afinal, dois meses depois de ter surgido a dúvida sobre quem seria o vencedor, ela estava esclarecida. É verdade que se teve que recorrer ao Supremo. Mas é exactamente perante dúvidas desta natureza que ele se deve pronunciar. Também é verdade que os juízes do Supremo são nomeados pelas Administrações e que têm sensibilidades políticas. Mas sobre isso há pouco a fazer. Em qualquer sistema democrático, tem que haver uma última instância - Humana, de preferência. E quando a ela recorremos, aplica-se o ditado popular "Quando um burro fala, os outros baixam as orelhas".
Também acho que não se pode dizer - ou não se deve dizer - que George W não é o legítimo presidente dos EUA, por ter tido menos votos do que Al Gore - embora eu preferisse que assim fosse. Ou que o que aconteceu ilustra quão injusto o sistema eleitoral norte-americano é. Os meus galões não me permitem elaborar sobre a legitimidade histórica do processo eleitoral norte-americano. Mas permitem-me elaborar sobre números. E o que os números me dizem é que foi necessário esperar 215 anos (ver nota de corrrecção) para que o sistema gerasse um resultado que consideramos aberrante. É verdade que em 1960 esteve quase para acontecer o mesmo em Illianois, entre JFK e Nixon, e que se Nixon aí tivesse ganho teria sido eleito Presidente, embora com menos votos populares do que JFK. Esteve quase para acontecer, mas não aconteceu.
Tal como não aconteceu, mas poderia ter acontecido, nas últimas legislativas, em Portugal. Cuidado, porque podemos ser traídos pelo excesso de orgulho e confiança no sistema eleitoral proporcional que praticamos em Portugal. Embora pouco provável, o nosso sistema não garante que o partido mais votado nas urnas seja o que elege mais deputados. E a questão que imediatamente se coloca é: Se isso acontecer em Portugal, quem é que deve formar governo? O partido mais votado, ou o partido com mais deputados? Desconheço, por completo, o que diz a lei eleitoral sobre o assunto (algum Relativo mais esclarecido?). Uma coisa me parece certa: independentemente do que estiver escrito na lei, nunca chegaremos a consenso sobre quem deveria legitimamente formar governo. E essa é, exactamente, a discussão em torno do sistema que elegeu George W.
Ás vezes, penso que se o esforço que dispendemos a debater o sistema eleitotal norte-americano fosse canalizado para a discussão em torno do sistema eleitoral português, a nossa democracia seria mais sólida, abrangente e completa. - JHJ
Correcção - De facto, houve duas outras eleições nos EUA em que o Presidente eleito não teve a maioria dos votos populares. Em 1876, o Republicano Rutherford Hayes foi eleito Presidente, embora tenha registado menos 250 mil votos do que Samuel Tilden. Doze anos depois, Benjamin Harrison foi eleito Presidente com menos 95 mil votos do que o Democrata Grover Cleveland.
Em 1824, nenhum dos quatro candidatos a escrutínio obteve uma maioria absoluta de grandes-eleitores. O Congresso acabou por eleger John Quincy Adams como Presidente dos EUA, embora Adams não tivesse sido nem o mais votado nas urnas, nem aquele que tinha garantido um maior número de grande-eleitores. Acontece que os dois outros candidatos menos votados declararam explicitamente o seu apoio a Adams, o que legitimou a decisão do Congresso. Agradeço ao Cidadão Livre a chamada de atenção.
 
Companheiros
Tomás e Filipe,
Falam da responsabilidade histórica dos intelectuais e usam o conceito de intelectual orgânico. Censuram-me a falta de obreirismo e o perder-me numa frivolidade dissipadora. Um ralhete em termos. E depois vêm com coisas sérias e de monta: a revolução que já tarda, a qual não ajudo antes comprometo, e a salvação, da qual não trato, mas isso – concordarão – é um problema meu. Mas reparem naquela cena do Ordet em que Mikkel, dependurado no caixão onde jazia Inger, objecta ao pastor: «É que eu amava nela não apenas a alma, mas também o corpo». E é depois e só depois da ressurreição de Inger, e com ela e ele nos braços e na boca um do outro, que Mikkel engrossa o número dos convertidos. Lembro-vos a palavra que encerra o filme, aquela que Inger repete enquanto abraça Mikkel e o beija «carnalissimamente» (para usar o advérbio que Bénard da Costa inventou de propósito para descrever essa cena). E que é esta: «vida». Vida, companheiros. Amén. - RB
ps. Obrigado pelo belo poema, Tomás.
 
Acto falhado
Um dos muito bons amigos que regressou às ilhas dos Açores, aparece-me de repente em Lisboa para almoçar. Quando me despeço digo-lhe, se ainda estás cá amanhã podíamos ir ao concerto dos Joy Division. É o que dá regressar à hora de almoço aos mesmos "sítios" onde estávamos há dez anos. - PAS
 
Eu ouço o martelar
Estou a uns quantos kilómetros da rua da alfândega, onde fica a direcção geral do orçamento, mas a verdade é que, mesmo através do bulício da cidade de Lisboa, quase que consigo entreouvir um pouco do suave martelar das contas públicas. Hoje é dia 22 de Janeiro de 2004, desde dia 15, como é da praxe, que a execução orçamental deveria ser pública. Mas, nada. São as contas do último mês do ano, o mês em que é preciso martelar também o que ficou de fora nos outros 11 meses. Como bem lembra Sousa Franco hoje, em excelente artigo na Visão, “caminhamos para a retoma? Pois sim: como caminhamos para a morte desde que nascemos. Algum dia virá: por ora, estagnação é o que se vê no horizonte. Mas tudo o mais que se diz apenas tenta enganar o Povo.” Sem mais. - PAS
 
Luta Continua


“Vini Reilly had the face of an angel. Thin, white, emaciated and probably touched by God. Anorexic body shape and exaggerated angular fingers and brain. (…)
A guitar, some noises. Simplicity. Surely this was punk too. So out of place, so self-contained. Isn’t that what punk meant?
If it’s not what it should be, then it’s what it should be.
And Wilson gave the band a name. The Durutti Column.”
Tony Wilson, 24 Hour Party People. - PAS
 
(Quase) Sem palavras
Na vida é muito importante tratar com carinho as embirrações de estimação.


- RB
 
Um Bush de Napoleão
O discurso do estado da União, anteontem (muito bem parodiado no Barnabé). Há duas semanas, o anúncio do programa multibilionário para ir à Lua e a Marte. O que ele quer dos americanos sei eu. - RB
 
Avelino Ferreira Torres
Apesar dos esforços do humorista Herman José - que no último Herman SIC disse que Santana Lopes «lutou contra a ditadura» -, é a anunciada candidatura de Avelino Ferreira Torres à Câmara de Amarante que continua a dar que falar. E não é para menos. Percebe-se que um político queira trocar a Figueira por Lisboa, e Lisboa pelo Palácio de Belém. Mas já é mais difícil perceber o que leva alguém a trocar o Marco de Canavezes por Amarante. Posso estar a ser injusto, mas se esquecermos o famoso «Diamante Negro», o que é que tem o concelho de Amarante que o faça mais interessante que o Marco?
A pouco menos de dois anos de distância das eleições, Avelino já tem hino de campanha, bandeiras e guarda-chuvas, por forma a apresentar «uma candidatura credível» (a justificação é do próprio Avelino). Em Amarante, se calhar por causa do clima chuvoso, parece que uma candidatura sem guarda-chuvas perde «credibilidade» junto das populações. Aliás, Avelino ainda não sabe quanto vai gastar até ao fim da campanha. Diz que «tudo depende do peso que houver do outro lado», e não propriamente da lei de financiamento dos partidos e das campanhas. Até à hora de encerramento deste post, a Comissão Nacional de Eleições permanecia em silêncio.
De facto, Amarante deve ser um concelho muito especial. Para Ferreira Torres, o professor universitário que o PSD queria candidatar – «um copinho de leite» - não serve: «os títulos de doutor e professor são bons para gabinetes. Em câmaras como a de Amarante não é nos gabinetes que se trabalha». Avelino prefere «o terreno», esse lugar único onde a democracia participativa e os «murros nas trombas» acontecem. Aliás, não me admirava nada que num destes dias Avelino se inscrevesse no fórum social mundial. A avaliar pela retórica de Ferreira Torres, até parece que a sua acção em Marco de Canavezes é inspirada pelo orçamento participativo de Porto Alegre. É que este homem nunca prepara orçamentos: «As coisas saem-me no dia-a-dia (...) vendo o que as pessoas querem», confessa com orgulho. Ultimamente, «as coisas» devem ter saído a um ritmo alucinante, uma vez que, de acordo com a oposição, a câmara do Marco está com uma dívida superior a 50 milhões de euros. - FN
 
A conversão de um agnóstico
Oito anos de Escola Alemã, quase três em Frankfurt, algumas peças de Brecht e Heiner Müller. Companheiro, já não basta para a Salvação? - PM
quarta-feira, janeiro 21
 
Semântica
Não sei porquê, mas ao ler o post do Mark lembrei-me daquela cena de 'A estranha vida de Igby' (uma boa surpresa cinematográfica, já agora) em que Igby apresenta o seu irmão Oliver a uma amiga, na festa do inefável D.H.:

Igby: Oliver is majoring in neo-fascism at Columbia.
Oliver (ligeiramente irritado): Economics.
Igby (encolhendo os ombros): Semantics...

Desculpem, não consegui resistir... - PE
 
Os bons reforços
A presença do João e do Pedro no País Relativo deixa-me muito contente por mil razões e mais uma: mais dois sportinguistas relativos! E, pasme-se, um deles mais 'doente' do que eu! - MVS
 
Os "grandes senhores da economia"
Talvez um traço de tacanhez nacional, a reverência que é prestada aos economistas, gestores e financeiros e à imagem que estes têm e cultivam de si próprios. Gostam de assumir-se como uma classe à parte do resto da bicharada. Os políticos uma cáfila de chupistas que só atrapalha. Os funcionários públicos uns sornas que vivem à conta do dinheiro dos contribuintes. Os trabalhadores um bando de inconscientes que não perceberam que têm de sacrificar a sua subsistência a bem da saúde da economia nacional. Os pensionistas uns tipos que alimentaram o sonho absurdo que aos 65 anos podiam encostar-se à sombra da bananeira. Veja-se António Nogueira Leite, hoje, na Focus. Foi Secretário de Estado dos Governos de Guterres. Agora diz, com o à vontade da distância, que Guterres foi um péssimo governante e que jamais votaria nele. Entende-se a posição. Assumiu o cargo como assumiria um qualquer cargo de gestão empresarial. Sem comprometimento político, ou pessoal. Desempenharia porventura o mesmo cargo em qualquer Governo. Percebeu que construir um país, melhorar a vida das pessoas, não é o mesmo do que gerir uma empresa. Saiu indignado. Ninguém percebeu que só ele é que percebia como é que as coisas se deviam fazer.
Ora, o pensamento único dos gestores faz o seu caminho muito pela forma como os gestores são tratados pelos jornalistas quando fazem comentário político na televisão. E é esse o primeiro problema. É que estão a fazer comentário político, assente numa determinada orientação ideológica, e não, como muitas vezes nos querem fazer crer, a debitar verdades técnicas ou científicas. Quando ouvimos Saarsfield Cabral, Miguel Coutinho e companhia dizer que a prioridade é o déficit e que tudo deve ser subordinado à disciplina orçamental, até parece que qualquer outra opinião é em si inaceitável, como se não houvesse opção. Há opção. Este é um caminho, e é preciso que isso fique claro, defendido por pessoas para quem, legitimamente, as variáveis do desemprego, da coesão social, da qualidade de vida das famílias são isso mesmo: variáveis económicas. Entre outras, porventura mais importantes, como a inflação, a competitividade do mercado de capitais, a rendabilidade das empresas. É bom que estes senhores possam defender os valores com que mais se preocupam. Não é bom que nos tentem convencer do fatalismo das leis económicas, empurrando-nos para um pensamento único, em que a economia manda na política. Há margem de manobra consoante as variáveis que se queiram privilegiar. Um rigor orçamental controlado, que deixe flexibilidade para não se rebentarem com as políticas sociais e com o objectivo do emprego por exemplo.
Tudo bem. A política aos políticos, a gestão aos gestores. O problema é quando se confundem as coisas. - MK
 
Meditação no ginásio
Bolhas nas mãos de levantar pesos no ginásio é possivelmente o único tipo de bolhas nas mãos que um estudante de doutoramento terá na vida. - RB
 
Lacunae
Ontem, em vez de ver o Ferro na SIC Notícias, lá fui preencher mais uma lacuna à Cinemateca, ver A Palavra de Carl Dreyer. Esta não era bem uma lacuna como as outras: é possível que fosse a lacuna. Logo no início do filme, há umas dunas. E eu sorri com gosto. O filme é fabuloso.


Hoje, agora mesmo, cheguei de ir fazer exercício ao ginásio. Depois de comer o Snickers para repor o nível de açúcar, pensei: dá mais autoconfiança a um gajo ir ao ginásio que papar o programa mensal da Cinemateca. É que o ginásio ressuscita. É como aqueles medicamentos placebo para. - RB
 
Olha que não!
Meu caro Nuno, tens de convir que zurzir no Luís Delgado tem um gostinho especial, mas olha que quanto à retoma anunciada, que eu gostava que estivesse aí, porque sem qualquer cinismo não tenho gosto nenhum que, em cada hora que passa, 8 pessoas vão para o desemprego, ela pura e simplesmente não chegou. Basta ler a síntese de conjuntura do INE de Dezembro e o que está lá escrito é claro: “os dados mais recentes revelam que embora em termos internacionais se mantenham os sinais de recuperação, mais ligeira na Europa do que nos EUA, na economia nacional voltaram a reduzir-se os indícios favoráveis a uma retoma forte da actividade. Assim, embora o indicador de actividade económica tenha apresentado uma melhoria entre Outubro e Novembro, o indicador de clima reforçou em Dezembro os sinais negativos.”. Não menos trágico é que o governo, enquanto anuncia a retoma, todos os dias parece agir para que ela chegue mais tarde. - PAS
 
O Portugal Futuro
Num daqueles felizes acasos que por vezes surgem, no dia em lavamos o país relativo e em que decidimos que vai começar a ter fotos, chego a casa e sei qual é a primeira que quero ver publicada. Em cima da mesa, acabado de chegar, o livro do Ruy Belo traduzido para italiano pelo meu amigo Francesco. O Ruy Belo que lhe mostrei há uns três anos (que já parecem longínquos) e que passou a representar também para mim o “ricordo dei dopo cena ruibeliani a Firenze”, de que ele fala na introdução. Mas o Ruy Belo porque há palavras que sintetizam a ambição, mais ou menos escondida, do início do País Relativo: “o Portugal futuro é um país aonde o puro pássaro é possível”. E, acima de tudo, poder regressar às palavras com que andámos à volta, entre grappa, e descobrir que o Francesco encontrou, em italiano, para a Muriel, o ritmo e a medida certa. É isso que nos leva para a margem da alegria.


Muriel
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
(...)
A volte se ricordi ti cercavo
ti trattenevo ti esaurivo e se non ti perdevo
era solo per averti già perso incontrandoti
In fondo niente dovevo dirti
e per vederti veramente
e nella tua visione compiacermi
era indispensabile evitare d’averti - PAS
 
O problema da edição - alguns aspectos afectivos
Eis a miraculosa prova de como de conversa a rodos, muito futebol, alguma grappa e muita pasta (e bastante trabalhinho) se faz um grande livro. O Francesco Luti, meu amigo, acabou de editar em Itália uma recolha de poesia de Ruy Belo, numa editora florentina.


Bordo marino
Il tempo delle dolci ragazze
è sul mare lungo il viale
al sole dei solitari giorni di dicembre
Lí tutto s’arresta come nelle fotografie
È la sera d’agosto il fiume la musica il tuo volto
Allegro e giovane ancora oggi quando ogni cosa stava cambiando
Sei tu sorgi di bianco per la strada come um tempo
notte illuminata notte di nubi oh miglor donna
(E sulle alpi l’umanista stanco canta allegremente)
«Il cambiamento possiede tutto?» Niente cambia
neppure il cultore delle constanti premure
alza la piega della tragedia in queste ore bianche
Dio camina sul bagnasciuga coi pantaloni rimboccati
come un uomo si corica come un uomo si alza
Siamo bambini fatti per grandi vacanze
Uccelli sassate di caldo
lanciate al freddo tutti’intorno
[...]
Da terra viene l’acqua e dall’acqua l’anima
il tempo è la marea che toglie e dà
il maré in spiagge dove eternamente siamo
Ora sappiamo in che misura meritiamo la vita.

Ruy Belo, Orla Marítima (trad. Francesco Luti, Ruy Belo. Poesie Scelte (1961-1977), Florença, Polistampa, 2003).

Stai me bene, Francesco. Grande abraço. - RB
terça-feira, janeiro 20
 
Relativizar por aí
E pronto, com este último post colectivizei-me depois de cinco meses a passear sozinho por aqui e por ali. Não poderia haver ninguém melhor para dividir a casa do que os Relativos, ou não tivessem sido eles os primeiros que conheci quando aqui cheguei em Agosto passado. Muito obrigado pelo convite. É altura para se Relativizar... - JHJ
 
O Estado da desUnião
Hoje é dia de discurso sobre o Estado da União. Mais um. É verdade que já há Saddam para ser exibido, mas também é verdade que continua a haver um défice gigantesco que só não é maior porque o orgulho dos europeus anda a ser alimentado por um Euro forte. Além disso, há uma taxa pornográfica de desemprego que, ao contrário do prometido, não foi combatido durante o último ano, para além de que o discurso da homeland security já não cola, porque as pessoas percebem que aquilo tem cinco cores e que anda para cima e para baixo ao sabor do vento.
Mas pior-pior, há o Senador John Edwards, da Carolina do Norte, que ontem em pleno Midwest teve mais declarações de voto do que alguma vez alguém pensou ser possível, e com isso fez lembrar aos tipos do GOP que o Sul é onde os Democratas têm ganho ou perdido as eleições desde que JFK foi eleito em 1960. E que talvez Bush tenha andado um bocado distraído a falar sobre Marte para o interior do Estado do Oklahoma e outros do vale dos tornados, ou sobre a legalização de imigrantes, que resulta bem no Texas, Arizona e sul da Califórnia, mas que noves-fora isso dá nada, porque é preciso muito mais dinheiro. Outra vez.
E a Administração para lá da Rice e do Rumsfeld? Toda a gente sabe que o Vice-Presidente já abandonou o barco há muito tempo. Que anda a jogar golfe e a caçar patos com o mais abjecto dos juízes do Supremo, com medo de ficar comprometido com umas jogadas malandras que andou a fazer sobre ambiente e energia. E que o Colin Powell nunca mais vai entrar na brincadeira, porque não quer passar por distraído junto da comunidade internacional sempre que tiver que defender a veracidade de documentos que sabe poderem não a ter.
Depois, com Gephardt a sair da corrida, em quem é que os sindicatos vão votar? No mesmo que os estudantes universitários que andam por aí a fazer campanhas anti-guerra? É que se Dean não ganhar, esse “momento” terá que ir para algum lado e, se calhar, vai direitinho para um candidato que no “chão do Senado” foi a favor da iniciativa militar, mas que anda a dizer que os dois primeiros anos de Universidade devem ser tuition-free se os estudantes bolirem em troca para a comunidade – e cada ano de frequência universitária custa, no mínimo, 5 mil dólares.
E por cima disso tudo há ainda o “I have a Dream”, que toda a gente sabe – e Edwards melhor que ninguém – continua a ser um “dream”, embora haja muita malta com vontade de cantar o “Amazing Grace” de mãos dadas. Se é verdade que os hispânicos andam meio confundidos entre o Burro e o Elefante, o certo é que, quando votam, os afro-americanos escolhem esmagadoramente o Burro. Que o diga Clinton-Gore-96.
Mesmo que John Edwards não seja o candidato a Presidente, o mais certo é que seja o escolhido para running-mate, porque de todos é o único que não faz trash-talk, sabe pronunciar y’all, e tem quase tantas mulheres do seu lado como Kerry. E mulheres, afro-americanos, estudantes e sindicatos no mesmo saco dá a vitória a qualquer candidato nos EUA, mesmo que os da Florida ainda não tenham aprendido a votar.
Cá para mim, George W não tem dormido bem durante os últimos dias, tal o número de vezes que terá re-escrito o discurso de logo à noite. - JHJ
 
Reforços de Inverno
Dez meses depois do arranque, o País Relativo faz algumas mudanças. Há alguns dias, iniciámos um sistema de comentários que não está sistematicamente mudo. Hoje, estreamos uma nova imagem que nos permite passear envaidecidos por todos os cantos da blogosfera portuguesa. Igualmente importante, aproveitámos a reabertura do mercado de transferências e assegurámos, numa operação relâmpago e a custo zero, dois reforços de peso: o João H. de Jesus (JHJ) - d'A-Metamorfose - e o Pedro Estêvão (PE) - d'A Mão Esquerda. A partir de hoje, dez relativos a blogar ao sol... e à chuva. - PR
 
De Cara Lavada
Há já quase um ano, quando começámos, publicámos um texto de apresentação. A dizer ao que vínhamos. Hoje, que mudamos de penteado sem contudo mudar de cara, decidimos republicar esse texto. Datado, por vezes saborosamente datado, pensamos que o texto não perdeu o nervo e a pertinência que, por isso, o justificam ainda. Aqui fica de novo, ligeiramente editado e com links (que então não sabíamos fazer ou que não podíamos de todo fazer por não existirem, ainda, esses blogs).

Blogar ao Sol - O país está em estado de blog e a política não é excepção. De repente, há blogs de todas as proveniências e para todos os gostos, desde aqueles que estão (orgulhosamente!) à direita do pensável até aos que estão à esquerda do razoável. Este é, também por isso, o blog da outravisão, moderna, aberta, sem pudores revisionistas. Assumidamente, e isto é para nós inegociável, à esquerda do centro. Mas, sem quaisquer complexos, da esquerda ao centro.
Conjugamos o verbo blogar na primeira pessoa, do plural. A blogosfera portuguesa, pese embora a juventude, sofre já de um buraco do ozono e ameaça fazer efeito de estufa. Ele são as noites sem sono que o Pedro Mexia tem metido na Coluna, prejudicando em muito a sua, ele é o atrito causado pelo labor incessante do omnipresente José Mário.
A blogosfera portuguesa agita-se. Serão dores de crescimento. Eis que ganha visibilidade, eis que se faz tribuna. Nós queremos liberalizar e aumentar as opções disponíveis ao blogonauta. É que nós também queremos ser objecto de referências de JPP. Mas de desabono. Certamente que não faremos de Etelvina de quarto de Pacheco Pereira, a quem o patrão dá uma boa referência e talvez um beliscão no rabiosque. Quem viu Sílvio Berlusconi assinar na televisão, em directo, um “contrato” de legislatura com a nação italiana percebeu logo que é preciso cuidado com as promessas assinadas em papel molhado. Isto vale sempre, também e sobretudo.
O O’Neill escrevia sobre um Portugal soturno, medíocre, receoso e beato, felizmente em vias de extinção. Pegou na crítica e na ironia e com elas fez uns papelinhos poemas que meteu dentro de umas garrafas que ficaram a boiar nas águas estagnadas de então. Portugal era um enorme mar da palha. Os papelinhos ainda estão connosco. Hoje, quando os abrimos, e os lemos, e olhamos em volta, surpreende-nos ainda a sua trespassante lucidez e actualidade. O Portugalinho de O’Neill ainda subsiste, em espasmos fantasmagóricos. Seremos o seu ghost-buster. Gostaríamos de guardar o faro apurado, a rebeldia, o gosto pela vida, pelas letras e músicas, pelas mulheres e pelos homens, pelo futebol e pelo andebol. De tudo isto e de como fazer goulash se falará mais para a frente.

Filipe Nunes
João Henriques de Jesus
Mariana Vieira da Silva
Mark Kirkby
Miguel Cabrita
Pedro Adão e Silva
Pedro Estêvão
Pedro Machado
Rui Branco
Sílvia Sousa
Março 2003/Janeiro 2004 - PR
segunda-feira, janeiro 19
 
O melhor do mundo são os velhos
Este fim de semana foram apanhados mais dois condutores em contra-mão nas autoestradas. Pensei imediatamente que estávamos perante novos ataques da rede terrorista de idosos que, de acordo com relatos da comunicação social, tem actuado ultimamente na península ibérica. É de facto muito fácil atirar as culpas para cima dos velhos. Mas não nos podemos esquecer que as pessoas que têm hoje 70, 80 anos habituaram-se a conduzir quando o engenheiro Ferreira do Amaral andava de fraldas, e a única autoestrada que havia era a que ligava Lisboa ao Estoril. Como é óbvio, não lhes entra na cabeça que uma coisa com várias faixas possa ter um só sentido.
Até aos 30 anos, as pessoas estudam, viajam, descobrem novos autores, novas bandas, novas pessoas. A partir daí é só fazer «copy/paste». Ora, as autoestradas representam para a condução aquilo que em ciência se chama «corte epistemológico». No fundo, havia uma «ciência normal», ou melhor, uma «condução normal» (pré-autoestradas), cuja lógica, de um momento para o outro (e sem aviso), foi completamente alterada por um novo paradigma (introdução de autoestradas). Quando o Prof. Cavaco inaugurou a A1, as cartas de condução dos maiores de 30 anos deviam ter caducado imediatamente. Como é costume, o eleitoralismo foi inimigo do bom senso, e os resultados estão agora à vista.
Assim de repente, pode parecer absurda a dificuldade que os mais velhos têm com as autoestradas, as escadas rolantes ou as viagens de avião. Ainda este fim de semana, por exemplo, o Dr. Mário Soares - um europeísta convicto - reconhecia que «fazer viagens todas as semanas para Bruxelas e Estrasburgo é uma verdadeira tortura». Mas tentemos pôr-nos, por momentos, no lugar deles. Imaginemos que em 2030 se concretiza o projecto de Bush: o Homem vai poder passar férias na Lua ou até mesmo em Marte (com descontos na época baixa). Qual de nós – então já na posse do «cartão turismo sénior INATEL» - é que se vai atrever a entrar nessa «perigosa loucura»? - FN
 
Caro Daniel,
Quem foi ver o filme fui eu e não o País Relativo. Não faço ideia do que o País Relativo pensa ou deixa de pensar porque o País Relativo não pensa nada enquanto entidade colectiva, muito menos sobre os filmes que eu vejo e muito menos ainda por ser do PS, ou por deixar de ser do PS. Isso, a ser assim, será noutros sítios. Não os confundamos. Contudo, para te dar esse gostinho, aqui estou a “não ser obrigado a tolerar tudo”. É que eu não sou militante do PS, nem vejo o que isso possa ter a ver com o que achamos dos filmes que vemos. Mas vejo que para ti, sim. Parafraseando o Caetano: se tu em política fores como és em estética, estamos feitos. - RB
domingo, janeiro 18
 
Copy/Paste
O Real, incansável comentador residente do País Relativo (mesmo quando os comentários não funcionavam) tem ajudado a fazer do País Relativo aquilo que nós queremos que ele seja. Muitas vezes concordando, outras discordando do que por aqui se escreve, tem deixado textos mais do que oportunos nas caixas de comentários. Desta vez, não resistimos, e logo a dois textos de uma vez:
O conselho de ministros reuniu hoje em Óbidos e o primeiro, com pompa e circunstância, anunciou uma grande medida para o combate ao desemprego e para Portugal. O governo vai possibilitar a jovens licenciados (nas empresas e na administração pública, na administração pública, repito) a realização de estágios remunerados financiados pelo estado. Sendo assim, vou ter que devolver milhares de contos ao estado por estar a usufruir deste programa há pelo menos quatro anos.
Quem é que disse que o Camarada Arnaldo Matos já não é o grande educador da classe operária ?

A propósito da agitação social.
- Sr primeiro-ministro o que tem a dizer sobre os apupos e as vaias com que foi presenteado à chegada a Óbidos?
- Tenho a dizer que fui extraordinariamente bem recebido! Pelo presidente da câmara que é quem representa o povo de Óbidos.
- REAL
 
A Bola roubou o meu post
Não bastava ser o jornal do Benfica, agora estraga-me ideias. Quando no sábado vi a fotografia de Tinga, de fatinho branco e pose de ministro do governo Lula, pensei "este gajo é igual ao Gilberto Gil". Tive preguiça e não vim aqui escrever. Na Bola de hoje, lá estão os dois, lado a lado, ministro e reforço (?), separados à nascença. - MVS
 
Passa a outro e não ao mesmo
Santana ia dar explicações sobre o túnel das Amoreiras e sobre eventuais irregularidades no seu projecto. Não foi. Afinal ia o vereador Pedro Pinto. Também não foi. Para a 'tarefa' foi destacado o actual ministro das obras públicas , não enquanto ministro, que é, mas enquanto vereador, que era mas já não é. Assim é Santana - falar sim, aparecer muito, mas só às vezes. - MVS
 
In the Cut - Atracção Perigosa
Não será, parece-me, um filme magnífico. Para isso seria preciso que a história deste thriller, o saber quem-anda-a-matar-e-a-esquartejar-raparigas, fosse particularmente entusiasmante. Ora, não é o caso. O que não quer dizer que o final não seja ambíguo, logo tanto mais interessante. Eu pensava que a interpretação era pacífica mas depois, em conversa, percebi que não era bem assim e que se calhar eu estava a ver mal ou a ver pobre demais. Todavia, o filme tem duas ou três coisas de que gostei muito, em absoluto.
Meg Ryan no papel de uma mulher na ternura dos quarenta, professora universitária de literatura, solteira. Para quem, como eu, foi irresistivelmente conquistado para o filme pela fotografia que vinha no Y da sexta passada, está quase tudo aí, nessa fotografia. Meg Ryan aposta, arrisca um papel diferente daquele que nos habituou em décadas de (algumas, excelentes) comédias românticas. Uma mulher madura em permanente reboliço sensual, curiosa dos corpos. Mas não só. Ela está a escrever um livro sobre calão, que é uma forma possível do imaginário sexual se fazer palavra. Ela é, pois, escritora e isso é determinante para o que se passa no filme. Ela está permanentemente atenta às palavras, toma nota delas, decora a casa com as que mais gosta. Em casa, o local onde escreve lembra uma pequena caverna feita de bilhetes, pedaços de papel escritos, citações e lembretes. Escreve em caderninhos os versos que lê escritos no metro porque estes lhe sussurram coisas da vida dela. Ela caminha na corda bamba entre o sensual e o cerebral. Dedica ao mundo que a rodeia uma atenção que se manifesta pela actividade dos sentidos todos, incluindo o sexto, e que é o ponto de vista escolhido por Campion para nos contar a história.
Mark Ruffalo faz o detective de polícia que investiga os assassinatos. Antes de mais, o ar dele: o mesmo ar hispânico, moreno e cabelo preto encaracolado, de bigodinho fininho e quase risível, o mesmo desembaraço nos gestos, a mesma virilidade visceral de Charleston Heston no fabuloso A Sede do Mal de Welles. Também ele atravessa o filme na fronteira entre o bem e o mal absoluto, pois não sabemos se ele investiga os brutais homicídios ou se é ele mesmo o brutal assassino. Muito possivelmente, as duas coisas. E esse é o drama de Meg Ryan, que com ele se envolve. Ela fica obcecada por ele e não consegue deixar de o desejar, mesmo no momento seguinte ao esquartejamento da meia-irmã (Jennifer Jason Leigh) e mesmo suspeitando ter sido ele a fazê-lo.
Jane Campion faz muito bem a mise en scène e o filme tem uma cor fantástica, quente e escura ou solar (como em Sweetie ou O Piano). Mas o que mais gostei foi da atenção ao pormenor. O pormenor, captado quase sempre pela visão literária de Ryan, pode a qualquer momento adquirir toda a importância. Mesmo numa situação em que o mais importante é outra coisa, uma criança pode correr numa rua ao lado e ela virar-se, um ruído fazer-se ouvir, uma luz evidenciar uma tatuagem ou uma chuva matinal de pétalas iluminar o jardim. Meg quando caminha pela rua, anda de metro ou faz amor parece ver o que os outros não vêem. Ela tem essa disponibilidade para as coisas que a rodeiam, para ser perturbada por elas, para utilizá-las como pequenas pistas que a fazem avançar, tacteante, no entendimento de algo nunca por completo revelado. Mas há mais: há uma atenção aos gestos e aos corpos dos amantes, os olhos, o cabelo, as coxas, as mãos sobretudo. Mãos que cingem, mãos que se enfiam no cabelo, mãos que se pousam no rosto. Os corpos e os gestos dos amantes são dados com um tremendo realismo. Isto é: da forma oposta à de um filme pornográfico. - RB
sábado, janeiro 17
 
Estranhos sinais dos tempos
É estranho que um governo com confortável maioria absoluta que pautou, desde o primeiro dia, a sua acção por uma surdez militante face a todos aqueles que tentaram dizer coisas que não interessava ouvir, ou que pura e simplesmente tinham ideias diferentes, venha agora colar-se ao raspanete do presidente da república e correr a pedir consensos. Pedir. Consensos, aliás, rejeitados de forma liminar quando foram, avisadamente propostos pela oposição, em tempo útil e sem necessidade de iniciativas tutelares do presidente. É um atestado de menoridade que fica passado ao governo, e pelos vistos subscrito pelos próprios
É estranho que um primeiro ministro de um governo com confortável maioria absoluta venha confessar em público o seu medo da "agitação social". Talvez Durão Barroso não tenha tropeçado nalguns elementos básicos das teorias da comunicação, mas alguém por ele devia saber que há uma coisa chamada "tematização". Provando que não aprendeu nada com o desastre que foi o discurso da tanga e da hecatombe orçamental, que levou o país para onde está agora, ao referir-se à "agitação que aí pode vir" Durão Barroso não fez mais do que legitimá-la. Inscreveu-a no campo de possibilidades políticas, admitiu que há motivos para que ela ocorra, tornou-a algo mais aceitável (logo, mais provável) como modelo de actuação, e faz passar uma mensagem de receio e de impotência, de que pouco ou nada pode fazer para a evitar.
É estranho que um Governo com confortável maioria absoluta tenha sido desde cedo marcado por trapalhadas várias e continue, dois anos depois, a mostrar a cada passo penosas fragilidades na condução política de dossiers sensíveis. Ao ponto de esta ser já uma imagem de marca que nunca mais se descolará do actual executivo. Veja-se, só para mencionar exemplos recentes, o bizarro caso da prescrição médica de cannabis e a posição cada vez menos sustentável relativamente à questão do aborto ("percebemos, muitos de nós até são contra a criminalização, mas agora não").
São sinais dos tempos, de objectivos falhados, promessas por cumprir, falta de soluções e cada vez menos espaço de manobra. São, acima de tudo, estranhos sinais de desnorte e de fraqueza que a cada dia se passa se tornam mais evidentes. - MC


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